À Segunda Vista
1 Cap. 1
Notas iniciais
“- Tens a certeza de que não esqueceste?
Sinto as suas mãos a prender-me os braços como se nada fosse, como se ele não se importasse da dor que me causava.”
Acordo em sobressalto fazendo as almofadas cinzentas caírem no chão. Tinha dormido dez horas mas, mesmo assim, sentia o corpo pesado e a minha mente cansada. Acordara com o corpo suado e a tremer.
Levanto-me lentamente e caminho até à janela. Assim que lá chego, desvio as cortinas negras e abro-a. Sinto o vento a dançar com os meus longos cabelos azuis e o sol a queimar-me a face como se fosse um beijo de “bom dia”. Um novo dia começava.
Ultimamente tem sido sempre assim: acordo em choque e nunca sei o que acontece após estas palavras. Estou intrigado com o sonho mas farto ao mesmo tempo. “Quem és?”, “Conheço-te?”, “O que se passa?” são as perguntas que me percorrem a mente. Por algum motivo não aparente, estas perguntas não saem da minha boca durante o sonho, ficam apenas enterradas nos confins da minha alma.
– Bom dia Kioya!
Foi com estas dóceis palavras que Naomi me resgatou dos meus pensamentos, da minha própria armadilha.
Eu conheço Naomi desde a primária e apesar de ao início me limitar a observá-la sempre a admirei. Ela era a única rapariga que fazia frente aos professores, aos rapazes e a outras raparigas. Naomi sempre lutou por aquilo em que acreditava e nunca duvidou de si mesma, ainda permanece assim. Naomi é uma das raparigas mais bonitas e carismáticas que eu já vi: ela possui longos cabelos negros e olhos âmbar; de estatura média, é bastante elegante.
– Bom dia Naomi. – sorrio gentilmente. – Como estás?
– Exausta! Estive na Platinium a noite inteira.
Naomi sempre trabalhou bastante e nunca dependeu de ninguém, não é de admirar que ela passe noites sem dormir de vez em quando.
– Não me digas que eles te obrigaram outra vez?
Naomi suspira e revira o olhar. Só com esses gestos deu para entender que ela fora forçada a trabalhar novamente.
Platinium é uma empresa que governa o Japão ou melhor, o que resta da Humanidade. Em 2040 uma doença incurável, uma peste, contaminou o mundo inteiro. Morreram milhões de pessoas mas felizmente, a empresa Platinium encontrou uma cura e salvou a vida a milhares de pessoas. Para impedir a doença de se propagar, a Platinium decidiu criar uma sociedade individualista, ou seja, uma sociedade isolada do mundo. Foram acrescentadas, à população japonesa, novas pessoas de todas as partes do mundo: franceses, moçambicanos, americanos... e, após a população estar com o valor correto, a Platinium ergueu muralhas gigantescas à volta do Japão.
Estamos em 2084 e o Japão é um país sustentável. Apesar desta epidemia ter assassinado o resto do mundo, a população japonesa permanece intacta. O mundo extinguira-se mas a vida no Japão permanece igual, como se nada tivesse acontecido.
– Despacha-te ou chegas atrasado ao trabalho, Kioya! – grita Naomi da cozinha.
Dirigi-me para a cozinha e comi três onigiris* com um copo de água.
– “Byebye, Husband!”*
– Tu e a tua mania de falar inglês!
Espeto um beijo na bochecha de Naomi e saio de casa.
Politicamente falando, eu sou casado com Naomi apesar de ser homossexual. A Platinium não permite nenhum tipo de relacionamento sem ser rapaz-rapariga. Segundo eles é para a “procriação” e “sustentabilidade populacional” do Japão.
Estava a caminhar há pelo menos quinze minutos quando me deparo com cinco rapazes a bloquear-me o caminho.
– Ham… Desculpem? – olho para o chão e tento esquivar-me por entre eles – Com licença…
– Oi! – um dos rapazes empurra-me para trás fazendo-me perder o equilíbrio. -Ninguém te deu permissão para avançar.
– Posso?
Desta vez olho-os nos olhos com a mínima esperança que eles me deixem passar.
– Deixem-no ir.
Olho para cima do prédio e vejo um rapaz loiro sentado nas escadas a fumar.
– Tem a certeza chefe?
O rapaz loiro desce as escadas e agarra o outro pela gola da camisola enquanto o encosta à parede.
– Duvidas da minha decisão, Gabriel!?
O rapaz fita o chão em sinal de assentimento e o loiro larga-o.
