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4 A Alegria do Ser Amado
Notas iniciais
Depois do lanche fui ao banheiro, e senti falta de uma coisa. Não tinha vaso! Como eu iria... deixa pra lá. Enchi uma tal de tina, uma espécie antiga de banheira, e entrei. E então vieram turbilhões de pensamentos, perguntas e idéias. Eram tantas perguntas, e nenhuma resposta. Era real demais para ser um sonho, não sou tão louca a ponto de pensar isso. Eu acho.
Levantei várias hipóteses. Talvez eu tenha aberto um portal, ou sei lá. Será que algum dia eu vou voltar para casa? Eu não estava extremamente preocupada, por que pelo menos uma vez em minha vida eu estava me sentindo bem, me sentindo em casa. Eu finalmente estava me encontrando.
Fui procurar meu quarto pra tentar dormir embora normalmente eu só fosse dormir umas 23:00, e ainda eram 21:00. No caminho, vi Inácio na cozinha e resolvi passar lá para "beber uma água". Quando me viu, perguntou:
— Não devia estar deitada a esta hora?
— Não, costumo dormir das 23:00 para cima. E você, não deveria estar deitado a esta hora?
— Tens certa tendência para a vida boêmia, assim como eu.
E assim começou uma longa conversa, quando nos demos conta, já era quase 00:00. E uma dama acordada à 00:00 na cozinha com um jovem, sozinhos, em pleno século 19 não era uma coisa vista com bons olhos. Sendo assim, fomos para nossos aposentos. Deitei na cama e depois de longos minutos encarando as paredes e o teto, adormeci.
Acordei de madrugada com vontade de fazer xixi, e quando sai do quarto já estavam todos de pé. ÀS 06:00 DA MANHÃ. Apenas Miguel ainda não tinha acordado, minha mãe e Isaura estavam na cozinha conversando. Fui para a varanda ver o sol nascer, e lá estavam meu pai, o Barão e Inácio. Mal amanheceu e o café já estava pronto, tinha pão, frutas, café e broa de milho.
Depois do café, meu pai e Silvino nos chamaram para pescar, Miguel foi o primeiro a concordar. Eu fui a segunda, já que nunca havia ido pescar. Fui falar com Antônia, que me mostrou um colar que havia achado com a pintura de nossa família e ela, feita a alguns anos atrás. Pedi para ver e acabei levando sem querer.
Fomos a pé mesmo, tudo ali era perto. Chegamos a uma praia e Miguel logo se atirou na água. Ele adorava pescar, estava tão feliz. Continuei andando, fui em direção ao cais de onde tínhamos desembarcado, e ainda era um pier de madeira. Sentei na ponta e tentei refletir no que estava vivendo, e o que aquilo estava mudando em mim. Senti o pier tremer, achei que aquilo ia quebrar e eu ia cair na água e morrer afogada, mas era Inácio chegando.
— Iara, por que não ficou lá conosco? — perguntou sentando-se ao meu lado.
— Quis vir aqui ficar sozinha um pouco, respirar. É tudo tão frenético para mim, e repentino. De onde eu venho não tem nada disso aqui.
— Como assim? Nasceste aqui, não foi?
— Sim, nasci. Esquece — pensei em desabafar com ele, mas eu não era tão besta a esse ponto.
Enquanto conversávamos, Inácio prestava atenção em cada palavra que saia de minha boca. Era terno e atencioso, olhava nos meus olhos. Raras foram as vezes que me haviam dado atenção como ele. Não que eu estivesse me sentindo atraída por ele, ou que eu estivesse me sentindo tentada em tascar-lhe um beijo, o que poderia ser verdade. Talvez era. Casar com ele não era uma ideia ruim. Só tinha um problema, eu nunca havia beijado antes. Mas não por escolha ou sei lá, mas nunca algum garoto se interessou por mim e seria estranho se Inácio se interessasse.
De longe, vi Miguel gritando que havia pegado um peixe, e quando o pegou com a mão, o peixe se debateu. E Miguel assustado começou a gritar. Silvino começou a rir, e de repente se lembrou que era Barão e voltou a sua postura. Meu pai ria de Miguel e o abraçava, e toda aquela cena parecia de novela, era tão bonita e tão contagiante que me fez abrir um enorme sorriso.
Quando voltei a mim, estava mais próxima de Inácio, ou Inácio estava mais próximo de mim. Levei um susto e quase cai na água, acho que ele não notou. Ainda bem. Não tinha reparado na beleza que ele tinha, era uma beleza mais interior que exterior, mas o jeito dele transformou qualquer pensamento que me veio quando vi ele pela primeira vez. E então ele tocou minha mão, e aquele famoso frio na barriga já havia aparecido. Eu pensei "É agora Maju. É hoje que a gente tira essas teias da boca!"
Em questão de segundos, ele já havia me puxado para mais perto. Se não estivesse com aquele vestido desconfortável, teria sentido melhor suas mãos apertando minha cintura. O mundo tinha parado para nós, tudo estava em câmera lenta. Até eu e ele estávamos. Aquele típico cliché de romance acontece mesmo na vida real, e digo por experiência própria!
Sua mão estava em minha nuca, nos aproximando mais. Nossas respirações se encontravam. Até comecei a ouvir vozes. Achei que eram delírios de amor e continuei. Quando nossos narizes se encostaram, ouvi de novo uma voz, uma voz me chamando. Chamando por Maria Julia. De repente a voz se multiplicou e agora eram várias. Minha vista escureceu e eu simplesmente cai ouvindo todas aquelas vozes me chamando.
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