rEVERSE - O conto da primeira estrela
2 Quando eu não era eu
Notas iniciais
(Sakura) – quando eu não era eu
A luz entrava pela janela, provocando uma claridade amena e agradável. Podia-se ouvir alguns pássaros do lado de fora ao invés da barulheira da TV ligada ao noticiário e do liquidificador rugindo alto no andar de baixo. Estava tudo calmo e tranquilo.
Levantei-me espreguiçando e bagunçando os cabelos. Não havia despertador tocando hoje, eu havia acordado cedo milagrosamente. Fiquei deitada por mais alguns instantes, apenas ouvindo a maravilhosa orquestra do silencio em meu quarto e o coro dos passarinhos.
Pulei da cama procurando minhas pantufas, meus olhos ainda estavam meio fechados devido ao sono, mesmo tateando com o pé, nem sinal delas. Passei as mãos pelo rosto para limpar os olhos e acordar melhor, esfregando os olhos. Onde estavam minhas pantufas? Olhei para baixo. Havia uma pergunta melhor a fazer ao invés de onde estavam minhas pantufas.
Onde estavam meus peitos?!
Desculpe, não quero começa a historia falando de pornografia, mas essa era uma pergunta literal. Onde estavam meus dois peitos? Tudo bem que eu não tinha muito, mas tinha alguma coisa. Passei as mãos onde antes estavam meus peitos, que agora estava completamente liso. Isso não podia acontecer, será que eles tinham diminuído? Isso era possível? Reparei que não estava usando meu pijama rosa claro, estava sem a blusa e usando uma calça escura. Meus pés também estavam maiores que o normal. Finalmente a praga de Touya fez efeito? Eu virei um monstro?
Olhei para o quarto procurando um espelho, mas aquele não era meu quarto, pois o meu era rosa, esse tinha paredes em tons azuis e verdes claros, era muito maior do que o meu poderia ser e estava organizado. Havia prateleiras de livros enormes, um sofá e TV de polegadas com um videogame. Onde eu estava afinal?
Corri para o espelho mais próximo. Era de grande comprimento, com uns entalhes em madeira branca. Aquele também não era meu espelho. Eu não era eu, via o reflexo de uma pessoa que não era eu, como isso era possível? Não havia lógica.
Passei as mãos por meu tórax, sentindo falta de meus peitos, isso era fisiologicamente impossível, eu estava sonhando? Se meus peitos haviam sumido, então... O reflexo da pessoa em minha frente usava apenas uma calça de pijama, desci a mão um pouco mais para baixo, com medo do que eu poderia encontrar. Apalpei por cima da calça....EU DEFINITIVAMENTE ESTAVA SONHANDO.
Bati com as mãos em meu rosto para acordar, belisquei minhas bochechas e apalpei todas as formas de meu rosto não acreditando. Fiz o teste para ver se o reflexo no espelho era realmente meu, mas ele repetia tudo o que eu fazia, como deveria ser... mas não era. Onde estava o meu corpo? Meus cabelos curtos, meus olhos verdes e minha forma feminina?
Isso não poderia estar acontecendo. Eu não poderia ser outra pessoa, mas era. Como eu havia me tornado outra pessoa, em outro quarto, em outra casa? Magia? Hoeeeeeee.
Eu não poderia ter me tornado a pior pessoa da escola, o pior aluno e encrenqueiro que todos tinham medo. Eu não estava acreditando.
Eu havia me tornado em Syaoran Li.
****
Inicio do dia anterior
Ele bateu a mão em minha carteira, a penúltima perto da janela. Já era esperado afinal, eu havia zombado de sua pessoa nos últimos dias. Diferente das outras garotas, Syaoran Li não me assustava, eu bateria o pé no chão e o enfrentaria olho nos olhos. Mas sabia que seria um dia tempestuoso, pois ele sentava atrás de mim, na ultima carteira.
—Quem você acha que é nanica?
—O que é?
Eu sabia que a sala havia ficado em silencio devido à tensão. Sakura e Syaoran Li não poderiam ficar no meso cômodo sem que houvesse briga. Bom, eu não poderia fazer nada alem de encarar aqueles olhos castanhos tão penetrantes. Não ia deixar um riquinho mimado passar por cima de mim.
Mas aquela manha, eu estava a sua espera, e sabia que a culpa era minha. Era nossa vez de limpar a sala, e eu acabei indo embora sem ajudar. Quando entrei na sala e vi que todo o trabalho havia sido feito, me senti extremamente culpada, pois imaginava que ele não faria o trabalho sujo. Eu estava errada, mas não admitiria isso logo a ele.
—Como você teve coragem de ir embora e abandonar suas responsabilidades?
