À flor da pele
23 Aparências
Notas iniciais
Diana
Fico olhando para o teto, prestando atenção na minha respiração. Lutando para normalizá-la enquanto meu peito dói.
A dor é por dois motivos específicos. A hiperventilação e a conversa com Tyler. O segundo motivo é o principal. Eu sei que ele estava falando sério. Não pelo tom, ele já usou piores antigamente. Já quebrou coisas, já berrou, já fez tanta coisa e no fim, tudo foi esquecido. Mas não agora. Seus olhos estavam diferentes. E o que ele me disse, sobre ser afetado, isso é um fato.
Mas ele estava errado sobre me fazer mal. Tyler é meu melhor amigo, minha família, meu tudo. Nossos sentimentos são mútuos. As considerações são as mesmas e assim como ele, eu também sei olhar para nós e identificar as coisas erradas. E do meu ponto de vista, não é ele. Não vem dele.
Mas apesar disso, apesar de concordar com ele, eu não consigo dar um próximo passo. E ao invés de eu estar pensando em como será a consulta com o médico, tudo que eu consigo fazer é pensar que daqui para frente eu não terei mais Tyler.
Eu não preciso de médico. Não preciso... certo?
Mas se eu não preciso e procuro um, não será tão ruim assim, né? Ele apenas dirá que estou bem, então contarei que Tyler me obrigou a ir e riremos juntos dele.
O que eu serei sem Tyler? Me impressiono de não ter desaparecido na hora que ele deixou o quarto. Eu me sinto sem personalidade, sem um rosto. Sou uma boneca de pano, cujo rosto não foi pregado. Eu não consigo ser nada sem ele e essa constatação é assustadora.
Sinto a minha mão coçar. As duas. Palmas, costas, dedos. Até meu pulso. E uma vontade louca de me acabar em lágrimas, mas eu não consigo chorar. Por algum motivo, isso é algo difícil para mim. Eu tenho lá meus momentos de olhos marejados. E há alguns dias atrás, quando eu tive a última crise, eu chorei. Foi um momento desesperador e elas vieram naturalmente. Mas agora? Eu não consigo. Eu acho que passei do estado de profunda tristeza para raivosa. Isso parece uma barreira para as lágrimas.
Respiro fundo, tentado ignorar a coceira em minha mão. Eu não preciso dar mais motivos para Tyler dizer que sou louca. Começo a balançar as minhas pernas, estou ansiosa. Não faço a mínima ideia de como esse dia vai acabar. Ele não está funcionando da forma que planejei, desde que acordei.
Um celular toca. Eu não me assusto dessa vez, só que levo um momento a mais para me dar conta de que é meu aparelho.
Talvez seja Tyler. Ele pode ter mudado de ideia e decidido ele ir em meu lugar. Talvez Terry esteja certa e ele tenha problema mesmo. Quem sabe!
Me estico e pego o celular, nem olho no visor.
– Alô? — Digo ansiosa.
– Uau! Que animação. Suponho não ter te acordado.– Eu já ouvi essa voz. Mas demoro para perceber de quem se trata. – Bom-dia!
– Bom-dia... Theo? — Pergunto apenas para confirmar.
– Hum... É... Quem pensou que era?– Seu tom muda por um momento, ganhando uma nota mais alta. Irritado, talvez?
– Tyler. — Confesso sem pensar.
– Oh... Vocês ainda não se acertaram, né.– Não é uma pergunta. – Sinto muito. Não se chateie por isso. Você o conhece tão bem quanto eu, sabe que quando a raiva, ou seja lá o que ele estiver sentindo, passar, ele virá recolher os cacos e tentar consertar as coisas. Ele é tão previsível quanto um cachorro na frente de um bife, Diana.
Ele é mesmo. Ou era. Acho que dessa vez o cão não quer o bife...
– É...
– Escuta, você vem hoje?
– Vou? — Estou confusa. Marquei algo com ele?
– Correr...
– Oh... — Eu estou pronta a dizer não, mas eu preciso. Preciso colocar essa vontade de fincar as unhas em minha pele, para fora. — Sim.
Levanto os olhos atrás do meu relógio, ele ainda não está em lugar algum. Esqueci de o procurar. Afasto o celular do ouvido por um momento e olho as horas. Ainda são oito e dez da manhã. Talvez eu deva dar duas ou três voltas no parque, será ótimo para me distrair.
Coloco o celular no ouvido a tempo de o ouvir recomeçar a falar.
