al Chemist
2 Capítulo 1 - O Início
Notas iniciais
- Deluge = Pronuncia-se Déiudge (do inglês "dilúvio").
Era uma perfeita tarde de maio. Os dias passavam e o tempo ficava mais quente. A brisa vinda do sul trazia consigo o aroma dos campos de rosas e a grande floresta estava se preparando para o verão. Um garoto seguia calmamente pela trilha que a rasgava de uma ponta a outra. Devia ter não mais que quinze anos de idade, com aparência estranha, usando um sobretudo vermelho com um desenho incomum nas costas de uma cabeça de pássaro (acho que um grifo), por cima de uma blusa extremamente branca e jeans preto. Ele tinha cabelos loiros e olhos quase da mesma cor. Atrás dele, galopes se aproximavam, mas não pareciam ser de um equino ou qualquer animal quadrúpede.
O que é isso?, pensou.
Ele parou e antes que pudesse olhar para trás, quatro cavaleiros passaram montados em dodôs prateados de um metro e meio de altura. Eles surgiram e se foram tão rápido que mal deu tempo de vê-los. Só foi um borrão preto e prata, seguido de três cinzentos passando e levantando poeira. Com a mesma velocidade que o som dos passos surgiu, eles sumiram e a floresta voltou a seu som ambiente, como se nada tivesse acontecido. A poeira baixando lentamente. Ele retomou seu caminho e ao fazer uma curva atrás de uma grande pedra, avistou ao longe, em baixo, um templo no meio do emaranhado de árvores. Era de mármore branco, com um domo de vidro e uma estátua de um anjo no topo. O templo era protegido pelas montanhas ao redor, fazendo-o ficar no centro de uma espécie de buraco.
Assim que chegou à entrada do templo, quatro guardas e três dos cavaleiros, que passaram, estavam estirados no chão, inertes. As grandes portas pesadas de três metros e meio de altura estavam escancaradas e os dodôs aparentemente haviam fugido.
Cadê o outro cavaleiro? O de capa preta.
Sons de metais se chocando vieram de dentro, seguidos de um grito de mulher.
–Ah, cara!– disse entrando correndo no templo.
Lá dentro parecia uma igreja, havia uma estátua de um homem distinto e desconhecido, idoso e tinha uma longa barba que chegava à seus joelhos; havia também dez quadros de dez criaturas estranhas cercando o saguão que não possuía janelas, somente vitrais coloridos com desenhos de mosaico. Um tapete vermelho ia da porta de entrada até um altar do lado oposto e havia fileiras de cadeiras em cada lado do tapete. Não havia ninguém, mas o som de espadas continuava. Então o garoto seguiu para uma porta que ficava ao lado do altar, que era de onde parecia vir. Ele saiu nos fundos do templo. Era um jardim com uma grande muralha em volta, uma árvore no meio à direita, um pequeno lago à esquerda e um canteiro de flores no fundo. De repente, outro rapaz, com uma capa preta surrada, passou por ele fugindo com uma garota desacordada em seu dodô. Eles se olharam nos olhos. Era a mancha preta e prata que havia passado. Então uma cornucópia de lembranças veio à sua mente.
Ele havia sido levado para três anos atrás. Estava tudo escuro, mas bem longe podia se ouvir um grande falatório.
–Ei, Ka.– chamou um garoto que parecia estar ao seu lado. Ele cutucava sua costela. –Acorde, Ka. A aula de Mitologia já vai começar. O novo professor já deve estar chegando.
Os olhos de Ka se abriram lentamente enquanto levantava a cabeça. Ele estava em uma sala de aula. Ela era redonda (um círculo pela metade, na verdade), parecia uma sala de cinema, pois as carteiras do fundo ficavam no alto, enquanto as da frente estavam mais em baixo, como uma escada. O quadro ficava atrás da mesa do professor ao lado da porta, e as carteiras ficavam em volta como uma meia lua. Elas eram divididas em três partes: a da esquerda, a do centro e a da direita. Eles estavam exatamente na metade das carteiras do centro. Ao seu lado estava o garoto que o chamara. Tinha o rosto fino, olhos azuis intensos e cabelos negros espetados.
–Desculpe, Deluge. Não dormi direito essa noite.– respondeu Ka.
–Você não tem dormido direito todas as noites.
–Deve ser insônia.– ele disse pensando em algo que não queria contar e baixou sua cabeça na mesa.
Antes que Deluge pudesse protestar, a porta da sala se abriu com um baque. O falatório parou e Ka levantou a cabeça de volta. Lá estava parado, um homem alto, usando terno negro, cabelos castanho-escuros bagunçados que iam até os ombros, com as mãos nos bolsos da calça e uma prancheta em baixo de um dos braços. Ele estava baixando sua perna, o que significa que chutou a porta para abrí-la.
