al Chemist
9 Capítulo 8 - Kitsune vs Doppelgänger vs Athos
–O que foi aquilo?– a garota perguntou.
–Na mente deles? Nós virando carne desfiada.– Ka respondeu. –Na nossa mente? Nós quase virando carne desfiada.
Os quatro já estavam chegando ao limite. Deveriam estar dormindo, mas estavam fugindo da possível morte.
–E então? Já decidiram se estão perdidos.– a voz da criança novamente, mas não parecia mais de uma criança.
–Kitsune, é você de novo?– Ka disse alto.
Uma jovem, aparentemente da idade deles, surgiu de trás de uma árvore. Ela possuía a pele muito clara, feições asiáticas, com olhos penetrantes que alternavam entre vermelho vivo e alaranjado como o fogo, usava um vestido sedoso de alça fina, preto e que terminava nos joelhos, tinha cabelos curtos que eram brancos como a neve e estava com os pés descalços.
–Vejo que saíram vivos de lá.– ela respondeu.
–Estava nos observando?– Lulua perguntou.
–De certo modo... sim.
–Pode nos ajudar?– a garota de vermelho perguntou.
–Achei que já o tivesse feito.
–Sabia onde os licantropo estavam, sabe onde Athos está?– Ka perguntou.
–Acho que sim.
–Quem é você?– Rehena perguntou.
–Kitsune.
–Sim, mas...
Nesse momento, os cinco ouviram o farfalhar de folhas à diante e uma forma humanoide apareceu. Era novamente o Doppelgänger. Ka se virou, mas Kitsune havia desaparecido.
–O que fazemos agora?– Lulua perguntou.
–Não sei.– Ka respondeu. –Não temos mais forças para fugir.
–Mas também não temos chance de lutar.
O Doppelgänger vinha com passos lentos. Lulua e Rehena sacaram suas espadas.
Então uma grande raposa prateada veio do meio das árvores atrás deles e pulou entre eles e o Doppelgänger, rosnando, apesar de estar com um pedaço de tecido preto à boca. Sua pelugem podia refletir a luz da lua e sua cauda se abriu como um leque, revelando ser na verdade oito caudas peludas e de pontas douradas. Neste instante uma lembrança veio à mente de Ka.
–Alguém pode me dizer que animal é esse no quadro?– o professor Corvus havia perguntado. O animal era algum tipo de cão com vários tentáculos saindo de seu traseiro. –Ka?
–Isso é... um cachorro-polvo?– Ka respondeu.
–Errado! Isso é a raposa de nove caudas.
–Pois parece um cachorro-polvo.– todos na sala de aula riram.
–Muito bem, você sabe que poderes esse “cachorro-polvo” possui?
Ka piscou e havia sido transportado de volta ao presente. Ele podia ouvir a voz de Rehena perguntando “o que é isso?”, mas seus olhos estavam sendo ofuscados pela luz refletida.
–Kitsune, seus pelos estão nos cegando!– ele gritou.
Rehena, Lulua e a garota de vermelho se espantaram com o que ouviram, mas não acreditaram. Como aquilo pode ser a Kitsune que estava aqui conosco?
Com um movimento de cabeça, o vestido em sua boca se abriu e cobriu seu corpo. A raposa agora estava se transformando em jovem novamente enquanto entrava no vestido e usava suas caudas para se proteger da visão dos outros. O Doppelgänger estava chegando cada vez mais perto e ao terminar a transformação, Kitsune era a jovem asiática, porém ainda possuía as oito caudas.
–Não, ela não pode!– a garota de vermelho disse. –O Doppelgänger irá se transformar nela.
Os quatro se olharam, mas era tarde demais. Seu corpo estava se tornando sólido e caudas cresciam. Entretanto, no meio da transformação, o Doppelgänger estava com as mãos na cabeça enquanto gritava com a voz de Kitsune. Era o mesmo grito de mulher-fera que haviam escutado quando estavam na jornada à procura de Kira.
–Então era ele!– disse Ka a Kitsune. –Vocês já se encontraram antes.
O Doppelgänger estava alternando entre sua forma original e a forma de Kitsune.
–Sim.– ela respondeu. –Eu o estava atrasando para que não pudesse encontrá-los.
–Não estou entendendo.– Rehena disse a Ka. –O que está acontecendo com ele?
–A Kitsune é uma raposa que tem a habilidade de assumir a forma humana. A cada cem anos ela recebe uma cauda, que faz com que sua sabedoria aumente. Ela agora está com oito caudas, o que significa que tem mais de oitocentos anos.– Ele apontou para Kitsune, que estava observando o Doppelgänger. –Quando o Doppelgänger copia a forma de uma pessoa, também copia as memórias. Agora, imagine receber mais de oitocentos anos de memórias em um segundo.
–Isso significa que se ele conseguir as memórias, a coisa vai ficar feia.– disse Lulua.
–Kitsune, não podemos deixá-lo terminar a transformação.– Ka disse.
Kitsune olhou para Ka e depois para o Doppelgänger. Então, correu em sua direção e o agarrou. Ela tentava dar socos, mas suas mãos entravam no rosto aquoso dele. O Doppelgänger conseguiu adquirir uma das caudas, que a usou para arremessar a Kitsune de volta para os quatro.
