de Magos e Mortais

1 Convivendo com os Fatos


Era uma melancólica manhã de Julho, gotas de chuva caíam lá fora e faziam barulho nas janelas. A névoa embaçava os vidros e fazia com que todo o horizonte fosse um misto de tons de cinza e o interior do sótão ficasse úmido e gelado. O lugar era todo de pedras escuras e o teto de madeira, o grande vitral redondo que retratava a guerra de marinheiros contra um enorme dragão aquático estava sujo, o quarto cheirava a ervas e era atulhado com todo tipo de coisa estranha que se possa imaginar. Havia ali uma infinidade de armarinhos com portas de vidro repletas de frascos de todos os tamanhos, cores e cheiros. O gato Ivan balançava os bigodes brancos com prazer enquanto observava uma mariposa marrom voando próxima das lamparinas.

Alto permanecia na mesma posição de algumas horas antes, observando uma antiga peça de tapeçaria enquanto resmungava as mesmas coisas que de que já vinha reclamando ao longo dos últimos 157 anos. “Um menino… estou velho… besteira… este lugar não vai me dar quem eu preciso… aquele Pardal insolente…”.

O restante da casa permanecia quieto, vivendo lentamente à sombra das reflexões de Alto, tábuas estalavam e o peso dos móveis fazia ranger aqui e ali, alguns pombos de olhos vermelhos prostrados nas vigas de madeira observavam as janelas esperançosos, gotas de uma solução amarelada transbordavam de uma caldeira enferrujada e chiavam na superfície quente das pedras da enorme lareira.

Enquanto isso, o jovem Rubro Pardal trabalhava com esmero na horta colorida e farta que ocupava um terço das enormes terras merlinianas de Monte Folhado, petiscando uma minhoca aqui e ali, alguns hábitos permanecem mesmo quando ele se encontrava em forma humana. Seus olhos amarelos de íris castanhas perscrustavam cada centímetro de cada mísero brotinho das valiosas plantas que ali cresciam. “Qualquer titica de larva pode arruinar uma poção e causar uma tragédia. É preciso muito cuidado com as plantas”, dizia Alto sempre que passava para avaliar e coletar os espécimes que seriam usados no dia, “Seu filhote de urubu carniceiro imundo! Me trouxe uma porcaria de folha com titica!” era o que Pardal ouvia, e sentia, quando qualquer coisa dava errada com as soluções de Alto.

Já passava das duas da tarde quando Rubro percebeu passos subindo a colina do Monte Folhado. Alto não gostava de ser pego de surpresa com visitas repentinas e, prevendo a bronca que viria caso isso acontecesse, Rubro tomou a sua forma animal — um pardal avermelhado de olhos amarelos ligeiramente maior que o normal — e voou de encontro à meia dúzia de visitantes. Sobrevoando-lhes algumas vezes, identificou Armin Gregor e seus dois filhos Altair e Clério e mais alguns membros menores do Conselho de Magos.

— Avise Alto que é importante! — disse Armin alto o suficiente para que Rubro pudesse ouvir — E que chegaremos logo, quer ele queira, quer não. As pombas já me disseram que ele está em casa há dias!

“Mas que grande maldição!” pensou Rubro batendo as asas apressado de volta para a velha casa. Alto ficaria furioso quando soubesse que Rubro já era facilmente reconhecível e, mais furioso ainda, quando soubesse que seria obrigado a ter a tal conversa com Armin. Ele evitava o acontecimento já há algumas dezenas de anos, mas vinha ficando cada vez mais difícil escapar do Velho. Pardal espremeu-se pelo vidro quebrado de uma janela da cozinha e ficou contente ao ver que Ivan havia dado cabo das pombas petulantes. Estava cada vez mais difícil diferenciar as pombas pombas das Pombas Sussurrantes. Sorte que os poderes de tortura do maldito gato ajudavam bastante a desmascarar as pragas que esgueiravam-se para dentro das casas e saíam espalhando as notícias aos quatro ventos.

Rubro acenou com a cabeça penugenta para Ivan, que retribuiu com um lento piscar de seus olhos cor de ouro e entediados. Pardal atravessou a porta que dava acesso ao sótão ao mesmo tempo que tomava sua forma humana, aterrissando com graça da forma mais silenciosa possível enquanto algumas das penas que se perderam na transmutação flutuavam à sua volta.

