À Sombra do Paraíso
1 Capítulo 1
A cama era confortável. Seu quarto estava do jeito que Leonardo havia deixado. Os pôsteres dos seus filmes favoritos nas paredes e sua televisão em frente à sua cama, passando Pulp Fiction, seu filme favorito. O armário à direita da cama estava aberto com as roupas todas jogadas de qualquer jeito. Nunca gostou de arrumar o armário e seus pais não arrumavam para ele. A diferença naquele dia era a porta trancada. Sendo um jovem de 19 anos, Leonardo tinha motivos para trancar o quarto, como os artigos sexuais que guardava embaixo da cama, ou o fato de estar frequentemente assistindo filmes eróticos. Entretanto, não era comum. Além da vergonha que sentiria caso seus pais descobrissem, não havia mais nada a esconder caso seus pais entrassem e vasculhassem seu quarto.
Bom, na verdade, havia uma coisa, mas seus pais jamais encontrariam isso. Seus antidepressivos ficavam escondidos bem no fundo do seu armário de roupa, e seus pais não mexiam lá, pois era obrigação dele arrumar o armário. Além disso, seus pais respeitavam por demais sua privacidade para entrar no seu quarto sem permissão ou sem, pelo menos, bater na porta. Estava seguro.
Naquele dia, entretanto, a porta estava trancada. Era a única diferença para que o quarto apresentava normalmente. Até seu corpo deitado na cama, com os remédios espalhados pelo colchão era normal. Ao se dar conta de que conseguia ver seu corpo deitado na cama, deu um pulo.
— O que está acontecendo? — Pensou desesperado.
Olhou para suas próprias mãos e para seu corpo novamente. Era impossível. Se aproximou devagar de seu corpo e colocou o dedo na frente do nariz. Não estava respirando.
"Estou morto. Finalmente morri..."
Uma súbita felicidade tomou conta dele. Finalmente havia conseguido fazer o que tentava há dias. Havia morrido. Finalmente havia tido uma overdose. Essa sensação de alívio durou apenas alguns segundos, seguida por um pânico intenso. Se estava morto, por que estava no seu quarto ainda? Onde estava a luz e os portões do Paraíso? O desespero se apoderou dele. Esperava que, ao morrer, tudo isso ficaria para trás e se veria em um lugar sem dor, onde passaria o resto da eternidade sem sofrer como havia sofrido em vida. Pelo visto estava errado. Após a morte, parecia condenado a ficar na Terra, seu local de sofrimento, vagando eternamente como um fantasma.
— Tem seu lado bom, pelo menos — Pensou ele — vou poder ir para todos os lugares que nunca pude conhecer.
De alguma maneira, entretanto, sabia que isso não era verdade. Se aquela era sua punição por ter tirado a própria vida, não teria a opção de se divertir, nem que fosse um pouquinho.
Perdido em devaneios, levou um tempo (quanto tempo? Minutos? Horas? Para Leonardo não fazia diferença. Raramente faz para alguém morto) para descobrir a carta que havia escrito, caso conseguisse se matar, caída no chão. Não havia escrito muita coisa, mas sabia exatamente o conteúdo da carta:
" Os motivos que me levaram a fazer o que fiz são somente meus. Aos que ficaram — meus pais, meus amigos, minha namorada — só lhes restam saber que a decisão foi tomada há muito tempo e que nenhum de vocês é culpado por isso. A culpa é minha e somente minha. Vocês foram as melhores coisas que aconteceram e sinto muito por deixarem vocês assim, mas viver não é algo que consigo continuar suportando. Amo vocês. Leonardo"
Ao pensar nas poucas palavras que havia deixado, nenhuma diretamente relacionada a alguém específico, não pode deixar de rir. Pouquíssimas delas eram verdade. Não sentia culpa por morrer, nem amava eles. Tampouco os isentavam de culpa. A única verdade nela, talvez, era não suportar mais viver. Sua namorada, Letícia, era a única pessoa de quem Leonardo sentiria falta. Mas sabia que não a amava. Não amava ninguém.
Uma batida na porta o acordou de seus pensamento. A voz de sua mãe ecoou pelo quarto, chamando-o para jantar. "Então já é de noite?" Passara mais de cinco horas parado olhando pro seu corpo e não tinha notado. Estar morto realmente deturpa sua concepção de tempo. As batidas se tornavam mais fortes e mais frequentes e a voz de sua mãe se alterava conforme Leonardo não respondia. Contrariando todas suas regras, sua mãe, Vera, tentou entrar no quarto à força.
— Jorge, vem cá! — Gritou para seu marido, pai de Leonardo. — Não consigo abrir a porta dele. Vê se consegue arrombar a porta.
Sua voz não transparecia raiva, notou Leonardo, surpreso. Parecia mais... preocupação.
Um barulho alto e a porta caiu estatelada no chão. Seu pai era um homem alto e forte, não lhe admirava que ele havia conseguido derrubar a porta com apenas uma troncada.
É agora que vocês vão demonstrar suas verdadeiras faces. A máscara da falsidade vai cair perante seu filho morto.
Tudo aconteceu em câmera lenta: sua mãe gritava de desespero e seu pai corria na direção do filho, perplexo demais para demonstrar qualquer reação.
— ACORDA LEONARDO! POR FAVOR, ACORDA! — Gritou ele balançando o corpo sem vida de Leonardo.
Os gritos de sua mãe ecoavam por toda a rua e vizinhos apareciam em seus portões para entender a comoção. Dotado de uma posição privilegiada, Leonardo conseguia ver tudo: sua mãe gritando à soleira da porta, seu pai balançando seu corpo e os vizinhos aparecendo aos montes na rua. Ele andou para perto de seu pai e sussurrou em seu ouvido: TCHAU.
Para sua enorme surpresa, seu pai chorou...
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