THE DARK GIRL – Capítulo 2

Estávamos sendo separados por uma imensa estante de livros. No entanto, eu conseguia ver ele do outro lado através das gretas. Eu me sentei naquele chão frio e naquele lugar escuro. Estávamos ambos perto um do outro, mas ao mesmo tempo muito distantes. Naquele momento, eu olhei para a estante para ver se eu conseguia achar algum livro para ler. No entanto, não conseguia encontrar nenhum. Ou, eu não conseguia me concentrar de verdade na literatura. O mundo real estava muito exposto em mim e por mais que eu quisesse fugir dele, era impossível. Por esse motivo, dei um forte suspiro. Tão forte que eu acho que o misterioso garoto ouviu.

{...}

Naquele momento, após pensar em tantas coisas que estavam acontecendo em minha depressiva vida, eu consegui finalmente encontrar um livro. Ele estava na segunda fileira do lado dele. Do garoto misterioso. Um livro gótico. Assim como eu. Mas como eu iria pegar o livro? Eu não me atreveria ir até o outro lado e olhar nos olhos daquele cara misterioso novamente. Não. Eu tinha que fazer alguma outra coisa.

Não sei se era porquê eu estava nervosa, mas minhas mãos não conseguiam alcançar o livro. Alguma força me impedia de chegar perto daquele garoto. Ele estava olhando para a minha mão. E eu estava intimidada e totalmente nervosa. Que droga! O que estava acontecendo comigo? Bem. A única coisa que eu podia fazer era...

— Você... pode pegar esse livro pra mim, fazendo um favor? Eu... eu não consigo alcançá-lo.

Ele olhou para mim novamente. Dessa vez, com um tom de ironia e de sarcasmo em seu olhar. Ele estava debochando de mim? Estava gozando da minha cara? Não dava pra saber. Era impossível decifrar aquele olhar misterioso. Eu apenas fiquei esperando ele me dar o livro. Por quê ele não me dava o livro?

— Olha. A garota tem educação.

Droga. Eu mereci aquilo. Eu poderia contornar aquela situação. Eu poderia ser educada. Eu poderia pedir desculpas para ele e falar que eu estava irritada com aquele idiota do Hilgner. No entanto, eu não tive forças para fazer isso. Eu apenas continuei sendo dura como uma pedra.

— Pode me dar o livro ou tá difícil?

Para o meu azar, ele também sabia jogar aquele jogo.

— Sim. Está difícil.

— Como é?

— Sim. Está difícil. Se você quiser o livro, terá que vir aqui pegar.

Ele então virou seu olhar novamente para as páginas de Drácula enquanto eu ficava me contorcendo de raiva e de agonia ao mesmo tempo. Eu não estava curtindo aquele sentimento. Eu queria sair dali. No entanto, ao mesmo tempo eu queria ficar. Está vendo? Está vendo como eu era difícil de entender? Não sei como Karla conseguia. Parabéns para ela.

{...}

Naquele momento, eu não tive outra escolha, se não me levantar e ir ao outro lado da sala para pegar o livro. Ele queria me olhar de perto. Ele queria me capturar com aquele olhar novamente. No entanto, enquanto me levantava, tratei de fixar minha visão no chão. Até chegar perto dele e pegar o livro. Depois, eu poderia voltar para o meu local de sombras e ficar em paz. Eu me sentaria, colocaria o fone de ouvido, e esperaria ele sair daquela biblioteca.

Eu tentei fazer isso. Eu realmente me levantei e fui até o livro. No entanto, quando eu cheguei perto dele, eu não consegui resistir ao seu olhar e novamente ele me capturou. Que droga! O que aquele garoto tinha? Eu não conseguia desviar minha visão de seu rosto. E ele não era tão belo assim.

— Algum problema? – Perguntou ele.

Peguei o livro. Aleluia!

— Por quê eu teria algum problema?

— Não sei. É que você não consegue parar de me encarar. Eu sou tão bonito assim?

Não consegui segurar meu sorriso e meu deboche.

— Ai, ai. Muito bonito. Meu pai!

— Qual é o seu problema, garota? – Ele era direto. Não gostei disso.

— Eu não tenho nenhum problema. Já deu para entender isso. Não?

— Não, é que você... me diga. Você é rude assim com todas as pessoas que acaba de conhecer? Por quê você tem que ser dura como uma pedra? Por acaso você sofre de duplos pensamentos? Duplas ações...

Sim. Eu sofria daquilo. Como ele sabia?

— É... não. Não sou mau educada.

— Não respondeu a minha pergunta.

— É melhor eu voltar para o meu lugar. Não acha? Eu já estou cheia de problemas. Não preciso de mais um agora. Com licensa.

Eu me desviei dele. Meu coração não parava de pular em meu peito em um rítimo veloz.

— Não precisa pedir licensa. Já foi envasia o suficiente.

Oi?

— Como disse?

— Quer saber? Não me importa. Eu acho que... se você se acha a dona da biblioteca e a única com razão para tratar as pessoas igual lixo, eu acho que você deveria ficar aqui. Eu realmente não sei o problema de pessoas como você. Se acham melhores do que os outros e escondem o que realmente sentem. A vida é muito curta para ser tão... podre.

Tudo bem. Naquele momento ele havia me irritado. Ele havia despertado em mim uma sombra extensa em minha alma. Eu achei que ele era igual aos outros de minha sala. Achei que ele iria ficar parado e ouvir uma patada daquelas. No entanto, ele era diferente. Ele era rebelde. Sombrio, assim como eu era. Por esse motivo, quando eu me virei para ele com coragem e começei a falar baboseiras sobre “ Vai tomar conta da sua vida” ou coisa do tipo, ele simplismente se calou, pegou a mochila e colocou o livro nela e saiu calmamente e sério, como se eu não estivesse lá. E naquele momento, ele me deixou falando sozinha.

Eu saí da biblioteca e vi ele sair. Eu continuava a gritar, e a maltratá-lo. E o pior de tudo, eu não sabia do que eu estava falando. Porquê meu olhar e meu pensamento estava em silêncio. Apenas minha voz e meu corpo atuava por mim. O que estava acontecendo comigo?