–Ei, será que vocês não podem ficar calados?– disse. Sua voz saiu entediada, sonolenta e brava ao mesmo tempo sem deixar de ser firme e alta. –A aula vai começar.
Ele caminhou até a mesa e pôs a prancheta em cima dela.
–Eu sou o professor Corvus. Não vou fazer a chamada porque é um saco. E vou deixar isso claro logo no começo: o que determina o fim da aula não é o sinal.– Ele apontou para o peito com o polegar.– Sou eu!
Todos o olharam como se aquele sermão fosse ser dito em todas as aulas do resto do ano letivo. Deluge o olhava de cara feia.
–Sabe, acho que aquele professor chato está olhando para cá com cara de idiota.– ele sussurrou para Ka.
–Não é impressão sua.– Ka respondeu.
–Ei, Corvi!– Ele disse alto. –Você vai ser o nosso novo professor de Mitologia a partir de agora?
O professor pegou a prancheta da mesa.
–Estou como professor substituto temporariamente até que decidam qual professor ficará aqui.– Ele percorreu os olhos nos nomes. –E outra coisa, é Professor CorVUS, não é...– ele passou o dedo nos nomes procurando um. –Deluge Nightmare? Achei que também tivesse aulas de latim.
Agora eles o olhavam com espanto.
–Ei, como sabe meu nome, se não tem foto aí?– Deluge se levantou e disse mais alto ainda. Talvez todos houvessem feito essa mesma pergunta a si mesmos.
–Você é muito barulhento.– o professor disse normalmente.
Ele procurou o nome de Deluge novamente, pegou a caneta que estava no bolso da camisa e no espaço ao lado de onde se lia COMPORTAMENTO, escreveu: o pior!
–Então, vamos começar a aula.– ele disse um pouco mais alto com a voz cheia de ânimo, enquanto devolvia a prancheta à mesa.
–Ei! Você escreveu algo, não foi?– Deluge disse quase subindo na mesa.
–A propósito, Deluge e Ka. O diretor quer falar com vocês. Acho que é sobre aulas extras ou algo assim.
–Aulas extras? Aquelas que só os idiotas precisam fazer?
–Estou fora!– Ka disse, bocejando.
–Qual é o propósito de vocês aqui na escola?– o professor perguntou.
–Nos tornar os melhores dos melhores em espírito, força e magia. Sermos guerreiros nível estrela.– Ka respondeu esfregando os olhos cansados, como se aquela pergunta fosse feita todo santo dia.
–É isso aí. Porém, embora o nível de muitos de vocês seja o primeiro, o que não tem definição, e alguns sejam de nível linha, vocês devem sempre se elevar para o nível triângulo e chegar ao nível quadrado. Onde é o máximo que já conseguiram.– ele desenhou os símbolos no quadro com um giz.
–Chato...– resmungou Deluge sentando-se.
O professor pigarreou.
–As suas notas teóricas.– ele apontou para Ka e Deluge. –Podem ser boas, mas vocês ainda são os únicos alunos de nível zero, não é?– ele fez dois zeros unindo os polegares aos indicadores.
Todos caíram na gargalhada, a face de Ka congelou e ficou vermelha de vergonha. Porém Deluge estava rindo, então o professor jogou um pedaço de giz em sua cabeça.
–Não é para rir.– ele disse e todos ficaram quietos. –Então sobre essa aula extra... vão ao diretor e falem com ele. Rápido, rápido! Ah, só um lembrete: se falharem ou não progredirem nas aulas, serão expulsos da escola.
Essa última parte ecoou friamente pela sala, o que fez os pêlos da nuca de todos, se eriçarem.
***
–Detenha-o!!!– gritou o guardião do templo, que estava no meio do jardim.Um cavaleiro de armadura negra, uns vinte anos de idade apesar dos cabelos brancos.
Mas o garoto não fez nada, estava preso em pensamentos ainda, e o aparente Deluge conseguiu fugir. O guardião segurou Ka pela camisa.
–Porque você não fez nada? Hein?!– retrucou o guardião levantando-o.
–Fica frio, agente pega ele.– respondeu, finalmente voltando a si e segurando o braço do cavaleiro.
–Solte-o, Talazar!– disse, com uma voz firme, uma jovem que estava junto dele, interrompendo-os. Ela usava uma armadura prateada, tinha uma longa trança loira que se estendia até os joelhos, olhos verdes como esmeraldas e, pelo que ele percebera: um gênio muito forte e bem autoritário para alguém que deveria ser da sua idade ou quem sabe um ou dois anos mais velha.
–Não fique me dando ordens, Rehena!– disse Talazar segurando Ka. Seus pés balançavam no ar.
–Gente, eu ainda estou aqui!– reclamou por estar sendo ignorado.
