À espera de um(a) caçador(a)
2 Capítulo 2: Contando pro Pai.
Notas iniciais
Jessi
Ok, contar pro Caçado não foi uma tarefa fácil como pensei, e o fato que eu queria que fosse especial não ajudou. E os hormônios de grávida também não. E o fato que minha mãe descobriu assim que pedi pra comer sorvete de pistache (coisa mais estranha que pedi) muito menos. E quando ela (literalmente) gritou pro meu pai a notícia, também não ajudou. E segurar os dois para que não contassem ajudou menos ainda.
Pra falar a verdade nada estava me ajudando.
Pensei em ir fazer um ultrassom e deixar ele descobrir só lá, mas Zack se recusou a ir comigo alegando que tinha muito o fazer (na verdade ele queria ficar jogando Pokémon em casa mesmo), pensei no prato com os sapatinhos, mas achei brega. Pensei em mostrar o exame e também não me pareceu legal. Simplesmente contar era algo menos legal ainda.
Ou seja, eu não fazia ideia de como contar. Talvez só contasse quando chegasse com o bebê em casa, mas até lá ele já teria descoberto.
Não que ele não suspeitasse, ele já reparava em algumas mudanças de humor, enjôos, e até no meu cheiro (segundo ele, anda adocicado, ele até quis ver se meu sangue tava mais doce, acredita?). Mas ele tava levando tudo isso pro lado da TPM.
Mania de homem sempre culpar a TPM por tudo.
Eu tinha colocado na cabeça que precisava contar logo. HOJE para ser mais exata.
Por isso fiz tudo bonitinho. Fiz o prato favorito dele, mandei meus pais calarem a boca, comprei uma camiseta escrita “MELHOR PAI DO MUNDO” e ai ser desse jeito brega mesmo que ele ia saber.
É, meus hormônios tão trabalhando loucamente, porque antes eu achava isso algo muito fofo.
Quando Zack chegou de sabe-Deus-onde (eu preferia nem pensar onde eram as missões dele), ele se enfiou no banheiro pra tomar banho e eu comecei a arrumar a mesa pro jantar. Comecei a ficar nervosa. Quando dou a camiseta pra ele? Agora? Quando ele sair do banho? Depois do jantar? Quando ele for colocar o pijama? Penduro no varal?!
Decidi deixar em cima da cama e quando ele vestisse veria. Fiquei aguardando a reação dele da cozinha. Não sabia se ele ia gritar, festejar, desmaiar ou o quê, mas fiquei lá plantada esperando ele vir.
Mas como sempre o Caçado me surpreendeu.
– Jessi! – Ele gritou do quarto. É agora.
– Fala! – Gritei de volta.
– Fala pra sua mãe parar de cobrar netos, eu já falei pra ela que quando for pra ser vai ser logo 30.
Sonha que eu vou parir trinta crianças.
Não, peraí... Ele ta achando que a camiseta é uma cobrança da mamãe? Ele não se ligou? Como ele pode ser tão tapado?!
Ah é, estamos falando do Caçado.
– Mas diga que adorei a camiseta ele chegou na cozinha me dando um beijo rápido se sentando em seguida... USANDO A CAMISETA.
Eu não sabia se batia nele, se batia em mim, se batia na mesa, eu só queria bater em algo. Fiquei mais um tempo plantada olhando pra ele todo alegre com a camiseta enquanto comia.
– Não vai comer? Vai esfriar.
Eu vou comer o seu fígado, isso sim. Me sentei com raiva na cadeira e comecei a comer. Acho que nem usei os talheres, fui com a mão mesmo, tava tão brava (e nem sabia por que direito) que nem liguei.
Depois que terminei coloquei o prato na pia e fui pra sala enquanto Zack terminava de comer. Ok, Jessi. Plano B. Vamos colocar em prática o Plano B.
Gritar feito garotinha.
Não, isso não ia funcionar, era capaz dele achar que algum vampiro estava me atacando. Plano C: Contar de maneira simples.
– Zack, preciso falar algo pra você.
Zack veio terminando de comer a coxa de frango na mão.
– O que foi, Jessi? – Eu engoli a raiva da camiseta por ele ainda não ter notado.
– Eu acho... Que precisamos de algumas mudanças...
Ele sorriu e ergueu os braços.
– Finalmente você decidiu trocar essas cortinas! Eu disse! Falei que elas eram cafonas naquela loja e você não me ouviu! Agora como vamos trocar? Eu não sei onde coloquei a nota...