– Posso te acompanhar?
Me acompanhar... Talvez não seja tão ruim.
– Certo, seria ótimo.
– Legal! - Ele está animado, percebo pela voz.– Bem, então, eu estou, tipo, na frente da sua casa...
Na frente da minha casa? Tipo, aqui?
Céus, minha mente parece funcionar na velocidade de uma lesma hoje. Levo quase um minuto para entender a situação.
– Oh, minha nossa! — Me sento rapidamente. — Eu... Me dê cinco minutos. — Desligo e então percebo como fui grosseira com esse gesto.
Deixo o celular de lado e vou para o guardairoupa. Hoje está friozinho, parece que o inverno finalmente decidiu dar as caras.
Coloco um sutiã preto e uma blusa de manga comprida, de malha fina. Não adianta me agasalhar para correr também! Procuro uma calça de ginástica. Pego a primeira que vejo, é preta e está um pouquinho mais apertada do que deveria. Eu estou gorda, para melhorar tudo! Não pode ter apenas uma desgraça por vez, todas têm de vir juntas. Deve ser a convenção das desgraças!
Vou ao banheiro e faço minhas necessidades. Prendo o cabelo em rabo de cavalo, não passo maquiagem. Ninguém acorda bonita, então, Theo que aceite o que tem.
Desço apressada e pego meus tênis na lavanderia, o vestindo rapidamente. Encontro minhas chaves e separo a do cadeado e a da porta. Assim que saio, vejo Theo no portão e sinto o inverno se arrastando pelos meus ossos. Quase volto para mudar de roupas.
– Não se atreva a colocar embaixo do tapete... — Ele diz, quando me abaixo para esconder a chave, então paro. A seguro na mão e vou para o portão. Assim que o abro, meu cérebro volta a funcionar. Com tudo!
Theodor conseguiu se superar. Ele fica lindo de terno, de roupas comuns e ainda melhor em roupas de ginástica. A calça preta e o moletom branco me mostram uma outra pessoa. Um homem diferente das versões que já conheço. Ele parece visivelmente relaxado. O cabelo não está jogado para trás, como quando ele vai trabalhar, ou apenas em volta do rosto comportadamente, em seu estilo casual. Ele está simplesmente... Uma bagunça. Uma bagunça linda.
– Você acabou de acordar? — Pergunto e logo me arrependo. Isso foi rude.
– Sim e você também. — Ele me estuda, dos pés a cabeça e sorri. — Tem uma marca no seu rosto...
Passo a mão na minha bochecha, automaticamente.
– Alongar? — Ele pergunta, mas eu nem mesmo sei o que isso significa mais. Só consigo pensar na noite de ontem, em como nossos lábios estiveram próximos e sua língua brincando com a minha. Ah, e sua mão na minha bunda.
Me sinto tão envergonhada que eu penso seriamente em voltar para dentro e me trancar. Nunca mais sair.
– Ok... Sem alongar então... — Ele diz, tem o cenho franzido e me encara, cruza os braços. Parece confuso, mas confusa estou eu, na verdade. Porque diabos não lembrei disso antes? Eu deveria correr de Theodor, e não com ele. — Bem... — Silêncio constrangedor... E não sei como cortar. Baixo meu rosto, olhando para o chão, para nossos pés equipados com tênis de corrida. — Tenho algo para você. Me dê as chaves.
Ainda sem o encarar, estendo a mão com as duas chaves, uma pequena e uma menor. Ele as toma.
– Aqui.
Sou obrigada a levantar meu rosto, mas o sinto inteiro quente.
Theo tem um sua mão as minhas chaves, presas em uma corrente prata.
– O que é...
– Segurança. É isso que é. — Ele diz firme e o olho nos olhos, finalmente.
Pego a corrente. Ela é delicada e um pouco longa.
– Não posso aceitar isso... — Digo ao estudar e encontrar um pingente em forma de estrela na ponta, junto com as chaves. Não é algo simples, só de olhar dá para saber que é algo caro, que se compra em joalheria. Daquelas que se você entrar mal vestida um segurança irá te seguir de perto.
– Não seja uma mulher chata, Dia! — Ele toma da minha mão a corrente e passa sobre minha cabeça. Ela para na altura dos meus seios. — É um presente e você irá, sim, aceitar. De nada. Correr?
Ainda estou na “mulher chata” quando ele segura minha mão e me puxa em direção à rua. Atravessamos para o parque.
– Você puxa. — Ele diz.
