também sobre a alma neva
1 Também sobre a alma neva
Notas iniciais
a neve da alma tem
copos de beijos e cenas
que se fundiram nas sombras
ou na luz de quem as pensa
— federico garcía lorca
vi.
Theon já perdeu a conta de há quantos dias a comitiva de Winterfell havia chegado em terra firme e começado sua jornada até o castelo. Suas pernas doíam depois de tanto tempo sentado em cima do pônei marrom que lhe fora dado, e na parte de dentro de suas coxas algumas bolhas começavam a aparecer aqui e ali, tornando o caminho ainda mais fatigante. E monótono também — tudo ao redor dele era neve; terra coberta por neve, árvores cobertas por neve; montanhas cobertas por neve. Seus olhos doíam de tanto ver a cor branca, que estava até mesmo no manto de seus captores, o fundo branco e o lobo cinzento ao meio — o lobo que saiu da terra do gelo eterno e da solidão para atear fogo em sua casa, para matar seus irmãos e levá-lo pra longe, longe, sem saber que o mar se rebelava com a saída do menino, que as ondas se avultavam em sua fúria e que juravam, juravam, que elas teriam o que era seu.
Lorde Stark só havia falado com ele desde que os dois entraram na galé que os levaria para o Norte. Foi na primeira noite de viagem, e sinceramente, Theon não se lembrava de quase nada, além de Eddard lhe falara algo como não se preocupe, nada vai acontecer com você se seu pai não desafiar o rei.
(theon tinha nove anos e sabia que seu pai não era homem de esperar)
As torres do castelo eram cada vez mais visíveis ao longe. Os homens ao seu lado diziam que até o final do dia eles finalmente estariam em casa — também diziam que nenhum nascido do ferro era um homem de verdade, então Theon não sabia se eles eram lá muito confiáveis. Sem nada para fazer além de seguir os movimentos do pônei embaixo de si, o garoto outra vez começou a imaginar que tipo de vida levaria ali, naquele castelo apavorante, erguido sobre montes e montes de neve e montes e montes de reis de pedra, espreitando no escuro com lobos aos seus pés. Lorde Eddard falara que Theon poderia fazer amizade com seus dois filhos, mas o menino não acreditava muito nisso. Talvez fosse trancado em algum calabouço como ocorria com as crianças das histórias que Maron lhe contava; talvez ninguém nunca mais o visse e ele se tornasse algum tipo de história nas Ilhas de Ferro, aquelas que faziam crianças começarem a tremer de medo. Cuidado, ou o lobo gigante virá levar você assim como ele levou o pequeno príncipe, e quando alguém for procurar por você tudo o que achará serão ossos espalhados pela neve. Theon não treme — não é mais criança. É o que resta dos Greyjoy de Pyke, dos piratas que um dia aterrorizaram toda a costa oeste de Westeros, da Árvore até a Ilha dos Ursos. Theon é a força dos nascidos do ferro, é sua coragem, seu destino — ao menos fora isso o que o pai lhe disse, antes de vê-lo partir. Não deixe que eles domem você, ele diz e sua voz é fria como ferro, fria como seu pai sempre fora. Não deixe que eles domem você, ele repete, quase nos portões de Winterfell. Não deixe que eles domem você.
(a verdade é que theon é o mar — e nada mais)
Surgiu então o barulho das correntes em movimento; o portão de sua nova casa começou a abrir num ritmo quase enlouquecedor de tão devagar — Theon só queria um banho, um jantar e uma cama. Os homens gritavam uns para os outros e festejavam, pediam por banquetes e bebidas e prostitutas enquanto o menino corria as mãos pelo pescoço de seu pônei, assustado com a gritaria. Os portões estavam quase abertos e o coração de Theon apertou frente àquele castelo desconhecido para onde senhoras e senhores que ele não conhecia decidiram que ele deveria ser levado — aprisionado. Se ele fizesse com que seu pônei voltasse naquele exato instante, se ele cavalgasse dia e noite, o mais rápido que podia, será que conseguiria chegar a Porto Branco? Ele rapidamente desistiu dessa linha de pensamento. Morreria de fome e de sede, assim como sua montaria. Os homens de Manderley os pegariam assim que chegassem à cidade. Os Stark, com seus cavalos enormes nascidos para correr na neve, estariam sobre ele em um minuto. Lorde Eddard deu um sinal e a seus homens começam a entrar no castelo. Theon está no meio — impedido de fugir tanto pela frente quanto por trás — e não consegue ver o que está acontecendo no pátio. Ele ouviu murmúrios e risadas, e lembrou-se do dia em que seu pai voltara para casa depois de ter ascendido a rei das Ilhas de Ferro; sua mãe apertava sua mão com tanta força que ele mal sentia o sangue fluindo para os dedos. Ela chorava também, mas secou as lágrimas antes do pai chegar. Soltou a mão do filho e passou a mexer com seus cabelos, quase fazendo com que o menino dormisse ali mesmo — talvez a mãe sempre soubesse de tudo.
— Theon, venha aqui. — Ele ouviu a voz de Lorde Stark por sobre a multidão e fez com que seu pônei passasse pelos homens em sua frente, que começaram a se dispersar. Uns iam para as cozinhas, outros para as tavernas. Theon segurava as rédeas do cavalo com uma força extraordinária, que deixa brancos os nós de seus pequenos dedos. Só esperava não cair quando Eddard lhe pedisse — mandasse — para descer do pônei. Já bastava tudo o que teria que ouvir simplesmente por nascer onde havia nascido; não precisava que ninguém se lembrasse dele como o menino que mal sabia andar a cavalo.
— Este é Theon Greyjoy, herdeiro das Ilhas de Ferro — o homem falou para uma mulher ruiva que segura um bebê no colo, e com a outra mão segura um garoto pequeno pelo ombro, ruivo como ela. Esta deve ser a família de Eddard Stark, a família bonita e unida e perfeita, e não desgarrada como a família de Theon se tornara depois da guerra, não destruída. Lady Stark olhou para ele com uma fúria contida, provavelmente pensando por que meu marido trouxe esse monstro para nós? Eddard lhe contara que sua mulher era um Tully de Correrrio, e até onde Theon sabia, eles odiavam os homens de ferro e com bons motivos.
(e quem não os odiava depois da rebelião?)
Já o menino olhava para ele com curiosidade e um sorriso aberto na boca, exibindo todos os seus dentes. Sem dúvida achava que havia arranjado um novo amigo para brincar, e Theon não podia culpá-lo — sabia como a vida de uma criança dentro do castelo era solitária. Ele ao menos ia todos os dias para a praia e para a vila, brincar com os meninos de lá, que não se importavam se Theon era filho de lorde, príncipe ou mendigo. Aqui não havia nenhuma praia perto, e os pais do garoto não pareciam do tipo que deixavam-no ir para a vila sozinho. Theon sentiu pena dele — esperava um amigo onde seu pai trouxera apenas um prisioneiro.
— Essa é minha mulher, Catelyn, e esses são meus filhos, Robb e Sansa — ele apresentou-os, apontando respectivamente para sua mulher, o menino e o bebê no colo de sua lady. O moreno só assentiu, sem saber o que deveria fazer depois. Nunca foi filho de um lorde menor nas visitas que fizera.
Às ordens do lorde, Theon desceu do pônei. Quase se desequilibrou, mas a neve fofa ajudou-o a não cair. Fez uma reverência na frente da família Stark, como o bom menino — e não bom príncipe — que ele deveria ser a partir dali. Nada mais de coroas e brincadeiras e risadas e ondas. A vida de Theon se transformara num mundo cinza e branco, onde a única cor que ele via era o vermelho dos cabelos de Robb.
— E este é meistre Luwin — Eddard disse quando um velho em robes cinzas se aproximou deles. — Ele vai lhe levar até seus aposentos agora. — O velho deu um pequeno sorriso para Theon e chamou-o com a mão. O menino começou a segui-lo enquanto ele começava o caminho até o quarto (a cela) do protegido.
Atrás de si, ouviu Lady Catelyn chamar o filho, mas não adiantou nada. Robb apareceu ao seu lado, com um sorriso que deixava as covinhas em suas bochechas cheias de sardas ainda mais visíveis. Theon tinha que afastá-lo o quanto antes, tinha que fazê-lo ver que ele não era nenhum amigo, nenhum irmão ou companheiro que havia chegado. Theon era um refém disfarçado de protegido, um menino acorrentado pelos pecados do pai e mais nada. Ele não precisava de alguém ao seu lado para sentir pena dele quando soubesse a verdade. Ele não precisava de ninguém perto dele, e principalmente, ele não precisava da amizade do herdeiro de Winterfell — não deixe que eles domem você.
— Sua mãe está te chamando — ele falou, sem ser grosso. Robb devia ter cinco ou seis anos, o moreno não queria assustá-lo tanto assim. A não ser, é claro, que ele insistisse.
— Eu sei — ele disse com sua voz de criança —, mas eu quero ficar com você. O pai disse que aqui é sua casa agora, então a gente pode brincar na neve depois que o meistre terminar de conversar com você. Eu, você e o Jon, meu irmão. Você vai gostar dele, ele só é meio... Como eu posso dizer? Meistre Luwin, você acha que o Jon está sempre triste?
