algumas coisas sobre Narcisa
3 03 — Narcisa e o seu primeiro filho
Notas iniciais
O meu irmão, nas palavras de Narcisa, eram uma versão inacabada dela mesma. Ele tinha o mesmo rosto, os mesmos traços, os olhos azuis clarinhos, o cabelo sedoso e a boca de coração. Porém ela o criticava, entre risos que se seguiam após algumas piadas contadas aos nossos tios e tias, que ele era assim — essa versão feita às pressas dela, sem a precisão e a simetria que ela fora agraciada. Os olhos são afastados demais, não acha? E a boca parece muito cheia, parece um caso de botox feito ilegalmente. E que diabos de manter o cabelo grande? É mulher por acaso? Narcisa não, era feita por mãos de anjos, enfatizava o meu avô, pai de Narcisa. Seu nome era César e ele era um homem apaixonado pela filha, como um devoto fervoroso de uma deusa. Vivia para enaltecê-la como nunca vi um homem colocar num pedestal a própria cria.
Pois bem, Cássio era um rapaz que nasceu seis anos antes de mim. Apesar de ter toda a semelhança que ninguém jamais ousaria em dizer que não era filho da bela Narcisa, o que a incomodava tanto era como ele parecia tão efeminado. Não somente em sua aparência física, no julgamento dela o seu jeito calmo, tranquilo, carinhoso e de extrema gentileza com animais, parecia lhe incomodar… como se Cássio estivesse cometendo algum crime em ser simplesmente quem era por natureza. Ele gostava de gatos e pássaros. Narcisa nunca permitiu que tivéssemos algum bichinho em casa. Cássio gostava de dividir seu pão com manteiga comigo todas as noites antes de dormirmos, de contar as sardas no meu rosto e de me dar miniaturas de animais que queríamos ter um dia. Ele sempre me chamava de Liv.
Mesmo que com todos esses contrapontos, Cássio despertava em Narcisa mínimo de sentimento maternal, muito embora por vezes fosse ambivalente. Ela costumava ser bastante próxima e caridosa com ele quando nosso pai estava em casa, quase que outra pessoa. Era uma mãe, uma mãe cheia de afetos para dar. Longe, era Narcisa. Cobrava e criticava. E um afago na cabeça, se porventura ele fizesse algo dentro de seus parâmetros. Aquelas pernas pálidas de aranha eram dedicadas para enrolar os cabelos de Cássio entre os dedos.
Meu pai quase nunca parava lá, tinha sempre uma reunião ou uma viagem de negócios prestes a fazer. Política, sabe? Está muito corrido, sinto falta das crianças. Beijos, querida. Levarei presentes. Olívia gosta de trufas de menta? Achei umas aqui que estão muito boas. Diga ao Cássio que o levarei para cavalgar no próximo final de semana. Fiquem com Deus.
Eu nunca vi estas trufas ou vi Cássio sair para andar em cavalos.
Mas vi Narcisa depositar em Cássio muito esforço, e eu lembro de como ela reclamava de como ele era preguiçoso e nunca ficava muito tempo no que ela o colocava, pois seu rendimento era sempre péssimo. Até onde eu sabia, ele já havia feito natação, tênis, judô, vôlei, aulas de piano, violino, violoncelo, até mesmo harpa. Aprendia inglês na escola caríssima que Narcisa fizera questão de colocá-lo. Tentou então fazer com que aprendesse alemão. Italiano, mandarim, japonês, chinês, espanhol. Ficou no japonês. Eu deveria ter três anos quando ele começou a estudar japonês.
Um dia eu escutei o seguinte diálogo:
“A senhora nunca perguntou o que eu queria fazer.”
Ouvi um estalo.
“Eu sei o que é melhor p’ra você, garoto ingrato.”
Eu deveria ter quatro anos.
Cássio decidiu aos dezessete anos que seria médico, o que fez Narcisa se tornar mais amável com ele, ao mesmo tempo que passou a vigiá-lo ainda mais. Sua aparência e personalidade deixaram de ser defeitos passíveis de mal-dizeres constantes, e agora Cássio já não era a sua versão mal-feita, e sim o futuro neurocirurgião da família. Vigiava suas notas, acompanhava seu rendimento de perto, indo a sua escola semanalmente saber como ele estava. Último ano do ensino médio, ele tinha que dar o seu melhor. Notas abaixo de nove eram inaceitáveis. Ela lhe fazia cafuné enquanto lhe oferecia doces e um delicioso café com chantilly, mas em contrapartida não deixava ele sair aos finais de semana para qualquer lugar que fosse capaz de distrair sua mente do seu objetivo maior, o objetivo maior dela, que ela assumiu ser dele em igual tamanho: entrar na faculdade estadual de medicina.
