Às Doze Badaladas Do Relógio
1 Encontro com o Homem de Terno
Notas iniciais
"Olhe, eu não queria ser uma meio-sangue.
Se você está lendo isto porque acha que pode ser um, meu conselho é o seguinte: feche este livro agora mesmo. Acredite em qualquer mentira que sua mãe ou seu pai lhe contou sobre seu nascimento, e tente levar uma vida normal.
Ser meio-sangue é perigoso. É assustador. Na maioria das vezes, acaba com a gente de um jeito penoso e detestável.
Se você é uma criança normal, que está lendo isto porque acha que é ficção, ótimo. Continue lendo. Eu o invejo por ser capaz de acreditar que nada disso aconteceu.
Mas, se você se reconhecer nestas páginas se sentir alguma coisa emocionante lá dentro -, pare de ler imediatamente. Você pode ser um de nós. E, uma vez que fica sabendo disso, é apenas uma questão de tempo antes que eles também sintam isso, e venham atrás de você.
Não diga que eu não avisei."
Meu nome é Ariadne.
Durante 15 anos da minha vida, fui uma garota de classe média nascida e criada em Florianópolis, Santa Catarina- Brasil.
Morava com a minha mãe Sarah, e meu pai Bernardo, e não tinha irmãos. Eu estudava numa escola particular renomada, mas era bolsista parcial, e isso se devia aos seguintes motivos: eu era uma ótima estudante, era ótima em inglês, e me encaixava na cota para alunos com necessidades especiais.
Se eu tenho necessidades especiais? Pode-se dizer que sim. Tenho dislexia. Adoro estudar português, mas tenho dificuldades para ler. Essa dificuldade se atenuava um pouco quando se tratava do inglês, mas ainda assim, existia. Mas, sou uma pessoa muito orgulhosa. Eu não queria deixar nenhum colega de escola saber do meu distúrbio. Para isso, fiz várias aulas com professores especializados que me permitiram desenvolver a habilidade da escrita e da leitura, e aprendi a aos poucos superar essa barreira.
Entretanto, dificuldade alguma, sendo ela pessoal ou financeira, me impedia de sonhar, é claro. Dentre os maiores sonhos da minha vida estavam: formar-me em direito, ser uma promotora, me casar, ter filhos, etc... Mas eu também sonhava em conhecer o mundo. Sonhava em viajar pela Europa, principalmente os países mais antigos. Também queria conhecer alguns lugares do Oriente e das Américas.
Nada de muito extraordinário tinha acontecido comigo. Até 1º de janeiro de 2012.
Tudo mudou na minha vida a partir do momento em que meus pais ganharam um alto prêmio na loteria neste dia. Cerca de duas centenas de milhões.
Ficamos muito felizes, é claro, com o acontecido. Um dia, tomando café da manhã em nossa casa, meus pais disseram que eu ganharia um presente de aniversário atrasado: uma viagem, e disseram que eu decidiria o destino.
Conhecendo você como conheço, minha filha, creio que você escolherá a Inglaterra ou a Grécia, não estou certa? Perguntou a minha mãe.
Os primeiros destinos que pensei foram realmente esses, mãe. Mas, acho que o primeiro destino que quero ter carimbado no meu passaporte são os Estados Unidos. Quero ir pra Nova York. Respondi.
Mamãe pareceu surpresa com a resposta. Então ela hesitou, e disse que teria que pensar. Não entendi o porquê da dúvida: o país nem era tão longe, ainda era no mesmo continente. Mas ainda assim, embora ela não dissesse exatamente que não, sentia que sua resposta seria negativa.
Até o dia seguinte à nossa conversa, ela ainda não tinha se manifestado à respeito do assunto. Durante toda a manhã desse dia, ela havia estado fora, e só retornou na hora do almoço. Durante a refeição, ela puxou o assunto.
Eu andei pensando bem, Ariadne, e acho que seria realmente uma boa ideia uma viagem aos EUA. Se seu pai concordar, por mim tudo bem.
Olhei para o meu pai com aquele olhar de cachorro sem dono, implorando. Ele apenas sorriu e disse sim. Caramba, estávamos indo passar 15 dias em Nova York, no mês de janeiro, ou seja, maior frio.
Fizemos as malas, e embarcamos num avião (era a minha primeira vez em um). Eu não estava nem um pouco nervosa, nem meu pai, e embora minha mãe dissesse que também não estava, eu a vi rezando antes do avião decolar Houve só um pouquinho de turbulência assim que o avião começou a sobrevoar o solo americano, e eu me senti muito angustiada com isso, mas logo passou. O resto foi muito tranquilo.
Tiramos fotos maravilhosas assim que chegamos, e ainda teve aquele monte de bugigangas típicas de turistas que a gente comprou... Boa parte das bugigangas nem era tão inúteis assim, se você for contar com pelo menos uma dúzia de produtos Apple que compramos...
No dia seguinte, 13 de janeiro, de manhã, fomos à uma praia da qual eu não me lembro o nome, e à tarde fomos ao Central Park. Tudo era tão lindo! No parque, eu fui comprar um algodão doce com meu pai, e enquanto eu esperava, vi um homem de preto se aproximar da minha mãe, falar umas poucas palavras, e depois ir embora. Quando voltei com os algodões doces, perguntei à ela quem era o homem.
Não sei... Ele me pediu alguma informação que na verdade eu nem entendi, então eu só disse que não poderia ajuda-lo, que eu era turista também. Ela me respondeu calmamente, mas tive a impressão de que ela estava meio tensa.