Começo a andar enquanto os cinco rapazes se afastam do meu caminho mas o loiro agarra-me no braço e puxa-me na direção dele.
– Ren. Não te esqueças novamente. – Mal diz estas palavras o rapaz liberta o meu braço e eu continuo a andar meio abalado.
“Ren?”, seria o nome dele? “Não te esqueças?”, a que se referia ele? Ao gesto que ele fez ou ao seu nome?
Pouco tempo depois chego à loja onde trabalho. É uma loja de antiguidades que também vende objetos do mundo para lá das muralhas.
– Kioya! Estás atrasado. – grita o meu chefe do balcão.
– Peço desculpa, Akito. – faço uma ligeira vénia em sinal de perdão.
Akito sorri enquanto, ligeiramente, revira os olhos.
– Vai buscar os quadros que estão no armazém.
Aceno com a cabeça e desço as escadas até ao bengaleiro. Retiro o casaco e penduro-o. Dirijo-me para o final do armazém e encontro os quadros. Ao retirá-los, reparo num livro aberto. Desvio os quadros e inclino-me para pegar no livro. Este está relativamente empoeirado e danificado mas ainda dá para perceber o título: “Art Rebellion” e mais abaixo estava o nome: “Akito Fujita”.
– A curiosidade matou o gato.
Deixo cair o livro enquanto olho para trás bruscamente. Por momentos pensei que fosse Akito mas aquela voz não era a dele.
– Quem está aí?
Desvio o olhar para cima de uns contentores e deparo-me com “Ren” a comer uma maçã. Ele atira o resto da maçã para o chão e caminha na minha direcção.
– Eu disse para não te esqueceres novamente. – afirma após retirar uma arma do casaco de cabedal.
– O que não querias que eu me esquecesse?
– Ren. É o meu nome. – ele suspira. – Agora tenho de te matar.
Ren aponta a arma à minha cabeça. Sinto o meu coração quase a saltar-me do peito e a minha respiração a escassear. Será agora o dia da minha morte?
Enquanto me distraía com os meus pensamentos Ren arrumou a arma e abraçou-me forte e firmemente. Estava confuso com toda a situação mas o cheiro de Ren tinha algo de especial e nostálgico, já tinha inspirado aquele cheiro a lavanda em qualquer lugar. Podia sentir as minhas bochechas a ficarem vermelhas e o meu corpo a ficar inquieto.
Ren larga-me calmamente e sorri para mim. Ele era mais alto que eu e tinha olhos castanhos-escuros. Os seus cabelos eram ondulados, loiros e curtos.
– Vem comigo Kioya. – Ren pega no livro e agarra-me a mão.
Eu aceno e sigo-o. Notei que ele estava todo de preto: calças rasgadas, cinto com picos, botas militares, camisola em “V” e vários acessórios negros ou dourados. Ren era bonito.
– Ren! Que fazes aqui? – diz Akito surpreendido.
– Akito, o Kioya encontrou o Livro.
Akito suspira profundamente.
– Não há nada a fazer então. – ele foca o seu olhar em mim – Conta-lhe tudo Ren.
Ren acena e leva-me para fora da loja. Começamos a andar.
– Para onde vamos?
– Para um local seguro Kioya.
Dez minutos depois, Ren pára e sobe para cima de uma mota. Eu imito-o. Era uma mota preta.
Andámos durante uma hora até chegarmos a um armazém no meio de Tóquio.
Entrei dentro do armazém, de mãos dadas com Ren e, após dar uns passos, encontro Naomi. Ela corre na minha direção, salta e abraça-me fazendo-me perder parte do equilíbrio.
– Missed you, Husband*!
– Que fazes aqui, Naomi? – digo, após soltar um curto suspiro.
– Demiti-me da Platinium desde que soube das suas verdadeiras intenções.
– Segue-me. – diz Ren agarrando a minha mão com força.
Ele leva-me para uma sala à parte do armazém e, sem eu dar conta, injecta-me com algo.
– R-Ren!?
– Desculpa. Prometo-te que só te irei magoar desta vez.
Olhava para os olhos de Ren e via que ele se sentia culpado e de um certo modo magoado, ele ansiava por perdão. Começo a sentir tonturas e a última coisa de que me recordo é de Ren ter encostado a sua cabeça à minha.
“Acordo e olho para o relógio. São nove da manhã. Estamos a onze de janeiro de 2081. Desço as escadas e vejo Naomi. Trocamos os bons dias e eu saio de casa para ir trabalhar.
Chego ao trabalho e deparo-me com Ren e Akito, uns anos mais novos.