Eu cresci vendo ela depositar seus esforços em Cássio, enquanto que comigo ela se dedicava a me dar sua mais sincera indiferença. Ela só lembrava de mim para me pedir que penteasse seus cabelos após seu banho demorado cheio de ervas cheirosas. No dia a dia, antes da escola, eu era espectadora do inquérito sobre o desempenho diário de Cássio feito à mesa durante o café. Eu comia uma única fatia de pão integral com manteiga, acompanhada de um chá de canela com maçã que Narcisa fazia para eu perder peso. Podia comer frutas, mas as mais cítricas, somente. Enrolava, e conseguia engolir alguns gomos de laranja. Cássio, por sua vez, comia com gosto aos moldes de Narcisa. Mamão, banana, melão, chá de cidreira. Quinzenalmente ele tomava chá de hibisco, para controlar os níveis de sal em seu sangue.
“Cássio, como vai a escola?”
“Tudo bem. Eu pedi a minha professora de literatura que revisasse as minhas redações, e ela gostou da ideia.”
“O que tem aprendido em matemática?”
“Função.”
“Está dando conta das decorativas?”
“Sim. Os professores oferecem ótimos resumos.”
“Não se contente só com eles. Vá atrás de mais.”
“Eu sei. Vai haver uma palestra sobre a era Vargas no próximo sábado. Pensei em ir.”
“No próximo sábado você não tem aula de japonês?”
“É prova, sairei cedo.”
E então só escutamos o tilintar das xícaras no pirex, dos talheres cortando frutas e pães. Eu conseguia ouvir os farelos de pão se desfazendo na faca de Narcisa. Ela gosta de colocar pedaços de abacate dentro de meia fatia de pão integral e comer acompanhado de um café pálido de tanto leite vegetal sem açúcar, misturado com óleo de coco.
“Como vai o balé, Liv?” Cássio perguntou.
“Vai be-”
“A professora dela disse precisa se esforçar mais para acompanhar as outras meninas.”
Era mentira. Minha professora dizia que eu estava melhorando bastante e que minha postura estava muito melhor para um período curto de tempo. Eu havia detestado o balé no início, e ainda abominava o uniforme e usar uma roupa tão justa que mostrava o que Narcisa mais odiava em mim, mas minha professora era uma moça linda e extremamente cativante, que decidi me empenhar em ser uma bailarina tão graciosa como ela era. Eu chegava mais cedo nas aulas, para começar a treinar por mais tempo, e ficava alguns minutinhos a mais quando a aula acabava, me esforçando para ficar na ponta dos pés e com as costas retas. Um dia, numa rara ocasião em que Narcisa decidiu indagar sobre o balé, sobre como eu estava nas aulas, meu coração acelerou como nunca. Porém com um sorriso dos mais sinceros em meu rosto, eu lhe respondi:
“A professora disse que sou muito flexível e que logo, logo, estarei fazendo uma abertura perfeita.”
“Me mostre o que sabe.”
Senti meu coração dar uma batida tão forte que ela deveria ter escutado. Minhas pernas ficaram moles, totalmente moles, me senti tão assustada que fiquei um bom tempo encarando o par de joias que me fitavam com indiferença no silêncio absoluto, mordiscando meus lábios.
“Me mostre, Olívia.”
Caminhei até a parede e me virei para ela. Ela, com o rosto endurecido no semblante de sempre e os braços cruzados sobre seu corpo, me mirava com as joias brilhantes em um total tédio de si e do mundo ao redor, mas ainda assim me miravam sem piscar muito, na espera de algo — sem grande ou nenhuma expectativa. Não sei se era por ela, quando mais novinha, ter sido uma linda bailarina e deter certo conhecimento sobre, e por isso se via entediada com uma novata como eu, ou se simplesmente ela apenas não enxergava nada de promissor em minha figura.
Respirei fundo, sentindo meu coração querer fervorosamente saltar de mim pela garganta, de tanto pulsar feito o de um passarinho. Queria eu ser um, para voar para longe de Narcisa no instante em que ela me pedira para mostrar o que aprendi. Voar longe da minha consciência, e deixar meu corpo acatar com sua ordem sozinho.
