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1 Capítulo 1
– Angus, Robbie! Já para dentro!
Madame Le Blanc gritava os pequenos gêmeos que brincavam comigo no meio das macieiras. Estendi dois dedos da mão para eles, nossa despedida de sempre, e eles saíram em disparada para casa, os cabelos loiros balançando ao vento de verão. Hoje é o dia.
Em xxxx, o vilarejo mais largado do interior francês, não havia muito para fazer. Nossa renda vinha de nossas próprias produções, e conseguíamos mercadorias que não produzíamos por meio de escambo. Não era uma vida fácil ou agitada, e a diversão das mulheres era alongar o pescoço acima da cerca de suas casas para espiar e fofocar sobre a vida alheia. Mas não hoje. Não na véspera de três de setembro.
Em três de setembro, todos os trabalhadores e donas de casa de xxxx acordam um pouco mais tarde, se dirigem ao centro do vilarejo e aproveitam a feira.
A feira das tortas de xxxx era conhecida por toda a França, e atraía turistas anualmente. Como todo bom feriado, as famílias relaxavam enquanto comiam das mais diversas tortas com os mais variados formatos e sabores. Como pagavam por isso? Não pagavam. Os cidadãos de xxx contribuíam com as famílias que produziam as tortas o ano inteiro só para poder comer a vontade por um dia. Os sabores eram divididos por famílias, e no fim do dia a melhor torta recebia uma medalha de ouro – que eu mais que todos sabia que era só uma moedinha de chocolate numa faixa- e o prêmio de verdade: uma vitela gorda.
E nós, os Lafayette, responsáveis pela torta de maçã com canela, também tínhamos uma tradição. Vitela no rolete depois de todos os três de setembro. Desde que sugeri esse sabor ao invés do super normal banana caramelada, não havia torta em toda a feira que se comparasse à nossa.
– Ei, Robbie! Angus!- Gritei os meninos, que já alcançavam o limite da cerca. – Avisem a sua mãe que mais tarde vou buscar a canela!- Eles assentiram, e entraram no terreno de casa. Nós tínhamos uma parceria com os Le Blanc, que eram os cultivadores de canela da região. Embora também competissem com o sabor banana- era deles que pegávamos a banana também- nunca deixariam de perder um bom e velho churrasco de vitela.
Voltei para casa, colhendo algumas maçãs que poderíamos usar pelo caminho e pondo-as numa cesta de palha. Cheguei pela porta dos fundos que dava para a cozinha. Estava um caos. Trigo se estendia sobre toda a bancada, assim como grão de bico e farinha – os componentes da nossa massa especial- e minha mãe e minhas irmãs descascavam as maçãs enquanto meu pai e meu irmão batiam a pelota que mais tarde viria a ser a nossa massa.
– Mais maçãs! Mais maçãs! Anne, cadê a canela?- Minha mãe esbugalhava os olhos, meio escondidos pelo cabelo vermelho.
– Já é hora? Combinei de ir mais tarde!
–Arre, Anne! Vá já! Ande!- Ela vinha em minha direção, com as mãos gosmentas de polpa de maçã enquanto tirava o cesto da minha mão e colocava outro no lugar, com as partes que não usaríamos das maçãs. Eu saí ligeira e em silêncio, lançando um olhar feio para ela,carregando o cesto cheio de maçãs moles, maduras e nojentas demais seguramente longes do meu corpo. Como elas serviam como adubo, nós sempre as jogávamos aos pés das macieiras, mas esse era o caminho mais longo para a casa dos Le Blanc. Larguei o cesto ao lado da cerca, e peguei o atalho para a casa deles, subindo na nossa canoa e atravessando o lago que ficava ao lado da nossa casa. O lago passava pelos fundos da casa deles, e não demorei mais que cinco minutos para chegar lá. Apressei-me pelos fundos, chutando algumas galinhas para fora do caminho e bati na porta. Era grossa e antiga, de madeira. Ninguém veio atender. O que era estranho, já que os Le Blanc nunca demoravam a fazer nada. Bati mais vezes, não recebendo resposta. Esperei um pouco, fazendo desenhos aleatórios na terra com minha bota, pensando que os gêmeos deviam estar com dor de barriga por causa das bananas. Ninguém respondia.