Puxar o quê?
Fico o olhando, um pouco confusa, mas então, depois de alguns segundos, o entendo. Sério, meu cérebro está seriamente danificado hoje. Culpo Tyler por isso
Tyler..
Sinto um aperto no peito, uma agonia profunda toma conta de mim.
– E ai... — Theo me olha curioso. — Você está bem? Eu te acordei, né? Aliás, eu quase te acordei... Você ainda tá dormindo!
Olho para frente, tentando dar tarefas simples a meu cérebro, então começo a correr e ele vem logo atrás, ficando ao meu lado.
– Agora que Tyler está chateado... — Ele começa. Cada vez que Tyler é citado eu vacilo um pouquinho. É como se Theo estivesse cutucando com o dedo um ferimento de bala recém-feito. — Você quer carona para minha festa?
Festa...
Eu não quero ir à festa alguma. Só quero me enterrar em meu sofá, com um pote de sorvete e sair no dia seguinte para renovar o guarda-roupa, porque afinal, eu estou gorda. E depois de um pote de sorvete, nem minhas calcinhas vão querer entrar.
Ai senhor, lenta e dramática. Credo!
– Sobre isso...
– Não me venha com essa de não ir! — Ele diz sério. — Você precisa ir. Se não for, eu também não irei!
Finalmente rio e naturalmente. Causa até certo alívio.
– Certo... O que eu ia dizer é que o convite ficou no carro do Tyler e não sei o endereço. Suponho que não seja em seu apartamento.
– Não é, eu irei lhe passar. Mas, ainda sim, eu gostaria de te dar carona.
– Eu vou com a Terry, podemos nos virar.
– Ela pode ir com Jane. — Ele parece ansioso.
– Eu vou com a Terry. — Dessa vez tento soar mais decidia, para que ele perceba que eu o estou apenas avisando.
– Tudo bem! — Ele desiste.
Ele pode ser um querido, mas liberdade é liberdade e não abro a mão da minha.
Corremos sem falar. Damos uma volta no parque e começamos a voltar. Ele me acompanha, lado a lado.
– Você quer falar sobre o que te incomoda essa manhã? — Ele quebra o silêncio. — Não posso dar todos os créditos ao Tyler, certo?
Agora virei um livro aberto também?
Estou com raiva e nem mesmo sei o porquê!
– Não é nada. Só... Coisas de mulher!
– Oh... — Ele diz, como se o segredo do universo tivesse sido revelado. — Eca!
Olho para ele, apressada e envergonhada com o que ele, aparentemente, entendeu.
– Não quis dizer isso!
– Não estou questionando! — Ele diz rindo. — É natural que vocês tenham hemorragia todo mês e não morram! Assim como é natural que isso cause uma possessão demoníaca nessa época. Estou perfeitamente tranquilo e bem informado a respeito disso.
– Claro, senhor compreensível! E o eca foi pelo quê?
Ele gargalha.
– Olha, vou dizer uma palavra e você me diz a primeira coisa que vem a sua cabeça.
O que é isso agora?
– Ok...?
– Aniversário.
– Bolo. — Digo já imaginando algo bem doce para essa festa dele. Meu estômago reclama só pelo pensamento.
– Chuva.
– Água!
– Diarreia! — Ele diz.
– Eca!
– Exato! — Theo levanta as mãos enquanto ri.
Eu paro de correr, me apoio em uma árvore enquanto estou rindo, o acompanhando.
Ele para a minha frente, se apoiando na mesma árvore, de frente para mim. Estamos ofegantes. Também, correr falando...
– Eu não quis dizer esse tipo de coisas de mulher. Eu diria... — Começo a pensar em como explicar sem me denunciar. Ninguém mais precisa saber que eu, talvez, precise de um médico. E eu disse talvez, não estou certa sobre isso, mas, agora a coisa não parece mais tão monstruosa. Eu me sinto um pouco relaxada. A corrida está me fazendo bem, isso ajuda a clarear as ideias e a pensar melhor. Tentar enxergar por outros ângulos...
Ou não... Não! Eu não posso ver por outros “ângulos”, porque eles simplesmente não existem!
– Fale comigo. — As palavras chegam como uma ordem. Ele não está mais sorrindo, parece preocupado.
– Não é nada realmente...
