Notas iniciais
eu queria fugir do clichê da comédia, e, na minha cabeça a ideia ficou bem melhor desenvolvida, mas a procrastinação tomou conta e eu acabei deixando a desejar. ainda assim, espero que quem leia possa aproveitar! ♥ >> não revisada

Pedro era uma pessoa dramática. Não levemente, exageradamente dramática. Pedro não dava ponto sem nó, nem resolvia problemas pequenos sem fazê-los enormes. Ele era perfeccionista e metódico, além de estupidamente charmoso. Mas Tomás o conhecia com a palma de sua mão, uma vez que convivia com o ruivo há quase sete anos. O moreno sabia de todos os seus defeitos e falhas, seus medos e inseguranças.

Ao menos ele gostava de pensar que sim.

Eram (quase) sete anos. Ele nunca achou que conseguiria se manter em um relacionamento por tanto tempo, sendo este praticamente um casamento a aquela altura. Tomás não tinha certeza de como chegaram até ali, mas sabia que seus sentimentos com relação ao ruivo permaneciam vivos (mesmo que vivo pudesse significar o último suspiro de um doente terminal).

Tomás também sabia que (quase) sete anos eram conhecidos como aqueles que marcavam o estopim de uma bela crise.

Tomás achava que ela estava um pouco adiantada, para ser honesto.

Era a quinta vez na semana que dormia no sofá por algum motivo que nem ele mesmo se lembrava, tamanha a frequência com que vinha acontecendo. Cinco dias fechavam uma semana útil, imagine. Ainda assim, Tomás não discutia com Pedro; ele não via vantagem alguma em refutar a lógica deturpada do amante, e, mesmo que o fizesse, acabaria deitado no sofá roxo de qualquer maneira.

Ele odiava aquele sofá com a intensidade de mil sóis.

Ele odiava o sofá, odiava roxo e odiava brigar com Pedro.

Ele lembrava bem da primeira vez em que saíram para comprar os móveis da casa depois de a comprarem. Foi só Pedro bater os olhos no sofá de cor excêntrica que botou na cabeça que precisava tê-lo com a mesma necessidade em que precisava dormir todas as noites. Ao mesmo tempo, Tomás bateu o pé, totalmente adverso à ideia de compra-lo, mas a quem ele queria enganar? Os poderes de persuasão de Pedro eram afiados.

No fim, eles levaram o sofá roxo sob a condição de que Tomás pudesse colar seu pôster tamanho gigante da franquia Star Wars na parede do quarto.

Pôster este que ele nem conseguia mais contemplar, já que estava dormindo no sofá pelo que pareciam eras. Aquele sofá para o qual ele sempre torcera o nariz agora era seu companheiro nas noites mais frias.

Afinal, as brigas com Pedro não cessavam. Tornaram-se constantes.

Começava com uma alfinetada logo de manhã durante o café e depois na hora do almoço, e, por fim, às sete da noite, bem antes do jantar. Essa última garantia sua passagem só de ida ao móvel esponjoso no primeiro andar da casa. Tomás sempre acatava o pedido do ruivo, não porque precisava, mas porque se o outro não estava confortável em dividir a cama consigo, ele também não estaria.

E assim os dias se passavam.

Deitado no silêncio mórbido daquelas noites solitárias, Tomás refletia sobre o tempo em que os dois conseguiriam resolver qualquer problema através de um diálogo longuíssimo. Tudo era tópico para uma conversa esclarecedora entre os dois e ele não tinha certeza de qual ponto em suas trajetórias esse hábito virou poeira. Ele sentia como se os dois estivessem tentando (e falhando miseravelmente) empurrar para debaixo do tapete aquele elefante cor-de-rosa no meio da sala.

Ou melhor, aquele grande sofá roxo no meio da sala.

Agora parecia até que o tempo em si havia evaporado e ele se pegava mergulhado na lembrança nostálgica de viver sozinho em seu apartamento caindo aos pedaços na época de solteiro.

Tomás se esquecera de como começar uma conversa com Pedro.

Pedro parecia ter o mesmo problema.

E os dias se passavam sem que Tomás conseguisse se lembrar da sensação de dormir na cama dos dois, mesmo que esta estivesse um lance de escadas de distância.

Certo dia, cansado e frustrado, Tomás não voltou para casa logo depois do expediente de trabalho. Saiu para beber com um colega. Não avisou a Pedro. Provavelmente dormiria no sofá de novo, mas qual era a novidade?

Quando Tomás chegou em casa eram duas da madrugada, ele estava (um pouco) bêbado. No automático, cambaleou até a escada, agarrando-se ao corrimão como se este fosse sua ligação com a realidade, arrastando-se até o segundo andar com dificuldade. Tomás não tinha ciência de muita coisa naquele momento, mas sabia que não queria dormir no sofá. Queria vê-lo. Queria abraça-lo porque já fazia tanto (tanto) tempo.