– Madame Le Blanc?- Bati na porta, impaciente.- Angus? Robb...- Eu já esmurrava a porta quando ela se abriu subitamente, um homem aparecendo.
Wow, eu não esperava aquilo. Ao invés da cabeleira loira dos gêmeos ou o tom grisalho da Madame Le Blanc, cabelos castanhos apareceram. Olhos verdes. Ombros largos. Peitoral Mus...
– O que é?- O deus grego falou, e sua voz era grave. E sua voz era, pensando melhor, zangada. Franzi as sobrancelhas. — Quem é você? Estamos ocupados agora e... Como diabos chegou nos fundos dessa casa?- Disse, olhando de mim para o lago, desconfiado. – Você tem licença para usar essa canoa?- Eu abria e fechava a boca como um peixe, sem saber como falar, tomada pelo choque. Ele me pegara de surpresa, sendo tão lindo e incomum. Quem era esse homem? Meu cérebro estava em pane.Ele franzia as sobrancelhas sobre os olhos, me fuzilando.-Então?
–Eu... Canela... Err...- Eu ainda gaguejava, incapaz de desviar meus olhos daquelas duas esmeraldas. Elas soltavam faíscas.
– Bom, Canela, estamos ocupados agora. Tenha um bom dia. E dê o fora daqui!- Eu mal ouvi as palavras e ele já batia a porta na minha cara.
Mas o quê diabos acabou de acontecer? O quê eu faria, deveria bater de novo a porta? Ouvi o barulho da porta sendo trancada, e os passos rápidos do homem. Eu já sentia a indignação começar a crescer nas minhas entranhas, abobada demais para sequer tomar alguma atitude. Decidi que não adiantaria bater de novo, e comecei a contornar a fazenda para chamar pelos gêmeos na porta da frente, driblando o lamaceiro que ficava no quintal deles. O quê esse estranho estava fazendo na casa dos Le Blanc? E se ele... Parei de súbito, com o peso da hipótese sobrecarregando meus joelhos, me apoiando no muro da casa. E se ele fosse um ladrão? Um assassino? E se ele estivesse mantendo os Le Blanc como reféns? Ele não podia fazer nada com eles, podia? Ele faria? Meu cérebro dava voltas enquanto eu tentava pensar o mais rápido possível. Eu não podia seguir em frente e bater a porta de novo. Se ele fosse mesmo um ladrão, ou um serial killer, me mataria se eu aparecesse lá de novo. A única solução seria buscar alguém, buscar ajuda. Corri em direção ao lago, não fazendo barulho demais e montei na canoa. Comecei a remar como uma lunática, o suor começando a escorrer pela minha nuca e minha testa, a garganta seca demais. Eu já entrava numa curva quando escutei meu nome sendo chamado. Virei-me, amedrontada, e vi os gêmeos correndo às margens do lago, atrás de mim. Manobrei a canoa, indo ao encontro deles, os olhos arregalados.
– Robbie! Angus! Subam! Subam!- Eu agarrava o capim da margem do lago, puxando a canoa para a borda e respingando água enquanto eles me alcançavam, arfando.
–Ué...? A gente não...- Angus dizia.
–Andem! Andem, antes que ele...
– Ele quem?- Robbie perguntou. Eu me virei para ele, os olhos castanhos estampados de confusão. Eu os examinei. Robbie e Angus não pareciam estar fugindo. Ou com medo. Ainda respiravam forte, por causa da corrida, mas pareciam me olhar como se eu tivesse três cabeças. — Por quê estava indo embora sem pegar a canela?
–Mas... O homem...
– Quê homem?- Angus já revirava os olhos.
– Aquele nos fundos, ele não é um...
– Mateo?- Robbie me interrompeu. -Você estava fugindo do Mateo?- Olhou para Angus, divertido.
–Quem?- Eu olhava de um para outro, embasbacada. Ainda mantinha a boca aberta e lançava olhares nervosos para a casa.- Conhecem aquele homem?
–Depende.- Robbie respondeu.- Ele estava usando um avental e tinha trigo no nariz?
–Não, não sei, não reparei nisso...