—Você esta me falando de responsabilidade? Logo você? Que entrou em briga semana passada?
—Isso não vem ao caso, não se meta em meus assuntos, estou falando de nós! Eu tive que limpar tudo sozinho.
—Ora, Syaoran Li sabe limpar as coisas?
—Você se acha demais. Fica andando por ai com esse nariz empinado achando que é o máximo, mas não passa de uma tabua ambulante e irritante que só sabe gritar!
—Você não esta falando de você mesmo? – eu tinha levantado batendo as mãos na mesa para encara-lo olho a olho, nunca admitiria, mas seus olhos eram mesmo impressionantes, mesmo que isso não significasse nada – eu tive que ir embora, mas você não tem o direito de falar nada, na ultima vez, você saiu com uma garota e me deixou sozinha limpando a sala. Touché amigo.
—Ora sua....
Mas ele não terminou a frase, a professora havia entrado na sala e não havíamos percebido. Ela batia o pé e as mãos repousavam em sua cintura. Eu sabia desde o inicio que haveria problemas quando se tratava de Syaoran Li, estava apenas esperando a bola de neve rolar.
—Os dois, para fora, já!
E foi assim que eu havia terminado presa a uma sala com a única pessoa da escola que eu odiava. Enquanto esperávamos pelo diretor, havia puxado a cadeira para o mais longe possível dele, enquanto ele bufava com as mãos no bolso, largado.
—Você é insuportável – murmurou ele entre dentes.
—Cala a boca!
O relógio batia devagar, e as mãos do diretor tinham a péssima mania de estalar os dedos. O li batia o pé e o telefone da secretaria não parava de tocar. Esses barulhos todos me davam com dor de cabeça.
—Eu nunca esperava isso de você, Sakura – começou ele, e eu me sentei arrumando as costas, mesmo odiando isso – uma menina tão boa, largar as responsabilidades da sala assim...
Ignorei o resto, mesmo fingindo prestar atenção. Porque todo mundo achava que eu era tão boazinha assim? Apenas curvei a cabeça e pedi desculpas sinceras. Percebi que Li me observava, com um risinho torto no canto da boca, ele estava gozando da minha cara.
—E você Li, aqui novamente, eu nem sei mais como te repreender, você já esta crescido... Semana passada foi uma confusão só para resolver a encrenca que você se meteu com os outros garotos.
—Você não pode me repreender por ter feito meu trabalho, foi ela que foi embora e eu fiquei limpando sozinho.
—Realmente – disse ele olhando para mim – Mas estou cansado de ter que resolver as picuinhas de vocês, sempre tem confusão e a professora nunca consegue fazer todos os alunos se concentrarem em seu trabalho. Esta na hora de resolver isso de uma vez por todas.
Eu estava tendo um péssimo pressentimento.
—Trabalho em dupla depois das aulas.
Eu e o Li nos levantamos ao mesmo tempo, gritando inconformados.
—DE JEITO NENHUM!
—NEM PENSAR!
—Vocês irão ficar responsáveis pelos preparativos do festival cultural, alem de alguns trabalhinhos a mais, como o diário de classe e a limpeza da sala de aula. Não será preciso fazer uma votação, já foi decidido por mim e pela professora. Caso contrário, irei tratar de conversar diretamente com seus pais para resolver essa situação.
Senti Li ficar tenso e ele engoliu em seco. Mesmo assim, eu sabia que isso não ia dar certo. O diretor só poderia estar endoidando.
—Olhem, vocês já estão mais velhos, este é o ultimo ano de vocês e já estão na fase de decidir suas carreiras. Logo, não terão mais tempo para esse tipo de coisa, suas preocupações serão maiores. Porque não resolvemos logo essa situação e seguimos cada um com nossas vidas?
Olhei pelo canto dos olhos para Syaoran Li, e ele olhou para mim. Lembrei de todos os infortúnios que passamos e de nossas brigas, nunca iríamos resolver tudo isso em um mês. Ele também sabia disso. Mas eu não tinha o direito de falar nada, estava realmente arrependida pelo que tinha feito, no entanto, Li também havia me abandonado sozinha uma vez, eu apenas queria dar o troco. Isso nunca daria certo.
—Isso não vai dar certo. – disse Li.
O diretor riu, estalou os dedos novamente e depois pegou o telefone.
—Então vamos ligar para seus pais.
O demônio rei se alterou e pulou para cima da mesa, sobressaltado, me assustando com sua reação.
—Mas acho que podemos tentar. – eu não podia acreditar em suas palavras.
—Ótimo, espero que vocês se esforcem. Tenho certeza que a sala de vocês poderá realizar algo maravilhoso. — Eu não sabia se ele estava falando a verdade ou convencendo a si mesmo disso.
