À beira mar

2 Adeus, Peter


Carol preparou o quarto de hóspedes em sua casa para que eu pudesse dormir lá. A policial que ficou no meu apartamento, preparando todos os papeis da denúncia formal que eu realizei, disse que Peter estava preso, logo após falar com um de seus colegas pelo rádio, e que eu não deveria me preocupar mais com ele. Carol, no entanto, fez questão que eu fosse para a casa dela, e teve total apoio da policial que, com um sorriso carinhoso, disse que eu precisaria muito de uma amiga neste momento.

— As toalhas limpas estão no armário do banheiro, caso você queira tomar um banho. Tem cobertores extras na porta da esquerda, caso você sinta frio. – Carol disse, mostrando-me o quarto, depois de jantarmos e bebermos uma garrafa inteira de vinho tinto. – E eu estarei no quarto ao lado, caso precise de mim, ok?

— Obrigada, Carol. – eu a abracei por mais tempo do que o socialmente aceitável e a agradeci profundamente por tudo o que ela fizera por mim. Quando senti as lágrimas ameaçando escaparem de meus olhos, eu a soltei.

— Amigas são para isso. – ela respondeu, fazendo um gesto como quem dispensa algo desnecessário. – Boa noite, Jane. Tente descansar.

Eu fui até o banheiro, depois que ela fechou a porta de seu quarto, e lavei meu rosto, observando meus hematomas. Tentei não chorar, respirei fundo e fui para o quarto, aconchegando-me no travesseiro fofo. Por horas, virei-me de um lado para o outro, joguei os cobertores para o lado e os busquei novamente, tentei diferentes posições, mas não consegui adormecer de nenhuma maneira.

Às 3h15 da manhã, meu celular vibrou. Eu observei o número desconhecido na tela, tentando decidir se deveria atender ou não. Depois de alguns segundos, a curiosidade me venceu. Sentei-me na cama, perdida no escuro e atendi a ligação, não dizendo nada. Por alguns segundos, tudo o que eu ouvi foi um choro desesperado.

— Jane... – ele disse. A voz de Peter me atingiu como um sopro invernal, congelando o sangue em minhas veias. Eu busquei o exato ponto da tela onde desligava a ligação. – Por favor, não desligue. Por favor, Jane, eu só tenho direito a uma ligação... Não desligue, por favor.

— Então não deveria tê-la gastado comigo. – falei, minha voz seca, mas um pouco assustada.

— Jane, por favor... – o choro ficava cada vez mais acentuado. – Eu estraguei tudo. Droga, eu estraguei tudo.

— Não diga...

— Jane, minha querida... meu amor. – eu senti nojo de suas palavras, ansiei por jogar o meu celular pela janela. – Você pode me perdoar? Por favor? Eu sei que errei e eu me odeio por isso. Você é a última pessoa no mundo que eu quero machucar. Por favor, acredite. Você precisa me perdoar.

— Você é um monstro, Peter. – o tipo de monstro que se alimenta de sonhos e deixa apenas pesadelos em troca. E eu sabia que, mesmo sendo a última da fila, ele machucaria o mundo inteiro apenas para chegar até mim. – Você destrói tudo o que toca, mas eu não vou permitir que me destrua também. Nunca mais me ligue, entendeu? Nunca mais se aproxime de mim, ou eu vou conseguir todas as ordens de restrição possíveis. Eu vou construir um maldito muro ao meu redor, se necessário. Você nunca mais vai chegar perto de mim, Peter. Nunca mais.

— Jane, eu amo você... Será que você não entende? Eu amo você, droga! – ele começou a gritar, seu choro sendo esquecido. – Eu amo você e fiz de tudo para te proteger, para não te perder, e é assim que você retribui? Você é uma vadia, Jane!

— Ok, seu tempo acabou. – ouvi alguém dizendo, então sons do telefone sendo arrancado das mãos de Peter, enquanto ele gritava coisas que eu preferia não ter ouvido.

— Adeus, Peter. – falei, ouvindo o som de chamada encerrada. – Aproveite seu tempo na cadeia.

Deixei o celular ao lado do travesseiro e adormeci quase imediatamente.