(não não não winterfell não é minha casa não nunca — eu sou um greyjoy de pyke, das pedras e do mar — winterfell não é minha casa)
— Não, meu pequeno lorde — o meistre disse, sorrindo. — Seu irmão é só um pouco calado. E você deveria obedecer a sua mãe, sabe disso.
— Mas eu não quero que ela leia um livro para mim agora — ele choramingou. — Eu quero brincar com Theon.
— Vai com a sua mãe — Theon sussurrou-lhe, para que o meistre não ouvisse nada. — Eu não sou seu amigo, entende? Não fala comigo, só me deixa sozinho.
— Por quê? — a criança perguntou, sem entender porque alguém não iria querer brincar. Theon suspirou
— O que sua mãe te disse antes de você correr atrás de mim? — Quando viu a criança relutar na resposta, ele continuou. — Responde logo.
— Ela disse que eu não deveria ficar perto de você porque talvez você vá embora — ele contou. — Mas eu não me importo! E você também não tem que se importar com o que ela diz. O pai não vai te mandar embora, eu sei.
Ele também era ingênuo assim quando era uma criança? Talvez fosse por isso que Rodrik e Maron nunca foram bons irmãos para ele.
— Ela está certa, sabia? Você devia ficar longe de mim — ele disse e suspirou. Por mais que seu orgulho falasse alto, a perspectiva de ficar sozinho para o resto da vida doía. Só não podia deixar que os nortenhos vissem seus olhos cheios de lágrimas.
— Não devia nada — ele sussurrou contrariado. Dois segundos se passaram e ele pareceu se esquecer de tudo o que Theon havia falado. — Você vai brincar com a gente?
— Não, já disse — o moreno respondeu, seco, e fechou as mãos em punhos. Ao ver a carinha de cachorro perdido do ruivo, ele suspirou outra vez. — Eu fico com você, mas não vou brincar de nada.
— Então eu e Jon vamos jogar bolas de neve em você até você decidir parar de ser chato. É sua casa, você tem que brincar. — Sorriu mais uma vez, e Theon pensou que talvez não fizesse mal nenhum brincar com ele pelo menos uma vez, só para deixá-lo feliz.
(a verdade é que ele achou as covinhas em suas bochechas muito bonitinhas)
— Vocês podem tentar.
v.
Theon passava os dias dentro de seu quarto, debaixo de inúmeras peles que ainda assim não o aquecem. Ele tremia de frio em pleno verão e sonhava com Pyke e seus banhos de sol ao lado da irmã, deitados na areia onde o mar vinha lamber seus pés. Até então já se passaram duas luas e ele ainda não havia recebido nenhuma carta ou bilhete ou notícia alguma de sua família, da mãe que ele deixou caída chorando no cais enquanto era arrastado para dentro do navio que o levaria embora; da irmã que, de braços cruzados e punhos fechados, virou a cabeça para o lado para esconder as lágrimas que enchiam seus olhos castanhos, tão diferentes dos olhos verdes de Theon — olhos de criança assustada que tenta fugir do destino que está por vir; do pai que olhava fixamente para ele, como que se dissesse seja um nascido do ferro agora, Theon, do pai que olhava e parecia não sofrer. Theon esperava pelas cartas que sabia que nunca chegariam, pelo navio que nunca viria buscá-lo.
Quando ele saía do quarto, era apenas para o banho e para o jantar, e até este último ele preferia fazer em seu quarto. Ouvir os nortenhos contando e recontando exatamente como suas espadas atravessavam as cabeças dos homens de seu pai dava-lhe ânsia de vômito. Ouvi-los sussurrando sobre as mulheres que haviam estuprado fazia Theon querer correr de volta ao seu quarto e se esconder debaixo das cobertas por quantos anos fossem necessários para que eles não tocassem mais nesse assunto — nunca mais. Às vezes Robb ia até seu quarto e batia na porta uma duas três vezes antes que o moreno se rendesse e abrisse, com um suspiro exagerado que fazia o pequeno dar risada. Os dois então iam saiam do castelo, para brincar ou para treinar com as espadas de madeira, sempre na presente de Rodrik Cassel, o mestre de armas de Winterfell. Theon não gostava de espadas, não conseguia segurá-las direito nem golpear com força. No sétimo dia de seu nome, Dagmar Boca-Rachada lhe dera um arco feito de madeira de teixo e o levou para a praia a fim de ensiná-lo como acertar uma gaivota em pleno voo. Depois de quase uma tarde inteira, havia apenas um pássaro caído aos seus pés, mas Dagmer sorria para ele — sua cicatriz macabra fazendo com que ele parecesse ter saído de uma história de terror — como se ele não tivesse desperdiçado nenhuma flecha sequer.
(theon nunca mais treinou com outra arma)
Nunca viu ninguém treinando com arcos e flechas em Winterfell, só espadas e maças e machados — tudo menos arcos. Talvez compartilhassem a opinião de seu pai de que homens de verdade ficam no meio da batalha, e não escondidos sobre as colinas. Até Robb sabia usar uma espada, assim como seu irmão bastardo, Jon — Theon não gostava dele e não se importava em saber o porquê. Os dois ficavam brincando, correndo um atrás do outro, enquanto Theon se ocupava em golpear os espantalhos, torcendo para que não acabasse machucando seus dedos mais uma vez. Só não sabia que Robb o observava às vezes, escondido dentro do depósito de armas.
— Você não gosta de espadas? — ele um dia perguntou, enquanto Theon estava concentrado demais para perceber que havia alguém atrás dele. Pego de surpresa, deixou a espada cair sobre os pés.
— O que você está fazendo aqui? — Ele esperava melhorar um pouco antes que Robb o visse treinando. Não queria que ninguém soubesse o fracasso que era, ou o tratariam como o pai o tratava em Pyke, como um filho inútil que ele nem sabia porque havia nascido.
— Eu estava brincando com Sansa, ora. Ele gosta de ser a princesa e eu o cavaleiro — ele disse e sorriu, como se nada o fizesse mais feliz do que divertir a pequena irmã. — Mas você sempre fica aqui sozinho, e você sempre machuca os dedos antes de ir embora. — Apontou para a mão do maior, que tinha os nós dos dedos roxos e inchados. — Por que você não pede pro Rodrik te ajudar, huh?
porque sou um nascido do ferro e nascidos do ferro não pedem nada a ninguém.
— Porque eu consigo aprender sozinho. Só estava acostumado a usar um arco e flecha, é isso. — Robb olhou para ele maravilhado, e Theon não entendeu o motivo. Certamente ele teve ao menos uma aula de arco e flecha.
— Você usa arco e flecha? Sério, Theon? Me ensina, por favor por favor — ele juntou as mãos como se estivesse fazendo uma prece. — Rodrik sempre diz que eu tenho que aprender a usar uma espada primeiro, mas arcos são tão legais. — Ele até mesmo fez um beicinho com os lábios, e não esperou a resposta de Theon antes de arrastá-lo até o arsenal para pegar um arco e algumas flechas. Depois levou-o até um canto do pátio, não tão afastado quanto o que o moreno estava antes, e ficou olhando para ele, na expectativa de algo.
— O que é? — Theon perguntou.
— Me ensina! — Robb falou alto, chamando a atenção dos homens que treinavam ali. Sem saída, o protegido suspirou e desistiu da resistência.
Começou ensinando ao menino como segurar um arco do jeito certo; como descobrir seu olho dominante, como deixar suas costas eretas, em que posição deixar as pernas, até onde erguer o arco antes de puxar a flecha. Robb fazia tudo muito excitado, e graças a isso, muitas vezes errado. Theon sempre tinha que consertar alguma coisa, desde os joelhos muito esticados até os dedos que seguravam a flecha. Relaxe os ombros, isso muito bem, agora não deixa o braço tremer. Vários dos guardas olhavam para os dois agora, mas Theon só se preocupava com o menino a sua frente.
— Agora atira — ele disse devagar, para não assustar Robb e fazer com que ele saísse da posição. O menino relaxou os dedos, mas seu braço vacilou na hora, o que fez com que a flecha caísse no chão, antes mesmo do alvo. Ele bufou, irritado. Theon sabia como não deixar que ele desistisse.
— Foi um bom tiro, para um novato. Melhor do que o meu primeiro, com certeza — ele mentiu. O ruivo nunca descobriria mesmo, e o sorriso que apareceu em seu rosto valeu a pena.
— Posso tentar sozinho dessa vez? — ele perguntou e Theon apenas acenou com a cabeça, andando um pouco para o lado.
(de uma das janelas do castelo, lady catelyn assistia os dois e balançava a cabeça, inconsolável)
Depois de outras cinco tentativas sem sucesso, Rodrik Cassel foi até eles, parabenizar Robb por estar tentando aprender algo novo.
— Theon está me ensinando! — ele se apressou em dizer, animado. O mestre de armas ainda olhou de soslaio para o protegido dos Stark antes de bagunçar os cabelos de Robb e se dirigir ao castelo. — Eu acho que ele não gosta de você — ele confessou, baixinho, quando Rodrik já estava longe dos dois. Falara isso como se fosse algo digno de espanto.