Mas eu não era um pássaro, tampouco minha mente me levaria para longe enquanto estivesse sob a vigilância daqueles olhos que conseguiam ser tão intimidadores sendo tão carentes de sentimento.
Me apoiei na parede com meu braço esquerdo, virei meus pés e fiz um plié. Eu não conseguia deixar meus pés totalmente retos, sentia muito desconforto, mas fiz um esforço para ignorar esse detalhe e alcançar a perfeição. Estiquei meu braço direito, com as mãos retas e os dedos meio dobrados com aquela delicadeza rígida das bailarinas. Abaixei-me um pouco, flexionando um pouco os joelhos.
“É um demi plié.” Disse.
Me levantei, e me abaixei mais uma vez, desta vez bem mais que a primeira. Senti uma pontadinha nos pés.
“Grand plié.”
Narcisa se levantou, lentamente, e caminhou até mim. Permaneci estática, com os joelhos flexionados naquele plié, segurando a respiração.
“Não estique seu braço todo. Fica feio. Curve-o.” Ela disse, e dobrou meu braço.
“E seus pés parecem pés tortos.” Narcisa falou com algum desprezo, sobre os meus pés imperfeitos de bailarina. Ela empurrou o meu pé esquerdo com o seu, o que eu mais sentia dificuldade em virar para o lado. Eu não conseguia manter meu pé naquela posição sozinha, então ela colocou o seu pé sobre o meu, para que eu mantivesse ele no lugar correto. Quando pisou e fez força com seu pé sobre o meu, deixei escapar um gemido de dor e de susto.
“Isso não é difícil. Pare de ser dramática.”
Ficamos ali alguns segundos, e eu acho que eu senti o que os pássaros sentem quando são abocanhados por um gato feroz. Por dentro do meu ser, eu me debatia em desespero, mas meu corpo estava totalmente imóvel, rendido e preso nas garras dela, da imponência, na dureza e na frieza tão características de Narcisa. Abatida.
Ela se afastou, e virando-se embora, escutei um resmungo de evidente insatisfação.
“Treine mais. Não quero estar desperdiçando dinheiro com você.”
Cássio olhou para minha mãe por alguns segundos, e olhou para mim e me sorriu discretamente, como quem deseja nos fazer sentir que estaremos bem acolhidos consigo. Levou o último pedaço de mamão a boca, e disse a mim:
“Quero ver você dançar qualquer dia desses. Me promete mostrar?”
Olhei para Narcisa, e ela não pareceu dar muita bola para o que Cássio havia dito. Voltei-me para ele, e assenti, ainda tímida pela resposta que Narcisa havia dado sobre a minha interrompida. Ele sorriu, e indagou em seguida:
“Já tem alguma coreografia feita?”
“Sim, a professora está montando uma. Eu já sei muita coisa.”
“Quero ver. Me mostra amanhã.”
Fiquei feliz, ansiosa, nervosa, mas acima de todas as sensações ruins, muito feliz. Mostraria para alguém de fora os meus passos! Meu coração parecia ter ficado envolto de calor e ternura com o interesse de Cássio no balé, e naquele dia quando fui para a aula, pela tarde, me esforcei como se minha vida estivesse dependendo da execução perfeita de cada passo, de cada salto, flexão, braço curvado. Recebi um longo elogio da minha professora naquele dia.
Não foi no dia seguinte, mas três dias depois — quando Narcisa havia saído com seu pai, Cássio bateu na minha porta e me chamou. Eu, quase que devorada por completo pela ansiedade em lhe mostrar minha coreografia, havia ensaiado como louca cada passo com dedicação. Fomos para o seu quarto, onde ele escutava em seu computador uma música chamada Smile Like You Mean It.
“Antes de você me mostrar, eu queria te contar uma coisa.”
Deitamo-nos na cama, a música continuava tocando. Perguntei de quem era. The Killers, ele disse. Falei que gostei, e ele disse que iria me mostrar mais coisas dele se eu quisesse.
“Eu… tô namorando uma menina.”
Arregalei os olhos, e sorri imensamente ao ouvir aquilo. Uma namorada! Cássio estava namorando! Eu fiquei tão surpresa e feliz! Imaginei várias coisas, todas baseadas em filmes romântico que passavam na televisão pela tarde, onde Cássio e a sua garota eram os personagens. Meu coração pulava de alegria, eu estava totalmente exultante com a sua revelação.
