man D' cine
1 Doença e Cinema
Notas iniciais
Noites e noites em claro, olhos vibrantes na frente de uma tela luminosa e isolado totalmente de qualquer ambiente social, fora a má alimentação e sedentarismo extremo. Era João há um tempo atrás... Antes do seu probleminha "stalker", ele sempre tinha frequentes desmaios e seu sistema imunológico era baixíssimo. Com certeza... Sua mãe o fazia ir ao médico várias vezes, mas o mesmo o dizia: " Faça exercício e se alimente bem, só". Até aquele dia.
A mãe vai me fazer ir aquele hospital horrível novamente. Tão difícil entender que eu não vou morrer. Espera, ela disse que ia num lugar diferente hoje. Só esperar pra ver mesmo o quão merda meu dia vai ser.
– Mãe, me diz, pra onde tu ta indo com esse carro?
– Tu vai saber.
– Pra que esse suspense. Fale mulher.
– É tipo uma clínica.
– Ah, legal. Vai me mandar pro manicômio mesmo né?
– Viu porque eu não queria falar. Menino besta. — Minha mãe ri e eu também, mas não estou tão feliz de saber que estou indo pra uma "clínica".
Chegando lá. Eu observo cada canto daquele lugar. Não tem nada de especial. É como se fosse um... Um lugar qualquer. Só que tem muitas salas. E muitas pessoas conversando com outras pessoas... Eu paro de frente a uma sala pequena. Dentro dela tem um cara bem baixo sentado numa cadeira grande, dá até impressão que ele é uma criança, mas ele tem uma barba grande e fechada, então nem tem como ter menos de 24 anos. Vestido com aquele jaleco branco estranho como todos os outros usam. Ele olha estranho pra mim. Pouco me importa, tenho mais ódio por está aqui do que esse olhar. A sala, apesar de ser pequena, tem bastante mobília. Já estou na porta observando-o há 10 segundos. Não quero parecer um doido. E ele continua olhando pra mim. Eu viro meu rosto e sigo pra outra sala. Minha mãe grita.
– Hey, volta aqui. É essa sala mesmo.
– O que? Essa sala aí? — Então, coisas boas acontecem com pessoas boas. Eu não sou uma delas, me fodi legal, vou ter que ficar olhando pra aquele cara estranho por um tempinho...
– É, entra logo meu filho.
Entrei já de cabeça no chão e os olhos no teto. O cara estava com uma expressão diferente. Era totalmente de alguém amigável. Eu olhei torto junto de sua apresentação: " Boa Tarde, meu nome é Danilo e eu vou acompanhar o João durante toda essa semana.", e assim fui respondendo tudo o que ele perguntava. Alguns minutos se passaram e minha mãe teve que sair da sala pra atender o celular. Não, sério que ela fez isso? Parece coisa de filme. Mas essas coisas acontecem de verdade e não era a primeira vez. Ele olhava pra mim fixamente agora, claro, eu era o único na sala, mas tinha alguma coisa diferente. Mas ele não me perguntava nada demais... Até ele dizer:
– Não há mais nada pra eu ti perguntar e um laudo só sai na próxima semana, mas tem algumas coisas antes para se fazer...
– Tipo o que? — Pergunta por impulso. Acho que foi pessoal. Não falo nada com nada, tenho que pensar antes de falar. Eu sou muito burro. — Não, pera. É coisa pessoal, não tem nada haver comigo, o senhor não precisa responder.
– Na verdade, tem haver contigo sim. E com meu trabalho, mas, por favor, antes de tudo, não me chame de senhor, não sou tão velho. — Ele se inclina pra frente da escrivaninha num gesto afável, dá até pra engolir essa. — Danilo está ótimo, me chame assim tá bom?
– Tá. Da-ni-lo. E o que você tem pra hoje?
– Você vai sair comigo.
– Mas o que? Pra onde? Fazer o que?
– Não sei. Eu tenho minhas preferencias.
– Então vamos ao. — Minha mãe chega naquela hora e me interrompe. — Mãe, até que enfim, já tava cansado de ficar aqui.
– Já se decidiram?
– Como assim?
– Já, nós vamos ao cinema esta noite. — Danilo fala num tom sério e me fez gelar como se o que ele falasse fosse algo muito ruim. — Se estiver tudo certo, claro.
– Com certeza, sem problema nenhum. Meu filho é um desocupado e faz parte do diagnostico.
– Também não precisa falar assim mãe. — Minha cara de desgosto é evidente e faz o Danilo rir, eu acabo rindo também.
Apenas eu não estou realmente preparado para esta noite de cinema.
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