— Um monte de pessoas aqui não gostam de mim — ao que o Stark tentou refutar, ele logo continuou. — Você é só uma criança, Robb. Ainda não entende o que está acontecendo. — ainda não entende o que é ser um refém, o que é ser arrancado da sua casa para esperar o dia em que uma espada vai descer sobre o seu pescoço.
— Eu não sou uma criança! E Rodrik gosta de todos os meus irmãos, ele deveria gostar de você também! Isso não é justo. — Robb era uma criança sim, uma criança das terras verdes e uma criança de verão que ainda acreditava em justiça. Theon não acreditava mais nisso, não depois que acordou e viu o mar em chamas pela janela de seu quarto.
— Eu não sou seu irmão — ele disse, num tom que finalizava a conversa. Robb pôs as mãos sobre as orelhas e começou a cantarolar. — Para de ser inocente! Eu nem sei porque decidi te ensinar. — Se virou para voltar a treinar com a espada de madeira, mesmo com seus dedos inchados e doloridos.
— Você fez isso porque você é meu irmão! — Robb gritou em plenos pulmões. — Porque essa é a sua casa, mesmo que você não queira que ela seja! Se você mora aqui agora, se você come com a gente na mesa como você pode ser de outro lugar? — Seus olhos estavam cheios de lágrimas e Theon abaixou a cabeça, culpado. Robb tinha só seis anos, ele não podia esquecer-se disso. Robb tinha seis anos e tudo o que ele conhecia era a neve, nunca tinha visto o mar e toda a sua glória, as ondas chegando à beira da praia e carregando milhares de conchas com elas. — Por que você não gosta da gente? — ele perguntou, quase chorando.
Theon virou-se para Robb outra vez e abaixou até ficar da sua altura. Pôs as mãos nos ombros do menino, que tremiam — de tristeza ou de raiva, ele não sabia. Como ele explicaria para uma criança que o pai dela poderia lhe matar a qualquer momento, bastando apenas uma mera carta para acabar com sua vida?
— Eu gosto de vocês, está bem? — mentiu outra vez. Só gostava de Robb, e da menina Sansa também, com seus sonhos de princesa e seus incansáveis pedidos para que Theon lhe cantasse músicas sobre sereias antes de dormir. — Mas eu não sou daqui, entende? Eu sou do mar, Robb. Você nunca viu o mar. — você nunca viu água te cercando por todos os lados, água cristalina cintilando à luz do sol. Quando Robb franziu as sobrancelhas, Theon explicou. — É água, bastante água. Não tem como te explicar assim — ele riu. — Mas eu prometo que te explico tudo depois, certo? — ele disse, secando a trilha das lágrimas que correram pelas bochechas do menino.
— Eu ainda vou fazer você entender que sua casa é aqui.
— Eu vou ficar esperando para ver. — Robb sorri com o canto da boca, e seus olhos se voltam até o arco que ele deixou caído no chão. — Você quer que eu te ensine mais um pouco? — o Stark acena, abrindo um sorriso ainda maior e Theon sorri ao ver as duas covinhas naquele rosto tão cheio de sardas. — Pega o arco, então. Só vou parar quando você acertar no meio do alvo.
Os dois tinham um longo caminho a seguir.
iv.
Theon tem 17 anos. Robb tem 12 — e sabe manejar um arco e flecha sem passar vergonha. Mas os cinco anos de diferença entre suas idades nunca foram problema para os dois, contrariando as preces mais fervorosas de Catelyn Stark. Oito anos se passaram desde o dia em que Theon chegou à Winterfell, e para ele não mudou desde então — todos continuam frios como a neve que circunda o castelo, nenhuma carta das Ilhas chegou, Robb é o único que percebe que ele existe. Lady Catelyn o trata com o mesmo desprezo com que trata o bastardo Jon Snow, que por sua vez parece odiar o protegido do pai pela simples inveja de seu sangue nobre — ou talvez eles disputem pela afeição do herdeiro Stark, mas não querem dar o braço a torcer. Lorde Eddard é tão distante quanto a mulher, quiçá porque sabe que um dia será a sua espada que cortará a cabeça do filho de Balon Greyjoy. As outras crianças são novas demais para ver além dos sorrisos falsos de Theon, de suas risadas exageradas e palavras chulas e olhos de um verde tão profundo quanto o mar — Rickon é o único que gosta dele, e como Robb, tem a mania de chamá-lo de irmão. Mas Rickon é só um bebê, como Robb fora no início, e vai esquecê-lo logo. Sua mãe sussurrará em seus ouvidos fique longe dele e o menino, que não é determinado como o irmão mais velho — ninguém é —, vai obedecer, como fizeram todos os outros.
No escuro da noite, quando os dois estão na mesma cama — Theon sente um frio imenso desde a raiz do cabelo até a ponta dos dedos do pé, e só o calor de Robb (o calor de seus cabelos vermelhos e seu rosto cheio de sardas) é capaz de fazê-lo dormir nas noites mais frias —, o moreno sussurra obrigado pela teimosia porque Robb é tudo o que ele tem em meio às árvores sombrias de Winterfell, à neve que nunca derrete no pico das montanhas e o ar gélido que entra em seus pulmões, machucando-o e tirando cada vez mais o sal do seu sangue, o sal que entra em seus ossos e os faz cantar nascido do ferro. As lembranças de Pyke vão sendo cada vez mais soterradas pela neve e no meio de tudo isso, tudo o que ele tem é Robb.
— Theon, está tudo bem? Você acabou de errar outra flecha — a voz de Robb tirou-o de seus devaneios, o que sempre acontecia alguma hora do dia. Os dois estavam na Mata de Lobos, um pouco separados do grupo principal, composto pelo pessoal de Winterfell e mais alguns visitantes vindos de Hornwood, juntamente com Lorde Halys Hornwood, para assinarem alguns acordos e outras coisas as quais Theon não prestou atenção, mas tem certeza de que Robb sabe. A caçada já se estendia pela tarde e ainda assim, tudo o que o protegido conseguira acertar foram duas lebres.
O ruivo tentou levá-lo para um lugar mais afastado — Theon sempre ficava nervoso quando havia muitos nortenhos num lugar só, por mais que ele tentasse disfarçar — mas o humor do moreno só piorara. Vez ou outra ele ficava estranho desse jeito quando perto de Robb, como se quisesse fugir dali mas temesse magoar o amigo, e o Stark, com seus 12 anos, não sabia como lidar com isso.
— Claro que está tudo bem, Stark — ele respondeu alguns segundos depois, e deu risada. — Só estou deixando você acertar mais para sua mãe não achar que é um caçador tão ruim quanto parece. — Arqueou a sobrancelha e sorriu, para fazer seu disfarce parecer mais real. Robb tinha 12 anos mas não era burro, e depois de ser o melhor amigo de Theon por oito anos, ele já sabia escutar as diferenças em seu tom de voz, no jeito com o qual ajeita os cabelos quando está nervoso. A armadura que o moreno criou em volta de si é inútil para Robb, que sabe dizer se ele está bem ou mal pelo jeito com que segura o arco antes de soltar a flecha. E se tem algo que diga mais sobre Theon do que qualquer outra é isso: ele só sorri quando está mentindo.
(quando ele está sendo sincero, seu sorriso é tímido, quase inexistente — é meio como se theon tivesse medo de dizer a verdade, de deixar alguém perceber o que ele realmente é)
— E sabe o que mais? Vou provar pra você. — Ele saiu andando na frente, com os passos leves e quase inaudíveis que tinha. Robb ia atrás dele bem mais devagar, tomando cuidado para não esbarrar em árvore alguma e assustar alguma presa que estivesse por perto.
Os dois logo encontraram um cervo pastando, procurando algum lugar que não estivesse cheio de neve para poder se alimentar. Theon levantou a mão, sinalizando para que Robb não se mexesse mais, antes que ele fizesse algum ruído. Afastou um pouco os pés e com as costas relaxadas, levantou o arco com as costas relaxadas — e o ruivo não conseguia tirar seu olhar dele, dos braços segurando a corda do arco enquanto respirava devagar, inspirando e expirando, cada batida do coração dele uma batida do coração do animal prestes a morrer em sua frente. Esperou até que o cervo achasse um bom lugar antes de soltar a flecha, com um movimento quase imperceptível de seus dedos. Seu braço não vacilou ou balançou, como o Stark frequentemente fazia, nem antecipou o tiro por um segundo sequer — há poucas coisas na vida que Robb acha mais bonitas que Theon atirando uma flecha.
(há poucas coisas mais bonitas que theon, ele pensa, e verdade seja dita, ele não consegue mais esconder o rubor em suas bochechas quando encara os olhos verdes de theon por tempo demais
theon apenas ri — acha que robb fica vermelho por causa das histórias que está contando, e robb não faz questão de esclarecer o assunto)
O animal nem tem tempo de levantar a cabeça: está caído no chão menos de um segundo depois, e Theon já está correndo até ele com Robb em seu encalço. — É assim que se mata, está vendo? — ele disse, convencido. — Uma flecha no pescoço, que não vai estragar a carne. Agora me ajude a arrastá-lo até o cavalo. — E os dois vão, um pouco devagar, mas ainda assim. Jogam a carcaça sobre um dos cavalos e decidem cavalgar o outro juntos, mesmo brigando um pouco sobre quem iria guiar. Robb ganha a discussão com um simples argumento: eu sou o herdeiro e não ficaria bonito para meus futuros vassalos me verem sendo guiado por você, mas quando percebe o que falou é tarde demais. Os olhos de Theon dizem tudo, e mais uma vez aquela sorriso que Robb tanto odeia volta a aparecer em seus lábios.