Voltamos para a sala em silencio, sem conversar um com o outro. Por sorte, o festival ainda estava meio longe, não precisávamos conversar mais por hoje, apenas queria me manter longe dele. Acho que ele pensava o mesmo, pois foi caminhando em minha frente sem olhar para mim uma vez se quer.
Quando o sinal do almoço bateu, levantei-me com um suspiro, chamando Tomoyo, minha melhor amiga, para conversar no pátio da escola. O pé de cerejeira era um dos melhores lugares para se sentar durante o almoço, ela era uma árvore tão velha e alta que sua sombra cobria metade do pátio.
—Eu não acredito nisso – disse ela abrindo a tampa de seu bentou – Sakura, isso nunca vai dar certo. Conheço você e o Li desde pequenos, vocês nunca se entenderam uma vez se quer. Se lembra do trabalho da 6º Serie? Vocês acabaram destruindo a maquete, atacando os planetas um nos outros.
—Como vou esquecer? Plutão entrou em orbita na cabeça do professor Takahashi. Eu não consigo entender porque não nos damos bem. Eu posso conversar com todo mundo menos com ele.
—Bem, agora vocês terão que se entender de uma vez por todas, porque muitas pessoas estarão dependendo de vocês.
—Eu espero que seja assim.
—Ainda sim – disse ela rindo – agradeço por isso, não precisamos mais nos preocupar com a limpeza e podemos voltar cedo.
—E eu tenho que ficar presa com o Demônio Rei.
Mesmo que eu pensasse em me esforçar, não conseguia deixar de ficar irritada. Meu Deus, eu teria que ficar presa a uma sala sozinha com Syaoran Li por horas, com aqueles olhos me perfurando o tempo todo. Bufei de frustração, fazendo Tomoyo rir, enquanto eu queria chorar.
—Mudando de assunto, o que você respondeu para Kamui-san? – fiquei sem entender o que ela estava dizendo – a confissão, ele se confessou para você não foi? Quando você vai responder?
Eu havia ficado não nervosa que tinha me esquecido. Há uma semana, Kamui-kun, um dos garotos que sentam do outro lado da sala, me chamou para conversar depois da aula e se declarou. Eu não sabia o que responder e pedi um tempo, agora toda vez que ele me procura, eu saio correndo. Ele era gentil, mas não me sentia da mesma forma, também não sei se tinha coragem para responder.
—Não sei ainda, nunca o vi dessa maneira, minha mente sempre fica vermelha, cheia de raiva por causa do Li. Não tive tempo para pensar nele ainda.
—Mas pensa bastante no Li, né – riu Tomoyo.
Senti um calafrio na espinha e uma súbita vontade de rezar um pai nosso para afastar o mal.
—Nem invente Tomoyo. O problema é que ele senta atrás de mim, e fica me encarando o tempo todo, atacando bolinhas de papel só para me irritar.
—Talvez ele goste de você.
—Ele me odeia, e o sentimento é igualitário.
Rimos o resto do almoço, conversando banalidades. Tomoyo sempre foi minha melhor amiga e conselheira. Eu já teria arrancado aquela cabeleira rebelde fio a fio se não fosse por ela. Mas quem era o Li na fila do pão? Iria esquecer esse assunto por hora.
Passei o resto das aulas tentando me concentrar, já que um demônio sentando atrás de mim, me fuzilando com os olhos, o sinal bateu e tentei correr, mas antes que eu escapasse, Li me arrastou para fora pelo colarinho com todos nos observando, sabendo que iria chover canivete.
Aturei porque precisávamos acertar logo as contas. Resolvemos caminhar até o parque do Pinguim Rei, um parque infantil que tinha perto da escola, famoso pelo gigantesco escorregador de Pinguim real, assim, ninguém iria nos incomodar ou criar fofocas.
—Olha, isso tudo é culpa sua, se você não tivesse abandonado suas tarefas, isso não teria acontecido. Mas quero me livrar de encrencas. Precisamos resolver esse assunto logo, e o quanto antes, melhor.
Apenas concordei, mas desconfiada, eu tinha certeza que ele iria deixar tudo de lado, como sempre fazia.
—Não precisamos nos preocupar agora, mas saiba que não vou aceitar falhas. – não estava acreditando no que ele estava dizendo.
—Falhas? Você fala como se eu fizesse tudo errado! – novamente, senti uma veia pulsar na têmpora direita, isso sempre acontecia. – como se fosse eu que largasse as tarefas, não fizesse os trabalhos coletivos, deixando tudo sempre de ultima hora.
—Eu não posso confiar em você, e seremos apenas nos dois, não vou pegar leve.
