martírio
1 martírio - capítulo único
Notas iniciais
Era uma noite fria de domingo. Eu caminhava solitário pela rua, perguntando-me quando fora a última vez que as flores fizeram algum sentido. Elas crescem, resplandecem, exalam seus perfumes e suas belezas e, então, morrem. Seja por conta de algum indivíduo que a arrancara de sua terra, pelo tempo ou pela negligência de um cuidador. Talvez eu fosse como as flores.
Foi quando estivera imerso nesses pensamentos que percebi estar cercado por clarões vermelhos e brancos. Eu estava prestes a ser atropelado.
Não lembrava de nada que acontecera durante o ocorrido. Se senti dor, não sinto mais, se sangrei incessantemente, não sangro mais. A única coisa que ainda perseguia-me era o frio extremo. Encontrava-me numa negritude total e, num ímpeto, a única coisa que via era uma pequena luz. Por imaginar ser outro carro, recuei, mas, ao olhar com mais atenção, percebi ser uma pequena lâmpada de pisca-pisca. Aproximei-me, peguei-a e observei-a atentamente, ela piscava com certa celeridade e mexia-se, como que procurasse dizer algo.
— O que acontece, pequena luz?
Repensei minha atitude e senti-me um completo estulto. Em que mundo uma lâmpada falaria algo? Deixei-a no chão com cautela e sentei-me ao seu lado. De repente, outra luz vinha do mesmo lugar em que a primeira lâmpada aparecera. Esta, porém, piscava lentamente. Coloquei-a ao lado da primeira lâmpada.
Não sei se foram horas ou dias, porém o tempo passou e, junto dele, surgiram mais luzes. Agora o chão estava coberto delas e eu não sabia o que tudo aquilo significava. Foi quando a última lâmpada chegou que algo estranho ocorreu. A escuridão e o frio se esvaíam aos poucos e, num alento, tudo tornou-se luz.
Acordei numa livraria sentada em um banco lendo o que aparentava ser um livro de poesia. Mesmo nunca tendo visto aquele lugar em minha vida, era como se eu o conhecesse do início ao fim. Meus cabelos já não eram mais curtos, agora encontravam-se na altura dos ombros e cheiravam a algum shampoo de ervas verdes. Atualmente possuía seios e usava duas pulseiras para disfarçar a finura de meu braços. Entretanto, a única coisa que ainda não mudara era a temperatura, que permanecia fria. Olhei em meu celular e marcava 17°C, era segunda-feira.
Voltei a ler o poema de onde parara e estava no seguinte trecho:
“E a doce imagem vaporosa, e bela,
Que a mente erguera, engrinaldou de amor,
Ergue-se vaga, melindrosa, e grata
Como fragrância de mimosa flor.
E o peito a envolve de extremoso afeto,
E dá-lhe a vida, que lhe dera Deus;
Ergue-lhe altares — lhe engrinalda a fronte,
Rende-lhe cultos, que só dera aos céus.”
Maria Firmina dos Reis sempre fora minha preferida dentre os poetas brasileiros.
Terminei o livro ali mesmo e, ao olhar ao meu redor, invadiu-me uma sensação de conforto, mas ao mesmo tempo sentia-me aflita. Tal aflição que atormentava-me desde meus últimos suspiros como homem.
Analisei tal situação e neste momento percebi que, ao contrário do que muitos pensam, existem coisas ainda mais vigorosas e persistentes que a própria morte.
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