medo

1 vita


Lá estava Anne, na sua chata rotina, voltando pra casa com sua melhor amiga, Joana, depois de uma manhã de sexta-feira exaustiva na escola, que ficava à aproximadamente três quadras de sua casa. Apesar da casa da sua amiga ser para o lado oposto, elas tinham combinado de almoçar na casa de Anne, e era para lá que estavam se dirigindo.

— E então? O que você acha? — Joana estava apreensiva com a resposta de sua amiga à sua proposta sobre uma “noite das meninas” em sua casa, aliás, sua mãe estaria em uma festa promovida pela principal igreja da cidade, a qual era catequista.

Joana, na verdade, era completamente oposta de sua mãe, nunca teve paciência para nada que envolvesse religião, qualquer que fosse. Não era ateia, mas não acreditava em Deus completamente. Suas crenças não tinham uma forma definida, era algo quase surreal, apenas existia, sem explicação.

— Eu não sei... Talvez, se minha mãe deixar. – falava Anne, de certo modo meio apreensivo. Ela queria, mas, sexta-feira, sua mãe sempre inventava algo para fazer, um filme, um jogo, toda a baboseira forçada e falsa que inventavam para se dizer “boa mãe”, para terem um momento em família, coisa que Anne nunca deu valor.

Para ela, desde que seu pai havia morrido, as coisas haviam mudado e, parecia que sua mãe não a compreendia como seu pai fazia. Parecia, também, que só por causa da morte de seu pai, elas tinham que passar mais tempo juntas, para não perder tempo até uma de elas morrerem. Anne nunca deu valor pra isso, também, nunca deu valor para coisas forçadas.

— Não garanto nada. – Falou Anne, indecisa e gélida.

Enquanto Joana irritava o seu ouvido esquerdo, Anne sentiu um arrepio surgir no seu ombro direito e se espalhar por todo seu corpo, como uma chama consome algo encharcado de álcool. Algo aterrorizante pairou por sua mente por um instante, imagens surreais de um monstro tão horrível quanto o demônio, ela sentiu uma leve tontura e teve uma vontade incontrolavelmente idiota de olhar para trás. Não, ela não deveria ter feito isso. O que ela viu, de relance, não era algo normal. O pobre ancião que havia morrido ali — na casa por onde passavam a frente — estava logo atrás de Anne, com sua mão cheia de rugas se recostando em seu ombro, no mesmo local onde havia começado o arrepio. Seu coração disparou e ela começou a suar frio, de um modo como nunca antes, ela cambaleou quando o medo tomou conta de ambas as suas pernas. Logo, a imagem, tal como o arrepio, passaram. Ela estava aterrorizada. Querendo companhia, questionou sua amiga, num modo automático; não era algo que havia surgido em sua mente realmente para ser perguntado, só para ser pensado, mesmo:

— Você acredita no diabo? — Anne perguntou num tom frio como gelo. Sua face pálida estava mais pálida, e seu corpo foi invadido por uma onda de arrependimento. Mostrando o seu desinteresse em realmente saber daquilo, ela fixou o olhar na calçada suja. Foi apenas algo que escapou de seus lábios. — Descul...

— Sim, às vezes. — Anne tombou por um momento ao ouvir a resposta de sua amiga, parou de caminhar por alguns segundos para olha-la incrédula, mas logo voltou a caminhar normalmente percebendo o desconforto de ambas as partes. — Às vezes não. Mas... sabe, talvez ele não seja tão mal quanto falam. Minha mãe cisma muito comigo, quando a gente briga ela fala que eu sou uma demoníaca, que eu deveria ser que nem ela, de Deus... — Ela gesticulou com as mãos gestos aleatórios mostrando de modo meio abstrato a forma como sua mãe a xingava. — Mas por que você quer saber isso?

— Na verdade, não era pra eu ter perguntado, eu só fui idiota mesmo. — Joana a olhou de forma estranha, como se não estivesse reconhecendo-a, como se olha para uma pessoa qualquer na rua. — E-eu, bem, eu não acredito. — Ela falou enquanto tropeçava pelas palavras, meio tortas, não muito confiantes. Ela estava diferente, mas repentinamente. Desde o arrepio sútil, ela não se sentia segura naquele local, e parecia — naquele momento, só nele — que nenhum era.

— Você tá estranha, An. Tá tudo bem? — Joana fixava seu olhar no da amiga. Um ponto de pena a invadia e transparecia no seu olhar claro como o céu, mas que estava turvo no momento, como se, no céu dos seus olhos, uma tempestade estivesse a se formar.

— Estou sim, só estou me sentindo meio tonta. — O olhar escuro de Anne estava tão turvo quanto a tempestade dos olhos de Joana. Sem um foco definido, ela cambaleava. Suas pernas estavam fracas de uma forma inexplicável, não sabia se tinha forças para um passo sequer.

— Chegamos. — Anne deu um sorriso meia-boca e forçado para Joana. Ela estava mal um bocado, mas não queria que a amiga ficasse sabendo, para não estragar os planos do dia.

A casa, tão simples, mas tão aconchegante, ainda era apenas algo frontal para as meninas que esperavam a dona Jane, mãe de Anne, atender a porta. Amarela, com janelas azuis sorrindo para todos que passavam. A casa dava um ar calmo ao bairro que andava tão agitado após um assalto que havia acontecido alguns dias atrás. Mas isso tanto faz e tanto fez, quando Jane, como sempre, sorridente, atendeu a porta e exclamou um “Olá” animado para as garotas. Anne balançou sua mão sem vontade alguma, enquanto Joana falou um “Oi” animado. Joana entrou na frente de Anne que, ao botar o pé esquerdo no tapete de boas-vindas da casa que ficava do lado de dentro, sentiu algo percorrer seu corpo.

Aquele não era um local seguro. E desmaiou.


Notas finais
Espero que tenham gostado e que continuem acompanhando rs.
Até!