sabe, sonho demais com você
1 tem teu perfume em meu cobertor
Notas iniciais
boa leitura
(Diabetes? Não leia. Overdose de açúcar isso aqui)
Era estranho como a sombra feita pelos cílios de alguém poderia se tornar a coisa mais fascinante do planeta. Depois, destacavam-se os lábios cheios, a curva rebelde do nariz, e a suavidade da franja caindo sobre a testa.
O roxo debaixo dos olhos pela falta de sono também era interessante, mas lhe causava certa preocupação, lembrando das noites que Natan, seu objeto de admiração, tinha passado em claro tentando terminar seus milhões de trabalhos para a faculdade. Caio odiava sentir essa preocupação, portanto ignorava-a, afirmando para si mesmo que as semanas de provas tinha finalmente acabado.
A respiração calma, por si só, também tinha seu próprio fascínio; Caio conseguia ver as costelas se erguendo por baixo dos lençóis, se esticando até sua máxima capacidade antes de lentamente descenderem, e o som de um ronco leve, beirando o ronronar de um gato. A boca estava aberta o suficiente para conseguir ver o dente ligeiramente lascado embaixo, e os dedos longos e finos agarravam-se fortemente aos lençóis.
Caio nunca tivera problemas para dormir; sempre fora extremamente ativo durante o dia, chegando à cama cansado o suficiente para adormecer instantaneamente. Era o único dos dois que conseguia acordar cedo, tendo a necessidade funcionar como alarme para Natan, que não conseguia levantar sozinho antes das nove. Em compensação, geralmente já estava morto para o mundo depois das onze, sendo incapaz de formular qualquer tipo de sentença coerente que não envolvesse cama.
Lentamente, esticou seu braço, ligando a tela do seu celular para constatar o que já temia; eram mais do que duas da manhã e ainda não conseguira dormir. Grunhiu em frustração, deixando o braço pender pro lado da cama e olhando com ódio para a luz que permanecia no cômodo. Ouviu Natan inconscientemente se escondendo dela, os lençóis fazendo barulho enquanto ele os erguia para cima de seus olhos.
Ainda bem que o dia seguinte era domingo, poderia dormir até tarde. Isso se conseguisse dormir, claro.
Com um estalo, se lembrou do Dramin que tinham comprado recentemente. Natan tinha propensão a enjoo, e sempre que viajavam para algum lugar, ele tomava a pílula, e dormia em poucos instantes.
Saiu da cama de fininho, ou pelo menos, tentou; a armação de madeira impedia qualquer movimento de ser, realmente, silencioso. Conseguiu desviar da pilha de livro da qual sempre se esquecia; naquele mesmo dia tinha topado com o dedão nela ao ir para a cama, e chegou à cozinha sem qualquer dano ao seu corpo – uma vitória por si só.
O próximo passo seria conseguir dormir e morreria um homem feliz.
Encontrou sem grandes dificuldades o remédio, e tomou água para engolir a pílula. Teve uma preguiça súbita de voltar para o quarto, e seu subconsciente o levou para varanda da sala. Abriu as portas de correr, deixando o ar frio de julho percorrer o seu corpo, até que ouviu alguém tropeçar para dentro da sala.
Se virou, e viu Natan coçando os olhos, carregando a manta da cama deles como uma capa ao redor do corpo. Segurou-se para não rir da aparência incrivelmente adorável, tendo uma sensação de nostalgia ao se lembrar de como visitava os quartos dos pais depois de pesadelos, afirmando com total certeza que havia monstros debaixo da cama. Seus pais sempre lhe acolhiam, e aquelas sempre foram as melhores noites de sono da sua vida.
― Fecha essa porta, Caio ― Natan murmurou, fechando mais a coberta ao redor dos seus olhos, parecendo um casulo humano. Assim que terminou a fala, bocejou, abrindo os olhos vermelhos com lágrimas de sono para lhe encarar com súplica.
Rindo, Caio fez o que lhe foi pedido, se aproximando para dar a seu namorado um beijo na testa. Não ousou lhe tocar de outra forma, tendo consciência de seus próprios dedos gelados.
― Te acordei, amor? ― falou no mesmo tom, baixinho, como se o mundo pertencesse a eles somente naquele momento e um suspiro fosse um grito para um universo de poucos metros cúbicos de volume. ― Desculpa.
Natan balançou a cabeça. ― Só fiquei com frio depois de um tempo.
Caio riu, pegando na cintura do outro e o virando na direção do quarto, guiando-o com um cuidado proveniente da ternura inexplicável que sentia. Dessa vez, Natan topou com a pilha de livros, fazendo os livros de filosofia se esparramarem pelo chão. Xingou baixinho, mas com ódio suficiente para fazer Caio rir ruidosamente. Sem precisarem discutir o assunto, deixaram para o dia seguinte a tarefa de arrumar a bagunça e finalmente colocar os livros em prateleiras de verdade.
Natan caiu na cama assim que estava próximo o suficiente para fazer isso, e Caio deu a volta na cama, sentando-se calmamente do seu lado e arrumando as cobertas antes de se deitar por completo. Ainda não estava se sentindo com sono, mas tinha fé no medicamento. Natan enlaçou sua cintura, enfiando a cara no travesseiro momentaneamente, antes de erguer a cabeça e encará-lo nos olhos com o pouco de luz que vinha pela janela.
― Acho que é a primeira vez que te vi ficar acordado tão tarde. Que foi? Insônia? ― perguntou com a voz rouca.
Caio pensou antes de responder, lembrando da forma como não tinha conseguido dormir depois de começar a observar o semblante pacífico de Natan, balançando a cabeça para se livrar da teoria maluca que sua mente exausta tinha inventado: a de que não queria parar de ver aquela imagem;
― Acho que sim. Estranho, né? ― comentou, sentindo aquela onda de ternura vir como um maremoto vendo o piscar lento de Natan, que assentiu com a cabeça e se entregou ao sono depois de alguns minutos.
Ele o observou novamente, achando as mesmas coisas de antes igualmente fascinantes. Com a pouca luminosidade, não conseguia ver as pequenas sardas que estavam em todo o seu nariz, e se perguntou por um pouco quantas haveria.
Dormiu.
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