–Tinha cabelo escuro e olho claro?- Angus perguntou.
–Cabel... Sim... Sim!- Gritei. -Meninos, vocês o conhecem? Quem é esse?- Angus explodiu em gargalhadas, sendo acompanhado pelo irmão. Esperei que parassem, impaciente. Eles ainda davam alguns risinhos quando continuei. — Então, quem é ele?
– Mateo, Anne. — Robbie revirou os olhos.
–Mateo, Mateo! Arre! Mateo quem?- Eu estava irritada, agarrada na terra molhada da margem.- Desembuchem, seus pequenos...
– Nosso irmão mais velho!- Angus me atropelou, finalmente cansado de tirar uma com a minha cara.
– Nós já te falamos do Mateo, que estava na Grã-Bretanha! Ele voltou hoje e está fazendo a nossa torta com a mamãe!- Robbie respondeu, animado.
Suspirei, fazendo um barulho exagerado ao expirar o ar. Então não era um serial killer na casa. Era o irmão mais velho. Era o Mateo. Eu havia me esquecido dele. Há uns sete anos, toda xxx ficou sabendo dos filhos de ouro dos Le Blanc e dos Lafayette. Eles haviam conseguido uma vaga para um intercâmbio para o Reino Unido, mas a diferença é que Mateo havia ido. Meu irmão Laurent, o pobre azarado por ser um Lafayette inteligente. Meus pais não o deixaram viajar, dizendo que estava muito novo. Eu lembro de minha mãe contar como meu irmão ficara arrasado por não ter ido também. Mas com o tempo, ele esqueceu. Todos falavam de Mateo, até que com o passar dos anos também foram se esquecendo dele. E eu nunca havia escutado a família Le Blanc mencioná-lo mais de duas vezes em todo o meu tempo de vida. Eu só sabia de Mateo por causa dos gêmeos. Eu nunca havia o conhecido, ele devia ser uns onze anos mais velho que eu. E nem os gêmeos sabiam muito, com somente dez anos de vida. Provavelmente o conheceram de verdade só hoje quando chegou, e a animação deles era palpável. Pelo visto, nesse curto espaço de tempo o irmão os havia conquistado. E quando se tratava dos gêmeos, não era algo fácil. Ele devia ter sido mesmo muito legal com eles. Mas espera... Ele não era legal!
– Ele bateu a porta na minha cara!- Esbravejei. Aquilo era ridículo. Eu estava em cima de uma canoa, enfiando as unhas na terra para me firmar enquanto duas pequenas pestes riam da minha cara. Não demorou para uma carranca se formar em meu rosto.
– É por que eles estão ocupados com a torta. Ah... mamãe mandou dizer que vai te dar menos canela esse ano.- Robbie disse.
– O QUÊ? Como assim?- Arregalei ainda mais os olhos.
– Ahh, é porque Mateo trouxe uma receita nova que leva canela também.- Angus complementou.
– Mas nós temos um trato! Como que eu apareço lá em casa sem a canela? Minha mãe vai me matar!- Eu atropelava as palavras, sem respirar. — Não existe torta de maçã com canela sem canela!- Os meninos se entreolharam, segurando o riso.- É brincadeira, né? Me digam que é!
–Não, mamãe falou mesmo que...- Robbie.
–Mas vocês estão rindo!
–O que você falou foi engraçado!- Angus.
–Ah, é muito engraçado ser morta pela minha...
–Não! Com canela e sem canela!- Angus interrompeu. — Ficou engraçado na sua voz!
– O que tem a minha voz?
Respirei fundo, com as têmporas já ardendo em brasa. Esfreguei-as, tentando pensar em algo. A canoa balançou, me fazendo voltar as mãos para a borda do lago, as enchendo de terra de novo. A gargalhada dos gêmeos já me deixava claro que eu havia sujado a testa.
– Qual a quantidade que ela vai me dar?
– Um pouquinho menos, só. — Responderam.
– Quanto, mais ou menos?- Estenderam os braços, mexendo-os e formando uma espécie de cubículo. Se fosse mesmo aquela quantidade que eles estavam mostrando com os bracinhos pequenos realmente era uma pequena porção a menos de canela. — Ok, vamos lá.- Cedi.