— Alto, — ele chamou, o velho mago permanecia inerte na mesma posição de dois dias atrás, não fossem os murmúrios e os objetos atirados na parede periodicamente, poderia-se dizer que jazia morto.

— Agora não, Pardal, Presto e eu estamos discutindo — o velho se referia ao seu “outro eu”, coisa que ele fazia bastante e podia levar a discussões monólogas bem sérias algumas vezes. — Ele não consegue entender que não é o melhor momento para se fazer certas coisas, sabe? Um velho arrogante... mas que não manda em mim! Está ouvindo?!

— Senhor, temo que não possa esperar. — ele se prostrou logo atrás da enorme poltrona de madeira negra, de onde ele tinha quase certeza de que Alto não poderia acertar-lhe nada — o Senhor Armin, dois de seus filhos e mais alguns outros do Conselho estão subindo a Colina de Monte Folhado e devem chegar logo. Eles dizem saber que o senhor está em casa, graças àquelas pombas nojentas mas…

Um frasco fumacento passou raspando acima de sua cabeça e estraçalhou-se na parede, fazendo espalhar-se um odor horroroso de carne podre por todo o cômodo suarento. Alto fez menção de gritar e se exaltar, porém, o ronronar sofrido de Ivan fez com que ele parasse para acariciar atrás das orelhas pontudas do gigantesco gato. Ele estreitou os olhos para Rubro, expirou da forma mais barulhenta e descontente que pôde, pegou o gato no colo e, enquanto limpava o sangue dos seus bigodes brancos e espessos, fitou os olhos dourados do felino. Eles estavam conversando telepaticamente. Volta e meia, um deles espiava Rubro de canto de olho, até ele se sentir desconfortável o bastante para sair dali.

Normalmente, Rubro insistia em se fazer presente, afinal, ele deveria aprender e fazer parte das decisões. Porém, com o tempo nublado e a garoa inconstante, vinha o seu humor taciturno e o desinteresse por confusões maiores. Ele retirou-se, em silêncio, brincando de chutar um dos cacos de vidro pelo caminho. Ele desceu a grande escada ramificada.

Qualquer outro que visse aquela casa, acharia loucura na sua construção, com uma escada que dava acesso a vários cômodos completamente desnivelados, uma árvore grossa e velha crescia no centro da sala principal e espalhava seus galhos por todos os cantos; portas pequenas, enormes, de madeira, de pano, quadradas, redondas, baixas, grossas e quebradas davam acesso aos mais diferenciados quartos, salas de estudo, cozinha, armários, laboratórios de alquimia, feitiçaria e medicina, bibliotecas com volumes históricos, românticos, físicos e matemáticos de todos os autores imagináveis criavam mofo em suas páginas amareladas e meio comidas pelas traças; existia toda uma gama de pequenos animais circulando pela casa, desde gafanhotos e borboletas a coelhos selvagens, raposas mansas e pequenos cervos. Não que nunca tenha aparecido nenhum lobo ou urso de trás das cortinas, mas Pardal logo os influenciava por telepatia para deixarem a casa em paz.

Rubro não gostava da forma como Alto vinha o tratando nas últimas décadas, ele compreendia que o seu lugar como aprendiz significava que Alto havia falhado miseravelmente naquela que deveria ser a conclusão de seu legado e que isso vinha pesando nas costas tortas do velho mago. Porém, Rubro era bem mais velho que Alto, e tinha vivido tanto quanto Alto e merecia respeito, reconhecimento e a devida tutela daquele que deveria ser o seu mestre. No entanto, estava claro que a situação apenas agravaria-se a medida que o dia de hoje chegasse. Ele sabia o que estava por vir, por isso, perdoava as ações de Alto mas, ressentia-se por saber que agora viria a pior parte.

Ele puxou uma das cadeiras de pedra da cozinha, sentou-se cruzando as pernas, desprendeu algumas pequenas penas marrons da roupa aqui e ali, contou exatos vinte e um chiados das gotas da solução de líquen de dragão evaporando de encontro ao queimador de ferro já vermelho de calor antes que começasse o pandemônio nos andares de cima.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.