Mal me vê entrar, Ren sorri em sinal de “bom dia”.
Desmaio.
O mesmo se sucedeu nos “dias” seguintes apesar de existirem ligeiras diferenças ou melhor, a aproximação de Ren.
Acordo e olho para o relógio. São nove da manhã. Estamos a doze de fevereiro de 2083. Desço as escadas e vejo Naomi. Trocamos os bons dias e eu saio de casa para me ir encontrar com Ren. Hoje faz dois anos desde que estamos juntos.
Estava a andar na rua e dois homens vestidos de preto colocam-me uma venda e levam-me.
Quando me removem a venda fico encandeado por momentos já que estava numa sala branca extremamente iluminada. Olho para o meu corpo e vejo vários fios ligados ao meu peito e à minha cabeça. Estava deitado numa maca preso nos pulsos e nos pés.
– O que é isto!?
– Mantenha a calma, Kioya. Só queremos recolher alguma informação.
Olho para o lado direito e vejo uma televisão. Consegui captar várias imagens como: o meu primeiro beijo com Ren, a minha primeira vez com Ren e o meu casamento com Naomi.
– Pare aqui. – grita uma senhora vestida de branco.
Sinto-me quase a chorar, mas consigo conter as lágrimas. Foco-me no televisor e no que é dito.
Observo Ren a falar qualquer coisa sobre a Platinium. Pouco depois consigo entender o que ele diz: “A Platinium é uma organização que surgiu milagrosamente quando a epidemia foi localizada. Esta empresa tornou-se a salvadora do mundo por ter “a cura” baseada em platina. O que pouca gente sabe é que esta epidemia fora criada pela Platinium no âmbito do seu plano para governar o mundo. Esta doença possui um elevado grau de platina...”
Desta vez não consigo conter as lágrimas e estas rolam fortemente pelo meu rosto.
– Como puderam? Eram pessoas inocentes!
A senhora vestida de branco sorri e injecta-me algo no corpo.
Acordo e olho para o relógio. São nove da manhã. Estamos a treze de fevereiro de 2083. Desço as escadas mas não encontro Naomi. Saio de casa para ir trabalhar e vejo um rapaz de cabelo loiro a andar na minha direção.
– Ontem desapareceste, Kioya. O que aconteceu? – o rapaz abraça-me forte e firmemente. Sinto um cheiro agradável. Era lavanda.
– Quem és tu?
– Esqueceste-te de mim?
O rapaz loiro agarra-me o corpo e encosta-me à parede. Aceno em sinal de afirmação.
– Não me esqueci de nada.
– Tens a certeza de que não esqueceste?
Sinto as suas mãos a prender-me os braços como se nada fosse, como se ele não se importasse da dor que me causava.
Aceno novamente. O rapaz larga-me, suspira e sorri.
– Desculpa. Eu voltarei.
Dito isto, o rapaz começa a andar no sentido contrário do meu e desaparece.”
Abro os olhos lentamente e sinto o meu corpo a recuperar a sua energia. Estou deitado numa cama.
– Como te sentes?
Olho para o meu lado esquerdo e deparo-me com Ren a acariciar-me a face.
– R-Ren… Desculpa-me! – sento-me rapidamente e abraço-o com força deixando algumas lágrimas molhar-me a face.
– É bom ter-te de volta, Kioya. — Ren sorri enquanto me abraça com mais força.
Mal oiço estas palavras, o meu batimento cardíaco aumenta e sinto o meu corpo a ficar quente. Ren começa a afastar os nossos corpos e coloca a sua mão direita na minha face, acariciando-a. “Tão bom…” suspira Ren enquanto aproximava os seus lábios dos meus e fitava os seus olhos tanto nos meus lábios como nos meus olhos. Agarro Ren nos ombros e sinto os nossos lábios a tocarem-se. Os seus lábios eram quentes e selvagens. Sentia a adrenalina a possuir-me o corpo, a mente e a alma. As nossas línguas dançavam e competiam entre si. Estávamos ambos ofegantes mas nenhum de nós queria parar.
Ren começa a subir para cima da cama sem quebrar o beijo. Pouco depois, consigo sentir as mãos dele a tocar-me no corpo, ferozmente. Eu interrompo o beijo e começo a arfar, a suplicar por ar. Fixo os meus olhos verdes nos seus olhos castanhos-escuros que cintilavam como as luzes natalícias.
– Oi! Parem de namorar! – olhamos para o lado e vemos Naomi a rir-se, meia corada.