Deixei a canoa por lá mesmo, enjoada demais para remar meu caminho de volta. Eles tomaram a dianteira, chegando com a canela nos braços. Me entregaram o que tinham nos braços, enquanto voltavam correndo para a casa, para buscar o resto. Por quê esses meninos estavam sempre correndo? Eu coloquei tudo na canoa, e se eles não tivessem me contado eu nem perceberia que estava com um pouco a menos. Estenderam os dedos para mim e foram de volta para casa, batendo na porta trancada. Só que não demorou muito dessa vez. O homem... Quer dizer.... Mateo abriu a porta, sorrindo para os meninos, que passaram em disparada por ele. Ficou um tempo olhando em volta, e agora eu conseguia reparar o avental que ele usava. Que torta era essa que ele estava fazendo, usando a minha canela? E agora que eu estava mais calma, a vergonha misturada com a raiva tomou conta de mim. Droga, ele havia me chamado de canela. E se ele pensasse que esse realmente era meu nome? Algo me dizia que ele sabia que não e estava tirando uma com a minha cara. Continuei o encarando, até que seus olhos foram seguindo para o lago, e chegaram até onde eu estava. O fitei de volta, zangada. Virei e segui caminho com a canoa, deixando o irmão mais velho gostoso e sem modos para trás.
Cheguei aos fundos da minha casa, chamando meu irmão para me ajudar a levar a canela para minha mãe. Colocamos tudo no balcão, ao lado da pelota de massa que meu pai ainda batia. Minhas irmãs chegaram e começaram a trabalhar com a canela até que minha mãe as fez parar.
–Você pegou tudo?- Aquela mulher, Deus que me livre, não deixava passar nada.
– Madame Le Blanc tirou um pouco para fazer a torta dela.
– É claro. — Minha mãe revirou os olhos. Não era segredo para ninguém que ela não se dava muito bem ela. — Por que vai usar canela na torta de banana, de qualquer modo? Não é ela mesmo que diz que é muito antiquado?- Trocou um olhar zangado com meu pai. Respirei fundo e soltei a bomba.
– Não, é Mateo que vai fazer a torta.
Todo mundo ficou em silêncio, sem entender nada. Mas era em meu irmão que eu prestava atenção. Ele havia entendido tudo. Trocou um olhar significativo comigo, ergueu uma sobrancelha e voltou a socar a massa da torta mais uma vez.
– E quem seria Mathie?- Minha irmã mais nova perguntou.
– O filho mais velho deles, Dora. Ele voltou agora há pouco.– Decidi ocultar o que havia acontecido cinco minutos atrás. Não queria estragar o amigo do meu irmão daquela maneira. Não agora...
– Eles têm mais um filho?- Brigitte perguntou, minha irmã mais velha.
– Sim, da idade de Pietro.- Meu pai respondeu.
– Ele é bonito?- Emendou. Minha mãe a lançou um olhar repreensivo, mas respondeu:
–É um gatinho, pelo que me lembro.
–Mãe!- Pietro a olhou, indignado. Minhas irmãs trocaram olhares travessos.
–Johanne!- Meu pai. – Isso é maneira de falar com suas filhas? O rapaz mal chegou!
– Arre! Só estou dizendo! O rapaz era o mais bonito daqui, desbancava até os mais velhos dos Moretz!
–Mas os Moretz são os mais bonitos da França!- Brigitte arregalou os olhos.
–Exageraaadaa...- Eu disse, mesmo sabendo que Mateo os desbancaria até todo sujo de farinha. Ela me lançou um olhar de desdém.
–Você gosta deles também, Anne.
–Mas não são os mais bonitos da França. Além do mais, como você pode saber, nunca saiu de xxx!
–E você já?
–Não preciso sair da França pra saber que eles não são os mais bonitos, Brigitte.- Revirei os olhos.
–Não vou ficar discutindo com você.- Brigitte me lançou um olhar superior enquanto todos ali também reviravam os olhos e minha mãe remexia na canela, indiferente ao nosso bate e boca.- O que estava dizendo, mamãe?
–Estou dizendo...- Desviou o olhar da mesa, olhando de mim para Brigitte.- Ah, não são nem páreo para o rapaz, se ainda é do jeito que me lembro.- Acrescentou. Ah, mamãe, ele é.
