verde/prata

2 Antes, II: Puro-Sangue


Scorpius

Desde o primeiro momento que sentiu que deveria se preocupar com isso, Draco sempre acreditou que seu filho Scorpius seria sorteado para a Sonserina. Não só porque ele vinha de uma longa linhagem que misturava três famílias puro-sangue — Malfoys, Blacks e Greengrasses — que por tradição pertenciam à casa das serpentes, mas também porque via nele os traços clássicos de personalidade.

Scorpius era uma criança fácil de lidar, calma e muito polida, que sabia manter uma conversa agradável com adultos, sem fatigá-los como os jovens costumam fazer. Ele era educado mas argumentativo, e sempre se mostrou muito determinado quando desejava algo, fosse isso um presente de Natal, extensão do horário do toque de recolher ou autorização para comer algo que não lhe era permitido.

Seu filho também demonstrava algumas características negativas comuns. Scorpius era sim cortês e não tinha prazer nenhum em frente à maldade ou ao sofrimento alheio, mas também não se revelava particularmente gentil nem abnegado. Era individualista e só gostava de ler ou estudar sobre assuntos para os quais conseguia enxergar uma utilidade no futuro

***

Por ter observado com Astoria os sinais desde cedo, o Draco sentiu que deveria preparar Scorpius de forma adequada. Olhando para trás, ele não sentia orgulho do papel que a família Malfoy teve na Primeira e na Segunda Guerra Bruxa. Não queria ser hipócrita em seu novo posicionamento com relação aos trouxas, mas estava determinado a não passar adiante as ideias segregacionistas que cresceu escutando de Lucius.

Draco havia criado um distanciamento de seu pai após sua saída de Hogwarts, e voltou a se aproximar apenas para que Scorpius pudesse crescer com um avô e uma avó, na condição de que não falassem sobre a guerra nem usassem expressões como “sangue-ruim” e “traidor de sangue” perto da criança. Dessa forma e com a ajuda das explicações de seus pais, Scorpius cresceu consciente das injustiças cometidas pelas famílias tradicionais contra os nascidos-trouxas e do papel de Salazar Sonserina nesse preconceito histórico.

Não foi nada inesperado quando Scorpius contou aos pais sobre a decisão do Chapéu Seletor; entretanto, suas sobrancelhas arquearam com a surpresa ao chegar no final da carta, onde Scorpius comentava que já havia feito alguns amigos como Albus Severus Potter, o filho do próprio Harry Potter, que também foi selecionado para a mesma casa.

Os garotos se conheceram e trocaram palavras durante a primeira descida ao Salão Comunal, e se aproximaram de fato quando, na manhã seguinte, Scorpius escutou um colega de sua casa comentando com orgulho durante o café da manhã que, se viesse a ter um filho, jamais permitiria que sua pureza se misturasse com algum sangue sujo.

— Eu não tenho nada contra eles, está bem? — Evan Rosier continuou, dando de ombros — Mas vocês sabem que isso enfraquece a magia.

Scorpius não estava realmente participando daquela conversa, mas não conseguiu se segurar:

— Uau. — ele rolou os olhos, carregando sua voz com desprezo — As nascidas-trouxas e mestiças vão ficar arrasadas quando souberem que não têm chance com o grande Evan Rosier.

Os poucos neurônios na cabeça de Evan pareceram se conectar para captar o sarcasmo na fala. Um tom avermelhado subiu pelo seu rosto.

— O que você está dizendo?

Várias pessoas da mesa nessa altura haviam interrompido suas atividades para observar o que estava acontecendo entre os dois garotos. A tensão escalava rapidamente.

— Estou dizendo — Scorpius falou devagar, como se o garoto do outro lado da mesa fosse uma criança burra — que a comunidade bruxa será melhor se você for estéril.

Evan bateu as duas mãos na mesa e levantou-se de supetão, furioso. Sacou a varinha das vestes e apontou-a para Scorpius. Este, por sua vez, levou a mão ao bolso da varinha também, ainda sentado, mas não tirou-a de lá. Duvidava que aquele imbecil seria capaz de lançar até mesmo um simples feitiço de cócegas.

Ao seu lado, alguém levantou-se e apontou a varinha de volta para Evan.

— Vai andando, Rosier. — Albus Severus interviu, sério — Não quero começar meu dia tendo que azarar você.

Evan olhou de Scorpius para Albus, decidindo que a ameaça do segundo era mais imediata, já que Scorpius nem se prestou a levantar. O momento de silêncio se prolongou enquanto Evan ficava cada vez mais vermelho e raivoso. Sua mão tremia. Do outro lado da mesa, Albus mantinha a varinha no ar, completamente controlado. O conflito estava chamando muita atenção.

— Vocês estão querendo perder pontos para a Sonserina antes mesmo da primeira aula? — uma monitora da casa se aproximou irritada — Abaixem as varinhas antes que algum professor veja essa cena. Vamos, agora!

Albus obedeceu e Evan fez o mesmo em sequência, sem conseguir esconder o alívio em seu rosto ao se livrar do duelo. A monitora o encarou com desprezo.

— Você já terminou seu café. — ela observou, sem dar margem para que ele pensasse que aquilo foi uma pergunta — Vá se arrumar para as aulas.

Evan pareceu querer protestar, mas o olhar incisivo da monitora o fez desistir. Ele virou-se e saiu apressado do Salão Principal, com o rosto abaixado de vergonha. A garota voltou-se para Albus e Scorpius, séria.

— Estou de olho em vocês dois. Não quero saber de confusão, entenderam? — ambos assentiram com a cabeça, rapidamente. Então ela abaixou a voz e conteve um sorrisinho de cumplicidade — Mesmo que seja por um motivo válido.

Deu uma piscadinha discreta e se afastou, deixando os dois garotos do primeiro ano sozinhos. Albus se sentou ao lado de Scorpius, observando-o com mais atenção do que havia feito na noite anterior.

— Isso foi legal. — observou — Você pôs Rosier no lugar dele.

Scorpius deu de ombros.

— Obrigada por me dar cobertura.

Os dois trocaram sorrisos, e ali iniciaram uma grande cumplicidade.