verde/prata
5 Início, I: Poções
Scorpius/Dominique
Na primeira vez que se encontraram, Scorpius sentiu um desconforto inédito. Ele não sabia identificar aquele sentimento desconhecido e não entendia por que a presença de Delacour tinha aquele efeito sobre ele. Apesar de nunca ter sido tão expansivo e carismático quanto Albus, até então nunca teve problemas em situações sociais ou na presença do sexo oposto.
Mas de alguma forma Dominique lhe deixava nervoso, e por não saber lidar com essa sensação, ele a escondia assumindo uma postura impessoal e distante. Ateve-se ao trabalho que se propusera a fazer, que se resumia em garantir que ela terminaria o ano pronta para uma nova prova. Não falava sobre nenhum tema que não esse, nem fazia comentários que não fossem de aprovação quando ela fazia algo certo, ou correção quando ela errava.
Com o passar do tempo, entretanto, Dominique percebeu que não se incomodava com essa indiferença. Havia estranhado nas primeiras aulas, porque estava acostumada a ser abordada pelos garotos com quem tinha contato. Ainda que muito menos que Victoire, Dominique também era muito parecida com a mãe Fleur, que significava que ela havia herdado sangue veela e uma beleza que não passava despercebida entre os homens, e que lhe rendia elogios não requisitados e convites para quais ela já tinha negativas prontas.
Para sua sorte, o fato de Scorpius não ter demonstrado interesse significava menos distrações, e ela concluiu que não fazia questão de falar sobre banalidades nem entrar em assuntos particulares com ele. Aquelas horas na semana passaram de incômodas para agradáveis, de uma obrigação para um refúgio, onde os únicos sons eram a faca cortando as raízes de asfódelos ou o chiado que a poção do sono fazia quando fervia.
***
— Delacour, você precisa precisa prestar atenção no fogo. — Scorpius advertiu pela terceira vez — Se não diminuir a intensidade assim que as bolhas começarem a surgir nas bordas, a poção vai engrossar novamente.
Dominique suspirou, exasperada, mexendo novamente na fonte de calor abaixo do caldeirão, mas antes que ela pudesse ajustar a temperatura a mistura assumiu um tom escuro de marrom e a consistência foi em questão de segundos de levemente viscosa, como deveria ser, para geléia.
Ela levou as mãos à testa, massageando as têmporas e tentando aliviar a frustração que tomava seu peito. Tinha vontade de arremessar todos os equipamentos e livros que estavam sobre aquela mesa no chão, mas Slughorn havia lhe dito dezenas de vezes nas aulas anteriores que ela precisaria domar seu psicológico e exercitar a paciência se quisesse se tornar uma mestre em Poções.
Ela não queria ser mestre de nada, pensou; uma nota boa uma vez na vida lhe bastaria, mas não expressou isso em voz alta.
Se Scorpius estava sentindo o mesmo que ela, não deixou transparecer. Ele virou a página do livro de volta à anterior, para o começo, onde podia-se ler a lista de ingredientes e quantidades, para que Dominique pudesse separá-los e pesá-los outra vez, mas ao invés disso ela puxou a cadeira mais próxima e sentou-se.
— Não tenho talento para Poções. — confessou, a mesma frase que havia dito a Minerva no começo do ano.
Scorpius se limitou a acenar a varinha para limpar o caldeirão, removendo a poção queimada de Dominique do recipiente. Estava claramente contrariado.
— Besteira. — rebateu com uma irritação evidente na voz — Não existe “talento” quando falamos de Poções.
— Perdão?
Scorpius virou-se para a garota, deixando de lado a raiz que fingia examinar.
— Escuta, Delacour: apesar do que o professor Slughorn implica naquela abordagem duvidosa no ensino de Poções, não tem arte ou misticismo nenhum aqui. Vamos deixar isso para as aulas de Adivinhação, está bem?
Ela levantou as sobrancelhas, surpresa com aquela reação, mas ele continuou:
— Fazer poções é pura técnica. É ser exato nas medidas e proporções, nos tempos e nas temperaturas. Não é preciso nenhum talento nato para ler e seguir as instruções deste livro à risca. Você só precisa de concentração, foco e prática.
Dominique franziu as sobrancelhas, tentando entender se aquilo era um ataque pessoal e absorvendo as colocações do colega. Ela havia percebido durante as últimas horas que a posição de Scorpius era completamente diferente da didática que Slughorn havia aplicado nela nas últimas semanas. O professor tratava as poções quase como organismos vivos, dando instruções subjetivas como “parar de mexer quando a mistura chegar no ponto” (“e qual é o ponto?”, ela retrucava confusa) e incentivando-a a “sentir a força dos ingredientes ao escolhê-los”, que não significava absolutamente nada para Dominique, já que ela não sentia diferença nenhuma entre as duas partes de bicórnio que ele punha em suas mãos.
Scorpius era o contrário, ela observou. Suas ideias eram claras e ele tinha métricas pontuais e objetivas: “a poção fica pronta quando uma película começa a se formar”, ou “só pare de mexer quando o líquido estiver totalmente fosco”.
Precisão nas medidas e proporções, nos tempos e nas temperaturas. Ler e seguir instruções à risca. Concentração. Se ela não pudesse se comprometer pelo menos com aquilo, então era incompetente demais para almejar uma carreira tão desafiadora quanto a do seu pai.
Levantou-se da cadeira em silêncio e ligou novamente o fogo debaixo do caldeirão. Scorpius também se manteve quieto, observando com atenção enquanto ela pesava cada um dos ingredientes e garantia que a quantidade era exatamente igual à indicada no livro.
Desta vez, ele não teve correções a fazer.
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