Talazar soltou-o e reclamou:
–Eu sabia que ele ia voltar. Ele não desistiria tão fácil assim.– disse embainhando sua espada na cintura.
–Vamos! Vamos buscar a protetora.– disse Rehena indo em direção à saída do templo.
–Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?!– disse Ka tentando desamarrotar a blusa, mas foi ignorado de novo.
–Cale-se! Você vem conosco, seu idiota.– disse Talazar, puxando-o.
Ele, Talazar e Rehena saíram do templo indo em direção à floresta próxima dali. Rehena havia pisado no peito de um dos cavaleiros inimigos, fazendo-o gemer. Um dos guardas do templo acordou e olhou para Rehena.
Vamos amarrá-los, senhorita. Poderemos interrogá-los, disse com uma voz rouca.
Com um breve aceno positivo de cabeça, Rehena se foi junto dos dois para a floresta. Muito bonita, por sinal, porém bem quieta e coberta por uma neblina espessa e bem clara (a floresta, não Rehena).
–Já pode me soltar agora!– Ka reclamou, e para sua surpresa não foi ignorado.
Talazar o soltou, e Ka tropeçou no nada, deu uns passos desengonçados e logo após olhou para trás procurando no que havia tropeçado.
–Que imbecil.– resmungou Talazar.
–Como você se chama?– perguntou Rehena
–Ka.– respondeu.
–Ka? Só Ka?
–Sim. Só... Ka.– disse como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Embora seu nome verdadeiro fosse Ka’a, quando era criança não sabia como pronunciá-lo. Então, ele e todas as outras crianças da turma o chamavam de Ka. Entretanto a parte do sobrenome o incomodava. Na lista dos alunos só havia seu nome, o que lhe deixava pouco confortável. Desde pequeno teve que aprender a contornar as perguntas referentes ao assunto, pois nem ele mesmo sabia dizer o motivo. Só dizia que morava num orfanato, embora omitisse a parte do “para crianças vítimas de casos especiais” (em que esses casos seriam: abandono, pai com problemas alcoólicos, mãe esquizofrênica, sequestro com perda de memória, entre outros).
–Bom, Ka, eu sou Rehena Braveheart. Você já conheceu o Talazar.
–Certo. Mas o que aconteceu agora pouco?
–Deluge.– ela disse com um tom enraivecido.
Ka se espantou.
–Então é ele mesmo... depois de tanto tempo ele não pode ter voltado!– pensou. –O que será que ele está tramando fazendo isso? Eu bem que conhecia aquele olhar.
Rehena o fitou.
–Algum problema, Ka?
–Não, nenhum.
–Você parece meio pálido.
–É que, bem... eu... conheço o... Deluge.
–Ah, sim. Muitas pessoas o conhecem. Querem a cabeça dele ou só esmurrá-lo até não aguentarem mais.
–Uau. Mas... acho que você não me entendeu. Eu o conheço mesmo. Somos amigos.
–Amigos?!– Rehena e Talazar disseram em uníssono, espantados.
–Nós, crescemos juntos. Estudávamos juntos.
–E então...?– Rehena perguntou.
–Ele... fez escolhas, eu também. E... seguimos nossos caminhos.– sua habilidade de omissão era admirável.
–Quem diria que o cara que raptou a protetora era seu amigo?
–Pergunta.– ele levantou a mão, como se estivesse em uma sala de aula. –Ela protege o que, exatamente?
–Conhece aquela história das quatro grandes feras?
–Acho que já ouvi falar.
–Bem, a história diz que há cinco séculos alguém libertou quatro feras elementais e tentou controlá-las, mas a Royal Society, a sociedade que protege o mundo, selou essas feras num livro e aprisionou esse alguém em algum lugar no universo. Décadas depois, essa sociedade foi sumindo até chegar a um ponto que se extinguiu totalmente. Kira, a protetora, é a única descendente remanescente dessa sociedade. Ela é que protege o equilíbrio espiritual da Terra.
–Está me dizendo que um maluco do século XVI pode ter raptado essa sua amiga só pra dominar o mundo?
–Sim. Basicamente, mas não sabemos se foi ele mesmo.
–E o que houve com esse tal livro?
Ela franziu a boca, pensando.
–Eu não sei. Tudo o que sei, contei a você.
Ka refletiu sobre aquilo por um momento. Rehena olhava para frente enquanto caminhava. Ele ainda absorvia a informação enquanto admirava a floresta. Era algo praticamente impossível. As árvores eram imensas e suas folhas podiam servir de telhado para um quarto inteiro.
Seus pensamentos ficaram perdidos ali por vários minutos até que uma a voz de Talazar o despertou.
–Tem uma vila ali na frente!– disse.
–Vamos ver se alguém os viu passar por aqui.– concordou Rehena.
