iLost
3 Capítulo 3
Notas iniciais
“Droga! Tá chovendo!” a loira esbravejou, afastando-se do garoto.
“Agora sim... que grande droga!” o moreno bufou, sem saber se estava mais frustrado por não ter beijado a loira outra vez ou por estarem perdidos, e debaixo de chuva, para piorar a situação.
“E agora? Você tem alguma ideia brilhante, gênio?” a garota provocou, visivelmente irritada.
Freddie olhou para Sam com vontade de dar uma boa resposta, mas a chuva estava engrossando rapidamente e ele sabia que tinham que encontrar abrigo. Sem esperar mais, ele pegou a mão dela na sua e foi puxando a garota para onde nem ele mesmo sabia. Mas, mesmo assim, ele andou, e andou, e andou... até darem de cara com uma parede rochosa onde havia uma abertura que dava altura suficiente para uma pessoa passar.
Sam nem esperou ele dizer nada, enfiou-se na pequena caverna. Eles não se afundaram muito no espaço, ficando apenas na entrada, onde tinham espaço suficiente para se sentarem e ficarem com as cabeças cobertas. Se ali fosse o abrigo de algum animal, ao menos estariam mais próximos da saída em caso de emergência.
Olhando o entorno, Freddie pegou algumas pedras e gravetos secos que estavam por ali, agachando-se com o material.
“O que foi? Lembrou da sua coleção de lixo agora?” Sam provocou.
Em vez de cair na irritação, ele nem mesmo ergueu os olhos do que fazia. “Vou tentar acender uma fogueira.”
“Olha, finalmente o nerd usando a cabeça” Sam riu, sem conseguir resistir a mais uma provocação. Mas, no fundo, ela sentiu alívio por estar perdida com um carinha inteligente.
Freddie nem ligou para as zombarias, continuou concentrado na tarefa em mãos até que… “Touché! E fez-se a luz!”
Sam riu com gosto ao ver a pequena chama que aumentou de intensidade assim que Freddie a alimentou com mais alguns pedaços de graveto. Não era uma bela fogueira de lareira, mas já era o bastante para iluminar um pouco e, sem dúvida, mantê-los mais aquecidos.
A loira sentou-se no chão, aproximando as mãos erguidas da modesta chama.
“Me lembre de agradecer a sua mãe por ter te mandado para aquele acampamento de escoteiros mirins no verão passado.”
“Não eram escoteiros mirins” Freddie revirou os olhos. “E era acampamento de treinamento em sobrevivência.”
“Touché!” ela o imitou.
Balançando a cabeça, Freddie também estendeu as mãos para o fogo. Observando Sam dobrar as pernas junto ao corpo, ele percebeu que ela estava tremendo. Sem querer parecer abusado, e tampouco deixá-la daquele jeito, ele pigarreou antes de falar.
“Seria melhor se ficássemos próximos um do outro.”
O olhar de Sam encontrou o dele. Antes que ela pensasse ou dissesse besteira, Freddie tratou de explicar.
“É a melhor maneira de conservarmos o calor. Como não temos uma muda seca de roupas nem cobertores…”
Sam teve o impulso de recusar, mas, de fato, ele tinha razão. Apenas aquela mísera fogueirinha não serviria para mantê-los aquecidos toda a noite e ela estava sentindo frio de verdade.
Freddie achou que ela recusaria terminantemente a proposta, mas, surpreendendo-o, Sam arrastou-se até ele, parando bem ao seu lado. Ela ficou imóvel, as pernas ainda junto ao corpo. Ele viu algumas gotas pingando do cabelo dela. Sentiu a própria pele arrepiada de frio. Então, estendeu o braço com cuidado e envolveu os ombros da garota.
Para alívio dele, Sam não o empurrou. Ao contrário, ele a sentiu aconchegar a cabeça em seu peito. O gesto despertou uma sensação morna e gostosa dentro dele, e Freddie sorriu. Apesar de todos os reveses, ele estava contente por estar se dando bem com sua companheira de desastre.
Mesmo temendo o que o corpo firme de Freddie havia provocado nela minutos atrás, Sam cedeu ao cuidado e ao apoio tentador que ele representava naquele momento.
A chuva seguia caindo do lado de fora, e os dois podiam observá-la em segurança da entrada da gruta. Por sorte, não haviam se molhado demais, caso contrário, Freddie tinha medo de pensar que poderiam ficar com a saúde seriamente comprometida.
De repente, ele se lembrou dos biscoitos que estavam no bolso da bermuda, pegando o pacote com a mão livre. Ao som da embalagem, Sam ergueu a cabeça de seu peito.
“Último estoque de suprimento” ele disse, estendendo o pacote com seis unidades para ela.
Pegando a embalagem, Sam levou três biscoitos de uma vez à boca. Freddie nem estranhou, apenas riu. Aquela era Sam Puckett, a garota com aparência de anjo e apetite de leão feroz. Ela devia estar faminta depois daquela longa caminhada e horas sem comer. Ele também estava com fome, mas tinha certeza de que o apetite Puckett era bem maior que o seu. Por isso nem se importou em dar o último alimento que tinha para ela.
Terminando de mastigar seus crackers, os olhos de Sam encontraram os dele. Ela sentiu uma pontada de culpa. Depois de tantos empurrões e provocações, Freddie tinha, afinal, encontrado abrigo, acendido uma fogueira, oferecido para compartilhar o calor do corpo com ela e, agora, até mesmo lhe dado o último alimento que tinha.
Abrindo as mãos, ela estendeu os três últimos cream cracker restantes da embalagem para ele. Freddie piscou, olhando dela para os biscoitos. Aquele era um momento inédito — Sam dividindo comida. Sam dividindo comida com ele! Passada a surpresa inicial, ele sorriu e aceitou a oferta.
Mordendo um a um seus biscoitos, Freddie tornou a observar a chuva lá fora. Um silêncio confortável se instalou brevemente até que ele terminou de comer e a voz de Sam soou baixinho, com um fio de genuína preocupação.
“Acha que vamos conseguir encontrar o caminho de volta?”
Freddie olhou para ela, e, diante da expressão triste e cansada de Sam, forçou um pequeno sorriso.
“Acho que sim. Isso se não encontrarem a gente antes. Com certeza nossos amigos já notaram a nossa ausência e pediram uma equipe de resgate pra vir atrás de nós.”
Sam tentou extrair conforto das palavras de Freddie. Afinal, não que ela algum dia fosse deixá-lo saber disso, mas ele sempre estava certo. Suspirando, ela tornou a encostar a cabeça no peito dele, que prontamente envolveu seu corpo com os braços.
Sentindo as pálpebras pesarem, Sam fechou os olhos, embalada pelo som da chuva e das batidas do coração do garoto com quem mais havia implicado na vida.
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