— Você está certo — é a única coisa que ele diz, antes de subir no lombo do cavalo.
(theon passa o resto do caminho sem falar uma palavra)
Ele vai sozinho até seu quarto quando todos chegam ao castelo. Robb tenta segui-lo, pedir desculpas de alguma maneira, mas é tudo em vão. Theon diz me deixa sozinho naquele tom que o ruivo conhece bem, aquele tom que ele detesta ouvir mas parece ser o único que se importa, o único que se importa se Theon se sente bem e se ele está feliz e se ele está respirando e se ele não decidiu passar o dia trancado no quarto outra vez e se ele não aperta o peito porque sente falta do cheiro de maresia permeando o ar. Robb é o único que se importa, mas ele tem apenas 12 anos e às vezes ele esquece — Theon é seu refém.
Ele continua quieto, mesmo no banquete, algumas horas depois. Conseguiu esquivar-se de Robb tanto na hora do banho quanto na entrada ao salão, aparecendo só alguns minutos depois, com o hálito já forte de vinho. Ele sentou-se o mais longe da família Stark quanto possível e Robb esperou que as honras aos visitantes acabassem para ir atrás dele, para sentar ao seu lado e fazê-lo entender de uma vez que ele não quis dizer aquilo, ele não quis magoá-lo não nunca. Theon é seu melhor amigo é seu irmão de alma é o rosto que deixa-o acordado a noite, sem saber o que fazer com a puberdade que o atinge como os mamutes esquecidos das histórias da Velha Ama, como olhos tão verdes quanto o mar que ele só conhece por histórias, verdes como as florestas por onde eles caçam, sozinhos, com Robb tentando abafar o som das batidas do seu coração em meio ao silêncio inexorável que paira no ar — os cabelos negros de Theon brilham sob a luz que atravessa os pinheiros do norte.
Ele tentou consertar tudo outra vez, e quando o cervo que o protegido caçou chegou, não hesitou em responder em alto e bom tom a aqueles que perguntavam que havia abatido o animal. Foi Theon Greyjoy, meu lorde, é claro. Ele é o melhor caçador de Winterfell, sim, é verdade. Sabe que Theon ouve porque ele está ali, do seu lado, e alguns lordes até mesmo o elogiam pela proeza. Quando os homens ao seu redor já estão bêbados de mais para reparar em algo que não as mulheres em seu colo, Theon agarra sua mão por baixo da mesa. Ele a aperta por três segundos, como que para dizer tudo bem, você pode parar agora e sorri — um sorriso sincero que ilumina seus olhos como um milhão de luzes debaixo do mar.
iii.
O dia amanheceu escuro como se fosse o inverno das histórias que a Velha Ama ainda contava para Arya, Bran e Rickon antes que os três fossem dormir. Mau presságio, ela dizia, e Theon se sentia tentado a concordar. Há alguns dias pairava um ar pesado sobre Winterfell, principalmente em relação a ele — era como se fosse o último a saber de um segredo qualquer. As meninas da cozinha olhavam para ele como se fosse a última vez que o veriam; os guardas o encaravam com um misto de escárnio e piedade que o deixava com vontade louca de ataca-los ao menor sinal de riso; Robb conversava com ele olhando para o chão — e essa com certeza era a pior de todas as coisas. Robb sabia, é claro, seu pai teria lhe contado assim que a carta chegou ao castelo, seu pai teria lhe dito que ele sempre soube que isso aconteceria. Fique longe dele, sua mãe lhe disse há dez anos e talvez ele devesse tê-la ouvido. Theon suspeitava o que estava acontecendo, mas era orgulhoso demais (medroso demais) para perguntar sobre o próprio destino. Em seus sonhos, via dracares deixando Fidelporto em direção às terras verdes, à riqueza e à conquista. Via seu pai riscando o nome do filho dos livros da família, via o rei Robert escrevendo uma única palavra na carta endereçada à fortaleza do Norte.
(mate-o)
Mas Robb não lhe dizia nada, por mais insinuações que ele desse. Então Theon não dormia durante a noite, passava a madrugada tremendo debaixo das peles como o menino de nove anos que um dia fora, mas não se rendia à tentação de ir ao quarto do ruivo, não até que ele lhe contasse tudo, cada palavra que Lorde Stark havia lhe dito. Talvez os preparativos para sua execução já estivessem sendo feitos enquanto ele olhava para as pedras no teto de seu pequeno quarto — seria ele morto na frente de todos no castelo ou levariam-no para um lugar mais afastado? Lorde Eddard obrigaria seus filhos a assistirem? Sabia que nem mesmo Jon ficaria feliz ao vê-lo perder a cabeça, quanto mais o pequeno Bran. Quanto mais Robb, com seu rosto repleto de sardas e sua boca cheia de segredos — 14 anos de músculos cada vez maiores sobre os braços, enquanto Theon ainda achava os seus um tanto quanto finos para um homem de ferro. Robb até mesmo já era mais alto que ele. Mais alto, mais forte, mais bonito — mais tudo. Robb era um Stark, filho da neve e da mata e do inverno. Robb pintava o rosto com sangue quando caçava, balançava a cabeça em alegria quando acabava bebendo de mais e seus cabelos reluziam e reluziam como fogo crepitando na lareira, vermelho cor de sangue e de vitória e de amanhã.
(theon era um greyjoy — ele era bom com arcos e flechas e com o mar e só)
Decidiu não levantar para quebrar o jejum. A ansiedade o deixava sem fome e, além do mais, não aguentava mais o olhar de Lady Stark sobre ele, quase gritando você não devia ter chegado perto dos meus filhos e Theon não devia mesmo, sabia disso. Será que Robb derramaria lágrimas depois que a cabeça do melhor amigo rolasse pelo pátio de Winterfell — será que Robb por favor por favor levaria seu corpo para o mar? Se existisse algum Deus Afogado debaixo das águas, ele provavelmente não aceitaria o protegido em seu banquete. As sereias são para os homens de ferro, seu pai sempre lhe disse, e agora Theon era um pouco nortenho também, por mais que doesse admitir. Por mais que seus ossos continuassem cantando nascido do ferro todas as noites, a neve que nunca para de cair acima do Gargalo acabou entrando em sua alma, por mais que ele tentasse resistir. Era melhor não esperar nenhum banquete ou sereias depois da morte — só o balançar das ondas azuis já bastaria.
Saiu debaixo das peles apenas para reacender o fogo, que tinha apagado enquanto dormia, deixando o quarto frio como as criptas que ele já cansara de explorar com Robb. Sempre quis ir até os últimos níveis, mas o ruivo tinha medo do que poderia estar lá — só tem gente morta, Theon lhe dizia, mas sentia que havia muito mais mistérios escondidos sobre pedras e pedras, embaixo das tumbas dos antigos reis do norte. Mas não iria lá sozinho, ou a temperatura congelaria seus ossos. O fogo lhe lembrou outra vez dos cabelos do amigo, mas ele respirou fundo uma duas três vezes e fechou os olhos, esperando que a imagem fosse embora de sua mente. Sabia que Robb não era como os homens da Vila de Inverno, não era alguém com quem ele podia transar e depois agir normalmente ao seu lado — gostava de sentir o calor de Robb em suas costas quando os dois dormiam juntos, gostava de ver seu sorriso quando Theon lhe contava qualquer piada, por pior que fosse. Escondia-se no canto das janelas para observá-lo, no pátio, treinando com uma espada de madeira enquanto o suor lhe escorria pelo rosto e ele sorria e sorria, como se a vida fosse apenas isso, como se não estivesse treinando para o dia em que realmente precisasse cortar a garganta de alguém, atravessar o peito de um homem com uma espada até sentir o coração parar de bater. E então ele só sorriria no silêncio, no escuro do quarto — seu sorriso seria uma pequena chama em meio ao gélido ar da noite, agraciando a boca que Theon nunca poderia beijar.
Ouviu três batidas na porta e esperou quieto, sem mexer um músculo. Pensou que era Rickon, com certeza ansioso para que o protegido lhe contasse outra história sobre sereias e monstros marinhos. Trinta segundos se passaram para que voltassem a bater na porta e dessa vez, uma voz veio depois, clara como a água do mar nas Ilhas de Ferro.
— Theon? — era Robb, com sua mania terrível de aparecer justamente quando o moreno estava pensando nele. — Você está acordado?