Eles chegaram à vila. Era uma vila simples localizada num grande círculo sem árvores, com casas de no máximo três andares, algumas lojas eram grandes tendas de couro.
–Vamos nos alojar em algum lugar para dormir e comer. Amanhã continuaremos.– disse Talazar.
–Mas... não podemos.– disse Rehena. –Temos que...
–À noite vai ser mais difícil e perigosa a busca e até os dodôs precisam parar para descansar.– respondeu Talazar com rigidez. –Eles terão que acampar, querendo ou não.
Por fim, eles encontraram uma pequena pousada onde as camas eram suspensas como redes que se usam em varandas. A dona era uma velha senhora que fazia sanduíches deliciosos. Ka comeu até achar que iria explodir.
Em algum lugar à frente, o dodô já bufava (ou qualquer coisa que as aves façam quando estão cansadas). Então, Deluge resolveu parar. Pegou uma mochila presa à cela do dodô e a colocou perto de uma árvore. Em seguida, ergueu a protetora nos braços e a deitou ao lado da mochila. O dodô se encolheu num canto oposto deles, no pé de uma árvore, e se acomodou para dormir. Com uns galhos velhos que achara, Deluge fez uma humilde fogueira. Pegou um pacote azul , abriu-o e pôs próximo do dodô.
–Não tem gosto de peixe de verdade, mas é tudo o que temos agora, amigão.– disse enquanto afagava-lhe a cabeça.
O dodô abriu os olhos lentamente, e deu umas bicadas na ração e voltou a dormir. Deluge se sentou ao lado da protetora e cutucou o fogo com uma vareta. Ela franziu os olhos e acordou. Tentou se levantar, mas seus pulsos e tornozelos já estavam amarrados. Sua cabeça doía e ainda girava. Olhando de perto, ela aparentava ter quase a idade de Rehena.
Seus cabelos castanho-claros estavam presos atrás com um rabo de cavalo, indo até os ombros. Os olhos caramelo refletiam a fogueira e seu vestido branco ia até os pés, e tinha as mangas apertadas dos braços indo até os pulsos.
–Ah, vejo que você acordou.– ele disse. –Achei que tinha usado muito éter em você. Estava ficando preocupado.– e abriu sua mochila, procurando algo.
–O que você quer comigo?– perguntou com voz de sono. –Não sou expert no assunto, mas acredito que um encontro com uma mulher não comece assim. Pelo menos eu não sairia com um cara que faz isso comigo.
Ele deu um riso contido.
–Não estou interessado em um encontro com você. Só quero dinheiro agora. Conheço uma pessoa que pagará muito bem por você. Barrinha de cereal?
Ela olhou para a barra sabor frutas vermelhas, mas suas mãos estavam atadas.
–Ah, desculpe.– ele abriu e levou à boca dela, que comeu em cinco mordidas.Só depois ele comeu a sua.
–É... Kira não é?– perguntou com a boca cheia, oferecendo outra para ela.
–Isso.– respondeu após engolir a segunda mastigada.
–Não se preocupe.– engoliu. –Não vou lhe machucar. Aqui, beba.
Ele retirou o lacre que tapava um copo de plástico sabor “Laranja com Acerola” e deu-a com calma.
–Vamos dormir, amanhã será um longo dia para o Crináudo.
O dodô respondeu balançando suas pequenas asas e terminou de comer sua deliciosa ração.
***
A noite havia passado mais rápido que o imaginado. Foi uma daquelas noites em que o sono é tão pesado, que você pisca e percebe que já é de manhã. Talazar e Rehena acordaram cedo e esperaram Ka na saída da vila. Aparentemente, havia dormido demais.
–Vamos, Ka, ande logo!– apressou Rehena, enquanto ele vinha correndo.
–Pronto! Já podemos ir.– ele respondeu, com a boca cheia.
–Já era hora!– ela reclamou.
–Eu estava tomando café.
Nesse momento surgiu uma pessoa vestindo um manto branco com detalhes em vermelho na base e no capuz.
–Eu também vou!– disse uma voz feminina que aparentava ser do encapuzado.
–Quem é você?– perguntou Ka.
A pessoa tirou o capuz e todos viram que era uma garota. Uma linda garota de olhos azuis penetrantes atrás de seu par de óculos ovais e cabelos loiros acinzentados, presos em dois rabos de cavalo na altura da nuca, um de cada lado da cabeça. Fora a franja que chegava aos óculos, seus cabelos iam até a cintura e as pontas eram levemente rosadas.
–Eu sou Lulua D'FireLight.– respondeu.
–Muito bem Lulua D'FireLight, por que você acha que pode ir conosco?– perguntou Ka.
–Porque a floresta que tem ali na frente é muito perigosa!– respondeu, apontando.
