worthy
1 Zero.
Notas iniciais
Você olha para as mangas de sua blusa e repara em rasgões.
Você sabe como eles vieram parar ali. Você sabe como aquela peça negra ficou velha e puída e — não ainda, mas quase — inutilizável. As lembranças de suas brigas dentro daquele orfanato são tão nítidas quanto os sons das badaladas do sino da igreja que ali perto fica. Tão nítidas quanto a textura diferente das folhas no inverno: elas ficam secas e amareladas e ao mesmo tempo que você acha triste, você consegue ver uma beleza que ninguém mais parece ser capaz de notar.
Você vê a beleza em muitas coisas.
Quando você se vira para ouvir quem está lhe chamando, aquele sorriso insonte e aquele cabelo mal-cortado nos ombros e a roupa tão velha quanto a sua não parecem desleixo. Parecem arte. Você pisca de novo e de novo e você conclui que mesmo em uma sala repleta de beleza, aquele garoto era a única existência capaz de chamar a sua atenção. A verdadeira arte.
"Chega de arrumar confusão por hoje. Vem, a gente tem muito o que conversar".
Existiam muitos cenários tristes que você poderia ter ficado para olhar.
Você foi.
—x-
Dados rolando. Eles são a vida.
Você pensa frequentemente sobre esse tipo de metáfora. Sobre números que se repetem e números que você não queria ver. Má sorte— a sua vida sempre foi cercada dela, assim como de dados rolando incessantemente.
No corpo deitado sob as suas pernas, você não queria enxergar os dados.
Reparou na pele imaculada que quem mais seria capaz de corromper além dele? e na expressão calma e quase angelical que dominava o seu semblante enquanto dormia. Tocá-lo parecia o mais obscuro dos pecados e você o fazia. Nunca te falaram que não se deve mexer com o que é sagrado?
Você tinha certeza que não.
—x-
Há uma gaiola no fundo de algum lugar.
Tudo que você consegue ver parece com um sonho e você fica feliz, porque a sua vida toda geralmente parece com um pesadelo.
Plumas brancas estão soltas ao chão e a luz daquele vazio lhe incomoda. Não há motivo. Não há lógica.
Você sente que algo certo está sendo feito de uma maneira errada.
Ele está na gaiola.
Suas mãos tocam as barras. Você não consegue entender a dor de estar preso.
Preso a alguém?
Você está na gaiola.
É a primeira vez que você sente medo. As coisas mudaram de cor.
A figura capturada parece diferente do que você vê no espelho. Mas você sabe...
Que ele é você e é mais você do que o seu reflexo.
Você peca. Você se vê de novo preso em um pesadelo.
"Espero que tenha dormido bem!"
—x-
A morte do mundo. Você nunca poderá vê-la.
O barulho do relógio soa como a última coisa que você vai ouvir vivo e, mesmo assim, a sua mão se ergue e você tenta ser puxado por quem quer que fosse.
O pecador que deseja ser salvo.
Como haveriam estrelas se sequer havia céu?
Você finalmente pensou nas mangas puídas da sua blusa e nos dados rolando e no anjo que você matou. Você lembrou das plumas negras e do anjo que você se tornou.
E aquele se tornou o momento em que números ou pesadelos ou dualidades não existiam mais.
O fim da sua vida— aquele era um cenário triste que você podia ter ficado para olhar.
Mas você foi.
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