Ele queria continuar sozinho em seu quarto, sonhando com o mar e com Robb e com beijos roubados debaixo da árvore-coração, jura. Ele queria apenas deitar na cama outra vez, ouvir o crepitar do fogo vermelho como os cabelos dele enquanto tenta esquecer que só tem mais alguns dias para viver. Mas ele não consegue, nunca conseguiu. A voz de ruivo continua chamando-o mesmo no silêncio, ecoando dentro de sua cabeça (theon theon theon) e ele pensou em como as letras rodaram pela língua do ruivo antes de formarem seu nome, pensou nele encostado na porta, a espera de um ruído mínimo, porque o Stark sabia que ele estava ali e não adianta se esconder agora — nunca adiantou. Mas Robb é educado de mais para gritar isso aos sete ventos, é temeroso de mais para falar o que vem do coração.
(ele está escutando a respiração de theon do lado de fora do quarto — escutando as batidas do coração que bate em sintonia com o seu)
Derrotado, o protegido levantou e caminhou em direção à porta, com o cobertor que jogara sobre o ombro arrastando pelo chão. Abriu-a para dar de cara com as feições preocupadas do amigo, que já tinha a mão levantada para bater na porta uma terceira vez.
— Você vai machucar a boca desse jeito — ele disse, num tom monótono, e apontou para o canto do lábio que o ruivo mordia, como sempre fazia quando começava a ficar aflito. Ele era cheio de pequenas manias, mas Theon nunca reclamara de nenhuma delas. Ao contrário, sabia cada uma delas, de tanto observá-lo do canto de seus olhos verdes.
Robb imediatamente soltou o lábio e corou de leve — era o que sempre acontecia quando descobria que alguém tinha percebido uma mania sua.
— Você não desceu para o desjejum. — Seu tom de voz era repreensivo, como se ele tentasse ser a mãe que o moreno não via há dez anos. Talvez ele tivesse voltado a ser uma criança birrenta sem nem ao menos perceber o que estava acontecendo, ou talvez tivesse apenas se fechado demais nos últimos dias, esperando Lorde Stark bater em sua porta para levá-lo ao lugar em que seria executado.
— Não estava com fome.
— Você sempre acorda com fome.
Theon suspirou. De que adiantava falar com Robb quando ele se recusava a lhe dizer o que estava acontecendo? Ele não podia despejar todas as inseguranças sobre ele, não podia segurá-lo pela camisa e gritar eu tenho medo de morrer sem se sentir um inútil, um verdadeiro homem das terras verdes que mal consegue impedir que as lágrimas lhe venham aos olhos. Robb era o único em todo o mundo com quem Theon se sentia livre, seguro para agir como quisesse sem julgamentos e sem violência, apenas com um riso nos lábios e brilho nos olhos. Mas sempre há aquilo que permanece escondido, aquilo que atormenta e que machuca e que mata aos poucos, mata congelando suas veias a cada dia que passa. Theon é apenas uma criança de verão e também o é Robb, mas o moreno tem mais mistérios guardados dentro de si do que qualquer um que ele já conhecera.
Então ele sorriu, como sempre fazia quando mentia, quando matava mais um pequeno pedaço de si mesmo escondendo o que queria dizer. Ele sorriu e Robb sabia — sabia! — que algo estava errado, que aquele sorriso significava problema, significava longas noites acordado pensando em tudo o que não era.
— O que você quer? — porque eu quero que você saia daqui, robb stark. Eu quero que você continue com sua vida perfeita e me esqueça, me deixa morrer em paz. Colocou o corpo entre Robb e seu quarto, num claro sinal de que não queria ele ali. — Eu estou bem, Robb. Não precisa se preocupar, mais tarde eu vou descer.
— Eu vim te trazer isso — ele disse e apontou com o queixo para a bandeja que trazia em uma das mãos, a qual Theon nem vira com sua pressa de fazê-lo ir embora. Era seu desjejum que o ruivo havia trazido, apenas um pouco de pão que acabara de sair do forno, ovos e duas fatias de bacon, além de uma taça que provavelmente estava cheio de vinho ou da cerveja preta que o moreno adorava. — E vim conversar com você também, então é melhor desencostar daí e me deixar entrar. — Será que se ele respondesse sim, meu lorde o Stark perceberia o quanto doía quando ele fazia de suas palavras uma ordem que Theon sabia não poder recusar?
— Sabe que não precisava fazer isso — ele disse, se referindo à comida. Desbloqueou o caminho e sentou-se de qualquer jeito sobre a cama, enrolando-se com o cobertor como se estivesse num casulo. O frio que viera dos corredores enquanto a porta ficara aberta deixou suas mãos geladas e a ponta de seu nariz já estava um pouco vermelha.— É, eu sei. Posso pegar outra coberta pra você, se estiver com frio.
— Theon preferia que ele parasse de agir desse jeito e falasse logo o que queria conversar, mas o ruivo continuava calmo. Pareceu demorar uma eternidade para colocar a bandeja na mesa ao lado da cama.— Não preciso de nada, mãe.
— Mas ele olhou para baixo enquanto falava, porque mentir para Robb é cansativo. Mas é claro que ele estava com frio, está nevando lá fora, robb.
E machuca.
— Tem certeza? Porque eu mal te vejo mais. Você passa o tempo todo escondido aqui, não sai mais para treinar ou para beber e nem mesmo para flertar com as moças da cozinha. — E isso não era bom? Robb sempre ficava emburrado quando descobria que Theon estava correndo atrás de outra garota. — Tem algo errado com você.
— Dá pra parar de agir desse jeito. Você sabe muito bem o que está acontecendo. — Ele só queria que tudo isso acabasse, só queria que a vida voltasse ao seu normal onde ele era um refém mas seu pai o amava. Seu pai o amava e não iria deixá-lo morrer. — Eu cansei de ouvir as pessoas me olhando como se eu fosse um cachorro abandonado, entende? Dez anos, Robb. Eu sou um maldito refém há dez anos e você não consegue entender isso.
(eu estou cansado e tem um grito dentro do meu peito que cansou de ser sufocado)
— Você é o protegido do meu— Robb começou a falar, mas Theon o interrompeu antes que ele conseguisse convencê-lo de que tudo estava bem outra vez.
— Protegidos não perdem a cabeça quando os pais deles quebram tratados, Robb. Eu nunca fui seu protegido, nunca! Acha que seu pai não teria me matado no mesmo dia que cheguei aqui se o rei ordenasse? — acha que ele me acolheria como um filho perdido, acha que ele desafiaria o rei por mim, um nascido do ferro? acha que alguém faria alguma coisa por mim? ele queria gritar também, queria tanto tanto mas Robb está olhando para ele como se não o reconhecesse, como se não soubesse que a vida de Theon depende dos caprichos de uns tantos lordes e de um pai que nunca lhe mandara uma carta sequer desde que o empurrou até a galé nortenha que se encarregou de levá-lo.
Mas ele não vai chorar, não na frente de Robb, de jeito nenhum. Ele tem talvez uma semana de vida e ao menos nela vai ser um homem de ferro como seu pai queria que ele fosse, para depois de morto poder assombrá-lo durante a noite e mostrar o quanto ele fez o filho sofrer por uma coroa de madeira podre e tradições tão velhas como a lenda de Nagga.
você sentiu falta de mim, pai? eu voltei só para te ver, sussurraria com o sangue escorrendo por seu pescoço onde Gelo separou sua cabeça do corpo — isso se houvesse algo após a morte.
— Theon, você não vai morrer. — Robb colocou as duas mãos no rosto do moreno, fazendo com que ele o encarasse. — Você não vai morrer.
— Por acaso você tem um plano de fuga para mim, é isso? — ele daria risada se ao menos conseguisse respirar direito por sobre o estresse. — Pelo Deus, Stark, como você é ingênuo. — talvez eu devesse te beijar para ver se você entende que na vida nada acontece do jeito que a gente quer.
— Não, é você que não está entendendo. Respira fundo, Theon. — Ele falava como se entendesse do assunto, como se ficasse cara a cara com a morte todos os dias e Theon queria esganá-lo. Mas Robb tinha o rosto cheio de sardas e covinhas em suas bochechas e sua voz era calma e segura e seus dedos traçavam círculos nas têmporas de Theon, fazendo com que seu coração diminuísse um pouco o ritmo. — Seu pai não quebrou tratado nenhum.
— Então porque todo mundo me olha como se eu fosse morrer amanhã? — ele perguntou, mesmo com um nó se formando em sua garganta. Não sabia que era de alívio porque seu pai não havia feito nada ou se era de dor porque sabia que ele não manteria o acordo por muito tempo.
— Mandaram uma carta para o meu pai e... Bem, havia alguns dracares fazendo pilhagem pelas Terras Fluviais e eles tinham a bandeira dos Greyjoys hasteada em seus mastros mas eles não são homens de ferro, está bem? Theon, respira. — theon não chora não chora. — Foram homens das Ilhas de Verão que roubaram os navios, só isso. Lorde Mallister já os prendeu em seu calabouço, a carta que ele enviou para o pai acabou de chegar.
Mas Theon já estava não conseguia mais prestar atenção no que ele dizia. Só sentiu Robb o abraçando, colocando os braços por baixo de seu casulo de cobertas e trazendo-o para si, colocando a cabeça do moreno no espaço entre o queixo e o ombro do ruivo. Robb tinha sardas até no pescoço, e a essa distância ele podia contá-las se quisesse, mas duvidava que sua mente conseguisse chegar até o cinco. Concentrou-se na voz do ruivo, que continuava embalando-o como uma cantiga de ninar. você não vai morrer, theon.