Abriu a porta do quarto e esperou ansiosamente que a maldita não rangesse escandalosamente no silêncio do aposento. Ele soltou um silvo baixo quando ouviu o wrek se fazer presente, mas ainda assim continuou, empurrando-a até conseguir enxergar a cama de casal bem no centro do quarto. Lá estava ele, o volume reconhecível de Pedro sob os lençóis azuis. Tomás andou até lá, já menos alterado, deitando-se de maneira nada sútil em seu lado da cama.

Pedro acordou no mesmo instante, olhando-o assustado.

“Onde você estava?” a surpresa nos olhos claros se transformou em raiva com a rapidez de uma piscada.

Tomás abriu um sorriso brincalhão. Ele poderia dizer que ficou fazendo hora extra ou que havia se envolvido em uma briga de trânsito, mas é claro que ele escolheu o caminho da honestidade; aquele que o levaria à tragédia e à ruína.

“Saí para beber com o Thiago.” Disse, aconchegando-se ao lado do outro. Ah, como sentira falta disso.

“O quê? Por que você não avisou? Por que não ligou?” Pedro continuou, o olhar extremamente confuso e enraivecido.

“Você ficou preocupado?” perguntou Tomás, provocando.

“É claro que fiquei, imbecil.” Tomás então percebeu o celular nas mãos do ruivo, como se ele estivesse até aquele momento esperando pela ligação do moreno.

“Desculpe.” Disse, simplesmente, abraçando-o com força.

“Por que você não atendeu minhas ligações, Tomás? Isso não tem graça.” Pedro o empurrou.

“Eu achei que você não se incomodaria.”

“Como você acha que eu não me incomodaria? Você some de uma hora pra outra e isso não é motivo pra incômodo?” continuou sem parar. “E, ah, você está fedendo.”

“Você parece não ligar pra mim tem um tempo, para ser honesto.” Agora quem se irritara fora Tomás. “A gente nem dorme mais na mesma cama, Pedro.”

Pedro ficou calado diante disso, sem saber o que dizer. Abriu e fechou a boca, o cenho franzindo dolorosamente.

“Eu sei, e, infelizmente, também não o faremos hoje.” Finalizou, virando o rosto na direção da porta.

“Você quer que eu volte para o sofá agora? É sério?” Tomás não estava crendo.

“Sim.” Ele voltou a olhá-lo. “E se você não for, eu vou.”

“Por quê? Por que não podemos simplesmente dormir juntos, ao menos hoje?”

“Não é certo.”

“Por quê? Você não me diz o porquê de andar tão distante! A gente não conversa, eu só continuo dormindo naquele sofá pavoroso todos os dias e você age como se nem nos conhecêssemos mais!”

“Porque a gente não se conhece! Eu nem me lembro da última vez que estivemos bem, sem brigar por qualquer coisa como estamos fazendo agora!” gritou Pedro, já se levantando da cama.

“Isso porque você se recusa a conversar como uma pessoa normal. Pare de fugir de mim!”

“Eu não estou fugindo! Eu-” ele abaixou a cabeça. “Eu tenho medo do rumo que essa conversa levaria.” Ele levantou os olhos. “Tenho medo do inevitável.”

Lá vem o rei do drama, pensou Tomás.

“Do que é que você está falando?”

Pedro virou de costas, encolhendo-se como uma criança e Tomás logo entendeu que foi a coisa errada a dizer.

“Conversamos amanhã.”

O moreno viu quando o ruivo se fechou como um caracol se fecha dentro do próprio casco.

Ele suspirou, saindo pela porta do quarto com o peso de uma bigorna ainda descansando sobre os ombros. Desceu as escadas e mirou o sofá, sentando-se na ponta. Os olhos pesaram, e, derrotado, Tomás deitou a cabeça no braço do móvel, o coração retumbando de pesar.

Foi depois de alguns bons minutos com as pálpebras fechadas que sentiu algo tocar o topo de sua cabeça. Ao levantá-la, percebeu que era Pedro, olhando-o de cima com os cabelos desgrenhados e feição tristonha.

“Eu sinto sua falta.”

Tomás sorriu um sorriso pequeno, afastando o corpo para o lado e tapeando o lugar vago levemente.

Pedro sorriu de volta e deitou-se, ainda hesitante, ao lado do moreno. Tomás aconchegou-se contra o corpo quente do ruivo, pousando os lábios sobre sua orelha e suspirando pesadamente ao senti-lo estremecer.

(tanto tanto tempo)

Nada estava resolvido entre eles e o elefante permanecia intacto na sala de estar, mas Tomás tinha um bom pressentimento sobre o futuro e isso era o bastante.

“Inclusive, está na hora de queimarmos esse sofá.” Tomás soltou como quem não quer nada.

Pela cotovelada leve que recebeu em resposta, Tomás se permitiu pensar que o amante não tinha achado a ideia assim tão ruim.

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