–Não! Não me convenceu.– disse Ka com os olhos fechados e balançando a cabeça negativamente.
–O que?!
–Um cara legal como eu não deve ficar andando por aí com uma pirralha como você!– disse balançando a cabeça positivamente agora.
Eu que o diga, pensou Talazar a respeito de Ka.
–Pirralha!?
Eu sou só uns cinco centímetros mais baixa!, ela pensou.
Talazar começou a andar dizendo:
–Vamos embora!
Rehena o seguiu e Ka foi logo atrás com as mãos nos bolsos da calça.
–Eu conheço esse vale melhor que todo mundo daqui! Vocês podem se perder por ai.– gritou Lulua.
Ka levantou seu braço esquerdo.
–E daí? Nós não somos daqui mesmo!– ele gritou de volta.
E os três seguiram caminho adentrando mais ainda na floresta. Em pouco tempo já não podiam mais ver a vila.
–Acha que ela vai nos seguir?– perguntou Rehena
–Quem?– respondeu Ka.
–A tal Lulua.
–Ah, sim. Não, ela não vai nos seguir.
–Não?
–Não.
Ka parou de andar e sorriu. Os outros pararam também.
–O que foi, Ka?– perguntou Rehena.
–Não sabia que é feio seguir as pessoas?...– Ka disse bem alto.
Então Lulua saiu de trás de uma árvore há uns cem metros atrás e percebeu que ele não estava mais lá com Talazar e Rehena.
–Ainda mais quando você acaba de conhecê-las!– ele terminou de dizer, sussurrando em seu ouvido.
Automaticamente Lulua sacou uma espada de dentro da sua capa e atacou Ka, que se defendeu, segurando a lâmina com a mão direita, fazendo o som de metais se chocando. Mas não era uma espada comum, era longa, fina e curva.
–Você pode se machucar com isso. Ou pior, machucar a mim.– ele disse enquanto pensava: Onde ela conseguiu uma espada assim?
Lulua, com cara de assustada, embainhou sua espada de volta. Ela percebeu que ele usava uma espécie de manopla metálica vermelha, com a qual conseguiu segurar sua espada. Rehena e Talazar também perceberam, não haviam visto a mão direita de Ka, ele sempre estava com ela enfiada no bolso da calça ou do sobretudo.
–Você me assustou!– disse ela se afastando de Ka.
–Eu te assustei?! Você está nos seguindo. O que queria que eu fizesse, ficasse correndo em círculos e gritando por socorro?
Rehena fez um som com a garganta, abafando um riso.
–Qual é o seu problema?– disse Ka.
–Qual é o meu problema? Qual é o seu problema?!– ela respondeu. –Estou tentando ajudá-los.
–Não me lembro de termos pedido sua ajuda.
–Calem-se, os dois!– interrompeu Talazar.
Ka e Lulua se calaram, e olharam para ele.
–O que faz aqui, mulher?– ele também havia percebido a espada de Lulua.
–Eu já disse que vou ajudar. Vi vocês chegando à vila ontem à noite e ouvi o que diziam.
–Isso aqui não é brincadeira de criança!
–Não estou brincando e não sou uma criança.
–Mas está agindo como uma.
Lulua abriu a boca, mas não havia nada para dizer. Olhou vagamente para o chão e respirou profundamente.
–Faça como quiser!– disse Talazar andando, continuando o caminho.
Lulua sorriu para Talazar.
–O que?!!!– Ka arregalou os olhos para Talazar.
–Serio mesmo?– confirmou Lulua com cara de felicidade e Ka ainda espantado.
–Que seja... Vamos seguir em frente!– respondeu Talazar.
Lulua pulava de alegria enquanto Ka ficava desapontado por ela ter conseguido o que queria. Ele revirou os olhos. Talazar andava na frente seguido de Lulua.
–Isso vai ser um problema.– comentou Rehena, quando Ka chegou ao seu lado.
–Vai sim.– ele respondeu.
–Então vamos.
–Não tem outro jeito. Fazer o quê?
Rehena e Ka seguiram os outros dois.
–Ei, como você fez aquilo?– disse Rehena. –Quero dizer. Num momento você estava ao meu lado e no outro saiu da árvore onde ela estava.
–Hã... habilidades ninja... eu acho.– novamente sua habilidade de omissão estava ativa.
Bem mais a frente dali, Kira estava acordando com um raio de Sol em seus olhos, que passava por uma brecha das copas das árvores. Ela abriu os olhos, mas a luz estava diretamente em seus olhos. Então, uma sombra surgiu à cima e fez a luz desaparecer.
–Bom dia, bela adormecida.
Era Deluge. Ele a ajudou a se levantar e ela percebeu que seus calcanhares não estavam mais amarrados. Ela ainda podia sentir o gosto do chocolate da noite anterior, mas estava misturado com o gosto de papel velho de todas as manhãs. Então poderia ser... gosto de papel de chocolate velho?