– Você está estranha, acho que é algo, sim. Mas não vou te forçar a falar, isso não faz meu tipo. — Admito que me sinto um pouco culpada agora. Mas o que eu poderia dizer a ele que não viesse com um julgamento junto? — No entanto – Um pequeno sorriso aparece em seus lábios. — Você pode falar comigo se precisar, ok? Quero que saiba que não serei eu a julgá-la, sobre qualquer coisa.
Ele deve estar usando sua telepatia de novo. Por qual outro motivo ele diria exatamente o que eu preciso ouvir?
– Terei isso em mente. Obrigada, Theo!
Ele estende a mão e captura a minha, me puxando de volta para a corrida. Paramos de correr quando alcançamos o banco que sempre me alongo.
Começo a me abaixar, alongando as pernas e me distraio de Theo por um momento. Quando me ergo e começo os alongamentos nos braços, o percebo há uns dois metros de mim. Ele não faz alongamento, está apenas encostado em uma árvore, me olhando. Olhando minha bunda. E isso é péssimo! Ele está tão descarado!
O rubor volta com tudo ao meu rosto e o frio da manhã parece não existir mais. Tudo que consigo pensar agora, é que sua mão esteve em minha bunda ontem, seus lábios nos meus e sua língua se esfregando na minha. Sinto o centro entre minhas pernas se agitar. Ondas de excitação se formam nesse ponto e se quebram em minha barriga, me deixando ansiosa e um pouco nervosa. Ou muito.
– Você poderia ser mais discreto... — Sugiro, desviando o olhar do dele. Por mais que minha voz soe firme, meu rosto entrega toda a vergonha e, talvez, alegria pelo gesto. Eu me sinto bonita quando estou com Theodor. Isso deve valer um ponto positivo para ele. Embora, a cada encontro, ele esteja mais abusado.
– Eu poderia, mas ai não teria graça. — Ele caminha em minha direção, me viro, olhando para trás, em direção ao café que o vejo geralmente. Não posso encará-lo.
Sinto o calor de seu corpo em minhas costas.
– Sabe, Dia...– Ele sussurra em meu ouvido, me pegando desprevenida e fazendo uma onda de prazer se espalhar pelo meu corpo. Será que alguém está nos vendo agora? E se tiver fotógrafos escondidos nas moitas? — Você consegue ficar ainda mais linda quando fica corada...– Sua mão para em meu ombro e desce lentamente, até que seus dedos encontram os meus. — Perfeita!– Ele sussurra, então sou puxada em direção ao carrinho de pipoca.
Eu tento manter meu corpo sob controle, deixar todas essas sensações de lado e me concentrar em algo especifico. A presença de Theodor é algo imenso. Tão grande quanto seu ego. E apesar de gostar disso, gostar de sua companhia, eu não posso não me sentir um pouco intimidada com isso.
Olho à nossa frente, Baltazar está arrumando o carrinho de pipoca. Hoje ele usa um pesado casaco preto e encobre os ralos cabelos brancos com um chapéu.
Não o vejo desde segunda-feira, talvez ele já tenha até esquecido meu nome. Meu eu ainda me lembro dele. Mas esqueci algo... Esqueci de pegar dinheiro para minha água. Saí apressada.
O senhor se vira para nós e abre um sorriso muito bonito.
– Oh, seu Theo! — Ele diz animado e estica a mão.
Theo solta minhas mãos e abre um grande sorriso, seguindo até Baltazar. Eu não esperava por isso.
– Bom-dia Balta! — Theo estende a mão para ele, que aperta com força e depois dá um tapinha amigável nas costas. Não é um daqueles cumprimentos de obrigação, em que você mal toca a pessoa porque, como eu, tem medo de pegar algo. Theo o cumprimenta com gosto, como se o conhecesse pela vida toda e, apesar de me vir à mente a troca de sujeira entre eles, é um momento bonito. Theo está sorrindo, Baltazar está sorrindo, eles estão realmente felizes por se ver.
Quando eles se afastam um pouco, o senhor me olha e me oferece um sorriso cheio de gentileza. Eu não estou acostumada a receber esse tipo de sorriso, eu não sei bem como me portar. Sorrio de volta? Aceno e continuo andando? Eu deveria abraçá-lo? Apertar sua mão?
Lidar com pessoas tem sido um grande teste a minha vida toda. Eu me surpreendo que consiga falar com meus clientes.
– E a mulher maravilha! — Oh, ele lembra de mim!
