quando Eu encontrei Você
1 Prólogo
Tudo que eu sabia era que não podia decepciona-los. Eles estavam me dando uma chance e essa era a minha cidade, então eu não poderia errar uma única nota, desafinar não era uma possibilidade. Tinha que dar tudo certo.
Peguei meu violão e toquei a primeira música, o testando. Estava perfeito, se o som saísse ruim, o culpado seria eu. E Jeb já tinha testado todos os microfones a menos de cinco minutos, nada daria errado, pelo menos, não por causa dos equipamentos.
— Acho que deveria arranjar um violão novo — Kellin falou apontando para o meu, que estava quase em condições precárias, cordas de diversas marcas, algumas fitas aqui e ali, por causa de rachaduras. Mas eu não consegui desapegar do 0.8, apelido que eu dera para ele quando fizemos oito meses de viagem, agora, tendo dois anos, não parecia uma boa deixá-lo para trás.
— Talvez — essa foi minha resposta, por mais que soubesse que isso não aconteceria — Como está lá fora?
— Lotado — fiz uma careta — Cara, você parece uma garotinha chorona, nós vamos arrasar, você já faz isso por aí, por que isso te apavora?
— Sua pergunta foi extremamente confusa, então irei ignorá-la — respondi me pondo de pé e olhando o relógio em meu pulso — Na hora.
Quando subimos ao palco, senti a mesma coisa que sempre sentia em uma estação de metrô. Aquela eletricidade e a naturalidade com que cada peça se encaixava. Nós realmente arrasamos.
***
— Vamos tomar algo agora — Jeb falou tirando um maço de cigarros do bolso e oferecendo para os demais integrantes, todos rejeitaram, menos eu.
Estávamos atrás da boate na qual tínhamos acabado de tocar, Erik queria entrar lá e trocar saliva com algumas garotas, mas Kellin queria que fizéssemos algo juntos, para comemorar e, de certa forma, se despedir de mim. Amanhã eu iria para qualquer outro canto. Para onde o vento me levasse, como diria Dean, meu melhor amigo que me arrastará para o mundo de mochileiro.
Mochilero, não sei se me chamar assim é certo, porque ru realmente tenho um lugar pra ficar se me cansar dessa vida, e não, não é a casa de meus pais, e sim meu próprio apartamento. Não é meu lar, apenas um local que eu possa chamar de meu.
— Podemos entrar naquela boate, aproveitar que quebramos tudo, beber umas cervejas por conta da casa e pegar umas garotas — insistiu Erik.
— Você é um mané — Potenza disse, ela era a única garota da banda, e volte e meia soltava comentários desse tipo, apesar de que a essa altura ela devia estar acostumada — Nenhuma garota vai tranzar com você só porque bateu em uns pratos.
Erik se calou, mas eu sabia que muitas garotas abririam as pernas pra ele, só porque era o baterista de uma banda.
Finalmente traguei o cigarro que Jeb me dera, absorvendo e soltando a fumaça. Era um hábito terrível, mas não é fácil parar, ainda mais pra quem já fuma a seis anos, o que é o meu caso. Olho para a parede do beco onde estamos, completamente úmida e suja, e depois me concentro em uma goteira na calha, a água cai lentamente até o chão.
— Hey — escuto, e é isso que me tira do tranze, uma voz feminina e arfante, que pertence a uma garota pequena, com cabelos azulado que eram tão curtos que nem chegavam a cobrir sua nuca, magra como uma tábua, a respiração pesada, como se tivesse corrido uma olimpíada, não é preciso muito para saber que não é daqui — Com licença, um de vocês pode me emprestar um celular?
Olho para todos os quatro que estão em minha frente e depois de volta pra garota, nenhum de nos tem um celular, eles deixaram em casa, e eu não tenho um, simplesmente não suporto aqueles aparelhos.
— Não temos nada — Petanza responde — Sinto muito.
— Droga! — ela deixa escapar um suspiro audível — Podem me dizer onde fica a polícia?
E é então que reparo nas roupas dela, a barra da calça jeans está completamente molhada, e um de seus ombros está de fora, graças ao rasgo de sua camisa, que aparentemente ficou presa em algo e ela teve que puxar para se soltar. Não, alguém a segurou, tenho certeza disso porque seus olhos gritam quando encontra os meus.
— Alguém machucou você? — pergunto antes que tenha a chance de pensar. Ela me olha incrédula e ao mesmo tempo aliviada — Que pergunta... É claro que alguém machucou!
Me aproximo dela com cautela, e ela se encolhe quando todo seu obro exposto. Depois apenas olha para minha mão ali.
— Você tem pra onde ir? — pergunto e ela nega, me odeio pelo que vou fazer, mas está na cara que é a atitude correta, ela deve ter tido uma péssima noite — Se quiser, se confiar, deixo você ficar uma noite no meu apartamento.
Kellin emite um ruido surpreso, é a primeira vez que vou levar uma garota pra lá depois de Jess, a vadia que eu namorei no ensino médio e que me colocou um par de chifres com meu ex colega de banda.
— Se não incomodar você. — ela disse por fim, olhando para os outros.
— Legal, pensei que fossemos comemorar, mas assim acho que vou poder pegar umas gatas — Erik fala e leva um tapa de Potenza, Jeb estreita os olhos e depois os revira, Kellin apenas dá de ombros.
— Se quiser posso ajudar — ele se oferece — Talvez isso te deixe mais confortável, dois estranhos no lugar de um.
Acho que foi o sorriso que ele lançou que fez ela assentir, ou talvez aquele cara de dois metros, completamente desengonçado parecesse menos ameaçador do que eu.
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