–Ele é?- Dora perguntou, olhando para mim. Arregalei os olhos para ela, resistindo ao impulso de pôr as mãos na frente da testa. Camponesa francesa praticante de voodoo!
–É, Anne, conta! Ele é bonitão assim?- Brigitte emendou, subitamente animada. Respirei aliviada. Então eu não havia dito aquilo. Mas eu sabia o que aquela interesseira estava pensando naquele exato momento, e não precisava de voodoo nenhum para isso. Duas palavras: Husband Material. Eu preparava a descrição-mentirosa- da pessoa mais feia do planeta quando Pietro interrompeu, baixinho.
– Eu sempre fui o mais bonito. — Ri da cara dele enquanto mamãe o dava um beijinho nas bochechas gordas e murmurava:
–Sempre foi o mais lindo para mim, mon petit chou!- Quem em todo mundo gostava de ser chamado de repolho? Pietro Lafayette.
–Que tal pararmos de falar em Mateo Le Blanc e nos concentrarmos na torta? Ele vai fazer uma também, com receita da Inglaterra.-Desconversei, aproveitando que todos estavam distraídos pela melação de mãe e filho.
–Uau... Ele vai?
–Inglaterra?- Brigitte perguntou, com a boca escancarada e os olhos vidrados.
–Será que ele pode bater a nossa?- Dora perguntou.
–Nem em um milhão de anos!- Meu pai gritou.- Mãos na massa!
– Tecnicamente, não pomos a mão na massa, pai.- Dora revirou os olhos.
–Então, mãos na maçã, mocinha linguaruda!- Minha mãe completou. E todos voltaram ao trabalho, tirando Mateo de suas mentes. Mas Mateo estava longe, muito longe, de ir embora da minha.
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–Eu não aguento mais!- Arquejo.- Meus dedos vão rachar no meio!- Eu olhava para baixo, para a canela no moedor. Graças a ironia do destino de não saber fazer nada para as tortas e ao fato de morarmos numa cidadezinha não urbanizada, sobrava para mim o trabalho de refinar as canelas, manualmente, todos os anos. Eu ficava com calos o tempo todo, por estar sempre escalando as macieiras com os gêmeos e ter uma canoa com remos como meio de transporte, ao invés de uma bicicleta. Mas aquilo era tortura. Eu odiava moer aquilo. Era trabalhoso, entrava debaixo das suas unhas mesmo que você usasse luvas e levava horas. Talvez dias. Mas nós não tínhamos dias. Tínhamos algumas horas até que a feira começasse. E toda a família estava empenhada nas tortas, confiando em mim para que terminasse logo. Bastava gritar “ Está cheiaa!” que Papai ou Dora apareciam, como furacões, para pegar a vasilha com a canela moída e pôr outra no lugar. E quando eu pensava que estava acabando, mais ela rendia. Já passava da meia noite, e eu ainda estava ali. Com os cabelos embrenhados numa touquinha de cozinha de Brigitte. Por quê eu estava com a touca de Brigitte? Por que ela foi ao centro com Pietro trocar uma quantidade extra de maçãs por açúcar mascavo. Três horas atrás! Era muito desaforo para só um dia, eu estava uma pilha. Minhas costas doíam, e eu tinha cãibras constantemente, pelo tempo que ficava sentada e curvada.
–Está cheia!- Gritei. Eu nem havia terminado de gritar quando meu pai apareceu e pôs as mãos na vasilha cheia. O quê eu disse?! Agarrei-a de volta, puxando-a para mim.
–Ah, não, não! Me deixe descansar primeiro! Já está de madrugada, estou cansada!
–Nada disso.
–Por favor, papai!- choraminguei.
–Anne!- Ele estava impassível.- Sinto muito, mon pe-
–Não me chame de repolho!
–...tit chou, mas são ordens da sua mãe.- Me olhou nos olhos, ignorando minha cara feia pra ele.
–Não me chame de repolho.- resmunguei.
–Mas você é, o meu pequeno repolhi...
–Tome, tome!- Empurrei a vasilha para as mãos dele.