Theo me estende a mão e fico petrificada por alguns segundos. Devo aceitar ou apenas me aproximar, ignorando-a? Esse tipo de coisa, esse grau de intimidade, é algo que eu evito. Tyler é, de fato, o único que conseguiu se aproximar tanto. E agora Terry e Theo, aparentemente. Eu não estou certa se devo me abrir e deixá-los entrar realmente, ou erguer barreiras mais grossas.
Inspirada por seus olhos, que agora parecem verdes pela luz, estendo minha mão e pego a dele, recebendo o sorriso matador do dia. É como se tudo ganhasse um brilho novo quando Theo sorri. Será que eu estou maluca? Eu acho que sim, isso definitivamente não é meu estado normal.
– Bom-dia, Baltazar. — Digo e sorrio para o senhor, evitando olhar para Theo. Ele me mantém próxima a ele, não solta minha mão.
– Bom-dia! — O homem logo se abaixa, pegando uma garrafa de água e me entregando. É algo tão natural, que eu a pego, mas eu não levei dinheiro. Posso apenas devolver e dizer que estou sem sede hoje ou...
Theo entrega ao senhor uma nota de cinquenta dólares e olho para ele, a tempo de o ver piscando para Baltazar e então sorri para mim.
– Como está a Meg? — Ele pergunta, mudando de assunto. O homem guarda a nota no bolso e não faz menção de devolver o troco. Essa, definitivamente, é a água mais cara que tomarei.
– Melhor, os médicos disseram que ela pode ir para casa para o feriado. — Ele diz feliz.
Fico ali os olhando, estudando as reações. Claramente estou no meio de algo pessoal, íntimo... Mas não me sinto uma estranha, apesar de não saber do que estão falando, me sinto... Confortável e estou encantada com a cena. Quem diria que Theodor Blake poderia conhecer, gostar e se dar bem com pessoas de classe inferiores a dele.
Por algum motivo estúpido, eu tinha essa imagem dele. O intocável, inacessível... Exatamente o que ele não é. Eu me enganei com ele. Pela primeira vez em anos, ter uma ideia errada sobre um cara é a melhor notícia do dia.
– Diga a ela que a verei antes do feriado. — Theo diz a Baltazar e desvia o olhar para mim por alguns segundos, me pegando, com cara de tacho talvez, o encarando.
Desvio o olhar. Encaro Baltazar, que me olha. Ele tem um sorriso alegre nos lábios.
– Ela vai amar! Não para de perguntar quando é que vai receber sua visita de novo.
Faço menção de soltar a mão de Theo, quero abrir a garrafa, mas ele aperta seus dedos nos meus, me deixando firmemente presa a ele. E o sorriso de lado que ele dá, sem me olhar, sugere que ele está se divertindo.
– Vou ligar para ela ainda hoje, estou com saudades.
– Ela irá adorar!
Theo usa a mão livre e toca o ombro de Baltazar.
– Tenha um bom-dia, amigo.
– Você também, menino. — Baltazar responde e então me olha e sorri. Eu gosto do sorriso dele. De certa forma me lembra do meu pai. — Tenha um ótimo dia, nos vemos na segunda?
– Claro. Até mais Baltazar!
Ele acena e então Theo começa a andar, em direção ao banco de antes, me puxando.
– Isso foi inesperado. — Comento.
– Qual parte? — Sinto que a pergunta veio com um muro sendo construindo. Talvez eu devesse ter ficado quieta.
– Eu não sabia que Theodor Blake comia pipoca.
Ele solta um suspiro.
– Há muitas coisas sobre Theodor Blake que você não sabe, algumas que você nunca sonharia. Só espero que não se assuste tanto quando começar a descobrir.
Começar a descobrir? Quando foi que ganhei esse direito?
– Acho que estamos no mesmo lugar então.
O que eu acabei de dizer? Oh, meu deus! O que ele entendeu?
Theo sorri para mim. Adoro esse sorriso. Eu poderia ficar a manhã toda aqui, só o observando. Mas tenho certeza que ele entendeu coisas erradas.
– Eu preciso voltar. — Ergo o pulso para ver as horas e percebo que esqueci o relógio. Só agora notei... Ele ergue o pulso dele, onde há um.
– Ainda é cedo. Quer tomar café?
Talvez não seja uma boa ideia ficar mais tempo ao redor dele. Ele me faz bem, admito, mas eu começo a me sentir intimidada e fortemente curiosa sobre sua vida. Eu não quero ser a garota curiosa que precisa saber até quantos pelos ele tem no corpo e eu sinto, realmente, que me transformarei em uma dessas quando abrir minha boca e as perguntas escaparem.
