À Sombra da Justiça
4 Jack
Notas iniciais
Whitechapel, Londres. Inglaterra, 13 de Maio de 1894.
O inspetor Edmund Reid estava tendo trabalho peculiarmente naquela noite. Um grupo de italianos que morava em um cortiço tinham tido um desentendimento com um dos moradores, e agora, móveis voavam pela janela e havia briga e agressão no meio da rua. Um deles era reincidente, já tinha sido preso duas vezes por vadiagem. Ainda assim, mesmo contando com três policiais, os briguentos deram trabalho.
Tanto trabalho que agora Reid estava correndo atrás de um italianinho desaforado, que agrediu um dos guardas e conseguiu escapar. Era plena madrugada, não se sabe se duas ou três da manhã, e o inspetor corria pelas ruas imundas de Whitechapel atrás do moleque.
Na esquina de uma viela, entretanto, o inspetor tropeçara e caíra, quase enfiando o rosto em uma poça imunda. Ao erguer os olhos, pôde ainda ver o italiano virar a esquina, sabe-se lá para qual lugar. Batendo a poeira de seu corpo, o inspetor parou para buscar fôlego, agora que ele sabia que tinha perdido o italianinho. Mas nada como um dia após o outro, ele se convenceu.
Mas no quê ele poderia ter tropeçado? Aquele era uma viela costumeiramente utilizada pelas prostitutas mais baratas – na verdade, as mais feias e contaminadas, que se aproximavam daquela escuridão para ainda buscar algum cliente que seguisse a política do “que os olhos não veem o coração não sente”. Em locais como aquele, que tipo de objeto poderia haver?
O inspetor deu dois passos para trás e se aproximou.
Seus olhos verdes arregalaram-se de grande temor.
–Sir, eu pensei que tivesse obtido o... Por São Jorge! – esbravejou o outro inspetor, ao se deparar com o motivo para o extremo choque de Reid.
–Spence, chame o DCI Abberline. Seja discreto. Você sabe, isso... – disse o inspetor, voltando seus olhos para o canto. – Isso não significa necessariamente que... Ele está de volta e, não queremos ressuscitar o medo nas ruas. Não faremos nenhum alarde enquanto não tivermos certeza.
–Sim, senhor. – disse Spence.
Quando o jovem Spence já estava longe, Reid urrou de raiva. Não poderia ser... Anos tinha se passado desde o último caso. Embora o culpado jamais tenha sido sequer identificado, o simples fato de ele manter-se longe de qualquer atuação, em si, já lhe servia de consolo. Todo o inferno que vivera, nas noites de sono perdidas e o sentimento de fracasso, pareciam retornar. Aquele pesadelo não poderia estar acontecendo...
Encostado à parede, tentando colocar suas idéias na cabeça, Edmund observava o cadáver da jovem, pálido e com as entranhas abertas, o tórax ensanguentado, sob um aspecto macabro. Os olhos da jovem ainda estavam abertos, paralisados, como se congelados no momento. Se eles pudessem dizer quem fez tamanha crueldade...
Em cerca de cinquenta minutos, um esbaforido DCI Abberline estava naquela viela, ao lado de Spence. Depois do caso, ele foi deslocado para outra delegacia, mas ainda tinha laços com a região. Diante do cadáver, teve também uma reação de choque e terror.
–Isso não pode estar acontecendo... – ele disse, ainda descrente.
–Ainda precisamos averiguar, investigar com cuidado... Não podemos instaurar o pânico e...
–Você não está vendo que foi ele?! – esbravejou Abberline, impaciente. – O pânico é tudo que precisamos! Manterá as pessoas alertas, atentas...
–E também dará a ele uma sede sem precedentes, tal como há anos atrás. Não, sir. Agiremos com cautela dessa vez. Eu lhe peço.
–Impossível, Edmund. Eu não quero aquelas mortes se repetindo. Posso estar em Candem, mas ainda tenho minhas influência. Utilizaremos de todo o nosso contingente, mesmo o não-oficial.
Reid virou-se para o Inspetor-Chefe, estupefato quando ele disse “não-oficial”, pois sabia muito bem do que ele estava referindo.
–Não... O senhor não pode estar querendo dizer que ele...
–Utilizaremos todos os nossos recursos, Reid. E isto o inclui sim.
–Aquele mercenário...!
–Mercenário que, sozinho, consegue ser mais competente que uma delegacia inteira. – interrompeu Abberline.
Reid queixou-se. – Está me chamando de incompetente, chefe?
–Claro que não, Reid. Você se esforçou, fez o que pôde.
–Enquanto aquele homem se absteve de levar seus pés a este chão imundo! — foi a vez de Reid erguer a voz. – Não percebe que ele só se importa com os altos salões londrinos?
–Acredito que Mr. Holmes teve seus motivos...
–Quais? Envolvimento pessoal? Com prostitutas? Sabe muito bem que ele deve ser um...
–Reid! – alertou Abberline. – Ser um solteiro com mais de quarenta anos definitivamente não é sinal de coisa alguma. Imagino que seus anos na Força devam te-lo ensinado que não se pode chamar de criminoso alguém sem ter provas cabíveis. Além de quê, toda a Europa sabe com o quê ele estava envolvido na época.
–Caçando um professorzinho de Matemática... Sei. Bela desculpa para não sujar seus pés nessa merda de distrito, não?
Houve silêncio por alguns instantes.
–Dê-me um voto de confiança, chefe. Deixe-me ao menos fazer o procedimento: identificar a vítima, apontar possíveis suspeitos, montar uma linha de investigação... Sem alarde, com discrição. Se eu estiver andando em círculos, pode chamar esse engomadinho da City.
Abberline parecia considerar.
–Tudo bem, Reid. Isso será por nossos anos de parceria. Por hora, Mr. Holmes ficará de fora, mas saiba que eu não hesitarei em chama-lo quando necessário. Ele pode ser um homem excêntrico e vocês terem tido suas diferenças naquela época, mas eu estou certo de que, apesar de seu jeito esquisito e nada ortodoxo, Mr. Holmes ainda pode ser de ajuda.
–Veremos. – disse Reid, com tom desafiador.
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