“Quem é? Como ela é?”
“Ela é da minha sala. O nome dela é Clarice. Ela é incrível, Liv. Quer ser perita criminal, ou psicóloga. É bailarina também. Falei que minha irmã estava começando e ela quer te conhecer.”
“Traz ela aqui um dia!”
E tão logo me senti uma boba por ter dito isso. Seria inconcebível, simplesmente um desvairo imenso Cássio apresentar aquela garota para Narcisa. Pedi desculpas em seguida, percebendo minha grande tolice dita, sentindo-me envergonhada.
“Nah, não liga. Sábado ela vai se apresentar e eu vou vê-la. Vem comigo.”
Era o dia que ele havia dito da palestra!
Ele percebeu que liguei os pontos, e deu uma piscadela para mim, com um sorrisinho matreiro de quem apronta muito — coisa que eu não imaginava nunca de Cássio, mas que me pareceu inteiramente concebível após pensar naquilo por alguns segundos, ainda mais por ele fazer por uma menina — condizia com seu jeito e seu coração bom.
Fizemos planos, de que ele justificaria a Narcisa que seria bom me levar a uma palestra, eu aprenderia um assunto importante para quando chegasse minha vez no vestibular. Depois, me mostrou uma foto dela em seu celular: ela era maravilhosa! Parecia uma índia, a pele era bem escura e tinha um cabelo impecavelmente liso e grande, olhos pequeninos, mas muito expressivos. Tinha um piercing no septo, que pareceu bastante charmoso nela. Usava uma franja bem reta, que Cássio me contou que lhe rendeu o apelido de Tainá, que ela não gostava muito. Dizia que era um estereótipo impertinente. Me contou que seu nome foi escolha da mãe, professora de literatura apaixonada pela Clarice Lispector. Ela era uma menina bastante idealista, tinha aquele espírito inato de líder — e contando isso, o rosto do meu irmão ficou bastante corado, pois ele assumiu que isso chamou sua atenção nela no início.
Depois, ele me pediu para eu mostrar a minha coreografia. Eu estava tão relaxada naquele momento que me levantei da cama, e fiz de qualquer jeito, despreocupada, relaxada — feliz. Rodopiei muito melhor e sem me bater nas paredes ou perder o equilíbrio pela primeira vez como nunca fizera até então. Cássio amou, disse que eu estava muito bem, que queria muito ver eu me no palco algum dia. Perguntou sobre as aulas, sobre minhas colegas, a professora que eu tanto admirava, se eu ficava muito cansada com a rotina, se eu estava gostando mesmo das aulas. Disse-me também que se eu precisasse de um par para ensaiar em casa, ele dava um jeitinho e se espichava até meu quarto a noite para me acompanhar me ajudar.
Naquela noite, Narcisa voltou às altas horas da madrugada. Escutamos, a chave girar, o salto alto barulhento de Narcisa estalando no piso. Me encolhi e abracei Cássio, que também despertou quando ela voltou para casa, pois escutamos também sussurros. Sussurros gritantes, urgentes, que ora se continham, ora eram inteligíveis, os dela e de um homem que nos era familiar, embora fosse de certa raridade que nós o ouvíamos.
Os sussurros seguiram, cada vez mais graves, rápidos e agressivos, acompanhados de incessantes e inquietos passos para lá e cá no corredor além da porta do quarto. Pude ouvir a voz de de Narcisa vociferar com incomum ferocidade que nunca presenciei.
“Você é um inútil que nem o seu pai. Não precisava se dar o trabalho de voltar p’ra casa.”
Escutamos um estalo. Alto demais, como se fosse no pé do ouvido. Pareceu atravessar meus tímpanos, minha cabeça, meu juízo. Ainda escutaria aquele som por muitas vezes, e ele seria meu fantasma nos anos porvir. Prendi a respiração, e procurei a mão de Cássio para segurar, e quando puxei os seus dedos ele agarrou a minha com força. Fiquei estática, assustada demais para esboçar qualquer reação. Esperamos algum tempo ouvir algo mais, mas tudo o que houve em seguida foi apenas o silêncio das vozes, passos vagarosos e as luzes do corredor serem apagadas. Não obtivemos mais nada, no entanto já sabíamos exatamente o que havia se sucedido.
Papai havia voltado para casa.
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