hierarquia de sangue

porque eles te disseram que você não valia uma maldita coisa

sangue é confuso num sentido biológico, em que eu nunca entendi suas composições, suas deficiências e a função do plasma. é como se ter um parente que morre de leucemia e você não exatamente entender do porque quimioterapia, ser posto num tratamento de radiação, vai de qualquer jeito consertar seu problema com glóbulos brancos. sangue não é confuso porque eu sou bruxo, sangue é somente confuso em sua integridade, acho.

sangue é confuso, também, porque eu sou trouxa, em que eu tenho que atribuir expectativas societárias numa fórmula complicada o bastante. ser bruxo-trouxa, nascido-trouxa, sangue-ruim, sangue-sujo, é dificil; porque tem um garoto me explicando propriedades de sangue que eu nunca vou ouvir falar.

“é por isso que você é tão profundo?” eu interrompo o garoto smith, “porque em teu sangue você segura o peso dos seus ancestrais?”

“do que diabos você está falando?” o garoto smith não acha graça. “sangue é a base no qual nós formamos, é a base de todas as nossas famílias.”

eu continuo, “se essa tua família trabalhou em conjunto para concentrar toda essa pureza em você, parabéns aos envolvidos.”

“vocês veem isso de forma tão banal. sei que pensa que é apenas um conceito, mas no final, não é tão simples.”

“da forma que eu vejo, sangue é plasma, leucócitos e hemácias.” o garoto smith continua desimpressionado. “vocês tiveram duas guerras inteiras sobre diferenças de opinões, e você ainda arranja fôlego pra arrastar até aqui.”

“você acha que é besteira porque não é parte disto,” ele sussurra, “pode ser imaginário e inteiramente um conceito abstrato, mas é posto em prática, queira você ou não.”

em retrospecto, isso é tudo culpa do nosso sistema de ensino, não no ensino que enraizou elitismo nos pais desse garoto, que por sua vez enraizaram nesse; não, isso é culpa do sistema de ensino porque se eu não estudasse em hogwarts, ou se isaiah smith não estudasse lá também, se eles não tivessem uma política anti-não-machuque-o-coleguinha tão grande eu nunca teria acabado numa detenção junto dele. e eu nunca teria dormido com ele porque a solução seria ter que passar mais dois anos o odiando à distância e é tão mais difícil o fazer em proximidade.

“suas capacidades argumentativas são impressionantes.”

“é inútil discutir contigo,” ele diz.

“eu concordo,” eu digo, “eu não fiz cócegas numa pêra e arrisquei levar um banho de vinagre para entrar num grupo de debate.”

Notas finais
eu já tive dias melhores
eu nunca entendi porque minhas autoras favoritas eram virtualmente um pé no saco; elas eram insuportáveis como pessoas juro
é porque conforme você cresce sua escrita cresce junto e você tem que adaptar todos os seus novos medos num novo documento vazio do word. é porque algumas vezes um drabble bobinho sobre um casal popular não vai satisfazer o desejo profundo da sua alma de traduzir the foxhole court pra português.
algumas vezes eu me sinto maior que harry potter mas aí eu lembro que vai fazer 6 anos e não passou um dia em que eu deixei de amar o james.
gente
escrever é muito difícil
eu to ficando cansada de ser neurótica sobre isso

bejão

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