Ele não sabe quantos minutos passou encostado no peito do outro, sentindo o coração dele bater de encontro ao seu. Uma trilha de lágrimas havia descido por seu rosto, mas já era tarde para escondê-la — e Robb não o julgaria, nunca. Robb apenas limparia as lágrimas com seus dedos calejados de tanto treinar e ficaria em silêncio, esperando que Theon se recuperasse antes de falar algo. E ele não queria falar nada. Falar significaria que ele estava melhor e então teria que levantar e se portar como um homem, teria que deixar a visão das sardas no pescoço de Robb para um outro dia que nunca chegaria.
— Você nem comeu o desjejum que eu trouxe. Olha isso, agora já está frio — o Stark disse e riu, ainda massageando o couro cabeludo do moreno com seus dedos.
— Eu disse que não precisava. — Já havia contado sete sardas antes de perceber que dali também conseguia ver as que permeavam a clavícula do ruivo.
Robb respirou fundo, como se estivesse se preparando para algo. Segurou Theon pelos ombros e o fez encará-lo outra vez, mas agora seus olhos azuis brilhavam com uma convicção que fazia o moreno se lembrar da infância dos dois, dos seus primeiros dias em Winterfell.
— Theon, se o seu pai se rebelar outra vez... O que eu duvido muito que ele faça, mas enfim. Se ele se rebelar outra vez, eu não vou deixar você morrer. Nós vamos fugir para as Cidades Livres ou para qualquer outro lugar longe daqui mas eu não vou deixar você morrer, entende? Nunca. Eu prometo. — E o moreno o olhava como se ele fosse algum herói saído das lendas que sua mãe lhe contava todas as noites antes de dormir.
— Robb, você não pode fugir daqui — ele disse quando queria dizer então vamos agora arruma o seu baú e vamos para norvos vamos para lys vamos viver. — Você tem uma família e um castelo e você tem tudo, Robb. Não pode trocar isso pela minha vida.
— Você está brincando, não é? Sua vida é mais importante do que tudo isso.
— Não é.
— É sim!
— Não é — ele foi firme dessa vez. — Isso é loucura, Robb. É um outro nível de estupidez.
— Eu vou te mostrar o que é um outro nível de estupidez. — E Theon não esperava aquilo, nunca. Mas Robb era impulsivo e seus cabelos vermelhos entregavam o fogo que ele carregava dentro de si, prestes a queimar tudo o que havia em sua frente.
Não teve tempo para se afastar — e não se afastaria, se tivesse tempo — antes que Robb encostasse seus lábios nos dele no maior ato de estupidez já cometido pelo homem. Ele parecia não saber muito bem o que fazer, com plenos 14 anos e zero em experiência romântica, mas Theon não ficou surpreso por muito tempo, e nem esperaria até que Robb recobrasse a consciência e saísse correndo dali para nunca mais voltar. Dessa vez foi ele quem colocou as mãos no rosto do outro, prendendo-o no lugar para que pudesse beijá-lo da maneira certa. As mãos de Robb foram parar em seus ombros e elas tremiam como se ele estivesse à espera do momento em que Theon o empurraria para longe. Ah, se ele soubesse o que o moreno sentia, a velocidade com que seu coração batia quando ele pensava robb stark está me beijando, Robb Stark com sua vida perfeita e seus lábios perfeitos — Robb Stark que nunca desistiu dele nem por um segundo sequer, nem quando ele quase implorou por isso. Theon traçou os lábios dele com a língua e pode ouvi-lo arquejar antes de interromper o contato para poder respirar. Mal percebera que seus pulmões também doíam, porque Robb havia lhe beijado — lhe beijado! — e agora estava sorrindo e tudo o que o moreno conseguia ver eram seus dentes brancos contrastando com os lábios vermelhos. Robb sorria e Theon sorria de volta, como dois náufragos que avistam terra firme pela primeira vez em dias.
— Essa foi a coisa mais estúpida que eu já vi em toda a minha vida — Theon disse, enquanto tentava respirar, o que era meio difícil em meio a suas risadas. Robb olhava para ele como se o amasse há anos e anos, desde os primórdios dos primórdios dos primórdios dos. Theon sabia que o amava desde o começo, desde o dia em que quase caiu do cavalo e o ruivo decidiu que não o largaria nunca.
— Você acha? Acho que foi a melhor coisa que eu já fiz.
— Com certeza é a minha favorita. — E dessa vez é ele quem inicia o beijo, saboreando os lábios do Stark com a língua até que o ruivo abriu a boca e deixou que Theon lhe ensinasse mais um pouco sobre como beijar a pessoa que você ama.
(robb o aperta com força e o corpo do moreno canta de alegria e ele confessa — também é novato nessa matéria)
ii.
Para o resto do mundo, eles são apenas amigos — mesmo que um pouco próximos demais. Robb ainda vencia Theon toda vez que eles treinavam com espadas e o moreno sempre conseguia acertar todas as flechas no alvo, enquanto o ruivo ainda errava algumas. Eles riam no final, como as duas crianças que são — eles riam porque o segredo era deles e só deles, apesar de ser tão óbvio no jeito com o que os dois se olhavam por cima das taças de vinho, já um pouco tontos e com as bochechas vermelhas.
Theon era sempre o primeiro a sair do salão, ainda com a bebida em mãos, rindo alto e balançando a cabeça no ritmo da música que os mais bêbados cantavam. Robb contava dois minutos antes de segui-lo, se desculpando para a mãe porque estava com uma dor de cabeça horrível, e saía um pouco apressado demais, o suficiente para alguém perceber se realmente estivesse prestando atenção. Suas mãos tremiam com medo de que alguém descobrisse para onde ele ia, para quem ele ia. Mas então as portas do salão se fechavam em suas costas e ele respirava aliviado outra vez, passava a mão pelos cabelos encaracolados e começava a correr.
Theon ria quando ouvia os passos apressados do outro, esperando-o pacientemente encostado na porta do quarto dele. Robb olhou para os dois lados do corredor antes de passar as mãos em volta dos quadris do moreno e encostar sua boca na dele, sentindo o gosto de vinho e sal que permeava-o. Theon ria de sua afobação e agarrava seus cachos com umas das mãos, deixando a outra livre para explorar seu corpo, desde a clavícula até seu umbigo, traçando com as pontas dos dedos os mamilos sensíveis enquanto mordia o lábio inferior do ruivo do jeito que sabia que o excitava. Se pudesse, jogaria Robb no chão e ficaria beijando-o a noite toda ali mesmo, mas o risco era grande demais para se correr. Não queria nem imaginar o que aconteceria com ele se Lorde e Lady Stark descobrissem o que os dois faziam durante as madrugadas.
— É melhor a gente entrar — ele disse, desgrudando seus lábios dos do ruivo por um minuto. Ainda virado para Robb, pegou a chave do bolso dele, colocou-a na tranca, girou, e empurrou a porta para dentro. Os dois entraram e a primeira coisa que ele fez foi trancar a porta outra vez, mesmo que isso ficasse um pouco difícil quando o ruivo colocou as mãos por baixo de seu gibão e camisa, intercalando seus beijos no pescoço do moreno com leves mordidas. Ele mesmo começou a tirar a roupa que vestia, ficando só de calças antes de se virar para Robb e deixá-lo só com a parte de baixo da roupa também.
— Você vai ter que me esquentar agora, ou vou acabar morrendo de frio. — sua voz entrava nos ouvidos de Robb como uma melodia.
Suas mãos vão descendo e descendo mais um pouco, até que ele chegou ao cós das calças do moreno, onde decidiu brincar um pouco. Desfez os laços devagar enquanto Robb puxava seus cabelos, mas não com força (nunca com força). Colocou a mão por dentro das calças do outro, sentindo o pênis que já começava a endurecer. O ruivo gemeu quando Theon começou a subir e descer a mão pela extensão de seu membro como se tivesse todo o tempo do mundo, passando os dedos por seu períneo tão levemente que Robb mal podia senti-lo — Theon estava sempre provocando de uma forma ou de outra. Tirou a mão de onde estava e apontou com seu queixo para a cama, onde ele o ruivo foram ainda agarrados um no outro. Theon sentou na cama, abriu as pernas e se apoiou com as mãos atrás das costas, sorrindo descaradamente para Robb.
— Para de me olhar assim, você já sabe o que fazer — o moreno disse e o ruivo assentiu com a cabeça antes de ajoelhar-se no meio de suas pernas. Rapidamente, suas calças foram abaixadas até a altura do joelho e o ruivo começou a chupá-lo como se estivesse esperando por isso.
