Notas iniciais
Aquele momento que você quer escrever algo e consegue, mas acaba escrevendo uma coisa que te deixa mal pra caramba.

Talvez ir em uma balada sozinha fosse algum sinal de solidão, mas, para Helena, era uma desculpa para poder dançar sem se preocupar. Ninguém ali a conhecia e ela podia ficar à vontade, deixando-se levar pela música o quanto quisesse. Podia escolher entre manter os olhos abertos para ver o mar de gente banhada pelas luzes coloridas ou fechá-los e afundar-se nas notas eletrônicas que ocupavam os seus ouvidos.

Ela o viu a primeira vez ali, quando decidiu abrir os olhos e ver quem estava a sua volta. Dançando um tanto acanhado, ele a olhava com os olhos escuros brilhando sob as luzes coloridas. Ele sorriu e Helena esboçou um sorriso em resposta, antes de voltar a prestar atenção na música.

Alguns minutos depois, quando seus pés já estavam cansados e o gelo seco já estava deixando seu nariz irritado, ela decidiu que já estava na hora de ir embora. Parou um momento do lado de fora da boate, respirando o ar frio de Londres e erguendo a cabeça para olhar o céu: não havia estrelas, apenas aquele céu noturno que beirava um marrom escuro. Enquanto olhava as mensagens no celular, ficando aliviada de ver que sua mãe não lhe enviara nada, sentiu alguém se aproximar.

O rapaz da pista de dança parecia mais relaxado ao ar livre. Ele comentou sobre as músicas e sobre o clima de Londres, sobre como o frio ali era diferente do que estava acostumado a ter em Yorkshire. Helena sorriu e falou sobre o clima da Escócia. Ele pareceu fascinado e começou a perguntar mais sobre o lugar.

“Você quer que eu te acompanhe até em casa?” ele perguntou a certa altura e ela apenas sacudiu a cabeça.

“Vou pegar um taxi,” ela respondeu, apontando para uma pequena fila de carros negros estacionados na outra esquina.

“Me passa seu celular pra gente conversar?” o rapaz pediu, olhando-a com grandes olhos escuros e um sorriso no rosto.

Helena respirou fundo, sentindo o ar frio gelar as suas narinas. Não faria mal passar o número do celular, certo? Quem sabe o jovem gostasse de coisas parecidas e eles pudessem ter uma boa conversa?

“Claro.”

***

O nome do rapaz da pista de dança aparecia como ‘Sig’ no WhatsApp. Ele mandava várias mensagens seguidas e queria manter longas conversas contínuas. Helena, que alternava entre assistir aulas na faculdade e trabalhar em uma livraria, as respondia quando tinha tempo e sempre recebia alguma mensagem de ‘é difícil falar com você’ como resposta.

As mensagens no WhatsApp continuavam chegando quase todos os dias e Helena decidiu que estava se irritando com aquilo. As conversas pareciam estranhas e não levavam a lugar algum, eventualmente chegando ao silêncio que só era quebrado quando Sig mandava outro ‘oi, tudo bem?’ ou ‘você ta ai?’. Ela deixava as mensagens chegarem, mas passou a não abri-las todos os dias... Uma vez por semana, uma vez a cada quinze dias, apenas. Um punhado de mensagens perguntando o que havia acontecido, falando que queria conversar.

Sua mãe apenas arqueou uma sobrancelha quando, durante o jantar, seu celular começou a vibrar de forma incessante a cada mensagem nova que chegava.

“Por que você não bloqueia?” perguntou Rowena, que era a praticidade em pessoa. A mulher silenciava grupos de família e sumia de redes sociais por semanas quando estava trabalhando em alguma pesquisa.

“Estou esperando ele perceber que não quero falar com ele,” a garota explicou, tirando o som e a vibração das notificações e deixando o celular de lado.

“Boa sorte.” O sussurro da mãe não foi nada animador.

***

Ele apareceu na livraria. Aparentemente, Sig era conhecido de Salazar, o dono do estabelecimento, e Helena apenas sorriu, forçada, quando ouviu isso. Slytherin, um colecionador de livros quieto e um tanto rabugento, apenas os encarou por alguns minutos, antes de anunciar que iria recatalogar a sessão de medicina alternativa.

“Que coincidência!” Sig sorriu, radiante. “Agora entendo porque você não responde. Aposto que Sal mantém você ocupada o tempo todo.”

“Você nem imagina.” Ela riu, voltando a arrumar os livros e esperando que ele percebesse que aquela era a deixa para ele ir embora.

“Mas agora vai ficar mais fácil de falar com você, não é? Poxa, se eu soubesse que você trabalhava em livraria, teria falado mais de livros.”

“Sim, vai ser legal,” a garota falou, olhando o relógio no pulso. “Olha, preciso terminar isso aqui e ir para a faculdade. Estou quase atrasada.”

“Tudo bem.” Aquele sorriso parecia não sumir do rosto dele. “A gente se fala depois no celular, Helena!”