–É isso aí!- Ele falou, animado. Meu Pai às vezes a ideia de ser da nossa idade ao invés de ter 53 anos.
–Tá, ta. Tanto faz.
Comecei, mais uma vez, a encher a vasilha. Eu estava na metade do caminho quando ouvi a porta abrir e Pietro abrir a porta, com um saco de açúcar nas mãos. Ele mal passou pelo batente quando Brigitte veio, como um furacão.
–ELE É LINDO!- Todos pararam o que estavam fazendo, para prestar atenção à ela.- É GENTIL, CARIS...
– Não grite, Brigitte.- Minha mãe repreendeu.
–Onde estavam todo esse tempo?- Dora perguntou.
–EU CONHECI MATEO! ELE...
–PARA DE GRITAR!- Minha mãe gritou. Brigitte engoliu as palavras, parecendo se engasgar com elas, só para começar tudo de novo.
– Ele estava no mercado também! Reconheceu Pietro e até nos convidou para tomar chá!
–É sério?
–Reconheceu Pietro?
–É!- Pietro emendou, sorridente. — Nós estávamos até agora tomando chá na casa dele e relembrando quando éramos crianças, e ele...
–O QUÊ?-Gritei.- VOCÊS ESTAVAM NA CASA DOS LE BLANC ATÉ AGORA, DESDE AS NOVE?- Me levantei, indignada. Meus pais pareceram perceber isso só agora, distraídos demais com o cara novo. E então uma carranca logo tomou conta de suas faces, agora cientes da falta de responsabilidade dos filhos. Brigitte revirou os olhos, um sorrisinho ainda naquela cara pálida e Pietro olhava para o chão. Olhei para meus pais.- Mãe! Pai! Eles ainda nem coziram as massas!
Eu não precisava de mais nada, sabia que os dois estavam em apuros. Uma coisa que minha mãe não tolerava era irresponsabilidade, ainda mais da filha mais velha e do primogênito. Segurei o sorriso malicioso que ameaçava aparecer e aguardei o Ultimato.
Mas é claro que dessa vez ele não veio.
– Brigitte, Pietro, Doralice e Anne! Vão já cozir as massas. Ainda temos tempo até de manhã.
– AH MÃE!
–DE JEITO NENHUM!- Grito.- NÃO É O QUE TENHO QUE FAZER, ELES...
–Anne, eles...
–... ESTÃO FORA DESDE...
–...PARA DE GRITAAAR!
Respiro fundo, eu estava mesmo berrando.
– Eles saem sem nem um pingo de consideração pelo que estamos fazendo e pela nossa torta, e agora, pelo amor de Deus! Querem que eu os ajude a fazer o trabalho deles, quando nem aguento fazer o meu?!
– Eles te ajudam depois, arre!
– NÃO! NÃO QUERO A AJUDA DELES!
Brigitte estava me irritando. Eu estava torcendo com todas as minhas forças que seus olhos saíssem rolando, de tanto que ela os revirava.
– Mas vai fazer com eles, AGORA!
–NÃO. EU ME RECUSO.
Agora eu reconheço o quão estúpido foi esse movimento. Eu tinha meu guia da boa filha:
Número 1: Não deixe de obedecer.
Número 2: Não se recuse a nada, em qualquer circunstância.
Número 3: As duas anteriores.
Ma agora eu tinha me recusado a fazer algo, a uma ordem direta. Eu assistia aterrorizada as bochechas da minha mãe ficarem vermelhas. Olhei para baixo, arrependida. Merda, agora Brigitte é que ria da minha cara.
– Mãe, desculpe, eu...
– Não precisa mais fazer nada com eles.- O QUÊ?! Eu havia me safado? Olhei para Brigitte e Pietro, vitoriosa.- Agora eu quero que você vá jogar os restos do recheio fora. Oh, Santo Deus, não.
– Mãe...
– AGORAA!
Engoli a bile que se acumulava na garganta, a repulsa daquele creme purulento. Era as partes amassadas e estragadas das maçãs, e embora estivessem numa vasilha, eu já havia tido ânsias de vômito só de vê-las.
Sem olhar para ninguém, sai porta afora com aquele cesto medonho e fedorento de maças podres.
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