pra virar poesia.
1 Labirinto
Notas iniciais
“Minha flor
Não me machuques
Minha dor
Não me abuses assim
Não tire magoas
Não tire magoa de mim”
— Johnny Hooker
—
— Você é minha luz. É o pássaro que trouxe para mim a semente da esperança — ele disse enquanto caminhava em direção à luz do sol sem se virar para trás. — Fiquei tão aliviado quando pude trazê-lo de volta comigo.
Heitor não precisava ver seu rosto para saber que ele sorria. Não aquele sorriso arrogante e prepotente que mostrava para seus fãs ou aquele que usava para conquistar mulheres e homens e levá-los para a cama, apenas um sorriso simples de felicidade sincera. Conseguia formar a imagem perfeita em sua mente: os lábios rosados discretamente curvados sem mostrar os dentes e os olhos brilhando enquanto fitavam um ponto qualquer.
— Lucas — chamou, completamente ciente de que ele viraria e de que, quando isso acontecesse, os dois se separariam para sempre. — Olhe para mim.
— Se eu fizer isso, você irá embora para sempre. Quero que venha comigo. Eu preciso de você.
Heitor soltou uma risada irônica.
— Em algum momento da sua vida chegou a se perguntar o que eu quero? O que eu preciso? — Segurou o braço de Lucas e o virou para si. — E eu não era sua luz, eu sempre caminhei na sua sombra — foi a última coisa que disse antes de desaparecer.
—
O silêncio incomodava e as memórias, que deveriam ter permanecido perdidas, voltaram depois da aparição de Lucas.
Ele sentia saudade. Saudade de tocá-lo, beijá-lo e ouvir a voz rouca e entorpecida sussurrar absurdos em seu ouvido. Queria ter podido, uma última vez, vê-lo rodopiar pela sala ao som dos Rolling Stones, enquanto arranjava mil e um argumentos para defender que eles eram melhores do que Beatles, ter enrolado seus dedos na cabeleira ruiva e sentido a barba tocar seu rosto, fazendo cócegas, ter dito que ele era sua poesia e não o contrário, uma poesia triste, mas ainda assim a mais bela de todas. Queria ter dito que o amou apesar de todas as mentiras e traições.
— Por que preferiu ficar se sente tanta saudade? — Ouviu uma voz feminina perguntar, quebrando a incômoda ausência de som.
— Eu sempre vivi nas sombras, por que sairia delas agora?
Os olhos negros da mulher se reviraram.
— Ele veio te buscar. Enfrentou todos os perigos que residem aqui por você, e você o fez descumprir o único requisito imposto para levá-lo de volta no último instante.
— Eu era a Sílfide e Lucas, o jovem James — ele disse, perdido em algumas lembranças. — Desculpe — pediu quando notou o olhar de confusão no rosto da mulher. — Me refiro a um balé. — Balançou a mão no ar, descartando aquele assunto. — De qualquer forma, eu não sirvo mais pra'quele mundo e nem pro’ Lucas. Eu ainda o amo, mas me livrei das correntes que me prendiam a ele e ao mundo em que ele vivia. Vou sentir saudades pela eternidade, mas precisava fazer uma escolha: perder-me novamente no sofrimento e nas confusões que é viver ao lado de um artista que não consegue lidar com a própria vida ou cuidar da minha própria mesmo que nas sombras da morte. Acredite, não foi uma escolha muito fácil e as opções não eram as melhores do mundo.
O silêncio voltou a preencher o lugar.
Ele olhou a mulher sentada ao seu lado; se ela estava ali, significava que o inverno tinha chegado ao mundo dos vivos. Ele sempre gostou daquela estação, principalmente porque podia fazer bonecos de neve (mesmo que os seus fossem horrorosos), mas também, porque achava que Lucas se aquietava mais nessa época; o frio o deixava preguiçoso.
Lucas nunca fora a melhor pessoa do mundo. Na verdade, ele tinha umas das piores personalidades que o rapaz já conhecera, todavia, o lado ruim não o impediu de se apaixonar pelo artista.
—
As pesadas gotas de chuva batiam com força no telhado e o vento estava tão forte que causava alguns estrondos quando batia contra a janela.
Sentado na cama, com o computador ligado, ele assistia pela enésima vez à apresentação de La Sylphid. Era seu balé repertório favorito por causa da forma que mostrava como a ganância e o egoísmo do ser humano só deixam-no perdido em algum desejo cego que acaba não levando a lugar nenhum ou chegando ao pior dos destinos.
Heitor tinha a infeliz mania de se enxergar dentro daquele balé. Ele era a Sílfide, a jovem fada do vento que rouba o coração de um camponês. Lucas era seu James, o camponês ganancioso e egoísta que se sentia incomodado com a imortalidade da Sílfide. E a relação dos dois era o xale mágico que roubou as asas e, por consequência, a vida da bela fada.
Nunca tivera uma vida muito tranquila, mas conseguira, depois de muitas falhas e sacrifícios, a tão sonhada bolsa de estudos na Universidade de Lincoln para estudar dança. E foi lá que conheceu Lucas. Ele era músico e sua banda estava começando a fazer sucesso quando se conheceram.