– Quê? Não! As cortinas ficam. – Elas eram lindas, só ele reclamava das estampas da Monster High estarem na janela da sala – É... Outra coisa...
– É a colcha do Batman? Nós dois concordamos que se você pode ter cortinas da Monster High eu podia colocar a colcha do Batman na cama.
– O quê? Eu nunca concordei com isso!
– Foi enquanto você dormia.
Suspirei massageando a têmpora. Não era hora disso.
– Zack, nós precisamos de uma casa melhor – Falei sem pensar muito.
– Melhor? Como assim? Essa casa é nova e só faz três anos que moramos aqui. Se quiser reformar alguma coisa, até entendo porque também não gosto de mesmice, mas mudar é algo meio drástico, não?
– Zack, não quero me mudar, precisamos mudar o escritório! A gente nem usa aquilo direito.
– Pra quê? Você usa para desenhar de vez em quando, acho bom você ter esse espaço... O que você quer mudar? Quer transformar aquilo num closet? Você já tem um guarda-roupa grande.
– Não é sobre isso...
– É porque você está engordando?
Automaticamente ergui um dedo num sinal de espera e repeti o que ele disse em mente, processando a informação pra ter certeza do que ele disse.
...
.....
............
O QUÊ?!
– Repita isso. – Desafiei ele erguendo um dedo inconformada e ele suspirou.
– Olha Jessi, não é vergonha nenhuma você admitir que relaxou um pouco depois do casamento, acontece. Não vou te largar porque você ganhou uns quilinhos...
– Você ta me chamando de gorda?!
– É natural – Ele falou tentando me acalmar antes que eu voasse no pescoço dele – Quer dizer, você gosta de besteira, eu também, você vive fazendo coisas gordurosas e ultimamente pedindo muitos doces...
– Eu. Não. Estou. Gorda – Falei pausadamente, pensando seriamente em deixar meu filho órfão.
Do outro lado da sala o Eric apareceu e meneou a cabeça, como Zack estava de costas não viu ele ali parado. Pode até ter sentido a presença dele, mas no momento acalmar a esposa que estava para encravar as unhas nele devia ser algo mais importante.
– Jessi, não precisa ficar assim só por começar a ficar inchadinha, sabe porque...
– Zack, não estou gorda estou grávida! – Gritei furiosa.
Levou três segundos para eu perceber porque ele finalmente calou a boca e o que foi que eu falei.
– Pronto, falei! – Joguei os braços pra cima sem ligar mais – Obrigada por estragar a surpresa e por ser tão lento pra perceber e não calar a boca... – Comecei a falar sem parar até que ele voltou a falar.
– É meu?
Eu olhei para ele e Eric logo atrás me segurando para não gritar “não! É filho do vizinho!”, mas o fato é que o vizinho era meu pai e avô. Vi Eric com a mão no rosto olhando para o chão como quem se lamenta, eu já estava possessa pronta para tomar um banho de sangue até olhar diretamente nos olhos dele.
Medo. Era isso que eu via ali o que me surpreendeu, não era o medo de ser pai ou algo do tipo, mas algum outro tipo de medo que deixou ele assustado. Mais para apavorado ou desesperado.
Quando vi aquele medo eu percebi o que era. Zack passou anos, milênios sem poder ter um sonho simples como envelhecer, ter filhos ou simplesmente tomar um banho de sol. Ele não estava assustado por ser pai, estava em choque por algo assim finalmente acontecer à ele. Estava com medo de que acordasse ou que fosse uma mentira e ele logo iria acordar na cama do seu antigo dormitório e precisaria sair pela noite para se alimentar.
Eu nem precisava ler a mente dele para saber disso, eu compreendi completamente porque ele se fez de retardado.
Por isso sorri e me aproximei dele, segurando sua mão direita e colocando no meu ventre, ele pareceu mais assustado ainda e depois olhou para mim. Comecei a chorar ao ver a reação dele, não sabia se era de felicidade por realizar um dos maiores e mais antigos sonhos dele, ou se simplesmente os hormônios estavam dando a louca.
Provavelmente os dois.
– Você vai ser papai.
Zack voltou a olhar onde segurava sua mão, depois para mim e depois para a mão de novo. Ele fez carinho de leve e segurou meu rosto com a outra mão.
– Está quente...
– Eu estou com febre?
– Não... Sua barriga... Está quente... – Ele falava ainda absorvendo a informação.
– Você está sentindo a força vital da criança – Respondeu Eric assustando Zack.