– Talvez outro dia.
Ele franze o cenho.
– Talvez e outro dia na mesma frase são a mesma coisa que não ou nunca.
Seus olhos caem para nossos dedos ainda unidos. Ele acaricia a costa da minha mão, que está ferida. Parece bem feio agora que ele está olhando. Tento puxar minha mão, mas ele segura.
– Eu não quis dizer isso. É que Terry está ficando comigo e ela sempre faz o café.
Eu tento chamar a atenção dele para a conversa de novo, mas ele continua estudando minha mão. Eu me sinto envergonhada. É como se ele pudesse ver o pior de mim.
– E o seu apartamento? Você falou sério sobre precisar de um designer?
Isso parece chamar sua atenção. Ele levanta os olhos até os meus, mas minha mão continua firme na sua.
– Eu falei sim, mas Tyler já me alertou de que preciso falar com seu chefe. E que você não estará disponível. Por isso ele me apresentou Terry.
Hum... Por que tenho a impressão de que essa frase foi ensaiada? Saiu tão mecanicamente, como se ele tivesse a decorado. Será que ele o fez? Será que esperava uma oportunidade para explicar o fato de ter dado atenção a minha amiga ontem? Será que como todos os outros homens, Theodor Blake é um cínico e estrategista também?
– Eu não tenho tantos projetos assim... — Digo, sendo idiota o bastante para ir exatamente onde ele quer. Theo mal disfarça o sorriso vitorioso.
– Ele me disse que você terá férias em dezembro...
– Oh... — Eu contei isso a Tyler? Quando?
Preciso me forçar até lembrar da mensagem que enviei contando. Mensagem que ele não respondeu.
– É... Tinha me esquecido.
Theo solta minha mão e rouba a garrafa de água, ainda fechada.
– O que pretende fazer? Viajar?
Eu não pensei sobre isso ainda. O que eu vou fazer com tanto tempo livre? Faxina, eu suponho. Porque não consigo pensar em outra coisa. Não gosto de viajar. Até mesmo para ir para Los Angeles, visitar minha família, eu não tenho vontade.
– Eu não sei, para dizer a verdade. Não acho que fazer uma viagem sozinha seja algo que me agrade. Talvez ficar em casa e redecorar minha sala?
Ele morde o lábio para não rir, então abre a garrafa e me passa.
– Obrigada.
– Talvez trabalhar para mim? — Ele continua. — Eu realmente gostaria de dar um jeito naquele lugar.
Ele acabou de conduzir uma conversa ao exato ponto que ele queria? E se eu não tivesse tocado no assunto? Ele teria chego a esse mesmo resultado?
– Você tem um péssimo gosto. — Deixo escapar, então dou um gole na água geladinha. — Aqueles tapetes são pele de verdade, né? — Eu precisava perguntar. Aqueles tapetes tem me assombrado. Como é que um cara tão adorável pode comprar peles?
– Ele veio mobilhado, na verdade. E concordo, aquilo é de péssimo gosto e muito cruel!
– Bem – Outro gole na água. — Eu só acho que, colocar maçaneta nas portas do andar de cima será uma ótima ideia para começo de conversa...
– Estou totalmente de acordo! O que os antigos donos estavam pensando ao fazer aquilo? A primeira vez que estive naquele lugar, eu precisei da planta para saber que havia mais peças.
Estico a água em direção a ele, que aceita. Ele gruda os lábios na boca da garrafa e vira. Lábios que estiveram nos meus e agora estão onde os meus tocaram segundos atrás. Será isso que chamam de beijo indireto? E porque ele não falou do beijo? Será que ele está tentando ser cavalheiro, ou só foi tão ruim que ele preferiu esquecer? E por que, diabos, estou pensando nos lábios dele e nos meus, juntos, fazendo o que não se deve?
Foco minha vista no parque. Ainda está vazio.
– Você deveria falar mais sobre isso comigo.
Sobre o beijo? O encaro, surpresa. Ele está lendo minha mente de novo? Maldito telepata, só pode!
– Sobre o quê? — Droga, desesperada demais!
– Sobre a reforma. Eu quero que seja você! — Ah, a reforma!
– Talvez Tyler esteja certo sobre falar com meu chefe. Terry seria ótima para o trabalho, ela tem um excelente gosto.
– Eu quero você! — Ele repete, dessa vez com um tom mais duro. O que eu posso dizer?
Ele me quer, oras!
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