rEVERSE - O conto da primeira estrela
18 Só tenho a agradecer...
Notas iniciais
(Sakura) Só tenho a agradecer...
Já havia escurecido quando entramos em um pequeno café perto da creche. Sentamos de frente uma para a outra, em uma situação muito desconfortável. A linda mulher, conhecida como esposa de Syaoran, me encarava com olhos desafiadores, enquanto eu só conseguia olhar para minhas mãos ou qualquer ponto no chão. Não conseguia evitar de me recordar das imagens da noite anterior, era oficialmente uma traição. Como eu pude ser tão descarada? Odiaria se a situação fosse o contrario e me sentia mal por ela.
Pedimos um capuchino. Ficamos em silencio até que o garçom aparecesse com as bebidas. Foram minutos angustiantes, mas assim que ela deu seu primeiro gole, se apresentou primeiro.
—Meu nome é Lieng Cho, segunda princesa da família Cho e senhora do Clã Li – ela se curvou levemente com a cabeça, igualmente Yeilan havia feito há muito tempo. Reproduzi o mesmo gesto, provavelmente mais desajeitada e exagerada do que ela – obrigada por aceitar meu convite.
Não tive coragem de falar alguma coisa e muito menos de me apresentar. Apesar de não estar vestida a caráter, com suas roupas chinesas belas e coloridas, ainda com roupas simples ela ainda parecia de um nível totalmente superior comparado a mim. Sua beleza era surreal.
—Eu sou... – tentei começar.
— Sakura Kinomoto – sorriu ela – escutei muito seu nome desde que me casei com Syaoran. Ele já te procurou?
Eu não sabia dizer se ela apenas estava sendo direta ou cínica. Seu tom era muito calmo e sorria amigavelmente. Tentei responder, mas novamente comecei a gaguejar. Porque eu me sentia tão retraída? Talvez porque nunca estive no lugar de vilã antes. Eu sabia que não tinha feito nada errado, mas ao olhar para ela, me lembrava dos sentimentos de tristeza que nutri por todos esses anos ao ver Syaoran se casando com outra pessoa. Ela devia estar sentindo a mesma coisa. Novamente, continuou por mim.
—Tenho certeza que ele foi... só sabia falar de você o tempo todo, em como estava animado para te encontrar novamente.
—Eu sinto muito! – me curvei profundamente sobre a mesa – eu não interferir em nada, as coisas apenas.... aconteceram... Porem eu... Eu ainda o amo! Me perdoe.
Sentia que devia isso a ela, nossos caminhos nunca se cruzaram e ainda assim, uma desconhecida havia roubado algo importante para ela, provavelmente por isso acabou me procurando. Porem, Eu ainda também não queria abrir mão e gostaria de falar diretamente.
—Mesmo assim, mesmo que eu ainda o ame, disse que não era certo que ficássemos juntos, quero dizer, eu não queria sujar a honra de vocês... eu... Eu também não queria sujar a minha honra....
Ela começou a rir, a gargalhar na verdade. Era um som doce e suave da clássica mulher delicada. Eu me perguntei se havia dito alguma coisa engraçada. Secando pequenas lagrimas que tinham brotado em seus olhos, disse:
—Senhorita Sakura, você é exatamente do jeito que ele descreveu... Syaoran e eu nos casamos três anos depois de ele voltar do Japão, inicialmente, tivemos pequenos encontros para estabelecermos relações, fazíamos caminhadas, jantares e até passeio juntos... mas o tempo todo, ele só sabia contar historias suas, era o único momento em que ria junto de mim. Eu fiquei mais conhecida sua do que dele, já que nunca me mostrou outros lados a não ser a gentileza.
Eu tentava imaginar suas palavras e não transparecer a surpresa e felicidade que estava sentindo. Perguntava-me o que a linda princesa em minha frente estava querendo.
—Quando cheguei aqui, pensei que poderia lhe oferecer uma proposta para se afastar dele, imaginava que talvez fosse apenas uma mulher interesseira. Mas fiquei te observando na creche, e o que ele falou para mim batia perfeitamente com a mulher que vi hoje – Lieng Cho pegou o pequeno copo de capuchino em sua frente e deu alguns goles. Passou alguns minutos olhando para a bebida e olhou para mim. Percebi que ela tentava manter um sorriso, mas desviou os olhos. Demorou para eu entender que ela estava prestes a chorar. Eu respirei fundo – eu... sinceramente não sei o que fazer agora.