– Você não vai levar eles, eu não vou deixar! – Zack já se preparava para briga quando Eric ergueu os braços em pose de rendição.
– Só vim fazer uma visita rápida, já estou indo. – E então ele sumiu no ar.
Zack voltou a olhar para mim. Ele estava absorvendo a história muito devagar, então tentei ajudar como pude. Com uma calma que surgiu de algum lugar do além, acariciei seu rosto e percebi que estava molhado. Ele estava chorando em silêncio.
– O que foi?
– Isso não é um sonho, é? – Ele perguntou e percebi que ele tremia de leve.
Dei um leve e rápido beijo nele antes de responder.
– Não, não é – Sorri.
– Você vai ser mãe... – Ele ecoava como se ajudasse a assimilar.
– E você vai ser pai.
– Eu vou ser pai – Ele repetiu – Eu vou ser pai do seu filho...
Depois disso ele caiu de joelhos, achei que ele fosse desmaiar, mas ele segurou minha cintura e tocou a testa onde tinha colocado a mão dele. Fiquei confusa, mas não perguntei nem me mexi.
– Isso é um milagre... Eu... Obrigado...
Zack parou de falar e voltou a tremer, me abraçou pela cintura sem mudar de posição, então percebi que ele chorava mesmo. Comecei a acariciar seus cabelos para acalmá-lo. Acho que a notícia veio muito de repente (até porque nem estávamos tentando), por isso queria fazer algo especial.
Pouco depois ele voltou a falar.
– A gente precisa arrumar um quarto pra ele... Já dá pra saber se é menino ou menina?
– Zack, deve fazer uns dois meses ou menos, ele deve ser menor que um feijão.
– Tá... Certo... – Ele esfregou a cabeça como se fizesse carinho e eu ri – Temos que ajeitar a casa.
– Eu sei.
– E tirar essas cortinas horrorosas.
– Deixa minhas cortinas fora disso – Foi a vez dele rir.
– Certo... – Ele deu um beijo onde minha barriga ia começar a crescer e olhou pra mim – Obrigado.
– Você disse isso antes... Eu não entendi.
– Obrigado por entrar na minha vida – Ele disse se levantando e me levantando num abraço enquanto girava – E por fazer dela a maior bagunça que eu já vi.
– Ei!
– É sério – Ele me colocou no chão sorrindo de um jeito mais brilhante que o sol – Se você não tivesse insistido em mim, ficado mesmo eu mandando você fugir e tudo mais, eu não seria o homem mais feliz do mundo como sou agora. Então, obrigado – ele me deu um beijo na testa.
– Você nunca mandou em mim – Fiz bico e ele rolou os olhos.
– Tá... Temos quanto tempo mesmo?
– No mínimo sete meses.
– Eu vou ter que esperar tudo isso pra ver ele ou ela?! – Ele reclamou.
– Na verdade eu acho pouco tempo, ainda precisamos arranjar o quarto, comprar berço, pintar as paredes, decorar, comprar fraldas, roupas, lenços, cortinas, mamadeiras, chupetas, carrinho, cadeirinha...
– Eu faço isso tudo em cinco minutos – Ergui uma sobrancelha – Tá certo, dez, mas...
– Não dá pra apressar isso, Zack! – Reclamei e ele bufou. Eu ri da reação de criança mimada dele – Se serve de consolo, eu também vou ter que esperar.
– Mas você sente ela. Tá dentro de você. Já tem uma vantagem...
– Você também pode sentir – Afirmei voltando a colocar a mão dele na minha barriga.
– Tudo bem... – Ele sorriu – Vamos fazer tudo certo pro nosso filho...
– Nosso filho – Repeti feliz por como aquilo soava.
– Nosso filho – Ele repetiu rindo feliz como nunca e me abraçou – Eu te amo, Jessi.
– Também te amo, Zack – Respondi abraçando ele por igual.
Apoiei minha cabeça em seu peito enquanto ele me puxou para que sentasse no sofá com ele, aproveitando a notícia tão boa. Estiquei minhas pernas sobre o colo dele como o de costume e fiquei brincando com uma mecha do cabelo dele em meus dedos e ele acariciando minhas pernas fazendo desenhos invisíveis com os dedos.
Eu olhei para janela e de repente enjoei da cortina que achava maravilhosa. As coisas iriam mudar muito, mas a única coisa que conseguia pensar é que iria engordar por um bom motivo.
E que queria comer pastel de frango.
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