Resolvi deixar o assunto pra lá. Terminamos o nosso passeio pelo Central Park, e depois de passarmos no hotel para trocar de roupa e pôr mais uma dúzia de agasalhos, fomos conhecer a Times Square.
A avenida estava linda como sempre: cheia de turistas, e com seus letreiros de neon, suas telas HD e suas várias vitrines. Parecia um pouquinho com a Las Vegas que a gente via na TV.
Estávamos passeando, e eu resolvi experimentar o típico hot dog americano. Parei em frente à um barraquinha de hot dogs e quando me virei para perguntar aos meus pais se eles queriam também, não pude vê-los em lugar algum. Quando me dei por conta de que estava sozinha, olhei tudo ao meu redor à procura de meus pais; eu estava desesperada. Comecei a achar que eles estavam me pregando uma peça, mas aí me lembrei que meus pais nunca teriam esse senso de humor negro. Estava para pedir ajuda à um guarda quando senti um formigamento na nuca, como se houvesse alguém me observando. Virei abruptamente para trás, mas tudo o que vi foi um chihuahua parado com os olhos fixos em mim.
Está perdido, cachorrinho? Que pena, porque eu também. Fiz este comentário já com lágrimas nos olhos.
O cachorrinho, então, começou a crescer. Ficou do tamanho de um dobberman, e depois de um leão. Não precisava que ninguém me dissesse o que era aquilo, eu sabia exatamente: uma quimera.
Esse é o tipo de pegadinha que os americanos têm em mente para turistas perdidos? Pensei.
Mas então, a criatura soltou um rugido, e pude perceber que aquilo não era uma pegadinha. Era bem real!
Recuei um passo. A quimera avançou um. Recuei novamente, à medida que o monstro dava outro passo à frente. Sabia que se corresse, ela viria atrás de mim, e me alcançaria muito fácil; eu não era exatamente atlética, muito pelo contrário. E aquela coisa (eu tinha certeza) teria a velocidade de um leopardo: de 0 a 120 km em...? Quantos segundos mesmo? Não sabia ao certo, mas eram poucos. Muito poucos.
Não tive escolha, corri mesmo assim. Qual era o problema dos americanos? Porque ninguém estava enxergando uma criatura mitológica perseguindo uma garota no meio da Times Square? Quando eu gritava por ajuda, as pessoas apenas me olhavam como se eu fosse louca! Era como se aquilo acontecesse todos os dias nas ruas de Nova York e alguém acidentalmente esquecera de me contar.
Corri por uma rua lateral estreita, e a criatura no meu encalço. Percebi que era um beco sem saída. Mas, então notei uma figura parada no meio da rua. Usava terno preto, e quase se fundia com as sombras da viela mal iluminada. Era um homem. E só de olhar para ele, me senti meio hipnotizada, quase esqueci a quimera.
Eu vi quando o monstro pulou para cima de mim, abrindo a boca para soltar um rugido. Mas, no meio deste, a criatura simplesmente se dissolveu numa nuvem de pó.
Ainda tossindo por causa da poeira, olhei para o homem. Eu sabia que tinha sido ele quem desintegrara a quimera. Eu vi: ele tinha apenas erguido a mão, e de repente o monstro não estava mais lá.
Então, comecei a prestar atenção nele. Era o mesmo homem que havia conversado com a minha mãe no Central Park. Aquilo não podia ser coincidência.
O homem era alto e um pouco musculoso. Tinha uma pele muito pálida, e seu terno negro estava muito bem alinhado. Olhei mais para cima: tinha cabelos negros, e olhos de mesma cor. Mas, eu não estou falando apenas da íris: o olho inteiro era preto, até mesmo a parte que deveria ser branca. E seus lábios se curvavam num sorriso discreto.
Ele deveria ser assustador, mas eu não sentia medo. Sentia respeito.
Esforcei-me para levantar (não tinha dado conta, mas quando a quimera investiu contra mim, eu caí). Já de pé, olhei mais uma vez para o homem, e não sei o porquê, me inclinei em uma reverência.
Você não precisa se curvar ante mim, Ariadne. Ele disse calmamente em uma voz grave e suave.
Então, me ergui e perguntei cautelosamente: Quem é você? Você conhece a minha mãe, não conhece? Era você lá no Central Park...
O seu sorriso foi substituído por uma expressão preocupada.
Conheço sua mãe desde que você era um bebê. Ele disse, ignorando completamente a minha primeira pergunta. — Não sabia se era realmente o certo te deixar vir para cá. Quando Sarah me disse do seu desejo de fazer essa viagem, fiquei muito preocupado. Sabia que seria perigoso. Só não tinha ideia do quanto. Mas, deuses, uma quimera? Isso já é demais.
Então ele continuou:
Mas eu sei que isso é tudo culpa minha, Ariadne. Deveria ter trago você para cá há muito tempo. O certo seria começar o treinamento com doze anos ou menos. Mas eu fui apenas adiando, adiando... E veja você: hoje já tem quinze anos, e ainda não sabe de nada. Mas, então, Afrodite me convenceu de que estava na hora de deixar você vir. Apolo disse que estava no seu destino. Perdoe-me, por favor, por ter adiado por tanto tempo esse encontro. Eu apenas queria te proteger. Então ele fez uma pausa, esperando pela minha resposta.
Eu... Eu perdoo. Embora ainda não saiba de quê estou perdoando... Respondi.
Ah... Você vai saber. Ainda hoje. Mas, agora está na hora de você ir, minha querida. Quíron lhe contará tudo, e tenho certeza que muito em breve voltaremos a nos encontrar.
E aí, eu não vi mais nada.
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