Crináudo estava de prontidão esperando os dois. Deluge pegou sua mochila do chão e prendeu na cela de Crináudo. Vendo que ele estava de costas, Kira percebeu que era sua deixa. Correu na direção oposta por entre as árvores. Suas mãos, atadas atrás, lhe tiravam o equilíbrio. Rapidamente havia despistado Deluge. Ela corria arrastando folhas e esbarrando em algumas árvores. Por um momento ela pareceu escorregar e tropeçou, mas conseguiu não cair e continuar correndo. Então, algo lhe veio na cabeça. Ela esquecera de que aquela floresta era enorme e não sabia de onde havia vindo, pois estava desacordada. Olhou por cima do ombro e Deluge não a estava seguindo, mas quando voltou sua cabeça para frente, bateu em cheio numa árvore, que a abraçou.
Era Deluge.
–Como você...?– ela estava ofegante.
Ele fez Shh! para ela e ficou observando ao redor. Kira percebeu que floresta estava muito calma e, então, procurou o que Deluge estava procurando também. Eles ouviram o farfalhar de folhas e se viraram para o lado. Deluge pôs a mão no coldre que estava preso à sua perna esquerda e Crináudo saiu de trás de uma árvore e foi para perto deles. Deluge soltou sua pistola e percebeu que Kira estava segurando seu braço direito com força. Ela o olhou.
–Você me assustou.– ela disse quase sussurrando e tentando fazer cara de brava.
–Eu te assustei?!– Deluge respondeu no mesmo tom de voz. –Ele te assustou. Ele me assustou.
Nesse momento um grito ecoou pela floresta e os pássaros bateram em retirada. O grito parecia metade feminino, metade fera. O que deixou Crináudo nervoso para ir embora.
–O que foi isso?– perguntou Kira.
–Eu não sei. E acho que não quero descobrir.– ele respondeu segurando Kira pela cintura e erguendo a para que sentasse no lombo de Crináudo. (Lombo? É isso?)
Deluge sentou atrás dela e pegou as rédeas. Crináudo sabia o que fazer. Correu ao máximo, como quando estava indo para o Templo de Kira. Eles passaram por onde haviam ficado a noite e saíram de volta para a estrada. Era incrível a sensação que Kira sentia. Era como se ela fosse levantar vôo a qualquer momento. O vento batendo em seu rosto e os cabelos, embora presos, dançando furiosamente no ombro de Deluge. As árvores passando velozmente e o movimento de sobe e desce que Crináudo fazia quando pisava. Ela ergueu um largo sorriso e por um momento esqueceu que estava sendo sequestrada.
Deluge segurava as rédeas de uma forma que parecia que ele a estava abraçando. Kira olhou para seu rosto que estava ao lado e voltou para frente.
–O que foi?– ele perguntou sem parar de olhara para frente.
–Nada.– ela respondeu com um leve sorriso.
–Por que está deixando que eu a leve? Quero dizer, você poderia ter me batido e tal, não que isso fizesse muita diferença, mas só tentou correr e depois não reagiu.
Kira pensou um pouco.
–Sei que Rehena virá me salvar. Sei também que você não vai me machucar. De alguma forma confio em você. Sinto-me segura com você, embora esteja indo me trocar por dinheiro.
–Como sabe que ela virá mesmo?
–É como deve ser. Eu sinto isso. Sinto que ela está vindo com alguém.
Deluge pensou em Ka. No momento em que ele estava de pé olhando em seus olhos. Ele fechou os punhos com força, apertando as rédeas que fizeram um som de couro sendo esticado. Kira percebeu e achou melhor ficar calada.
***
Ka, Lulua, Rehena e Talazar andaram mais uns dois quilômetros sem se falar. Até que os quatro chegaram a um penhasco bem fundo com um rio passando em sua base. A ponte que servia para atravessar havia apodrecido há semanas, talvez meses.
–Definitivamente eles não passaram por aqui.– disse Rehena.
–Como vamos atravessar agora?– reclamou Lulua.
–Rápido Talazar... ajude-me aqui!– disse Ka no pé de um pinheiro antigo e muito alto.
Ele empurrava enquanto Talazar o cortava com sua espada do outro lado. Eles empurraram com força e a árvore caiu formando uma ponte improvisada.
–Agora sim!– disse Rehena.
Eles, então ouviram o grito da mulher-fera e viram os pássaros voando para longe, do outro lado do penhasco.
–O que foi isso?– perguntou Rehena.
–Deve ser algo grande.– respondeu Talazar. –E furioso.
–Eles devem está perto.– disse Ka. –Temos que ir depressa.