Ele se lembrava de como Robb era inseguro no começo, e até mesmo um pouco retraído — às vezes esquecia que sempre lhe disseram que deitar com homens era errado, um pecado na vista dos deuses tanto antigos quanto novos. Ele nunca ligara muito a deuses e afins, mas Robb poderia até ser considerado um pouco religioso, com seu receio em beijar Theon debaixo da árvore sagrada não por medo que alguém os visse ali, mas por temor pelo que os deuses fariam com os dois — se preocupa mais com o moreno do que com ele mesmo, na verdade. Mas ensiná-lo não foi muito trabalhoso, e isso se devia ao fato de que o protegido era ávido para demonstrar-lhe tudo o que sabia. Perdeu a conta de quantas vezes acordou Robb colocando o pênis dele em sua boca, subindo e descendo a cabeça até ver que o ruivo começava a balançar os quadris seguindo o ritmo. Agora ele já sabia o momento certo para levar sua boca até os testículos do moreno, por onde passar a língua quando queria ouvi-lo gemer alto e como continuar se movendo mesmo quando parecia que iria engasgar. Conhecia tão bem o corpo de Theon quando o moreno conhecia o seu, mas algo lhe faltava — algo que os homens bêbados nas tavernas sempre diziam e que ele aguçava os ouvidos para escutar, com uma atenção que dedicava a poucas coisas. Ele queria aquilo e queria mais — queria tudo — mas não sabia se Theon queria também.
Continuou chupando o membro do outro por mais algum tempo, até tirá-lo de sua boca com um audível pop que fez os dois gemerem. O pênis em sua frente estava totalmente ereto, molhado de saliva e pré-sêmen, o que só fez Robb pensar no seu próprio, ainda aprisionado dentro das calças e doendo pela falta de estimulação, ainda mais depois que Robb voltara a fantasiar sobre onde queria colocá-lo. Levantou-se para dar um beijo em Theon, espalhando o gosto dele pelas bocas dos dois enquanto seu membro era agarrado mais uma vez. Só que agora os movimentos de vai e vem eram rápidos, combinados com a mão que desceu para acariciar seu testículos e o períneo sensível que ficava atrás deles. Sentia um calor cada vez maior em seu baixo ventre, movimentava seus quadris na mesma frequência da mão de Theon e até mesmo tentou pedi-lo para parar — não queria acabar tão cedo. Mas seu orgasmo chegou antes, quando o moreno colocou a cabeça de seu membro dentro da boca — Robb gritou quando atingiu seu ápice e encheu a boca de Theon com seu esperma, ainda movimentando os quadris ao sentir os jatos que ele lançava diminuindo. Uma fina linha branca escorria dos lábios de Theon, que ele lambeu avidamente quando soltou o pau do ruivo de sua boca. Robb quase desabou sobre a cama, mas Theon segurou-o e o deixou sentado sobre suas pernas enquanto o ruivo ainda não se recuperava do orgasmo.
— Eu não me esqueci de você — Robb disse, se referindo ao pênis do moreno que ainda continuava duro sobre sua barriga. Mas antes que conseguisse tocá-lo, o protegido rebateu sua mão para o outro lado.
— Eu quero tentar uma coisa nova. — Beijou o ruivo outra vez, rapidamente, antes de fazê-lo deitar na cama e sentar sobre seu colo, tomando cuidado com o membro ainda sensível do ruivo. Deixou-se cair sobre o peito dele, para poder chegar seus lábios até a orelha do outro e sussurrar-lhe — E eu sei que você também quer.
Como ele sabe disso? Robb surpreendeu-se e sua mente reprisava todos os momentos em que poderia ter deixado suas intenções claras, mas Theon nunca pareceu perceber nada. Será que ele falava enquanto sonhava? E sonhou com isso centenas de vezes, com o calor do corpo de Theon ao redor de seu pênis enquanto ele tentava ir cada vez mais fundo dentro dele. Já sentiu-se começar a endurecer outra vez, assim como o moreno sentiu-o e sorriu aquele seu sorriso debochado no canto dos lábios.
— Você tem certeza? — Robb tinha medo de fazer algo errado e perdê-lo; sempre sentia Theon escapando de seu alcance. — Eu... Eu não sei como, quer dizer. Eu nunca fiz isso. — Podia sentir o sangue subindo em suas bochechas, por mais que ele odiasse quando isso acontecia.
— Pra sua sorte, eu não sou uma virgem inocente como você. — E suas unhas começaram a traçar o caminho do peito do ruivo até onde começavam a aparecer os pelos em sua púbis. — A única coisa que você tem que decidir é onde quer ficar.
Era um tanto quanto difícil pensar direito com o moreno mordendo o lóbulo de sua orelha. Robb sempre sonhara em ficar por cima, em ver toda a ironia de Theon derreter enquanto ele o penetrava cada vez mais fundo, vê-lo gemer seu nome sem perceber que estava fazendo barulho demais, e que qualquer um que passasse pelo corredor o escutaria. Mas ele começou a pensar na outra opção, em ser ele quem derreteria com as estocadas rápidas do moreno. O pensamento trouxe ainda mais sangue a suas bochechas, o que fez Theon começar a distribuir pequenos beijos sobre elas.
Não é como se não tivéssemos todo o tempo do mundo, ele pensou. Segurou a cintura do outro com as duas mãos antes de inverter as posições. Decidiu que Theon ficava infinitamente mais bonito daquele jeito, com seus cabelos negros espalhados pela almofada como uma auréola.
— Virgens inocentes não escolhem essa posição — ele disse, mas seus próximos deboches nunca foram ditos porque Robb pegou a outra almofada e colocou-a debaixo dos quadris dele, logo antes que começar a estimulá-lo. Correu seus dedos desde o períneo até o mais perto possível que podia chegar do ânus do moreno sem tocá-lo.
— Vamos fazer do seu jeito só dessa vez, ouviu? — Theon falou, soltando pequenos gemidos no meio da frase quando Robb pressionava com um pouco mais de força.
A verdade é que ele tinha medo de gostar disso, de sua sentença definitiva de homem das terras verdes, mas faria qualquer coisa pelo Stark, inclusive abrir as pernas para ele como uma mulher. Tinha começado a pensar nesse assunto há muito tempo até chegar ao ponto de admitir que não se incomodaria em ficar por baixo.
Robb já tinha o falo completamente duro outra vez quando começou a circundar a entrada do moreno com seus dedos, passando o dedo por ela toda vez que o ouvia gemer. Theon tinha o lábio inferior preso entre seus dentes, as bochechas vermelhas de vergonha — ou de prazer — e suas duas mãos seguravam as peles espalhadas na cama até que os nós de seus dedos ficaram brancos. Robb teve a súbita vontade de morder seus mamilos rosados, onde sabia que o moreno era sensível. Só o fez arrepiar-se ainda mais, e decidiu apressar as coisas um pouco antes que gozasse outra vez, só com a imagem das pernas de Theon abertas para ele, exibindo toda aquela pele que Robb adorava tocar e que manteve um pouco de seu tom moreno mesmo na neve de Winterfell.
Tentou introduzir seu dedo indicador no outro quando a reação dele o pegou de surpresa: Theon fechou as pernas e afastou-o, como se o toque do ruivo tivesse lhe dado um choque.
— O que foi? — Ele quis logo saber, se desculpar antes que o moreno desistisse dele. Mas o outro apenas sorriu antes de levantar da cama e começar a procurar algo em suas gavetas.
— Não é simples como com uma mulher, Robb. A gente vai precisar... — Sorriu quando achou o que queria, um frasco da loção que o ruivo usava quando forçava sua musculatura demais durante os treinos. — Acho que isso aqui basta.
Ele voltou para a cama e retirou a rolha de cortiça do vidro, deixando que o cheio de erva doce se espalhasse pelo quarto. Derramou um pouco do líquido em seus dedos e voltou a deitar-se, abrindo as pernas para que Robb pudesse ter uma visão completa de seu corpo. Quando viu o rosto de Robb ao perceber o que ele faria, introduziu um dedo dentro de si devagar, até a segunda falange. Deixou escapar um suspiro ao começar a movimentar o dedo, ávido para encontrar o ponto dentro dele que fazia sua visão escurecer. Antes disso, porém, a mão de Robb encontrou a sua e a segurou no lugar.
— Eu quero fazer isso — ele disse, a voz cada vez mais rouca à medida que sua mão subia e descia pelo próprio pênis. Encontrou a loção jogada pela cama e lambuzou seus dedos enquanto Theon passou a masturbar seu membro. Forçou seu dedo para dentro do moreno e sentiu as paredes dele apertando-o, quase como se o quisessem prender ali. Não demorou a introduzir seu dedo médio quando o moreno começou a mexer os quadris para fazer com que ele fosse ainda mais fundo. A voz dos dois enchia o quarto de gemidos e de suspiros sôfregos, misturados aos ruídos que os dedos de Robb faziam ao entrar e sair do corpo do outro.