Lágrimas finas e rapidas desceram por seu rosto de boneca, fiquei desesperada procurando em minha bolsa algum lenço para oferecer, mas também não tinha nenhum. Olhei para os guardanapos a frente e retirei vários para lhe oferecer. Ela riu secando as bochechas.
—Realmente... você é bem bobinha – me perguntei o Syaoran havia dito a meu respeito – ele... ele nunca encostou em mim... Como posso ficar com um homem que nunca encostou um dedo em sua mulher? E agora... veio o divorcio...
Eu congelei. O que me surpreendia mais? O fato de Syaoran nunca ter encostado em sua esposa ou eles se divorciarem? Agora, sentia que se eu desviasse o olhar dela, estaria a ofendendo.
—Ele já havia me dito que um dia iríamos no separar, desde o primeiro momento. Só deus sabe como tentei fazer ele se apaixonar por mim, ou que eu não me apaixonasse por ele. Eu queria pelo menos conhecer a pessoa tão especial dele... Ele tinha razão, você é encantadora.
Senti minhas bochechas esquentarem não só por vergonha, mas também por vontade de chorar. Desde pequena sempre odiei machucar as pessoas, e agora eu havia ferido uma profundamente. Eu me curvei mais uma vez.
Ela me pediu para que eu contasse minha historia com o rei demônio supremo. Contei tudo desde o principio, de como nos conhecíamos e nos odiávamos desde pequenos, apenas omitindo a parte em que havíamos trocado de corpos, isso era apenas meu e de Syaoran. Ela fez o mesmo, descrevendo como foi seu casamento com Syoaran e a pressão que ambos sentiam ao pegarem a liderança do clã.
—Sakura, muitos ainda serão contra vocês dois. Só porque Syaoran veio para o Japão, não quer dizer que largou seu lugar, ele vai precisar voltar... Não sei quais são os planos dele, mas ele parece muito determinado. Sinceramente, eu desejo boa sorte.
—Peço desculpas. Eu sei que vocês sofrerão com a mídia em cima de vocês, sobre o divorcio. E também sobre seus sentimentos...
—Ambas somos mulheres... temos o direito de amar qualquer um. E apesar de sermos tão diferentes, temos sentimentos iguais... Se tivéssemos nos conhecido em circunstancias diferentes, teríamos nos tornarmos amigas...
—Quem sabe, após algum tempo, ainda possamos.
—Quem sabe... – disse ela olhando para o chão – eu vou agora.
Nos levantamos e curvamos simultaneamente. Eu me ofereci para pagar a conta, mas ela fez questão, se retirou primeiro e entrou em um carro escuro, rodeado de seguranças. Fiquei flutuando no ar do lado de fora, processando todas as informações que havia recebido aquele dia.
****
Cheguei em casa, mas antes que abrisse a porta, Syaoran apareceu a meu lado. Usava roupas moletons, bem parecidas com as da época em que trocamos de corpo. Nós dois nos olhamos, ele já sabia do encontro de hoje, pude ler em seus olhos que parecia preocupado. E eu soube o porque. Ele não sabia o que sua esposa havia dito e estava nervoso que eu me afastasse.
Como eu poderia? Mesmo sendo quem ele era, uma pessoa quase impossível de alcançar, ele ainda se manteve apenas para mim. Assim como eu fiz para ele. Depois desse esforço todo, como eu poderia dizer que não iria aceitá-lo?
Olhei para o céu. Que ironia. Estava escurecendo e a primeira estrela brilhava no céu. De todas as noites em que eu havia procurado, quase não a encontrava e logo hoje, de frente com a pessoa que eu mais queria, ela marcava sua presença. Poderia jurar que ouvi um riso, mas deve ter sido minha imaginação. Syaoran estava em minha frente e eu poderia ter seu amor... Sorri para mim mesmo.
Encarei aquele rei demônio supremo e corri, pulando em seu pescoço.
****
Depois de muito tempo, Syaoran fez um belo jantar, exatamente como no passado. Eu gostava de observar ele na cozinha, ele perguntou se eu queria ajudar, mas eu apenas ria, apoiava as mãos no queixo e ficava olhando aquele lindo homem.
