Notas iniciais
Essa história deveria ser uma oneshot, depois virou uma oneshot muito grande, e depois virou uma shortfic com mais ou menos uns seis capítulos, porque eu não tenho controle da minha vida _('-')_/
Essa é só a segunda vez em que eu escrevo fantasia com alguma seriedade, e espero que gostem.

A música dentro do bar estava alta o suficiente para que Anne-Marie pudesse ouvi-la do lado de fora. Com um suspiro, ela pediu ao taxista para esperar e se encaminhou para a porta, parando por um instante para conferir o relógio em seu pulso. Já havia passado bastante do toque de recolher, mas aquilo não a surpreendia. Era a cara de Rori fazer com que Anne-Marie quebrasse as regras daquele jeito.

O interior do bar estava apinhado de gente, a maioria motoqueiros barbudos com braços cobertos de tatuagens. Sentada ao balcão, Rori se destacava como um farol. Não era só o fato de ela ser fisicamente diferente dos outros clientes; Anne-Marie podia ver o brilho ao redor dela, anunciando que ela não pertencia àquele mundo.

Claro, aquilo provavelmente não era perceptível para mais ninguém no recinto, mas estava óbvio que Rori chamara a atenção de todos, já que ela estava cercada por admiradores, em sua maioria jovens rapazes que ela atraíra com seu magnetismo natural e nada mágico. Quando Anne-Marie se aproximou, Rori estava passando a mão pelo rosto de um deles, rindo de algo que ele dissera.

— Claro que não – dizia ela. – Eu não sou esse tipo de garota, Julius. Eu só pareço esse tipo de garota, o que é bem diferente...

O cara ao lado dela riu.

— Então não tem nada que eu possa...

— Rori – Anne-Marie o interrompeu, ignorando-o completamente, toda a sua atenção focada na amiga. – Há quanto tempo você tá aqui?

Rori lhe lançou um sorriso completamente bêbado.

— Annie! Não sei, não tenho relógio. Você veio brigar comigo?

Anne-Marie deveria brigar com ela. Ao invés disso, ela suspirou e disse:

— Vem, vamos levar você para casa – Ela olhou para o rapaz. – Vamos deixar a conta pro cavalheiro aqui.

Ela ajudou a amiga a se levantar, ignorando completamente os protestos do garoto. Rori não estava bêbada demais para andar, mas Anne-Marie se manteve por perto, só para o caso dela cair.

— Você é a maior estraga-prazeres de todos os tempos – declarou Rori, enquanto elas deixavam o bar. Ela estava falando alto demais; efeito da bebida, provavelmente.

— É, eu sei, você já me disse – retrucou Anne-Marie, sem se deixar abalar. – Esse é o seu bordão desde que a gente tinha cinco anos. Não vai me impressionar agora.

Rori fez beicinho ao ver o táxi, mas, quando Anne-Marie abriu a porta do banco traseiro, entrou sem discutir. Anne-Marie se juntou a ela e disse ao taxista para levá-las ao parque da cidade. Sua voz estava completamente neutra; a única coisa que denunciara sua raiva fora a força com que ela batera a porta do carro.

Ela começou a contar. Demorou quase um minuto inteiro até Rori dizer:

— Sério, Annie, você realmente não podia ter me deixado ter só essa noite?

Anne-Marie trincou os dentes. Sua mãe costumava dizer que o maior teste de caráter era tentar entender o lado das pessoas de quem você estava com raiva; se isso fosse verdade, ela tinha um caráter muito, muito forte.

— Você sabe o que ia acontecer se seus pais descobrissem que você escapou pra um bar comum de novo. — respondeu ela, tentando manter a voz baixa, para não chamar a atenção do motorista. – É a terceira vez esse mês, Rori, e ainda não estamos nem na metade.

Por um longo instante, Rori não respondeu. Quando Anne-Marie finalmente olhou para ela, ela estava com os olhos fechados, a franja caindo sobre o rosto. Ela usava o cabelo escuro curto e repicado, na altura dos ombros, desde o incidente com sua família – Anne-Marie ouvira dizer que as mulheres geralmente cortam o cabelo quando estão se separando de algo, e, aparentemente, Rori concordava.

Enquanto Anne-Marie observava, Rori abriu os olhos – verdes, como os de toda a sua família – e disse, soando tão chateada quanto a amiga se sentia:

— Eu não preciso ouvir outro sermão, Annie, não de você – Ela deu o sorriso menos reconfortante que Anne-Marie já vira na vida. – Eu provavelmente vou morrer antes do fim do próximo mês, mesmo, então quem liga se eu me divertir um pouquinho antes?

Havia dois tipos de Rori bêbada: a feliz, que flertava com o bar inteiro e dançava ao som do silêncio, que abraçava as amigas e dizia que as amava e sugeria que elas fizessem alguma coisa louca, e a soturna, que dizia coisas como aquela e tinha um olhar frágil como um copo de vidro. No meio da noite, a Rori feliz sempre costumava tirar folga e desaparecer. Apesar de tê-la encontrado várias vezes, Anne-Marie não conseguia se acostumar à Rori soturna; ela sempre a deixava perturbada.

— Você não vai morrer – disse ela, ao invés de falar o que realmente estava pensando: que, se Rori continuasse daquele jeito, talvez elas não tivessem a sorte de chegar ao fim do mês. – Você não devia falar assim, Rori. É desconcertante, pra dizer o mínimo.

— Que seja – Rori pareceu afundar no banco, olhando pela janela. – Eu vou morrer, e todo mundo sabe, e aí não vai mais existir magia na família O’Callaghan e todo mundo vai dar mais importância a essa merda do que ao fato de eu ter morrido, e Skye vai se tornar o novo eu, só que sem a magia, e a merda toda vai pro ventilador, e não tem nada que você possa fazer pra impedir – Ela se virou para a amiga, piscando como se saísse de um transe. – Você por acaso não tem um frasco escondido aí, né?

Anne-Marie não se deu ao trabalho de responder.

Elas ficaram em silêncio durante o resto do trajeto até o parque.

Rori provavelmente abrira o próprio portal até aqui, mas Anne-Marie não era fã de magia de transporte e não estava disposta a desperdiçar energia com isso. Elas entraram pela passagem de sempre: o portal escondido no tronco de uma árvore oca larga o suficiente para acomodar alguém bem maior do que as duas adolescentes.

O portal levava diretamente para a rua principal do Vilarejo, e Anne-Marie decidiu que, se Rori podia entrar em um bar e ficar bêbada desse jeito sem ter nem dezoito anos, ela podia muito bem achar um jeito de entrar em casa sem acordar os pais sozinha. Ela deixou a amiga no quintal da residência dos O’Callaghan, embaixo da janela que sabia dar para o quarto que pertence a Rori.

— E não fuja de novo – avisou, rompendo o silêncio que se formara entre elas. – Da próxima vez, eu vou mandar seus pais.

Rori revirou os olhos, mas não retrucou. Ela desapareceu atrás de uma das roseiras da mãe, onde, com alguma sorte, abriria um portal que a levaria direto para o quarto, e não de volta ao bar ou do outro lado do mundo.

Anne-Marie voltou para casa devagar, com as palavras de Rory girando em sua mente. Na família de Anne-Marie, palavras tinham poder; ela só esperava que aquilo não se aplicasse a Rori.

Notas finais
Eu já escrevi metade da história, e, como ela precisa estar pronta até o dia 30 desse mês (risos), não devo demorar muito pra escrever o resto...