— Anda logo, eu já estou pronto — Theon disse, apressado. Robb ainda atingiu sua próstata mais uma vez antes de tirar os dedos dali e pegar a loção outra vez para derramar mais um pouco do conteúdo sobre seu falo. Posicionou-se frente as nádegas de Theon, que passou as duas pernas pelos quadris do ruivo até que um tornozelo encontrasse no outro, deixando o outro trancado ali. Ele não deveria ter medo agora, mas suas mãos suavam e seu coração batia como um tambor ao sentir Robb começar a forçar seu pênis para dentro dele. Começou devagar, segurando os quadris que tremiam querendo simplesmente enfiar-se todo dentro de Theon. Ele parou apenas uma vez, quando a cabeça entrou toda e viu a expressão de dor no rosto do moreno. Logo passa, o protegido disse, e apertou o ruivo com as pernas para mostrar que podia avançar até que sentiu todo o membro dele dentro de si, preenchendo até não poder mais. Robb tremia em cima dele, com as mãos ao lado de seus cabelos morenos espalhados pela almofada, segurando-se para não começar a se mover antes que Theon estivesse confortável — o ruivo chegou mais perto e encostou seu rosto no dele, esperando a resposta que não demorou muito para vir na forma de um leve aceno de cabeça. A dor agora era apenas um ruído branco ao fundo de sua mente quando comparado ao prazer de ter o Stark dentro de si — dentro de si!
Robb começou devagar — até porque não aguentaria por muito tempo se acelerasse —, sentindo as paredes de Theon se contraírem a cada vez que ele saia, ouvindo-o gemer seu nome cada vez mais alto enquanto ele também perdia a cabeça, apenas seguindo o ritmo que seu corpo ditava. A mão do moreno subia e descia freneticamente por seu membro enquanto ele gritava mais forte! e Robb o obedecia, segurando seus quadris até o ponto em que sabia que o moreno acordaria no outro dia com manchas roxas. Ele já podia sentir outro orgasmo crescendo dentro dele, ainda mais com a visão de Theon arqueando as costas toda vez que ele acertava sua próstata; Theon arranhando suas costas com os olhos fechados e a boca aberta, numa expressão de puro prazer. E fora Robb — robb! — quem o deixara desse jeito, totalmente despido de pudores enquanto agarrava as nádegas do ruivo numa vã tentativa de trazê-lo para mais perto, mesmo que os dois já estivessem o mais próximo possível.
— Robb! Eu... — Não conseguiu terminar a frase antes que um poderoso orgasmo o atingisse, derramando seu sêmen na barriga de Robb, que ainda continuava se movendo. Sua cabeça girou para o lado enquanto tentava trazer o máximo de ar para seus pulmões — que doíam — e suas mãos caíram ao seu lado, sem condição de se agarrar a mais nada. A única coisa que pode fazer foi contrair ainda mais sua passagem, fazendo com que depois de mais três estocadas, Robb chegasse a seu ápice novamente, jorrando seu esperma dentro dele até que um pouco começasse a escorrer por sua entrada. O ruivo caiu ao seu lado — sempre cuidadoso para não esmagá-lo — e Theon olhava suas bochechas vermelhas e seus braços que tremiam e todo ele, que parecia ter tido a experiência mais prazerosa de sua vida — e sorria. Sorria porque Robb ainda estava dentro dele e porque Robb era dele agora, pra sempre. Contou as sardas que pintavam o rosto dele até sentir o falo do ruivo sair de dentro de si quando ele se moveu.
— Então... — Robb disse quando abriu os olhos, ainda um tanto quanto desfocados. Seus lábios se abriram num sorriso enorme quando começou a enrolar os dedos pelos cabelos negros perto de seu rosto.
— Então... — Theon repetiu, e os dois riram. Enrolados num casulo de felicidade eles riram porque o mundo parecia resumido a uma cama e dois homens jogados sobre ela. Eles riram porque Robb era de Theon e Theon era de Robb e tudo girava perfeitamente agora, tudo fazia sentido agora que o fogo dentro deles fora aquietado, mesmo que apenas por um certo tempo. Eles riram porque nessa noite não haveria nada que os fizesse levantar dali, dos braços quentes um do outro, o melhor lugar para se dormir.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!(theon acordou no meio da noite e fingiu que a dor que ele sentia era causada por seus ossos que o rejeitavam, que cantavam nascido do ferro todas as noites e o arrastavam para o mar toda vez que ele tentava se agarrar a robb
mas não era)
i.
O rei Robert e sua caravana deixaram Winterfell à primeira luz da manhã, levando Lorde Stark, Sansa e Arya junto consigo. Robb ficou o tempo todo assistindo-os partir, acenando para suas irmãs a medida que elas se afastavam mais e mais de sua casa. Theon ficou um pouco mais atrás, distraindo o pequeno Rickon. Lady Catelyn lançaria-lhe um olhar congelante se os visse, mas estava há tantos dias trancada no quarto de Bran que Theon sabia que ela não iria sair para ver seu marido ir a Porto Real. Então ele fez bolas de neve com Rickon, mantendo-se afastado o suficiente de Robb como um amigo deveria ficar, esperando que os dois pudessem voltar para o quarto — o ruivo ficara cada vez mais tenso desde que seu irmão caiu, e o protegido mal sabia como ajudá-lo agora, quando toda a responsabilidade sobre Winterfell caíra em suas mãos tão de repente.
Mas o agora Lorde Stark passou o dia inteiro em silêncio, falando apenas com meistre Luwin sobre seus novos deveres como lorde e tudo o que agora precisava de sua aprovação ou rejeição. O resto do tempo ele passou tentando convencer a mãe a sair do quarto, mas Theon pode ouvir os gritos dela ecoando no corredor enquanto passava por ali. Ele não a culpava por isso — lembrava-se da própria mãe quando recebeu a notícia da morte de Rodrik e Maron, quando arrancaram de sua mão o único filho que lhe restava. Às vezes ele se perguntava por quanto tempo ela ficou caída no chão pedregoso de Fidelporto até que alguém a ajudasse.
Foi só na madrugada que ele conseguiu falar com Robb sem que ninguém estivesse perto deles. Esgueirou-se pelos corredores, tomando cuidado com os lugares onde sabia que havia guardas. Chegou até a porta do quarto dele na ponta dos pés, e girou a maçaneta enorme o mais devagar que pôde — Robb nunca trancava a porta. Ainda havia uma vela acesa na mesinha, com alguns pergaminhos ao seu redor. Theon girou o tranco e andou até a cama, onde o ruivo massageava as têmporas com as pontas de seus dedos, prestes a explodir com tanta preocupação.
— Vai ficar tudo bem com ele — o moreno disse e os dois sabiam que ele se referia a Bran. Sentou-se na cama, atrás do Stark, e começou a massagear seus ombros. — Um dia Maron caiu de um penhasco quando estava escalando. O pai sempre fazia a gente escalar os paredões. — Ele não gostava de falar da infância em Pyke, mas precisava tranquilizar o outro. — E bem, quando ele caiu eu achei que ele ia morrer, sabe? Foi muito alto, mais alto do que a queda do Bran. Mas ele melhorou; só quebrou um braço e algumas costelas, só teve que ficar algum tempo de repouso. — Eu fiquei tão assustado quando você, ele pensa.
— Só porque o seu irmão vai ficar não significa que o meu vai. — Ele parecia cansado, tão cansado. Theon só queria que ele dormisse de uma vez.
— É verdade que nós nascidos do ferro somos mais fortes que vocês, mas eu falo sério, Robb. Vai ficar tudo bem. Você não vai mudar o destino com a força do pensamento, então trate de relaxar. — Para ajudá-lo, assoviou, o que chamou a atenção de Vento Cinzento. A pequena bolinha de pelos estava se esquentando perto da lareira, mas veio correndo quando ouviu Theon. O protegido teve que abaixar-se para pegá-lo, já que o lobinho ainda não conseguia pular na cama. Aconchegou-se no colo do moreno e ficou ali, lambendo sua mão.
— Ele gosta de você — Robb disse, sem cabeça para dizer algo realmente útil. Theon riu dele.
— É de se esperar, não? O dono dele me ama tanto. — Os dois sorriram um para outro, mas o protegido estava decidido. — Deita logo, você tem que dormir um pouco.
Robb soprou a vela, deixando os três no mais completo escuro. Tiveram que tatear para achar as peles, e depois para procurar Vento Cinzento, que se enfiara debaixo delas querendo brincar. Provavelmente tinham acordado alguém com todo o barulho, mas o ruivo pareceu não ligar para isso no momento. Ele estava quase dormindo sentado quando o Greyjoy chegou, de qualquer maneira.
— Você vai ficar, não? — Robb perguntou, segurando seu lobo para que ele não corresse. Com a outra mão, trouxe Theon para mais perto, encostando o peito nas costas do seu (seu!) protegido. Podia sentir seus corações batendo juntos, como uma melodia para ninar.
— Claro que sim. Agora descansa. — Theon se virou para dar-lhe um rápido selinho. Quando arrumou a cabeça na almofada outra vez, pode ouvir o ruivo suspirando, relaxado. Robb enlaçou um braço em sua cintura antes de deixar a cabeça do moreno debaixo de seu queixo, e finalmente parou de se mexer.
Theon ficou escutando sua respiração até que percebeu que o ruivo dormia. Sozinho, uma sensação estranha tomou conta dele, quase como um mau pressentimento. Mas não acordaria Robb agora que ele finalmente conseguiu dormir. Não iria dar ele algo a mais para se preocupar, de jeito nenhum. Só preciso dormir, ele pensou. De manhã eu nem vou lembrar mais sobre isso. E então ele dorme, ouvindo a respiração de Robb e os pequenos ganidos que Vento Cinzento solta de vez em quando.
Ele não diz nada. Talvez devesse ter dito.
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