—Hoe – eu estava abismada, parecia que ele iria ensinar uma criança. Estava me cobrando, esses papeis estavam invertidos – acho que você esta interpretando mal essa historia, EU que não vou aceitar falhas. Nada de abandonar e me deixar sozinha com tudo, nem inventar nada falando que precisa sair mais cedo.
—E eu não vou aceitar você quebrando e tropeçando em tudo o que vê. Bagunçando os papeis e perdendo todas as informações só para eu refazer o trabalho todo.
Eu estava ficando nervosa, tinha prometido a mim mesma que teria calma, mas mesmo contando mentalmente até dez, esse garoto era muito chato.
—Eu não faço isso.
—Aquele trabalho na 6º Série não quebrou porque você derrubou ele, Kinomoto?
—Isso esta no passado! Você é muito chato, por que não esquece esses assuntos de vez? Se prende a tudo o que eu faço e fica me irritando.
Não havia percebido que nossas vozes estavam se alterando. Algumas pessoas pararam para olhar, mas eu não me importava, precisava deixar tudo nos panos brancos.
—Eu fico te irritando? É você que sempre fica de fofocas sobre mim, culpando meu nome em tudo o que eu faço sem saber da historia toda. – ele tinha chegado tão perto que sua voz grossa trovejava em meus ouvidos e retumbava por todo meu corpo. Não havia percebido como ele tinha ficado tão alto.
Mas eu não ia deixar por isso mesmo.
—Porque eu faria isso? Não quero saber da sua vida!
—Eu é que pergunto pra você! – a essa altura, estávamos aos berros um com o outro. Eu sabia que iria terminar assim.
—Você é tão irritante que eu não sei como as pessoas te aturam.
—E você, que com esse ninho de papagaio na sua cabeça? Não sabe se olhar no espelho antes de sair de casa? Qual o seu problema? Falta de condicionador?
—Pelo menos eu sei que para mim a falta de leite não é problema, você não cresce mais não? Continua uma tabua desde que nos conhecemos.
—E porque você repara nisso?
—Eu não reparo nisso!
Se essa conversa não acabasse logo, iríamos pular em cima um do outro para nossos arrancar cabelos, eu queria enforca-lo e calar aquela boca. Nunca havia conhecido alguém tão irritante como ele.
—EU ODEIO VOCÊ! – gritamos os dois ao mesmo tempo.
Por um rápido momento, ouvi o estalo de alguma coisa. Um vento bateu forte, levantando poeira e folhas caídas das árvores, a ultima frase que gritamos juntos um para o outro saiu tão forte que ecoou, como se tivesse sido levada junto com o vento gelado. Tive que fechar os olhos para que não entrasse poeira.
Quando o vento baixou, olhei para ele, sem entender nada. Ele estava confuso também, mas fechou a cara novamente quando olhou para mim. Giramos sobre o calcanhar e saímos andando cada um para um lado. Como poderíamos trabalhar em dupla dessa forma?
—Sua casa é para o outro lado, estúpida! – gritou ele de longe.
—Cala boca! Eu não quero andar a seu lado! – respondi.
—Agradeço por isso!
Ele saiu andando marchando firme, batendo o pé no chão. Fiquei feliz, sabendo que também o irritava e que o sentimento era mútuo.
Quando cheguei em casa, tomei um banho demorado tentando aliviar o estresse, coloquei comida para meu gato Kero e deitei até dormir. Mas quem conseguia dormir nervosa do jeito que eu estava. Levantei para abrir um pouco a janela e deixar a luz da lua entrar, olhar aquele seu estrelado me acalmou um pouco. Depois de um tempo, finalmente cai no sono só para acordar no pesadelo da manha seguinte.
****
Olhava para o rosto que não era meu. Eu já estava há algum tempo ali, me beliscando até finalmente acordar. Mas não adiantaria nada. Andei de um lado para outro, sem saber o que fazer. Levei um susto quando ouvi um telefone tocar, vindo de outro cômodo, era uma boa ideia atender? Com o coração batendo a mil, sai caminhando na ponta do pé para o caso de haver alguém em casa. Aparentemente, estava vazia. O telefone estava na sala de estar, que era ligada com a cozinha por uma meia parede. A sala era muito bonita, com as janelas tocando do teto ao chão, e cortinas em tons verdes e brancos que evitavam o sol de entrar.
O telefone já estava tocando há algum tempo, decidi que era melhor atender antes que ele parasse de uma vez. Mas o que eu diria? Sairia minha voz ou a de Syaoran?
—A..Alo? – minha voz saiu grossa e falhada, assustando-me. Mas senti meu mundo girar quando ouvi minha própria voz do outro lado da linha.
—Eu não sei o que esta acontecendo, mas eu juro que vou te matar, Sakura!
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