Ele estava com um avental rosa – meu avental – apesar de ser um príncipe e tudo mais, ele me contou que cozinhava ele mesmo aos finais de semana. Estava tão mais alto, gostava de ver como havia crescido, não tivemos muito tempo de desfrutar da presença um do outro quando voltamos à normalidade. Nunca havíamos passeado ou andado de mãos dadas como um casal, por isso estava encantada com aquela visão.
Teríamos sobremesa, bolo de chocolate com morangos. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, pois eu não conseguia desviar os olhos da calda de chocolate e de Syaoran. Balancei a cabeça e bati as palmas na bochecha. Era melhor eu me ocupar.
—O que você quer que eu faça? Estou cansada de ficar só olhando – disse eu desviando o rosto para disfarçar a vergonha.
—Achei que não fosse ajudar, ia comer o bolo sozinho.
Dei língua para ele, mas ele bateu a colher enlameada de chocolate na minha boca. Antes que eu pudesse brigar, ele se abaixou e mordeu meus lábios.
—Eu sei o que você estava pensando ali – ele sujou minha bochecha, para depois lamber, fazendo minha temperatura subir uns 200 graus Celsius – mas não vai ser em mim vamos usar.
—Eu...Eu não sei o que você está falando – eu não queria que ele pensasse que eu era uma sem vergonha que só fantasiava safadezas – eu só queria comer o bolo.
—Sei – como era bom ouvir ele rir em minha orelha, deu um beijo rápido em minha bochecha e voltou sua atenção para a panela — Você não me respondeu.
Como uma dona de casa, Syaoran colocou as mãos na cintura e a carranca no rosto. Com toda a naturalidade do mundo perguntou.
—Voce vai ou não vai aceitar fazer um filho comigo?
Eu havia esquecido disso totalmente. Hoje de manha, Syaoran havia pedido para eu ter um filho com ele... Meu gosto começou a pegar fogo, mas me lembrei do encontro com sua esposa. Ela tinha razão, não era tão simples assim, pois ele teria que voltar pra china. E tinha aquela noticia que eu havia ouvido... Congelei no lugar.
—Espera ai, eu ouvi coisas a seu respeito na Tv, mocinho. Você e sua esposa se divorciaram, mas... Não foi isso que deu a entender na conferencia para a impressa há duas semanas. – o chinês viu que eu estava confusa e suspirou, passando as mãos pela cabeça.
Chegando mais perto, ele me abraçou, largando a colher no balcão.
—Durante todo esse tempo, você nunca assistiu os noticiários? – disse ele emburrado, apoiando o rosto no meu ombro – A mídia, os outros conselheiros do clã... todo mundo estavam se perguntando porque depois de quatro anos casado eu ainda não tinha apresentado um herdeiro. Foi tão difícil... Não tinha coragem de dormir com outra mulher tendo sentimentos por outra pessoa. Então decidi anunciar o divorcio, mas somente nessas duas ultimas semanas que assinamos os papeis, quando viajamos para o Japão. Demorou para que os conselheiros aceitassem.
Tentei me lembrar das palavras do repórter. O que eles haviam dito? Syaoran estava com a esposa em frente às câmeras, dizendo algo sobre gravidez, mas eu estava tão chocada que não queria mais prestar atenção.
— Sakura, precisei dizer em frente a todas aquelas câmeras que já tinha outra mulher, por isso minha esposa havia pedido divorcio. E a única coisa que poderia fazer para todos aceitarem meu outro casamento era dizer que ela estava grávida. Bom, teoricamente, você vai estar...
Eu estava pasma. Estava tendo um caso com Syaoran e nem sabia... e isso foi anunciado em rede nacional. Precisei sentar para tentar colocar meus pensamentos em ordem... O chinês se abaixou e olhou para mim, segurando minhas mãos.
—Anunciei que tinha me casado no Japão antes de receber meu lugar de direito e aceitar o casamento arranjado, que não tive coragem de me separar de minha primeira esposa por todos esses anos, ainda mais porque todos na família já estavam conscientes. Por isso o filho não era uma criança bastarda, mas sim vinda do primeiro casamento. – ele parou para tomar fôlego — Poxa vida, como eu gostaria de ter feito exatamente o que eu disse para aqueles jornalistas, de nunca ter me separado de você. Sakura, de acordo com os sites de fofoca e paparazes intrometidos, estamos casados há sete anos. Mas... Você quer se casar comigo pra valer agora?