–Acho que com isso eles vão ir mais depressa que antes.– disse Lulua. –Seja o que for aquilo agora, não vão querer esbarrar com ele.
Primeiro Talazar atravessou. Ele tateava a madeira e fazia um pouco de pressão com os pés para certificar-se de que não estava podre e se aguentava o peso. Depois Rehena subiu. Seus sapatos escorregavam um pouco e ela não conseguia ter um equilíbrio perfeito, devido aos saltos de dois centímetros de seus sapatos. E então chegou a vez de Lulua.
–Vai lá... agora é você!– disse Ka.
–Não me parece uma boa ideia.– respondeu Lulua com receio.
–Rehena e Talazar conseguiram. Você consegue.
–Eu não sei, não.
Ela subiu no tronco de árvore e andou com passos bem curtos. O tronco era cheio de musgo e escorregadio, sem falar nos rangidos e nas voltas que o tronco tentava fazer, mas ele só se movia poucos centímetros e voltava à sua posição original. Ao chegar à metade do caminho, ela escorregou e gritou. Mais que depressa, Ka segurou sua mão, deixando-a pendurada. Seus dedos da mão direita estavam cravados na madeira e metade do seu corpo estava no ar.
–Você está bem?– ele perguntou.
–Eu estou pendurada num precipício extremamente alto e minha vida está literalmente nas mãos de um garoto metido. Isso parece bem pra você?!– respondeu Lulua.
Por que eu tinha que perguntar?, ele pensou.
–Olha, se você quiser que eu te solte é só falar. Sem problema nenhum.
–Não, não. Estou bem aqui.
–Segure firme, Ka!!!– ordenou Rehena.
Rehena tentou subir para ajudá-lo, mas o tronco tremeu e ela parou. Achou melhor voltar.
–Ahn... Lulua...– disse Ka com um tom de voz de que algo ruim estava acontecendo.
E realmente estava. Ka escorregava com o peso dos dois sobre o tronco cheio de musgo.
–O que foi, Ka?– perguntou Lulua, pensando se queria ou não saber o que era.
–Se você tem medo de altura, não olhe para baixo.– respondeu.
E Ka escorregou mais um pouco. Agora seu corpo inteiro estava suspenso no ar.
–Por quê?
–Porque...– e antes que ele pudesse terminar, os dois caíram.
–Ka, seu ridículo. Eu mandei você segurar!!– gritou Rehena. Sua voz se distanciava.
Eu fiz o melhor que pude, ele pensou.
Eles desciam depressa. O vento assobiava com fúria nos ouvidos de Ka. O chão se aproximava rápido demais. Ele viu Lulua cair na água do rio e um segundo depois tudo ficou escuro.
Ka estava de bruços no chão. Ele acordou e se mexeu lentamente.
–Ai, minha cabeça!– reclamou.
Levantou-se apoiando as mãos nos joelhos e olhou a seu redor. Era uma cidade deserta com prédios em ruínas e carros quebrados nas ruas. Tudo estava destruído, explodindo ou em chamas. Nesse momento, no meio da fumaça, apareceu um garoto vestindo uma armadura vermelha, toda quebrada e suja, mancando e quase caindo, sem forças.
–Me... aju... de!– pediu o garoto e caiu no chão.
Ka se ajoelhou e levantou a cabeça do garoto colocando-a em seu colo.Deve ter perdido o elmo em algum lugar.
–Onde eu estou?– perguntou Ka. –O que está acontecendo aqui?
–Lord-Von-Raum-zeit!– disse o garoto sem ar.
–Raumzeit? Quem é esse?
O garoto levantou seu braço e apontou para cima. Ka viu o reflexo de uma luz nos olhos castanhos do garoto e ao olhar para cima, um grande laser os atingiu.
Assustado, Ka acordou. Já era noite e ele estava na beira do rio em que caiu com Lulua. Este colocou a mão em sua testa e percebeu que ela estava enfaixada. A única fonte de luz deles era a da Lua e as estrelas. Algumas estrelas piscavam próximas ao rio. –Pirilampos.–
Foi só mais um pesadelo, pensou. Um de muitos.
–Pesadelos?– perguntou Lulua aparecendo sem que fosse percebida.
Ele pensou no garoto em seu sonho. O que foi aquilo?
–É. Ai!– respondeu com a mão na cabeça latejando.
Lulua tocou a mão de Ka. Ela então percebeu que não era fria como metal, mas quente como... uma mão de verdade. E quase conseguia sentir e ouvi-la pulsando. Ela encheu suas mãos de água e deu para Ka beber. Ele percebeu que faltava, na base, um pedaço da capa de Lulua. Agora sabia onde conseguira a faixa na cabeça.
–Foi um tombo feio, o seu. Você está bem?– ela perguntou.