***

Sig a convidara para ir em uma festa que a turma dele de Linguística iria dar. Na primeira vez que ele a convidou, Helena recusou, assim como na segunda. Quando ele mencionou a festa pela terceira vez, a garota aceitou, já arquitetando uma forma de explicar para o rapaz que ela não estava interessada nele e era melhor que ele procurasse outra garota para tentar conquistar (ela queria muito dizer para ele ir procurar outra pessoa para encher o saco, mas não podia ser tão rude assim).

Enquanto se arrumava, a jovem ainda se perguntou pelo menos dez vezes por que diabos Sig a estava perseguindo e se não era imaginação sua. O quão embaraçoso seria se ela dissesse que não queria nada com ele e o rapaz lhe respondesse que ele também não queria nada e ela estava vendo coisas onde não havia nada? Olhando o próprio reflexo no espelho, Helena realmente não sabia em qual conclusão chegar. Ela não era tão bonita e nem tão simpática quanto a mãe. Na verdade, todo mundo que conhecia as duas comentava sobre como Helena era diferente do que esperavam.

“A que horas posso te esperar?” perguntou Rowena, empoleirada na poltrona da sala com um livro nas mãos, quando ela estava prestes a sair.

“Volto cedo, não se preocupe.”

“Se cuide.”

***

A festa era sem graça e a grande maioria das pessoas lá eram homens que se recusavam a explicar para Helena qual o tema de suas teses, pois, de acordo com eles, ela não entenderia. Determinada a não se irritar mais do que o necessário, preferiu não responder do jeito que gostaria e apenas continuou ouvindo as conversas sem graça enaltecendo a série Game of Thrones e tentando parecer inteligentes enquanto soltavam o nome de Dostoievsky e Tolstoi a torto e a direito.

Helena queria se esconder na dispensa e ficar lá até todo mundo ir embora. As poucas garotas que ela vira aqui e ali estavam acompanhadas, parecendo entediadas ou entretidas demais em seus celulares (uma ótima forma de escapar da chatice, diga-se de passagem). Mas Sig parecia comprometido a mantê-la entretida nas conversas, apoiando uma mão em seu ombro e levando-a para conhecer os seus amigos.

Quando finalmente convenceu-o de que era hora de ir embora, o rapaz fez questão de acompanhá-la.

“Preciso falar com você,” ela pediu, enquanto eles andavam lado a lado pelas calçadas quase vazias de Londres.

“Podemos ir até o parque.” Sig apontou para o outro lado da rua, onde uma das entradas do Hyde Park ficava. “A gente aproveita para conversar com calma.”

O lugar estava silencioso e frio. Helena vira uma ou outra pessoa andando, errante, pelo parque e um casal meio escondido atrás de uma árvore, emitindo gemidos baixos e risadinhas. Eles se sentaram em um banco distante do cantinho do casal desconhecido e Sig puxou um cigarro, acendendo-o e o colocando entre os lábios.

“Não sabe como fico feliz que você veio,” ele falou, sorrindo e dando mais uma tragada no cigarro antes de jogá-lo no chão e apaga-lo com a sola do sapato. “Os meninos gostaram de você, tenho certeza.”

Helena deu um sorriso sem graça e encolheu os ombros. Antes que pudesse abrir a boca para iniciar o discurso que havia ensaiado diversas vezes sozinha, sentiu a mão dele sobre a sua perna. Todo o seu corpo enrijeceu e o sorriso, por mais acanhado que fosse, sumiu assim que ela agarrou o pulso do rapaz e o afastou de si.

“Preciso falar com você.”

“Ora, pode falar.” Ele riu e soltou-se dos dedos dela, agora segurando a sua mão de forma carinhosa.

“Eu não sei exatamente o que você quer, Sig,” a garota começou a falar, sentindo-se afastar um pouco a medida que o outro se aproximava. “Mas eu não estou... Interessada.”

“Como é?”

“Não estou interessada nisso.” Helena apontou para os dedos dele em sua mão e ele piscou uma, duas vezes, devagar, e então uma risada fraca escapou por entre os seus lábios.

“Sabia que você era durona desde que te vi a primeira vez.”

Helena não sabia se sentiu o rosto esquentar pela raiva que sentiu ao ouvi-lo falar aquilo ou por, logo depois, sentir os lábios dele sobre os seus. Sem pensar duas vezes, ela o empurrou com força e, assim que viu o rosto do rapaz a uma boa distância, acertou-o com a palma da mão, sentindo-se satisfeita ao ouvir o estalo do tapa.

“Eu disse que não estou interessada,” a jovem repetiu, dessa vez com rispidez e deixando de lado toda e qualquer possibilidade de ser gentil. “Boa noite.”

Em um momento ela estava de pé e, no outro, a grama macia e fria estava contra o seu rosto. Sig a xingava quando a virou no chão, deixando de lado a imagem de moço divertido e tímido que passava antes, antes de arrancar-lhe o cachecol que ela usava no pescoço e usá-lo para abafar qualquer som que ela pudesse fazer.

Helena, por um lado, sentiu-se grata por perder a consciência logo. Por outro, ela só queria continuar consciente para poder matar aquele homem assim que tivesse a chance.

Notas finais
Barão Sangrento vivendo hoje em dia seria um cara que acreditaria em friendzone.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!