Se eu não estivesse sentada, teria caído dura no chão. A historia era muito para minha cabeça, pera, Syaoran me pediu em casamento? Eu não conseguia pensar com ele se aproximando de mim, e para piorar, ele já sabia a minha resposta. Seus olhos me olhavam meigamente, irresistíveis, impossíveis de desviar.
—Te esperei todo esse tempo... querendo te ver... – ele beijou minha bochecha – te beijar e sentir seu cheiro. Senti tanta sua falta Sakura.
Como eu poderia dizer não? Algo cresceu dentro de mim, uma necessidade desenfreada de agarra-lo e puxa-lo para mim. Passeis os dedos pelos cabelos do chinês e beijei seu pescoço, deixando uma marca forte e clara em sua pele. Ouvir ele gemer fez eu querer subir em seu colo. Eu tinha que me acalmar.
Estávamos perdendo a compostura, pois Syaoran já havia me pegado e colocado em cima da mesa, passeando as mãos por minhas pernas até subir para as nádegas.
—Diga que sim, Sakura – disse ele entre beijos.
Eu já tinha conseguido retirar metade da blusa dele e estava muito bêbada com aquele aroma de seu corpo. As mãos dele desceram por meu corpo, entrando debaixo de minhas roupas e apertando meus seios. Ele ergueu minha blusa para abocanhar e sugar meus mamilos, antes que eu percebesse, já o tinha prendido com minhas pernas pela cintura.
—Diga que vai casar comigo!
Quando eu perguntava para a estrela o que seria de meu destino, não imaginei que fosse ter esse desenrolar. Syaoran havia voltado para mim e me pedia em casamento, depois de sete longos anos em que eu jurava que o havia perdido.
—Mas que pergunta – respondi eu olhando para seus olhos – é claro que eu caso.
Ver ele abrir aquele sorriso me fez chorar, pois estava tão grata que parecia até ser injusto eu ter toda aquela sorte do mundo. Ele me deu vários beijos e mordeu minha bochecha. Limpou minhas lagrimas e me abraçou feliz da vida.
O rei demônio supremo me deitou por cima da mesa mesmo, voltando ao trabalho que ele havia interrompido.
—Eles ficaram bem maiores – comentou apoiando o queixo entre um peito e outro – eu media todos os dias.
—Eu sabia que você fazia alguma coisa sem minha permissão, já tinha a mente pervertida desde aquela época.
—Porém eu sabia me controlar. Ficar tanto tempo longe depois de experimentar fazer amor com você pela primeira vez... Voce se tornou meu vicio, Sakura – ele forçou o quadril contra o meu para mostrar o quanto estava exitado – não fiz nada ontem porque você pediu, mas hoje eu estou no limite.
Eu ri, mordendo os lábios e sentindo meu rosto ficar vermelho. O bendito chinês despertava uma coisa em mim que eu não sabia descrever, era um lado selvagem que me fazia querer pular nele a todo momento. Era todo o sentimento reprimido que mantive guardado quando estava no corpo dele, pois ficar olhando somente no espelho, sem poder tocar da maneira que eu gostaria era de matar. Senti um cheiro estranho. Fui obrigada a empurrar o peito de Syaoran de cima de mim e olhar para o fogão.
—Syaoran, a panela!
O jantar que ele estava preparando com tanto gosto estava queimando, já subindo uma fumaça espessa da panela. O chinês levantou num pulo e apagou o fogo, retirando a panela do fogão e colocando na pia. Ele colocou as mãos na cintura e encostou no batente, bufando.
— Voce tem razão, a gente cozinhar juntos é mesmo uma péssima ideia.
Eu comecei a rir.
Depois de mais duas horas tentando salvar a comida arruinada, caímos de boca no bolo de chocolate com morango enquanto assistíamos um filme. Ele deitou apoiando a cabeça em meu colo e caiu no sono, sentindo a satisfação da barriga pesar.
Enquanto mexia em seu cabelo, fiquei me perguntando. Se nós nos casássemos, eu teria que ir para a china? Seria obrigada a entrar para o clã Li? E se eu realmente tivesse um filho, ele seria obrigado a passar pelos mesmos ensinamentos de Syaoran?
Balancei a cabeça para esquecer as preocupações alheias. Eu deveria agradecer, pois a pessoa que eu mais amava tinha voltado. Olhei para o rosto sereno do chinês e sorri, me sentindo a pessoa mais feliz do mundo.
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