–Vou sobreviver, espero.– respondeu. –O que houve?
–Nós caímos, mas eu caí na água. Você caiu na margem e apagou. Eu usei um feitiço de proteção em você, mas só foi suficiente para você não morrer.– disse, passando a mão na testa de Ka que olhou para cima.
–Que sorte a minha, hein. Onde estão Rehena e Talazar?– disse segurando a mão de Lulua.
Ela era macia e tinha um aroma doce, como o de uma flor.
–Eu os mandei seguir em frente e nos esperar na cidade que tem mais a diante.
–Então vamos...– disse levantando-se, mas sua cabeça doeu tanto que o fez cair de joelhos no chão.
–Não! Você ainda precisa descansar.– ela o repreendeu.
Lulua deitou Ka no chão com a cabeça em seu colo, colocou as mãos na testa dele e sussurrou umas palavras que faziam suas mãos brilharem. Em sua mão direita havia uma espécie de luva preta que, ao que deu para ver, só cobria a palma, as costas da mão e subiam pelo braço. Os dedos ficavam expostos.
–Onde conseguiu a espada?– Ele perguntou.
–Katana. Meu avô me deu.
–Interessante. Ei, o que você está fazendo?– perguntou Ka com os olhos pesados.
–Silêncio! Estou te curando.– respondeu Lulua também com os olhos pesados. –Ou pelo menos, tentando encurtar o tempo que levaria para isso ocorrer.
–Lulua.
–Oi.
–Me desculpe por agir daquele jeito com você. Eu só não...
–Tudo bem. Você quase me deixou morrer, eu poderia te odiar para sempre por isso, mas até que você não parece tão metido e chato assim.
–Ah, você é tão adorável que eu não sei se deveria dizer obrigado pelos insultos ou pedir desculpas por te salvar.
–Depois resolvemos isso. Agora, cale a boca e durma.
–Acho que não tenho escolha.– sua visão escurecia e sua voz ficava mais lerda.
Os dois dormiram ali mesmo e o som da noite predominou dando um ar de quietude. Os insetos voando, o rio correndo livremente e sem medo, o vento soprando por entre as árvores. Por um momento, aquela floresta erma pareceu um lugar agradável onde se podia sentir a liberdade da sociedade barulhenta e estressada.
Enquanto isso, Talazar e Rehena andavam pela floresta rumo à cidade que Lulua dissera. Suas pisadas fortes sobre as folhas inquietavam os bichos próximos e fazia-os se afastar dali ou esconder-se.
–Estamos andando faz quatro horas e meia.– disse Rehena ofegante –Você tem certeza que é por aqui?
–É por aqui!– disse Talazar andando mais rápido.
–Ela não disse que era perto?
–Não, ela só disse para seguirmos em frente.
–Que ótimo!
–Vamos e não reclame.
–Estou indo, estou indo.
Nesse momento, Rehena parou de repente, seguida de Talazar.
–Ouviu isso?– ela perguntou.
–Depende.
Um som de cordas se esticando vinha de todos os lugares ao longe. O silêncio era tanto que fazia seus ouvidos zumbir. Então repentinamente uma flecha caiu na frente deles que ficaram ali parados esperando o pior. O coração de Rehena batia tão forte que todo seu corpo tremia e Talazar podia ouvir as batidas.
–O que foi isso?– disse Talazar observando a sua volta.
E mais uma flecha caiu atrás de Rehena.
–O que está acontecendo?– disse Rehena depois de levar um susto com a segunda flecha.
Eles sentiram que estavam sendo observados por dezenas, não, centenas de olhos. Sua espinha congelou e os pelos da nuca se eriçaram. As mãos suavam e era como se o coração de Rehena fosse sair pela garganta, gritar e voltar para o peito.
–Você consegue correr?– Talazar perguntou.
Ouviu-se o som de mais flechas esticando as cordas dos arcos, e com os olhos arregalados e uma expressão de que tudo estava acabado, Rehena disse:
–Vamos saber já, já!– e começou a correr seguida de Talazar.
Uma chuva de flechas os perseguia, que corriam o mais rápido possível.
–Talazar, o que foi que você fez dessa vez?– perguntou Rehena, mais ofegante que antes.
–Eu não sei, mas continue correndo.– ele respondeu ultrapassando Rehena.
A chuva de flechas continuava, não os deixando parar de correr nem por um segundo. Era incontável o número de projéteis que caía do céu e quando eles estavam quase alcançando os dois, a chuva parou. A floresta voltara ao seu silêncio original como se nada houvesse acontecido. Rehena parou e desmaiou obrigando Talazar a carregá-la nas costas.
–Ela poderia ter ao menos me avisado que ia desmaiar.
A Lua iluminava o caminho para Talazar.
Notas finais
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Revisado por Magdalena Cunha.
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