— O pub estava cheio, e todos estavam ansiosos para que o show começasse logo. Eu estava perdido no meio de tanta gente diferente, mas era uma sensação gostosa. E foi quando eu o vi subir no palco. Os cachos e a barba ruiva, os dedos longos segurando a guitarra cuidadosamente, os dentes um pouco tortos. Era uma beleza distinta, e eu falei para mim mesmo que não sairia daquele lugar antes de dizer ao menos um “oi” pro’ guitarrista gato. — A mulher o fitava com interesse enquanto ele seguia com a história.
No fim do show, Heitor, já bastante bêbado, acabou topando com o músico na saída do pub.
— Eu fiquei surpreso quando ele me puxou pelo braço e me levou de volta para dentro do pub, mas não quis fugir. Não lembro muito bem daquela noite, só sei que fiquei bastante satisfeito com os gemidos roucos dele no meu ouvido. — Ele riu, um pouco sem graça, quando percebeu o rumo que estava dando para conversa. — No dia seguinte, acordei ao lado dele na minha cama. Não tenho ideia de como chegamos na minha casa, mas não estava realmente ligando pra’ isso. Trocamos números de celular, mas eu não esperava que ele realmente me ligasse ou mandasse qualquer mensagem, todavia fomos nos tornando cada vez mais próximos. Ele não era nada como eu esperava, na verdade, era problema atrás de problema, mas eu me apaixonava mais e mais. Esse foi meu maior erro.
“Ele não sabia lidar com a própria vida. Era um músico excepcional, mas não tinha o menor compromisso, e a banda tinha que ficar sempre no pé dele pra’ que ele pudesse cumprir suas obrigações. Não assumia os próprios erros e sempre arrumava um culpado para se ferrar no lugar dele. Já fui essa pessoa milhares de vezes. Queria que o mundo girasse ao seu redor e, quando as coisas não saíam como ele queria, se afundava nas drogas e quase morria. A irmã dele costumava dizer que ele só seria feliz quando destruísse a própria vida e a de todos ao redor dele, e que eu deveria me afastar dele o mais rápido possível.”
Contudo, afastar-se de Lucas era mais difícil do que ele gostaria. Sempre que ficavam separados, Heitor sentia falta de tudo. Do cheiro de lavanda misturado ao de cigarro, das letras amarguradas que ele escrevia, das melodias maravilhosas que ele compunha, do sorriso, da risada solta, do toque delicado, do chá de camomila que ele fazia pela manhã.
— Eu me afastava e depois me aproximava de novo. Normalmente, depois de encontrá-lo bêbado em algum pub ou até mesmo em festas no campus da universidade. Eu não queria deixá-lo, na verdade, não queria que ele me deixasse. Inconscientemente, eu gritava para que ele não me deixasse sozinho e sempre voltava atrás nas minhas decisões.
“Depois que eu me formei, consegui entrar pra’ uma companhia de balé até bastante conhecida, mas, em pouco tempo, tudo começou a ruir. O Lucas tinha sido tirado da banda um ano antes, e sua carreira estava em declínio. Ele caiu numa forte depressão e, pra’ cuidar dele, eu deixei a companhia. Ele se recuperou e se lançou solo. Foi um verdadeiro “boom” quando tudo aconteceu, mas eu passei a viver nas sombras dele, deixando a minha vida de lado e percebi tarde demais que ele gostava disso. Ele adorava ser o centro, ser o bem-sucedido e o astro, enquanto eu era apenas o cara que ajudava dos bastidores, que não era conhecido por ninguém e que tinha falhado em ser um bailarino."
A mulher se remexeu como se tentasse arrumar uma posição melhor e, quando se ajeitou, jogou o cabelo negro trançado para trás e fitou o rapaz nos olhos. Ela queria ajudá-lo. Queria que ele voltasse e continuasse a viver de onde parou, por isso convenceu Hades a deixar que Lucas o levasse de volta para o mundo dos vivos. Ela não sabia de toda essa história, porém. Se soubesse, tê-lo-ia mandado para ser eternamente feliz no Elísios sem ter que se encontrar com Lucas novamente.
— Parece que, desde que o conheci, só fiz escolhas erradas. Eu queria que nosso relacionamento pudesse acabar bem, queria que ele fosse lindo como uma poesia e acabei metendo os pés pelas mãos e indo pro’ caminho oposto. Eu enxergo a vida como um labirinto em que você é jogado no dia em que nasce. As escolhas certas te levam até a saída, que seria uma morte sem arrependimentos. As escolhas erradas te levam a um fim parecido com o meu, preso para sempre num mar de coisas que poderiam ter sido. Eu poderia ter sido um bailarino, poderia ter realizado meu sonho, mas tomei decisões que pareciam certas porque fui jogado num mundo que não conhecia e fiquei deslumbrado. Eu não culpo o Lucas pela minha vida infeliz porque ele nunca me obrigou a ficar, não diretamente pelo menos. Mas não pude voltar com ele porque, pelo menos morto, eu posso seguir da minha maneira e não da maneira dele. Pelo menos morto, eu pude tomar uma decisão certa. Talvez aqui ou no local pra’ onde vou ser mandado quando nossa conversa acabar, eu possa finalmente achar a saída do meu labirinto.
—
“Respirando mágoas
De uma outra dor
Do nosso caso imoral
Desse amor
Desse amor marginal
Eu vou”
— Johnny Hooker
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