Ren levanta-se e eu levanto-me a seguir. Arrumo a minha roupa e caminho na direção de Naomi enquanto Ren arrumava a cama.
– Já tenho com que me masturbar hoje. – Naomi pisca-me o olho e ri-se discretamente. Começo automaticamente a corar. – Just kiddin'!*
Suspiro e Ren dá-me a mão.
– Vamos andando. Temos coisas para fazer.
Caminhámos durante um pouco e parámos numa sala aberta que possuía um quadro verde e à sua volta só plantas. Sentia-se o vento a voar dentro dos cabelos e, os raios solares que passavam através da janela, aqueciam a superfície da pele.
– James, qual o plano?
Olho para a esquerda e deparo-me com um rapaz extremamente alto, de cabelos curtos cor da noite e olhos azuis como uma safira. Usava óculos de aros negros e tinha a cara e o corpo esguios. Durante segundos ele fixou o seu olhar em mim e senti-me frágil e medrosamente comprometido. Os olhos de James viam-me a alma, tal como os olhos de uma criança.
James coloca vários documentos sobre a mesa. Ele entrega a cada um de nós, um documento. Abro-o e observo várias tentativas falhadas de eliminação da Platinium.
– Todas as vezes que tentámos extinguir a Platinium, estávamos sempre em minoria. Ainda hoje possuímos esse problema. Amanhã, em vez de atacarmos a Platinium, iremos fugir do Japão.
A sala fica tensa e em silêncio.
– Mas não existe vida para fora do Japão, certo? – diz Naomi interrompendo o silêncio.
– Na verdade, existe. Não são muitas pessoas mas a vida para lá das muralhas, fora do Japão, já é possível. Nós cinco vamos sair e juntar-nos com o resto da associação.
A conversa perdurou durante três horas e a noite chegou.
No dia a seguir Naomi, Akito e James trataram das armas e eu e Ren tratamos dos mantimentos.
Ao meio dia em ponto chegámos à abertura da muralha onde se situava o porto e, consequentemente os barcos. Não demorou muito até alcançarmos mais de metade dos guardas e de os esfaquearmos até ficarem incapacitados ou mortos.
James liderava e eu e Ren éramos os mais afastados do grupo. Um guarda aparece de rompante e dá um tiro no braço de Ren fazendo a sua arma cair no chão. Naomi, Akito e James já tinham alcançado um barco. Sinto a mão de Ren a apertar a minha firmemente e conseguia ver no seu olhar o seu receio.
– Não se mexam!
O grito do guarda ecoa na minha mente e consigo sentir a mão de Ren a tremer. “Desculpa-me…” diz Ren.
Mal oiço tais palavras puxo Ren para trás e retiro a arma de trás das minhas calças. Disparo-a e acerto na cabeça no guarda. Olho no horizonte e vejo mais guardas a aproximarem-se. Sem dirigir o olhar para o Ren agarro-lhe firmemente na mão e corremos para o barco.
Entramos no barco e conseguimos fugir.
Estávamos livres. Finalmente, livres!
Já nos encontrávamos em alto mar quando Ren acabou de ser tratado.
Eu estava na proa empoleirado nos corrimões cinzentos e frios do barco quando percepciono o toque das mãos de alguém nos meus ombros. Olho de relance e vejo Ren.
O vento fica mais forte e os nossos cabelos começam a esvoaçar de forma selvagem.
– Pára. – Ren interrompe o silêncio.
– Não consigo.
– Fizeste o que tinhas de fazer sabes? Mas falar pode ajudar. – Ren aproxima-se e coloca o seu braço à minha volta. Eu pouso a cabeça no seu ombro.
– Foi horrível. Eu não sou Deus, mas porque tive de agir como um? Não sou eu que julgo quem deve morrer ou não.
Ren beija-me a testa.
– Kioya, podes não ser Deus mas és humano. O ser humano é um ser egoísta e egocêntrico, não possui nenhum tipo de remorso. O ser humano é uma máquina criada pela sociedade mas tu… Tu não és uma máquina, és um sobrevivente. Fizeste o que tinhas de fazer e podes não ter o direito de escolher a vida dos outros mas tens o dever de escolher a tua. – ele aponta para o meu peito. – Só a tua.
Sorrio enquanto abraço Ren com toda a minha força.
Daqui a pouco tempo iremos chegar a terra firme e encontrar mais gente, encontrar mais desafios, encontrar outra vida e, talvez fazer coisas que não são corretas.
Mesmo assim, eu sei que ficará tudo bem…
…porque estás comigo…
…porque estás aqui…
…porque és meu.
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