–O que faremos agora?– a garota de vermelho perguntou.
Ka correu na direção de Doppelgänger, que se preparava para lutar. Ele usou a ponta de sua cauda para acertar Ka, mas Ka foi mais rápido desviando para o lado e, usando sua mão direita, deu um soco no peito dele.
–Ele conseguiu?– Rehena perguntou.
–Não.– Kitsune respondeu, decepcionada.
Ka teria acertado se houvesse alguma coisa ali. Doppelgänger havia aberto um buraco onde Ka iria acertar, para que sua mão passasse direto. Ka jamais havia visto aquilo antes. Doppelgänger, novamente, usou sua cauda e com uma chicoteada, jogou Ka de volta, fazendo-o bater com as costas em uma árvore.
–O que foi... aquilo?– Ka perguntou, gemendo enquanto se levantava.
–O Doppelgänger é um elemental da água. Ele pode moldar seu corpo a sua maneira.
Assim como aquele cara-de-peixe que estava com Lou,Ka lembrou.
–Como assim?– Lulua disse.–O que houve?
–O Doppelgänger reajustou o formato de seu peito para que houvesse um buraco onde Ka iria acertar.– Rehena respondeu. –Assim, o punho dele passou direto.
Outra transformação estava acontecendo. Agora o Doppelgänger estava com o braço direito de Ka.
–Santa mãe de Deus.– a garota de vermelho disse. –Agora ele tem o braço de Ka.
–Acho que por não ter conseguido se transformar em Kitsune por completo, ele deve achar que não consegue se transformar em outras pessoas, então copia partes delas.
–Isso é bom não é?– Lulua perguntou.
–Se copiar nossas memórias, não.
O Doppelgänger apontou sua calda para eles. A ponta dela começou a brilhar rapidamente. A luz ofuscava os olhos. E então, um raio saiu da cauda e foi na direção dos cinco, mas Kitsune foi mais rápida e também lançou um raio. Ambos os ataques se colidiram e se espalharam ao redor acertando algumas árvores e o chão. Ka, Rehena, Lulua e a garota levaram um choque e caíram no chão ouvindo um zumbido agudo.
–Ai, minha cabeça.– eles disseram em uníssono, enquanto levantavam.
–Isso não é bom.– Kitsune disse.
–Ele se lembrou que você solta raios pela ponta da cauda?– Ka disse.
–Sim, mas não é com isso que estou preocupada.
Doppelgänger novamente gritava, enquanto outra cauda surgia. Ka pensou por um instante.
–Ah, droga!– ele disse.
Invisibilidade é uma das habilidades de Kitsune e o Doppelgänger estava começando a se lembrar. Seu corpo perdia e ganhava transparência. Kitsune, novamente correu em sua direção e o abraçou com toda sua força. Ele tentou usar suas caudas para jogá-la novamente, mas ela usou duas de suas caudas para imobilizar as dele. Elas estavam enroscadas, como se tivessem dado um nó. Kitsune ainda tinha mais seis caudas. Ela as usou para cravá-las nas costas dele. As pontas brilharam e uma descarga elétrica foi dada contra o Doppelgänger. Ele borbulhava e soltava fumaça.
–Rehena, você sabe magia de gelo.– Ka disse. –Tem vantagem sobre ele.
Rehena levantou sua espada, e sussurrou algumas palavras. O Doppelgänger se lembrou de algumas habilidades de luta de Ka e usou seu peito para lançar a descarga elétrica contra Kitsune. Ela foi lançada de volta, mas passou direto por Ka e as outras, passando por várias árvores e batendo. Com o susto, Rehena interrompeu seu encantamento. A garota de vermelho correu para ajudar Kitsune.
–Eu vou distraí-lo.– Lulua disse e correu levantando sua espada.
Rehena novamente começou seu encantamento. E a lâmina de sua espada produzia uma leve luz. Quando a garota de vermelho chegou a Kitsune, que estava desacordada, viu que havia um buraco na parte da frente de seu vestido mostrando que seu abdome estava queimado.
O corpo de Doppelgänger ainda estava carregado. Lulua vinha correndo em sua direção. Novamente, ele usou a ponta de uma das caudas para acertá-la, mas ela fez o mesmo movimento de Ka. Ele havia previsto isso e usou a outra cauda para acertá-la, mas ela pulou. O Doppelgänger direcionou toda a sua carga para a palma de sua mão esquerda e lançou contra Lulua. Ela defendeu o ataque com a espada, mas foi lançada para trás girando no ar, e foi de encontro ao chão de volta aos pés de Ka.
–Ei, você está bem?– ele perguntou, mas Lulua estava tremendo como se estivesse com frio. Aos poucos seu corpo parou de tremer.
–Sim.– ela respondeu enquanto Ka a ajudava a se levantar. –Temos que prender as caudas dele e não deixa-lo fazer aquilo de abrir buracos no corpo de novo.
Ka correu em direção ao Doppelgänger, que usou as duas caudas ao mesmo tempo, tentando perfurá-lo. Ka segurou as caudas e ficou de cabeça para baixo, empurrando-as contra o chão. O sobretudo se abriu e impediu que o Doppelgänger visse Rehena ou Lulua. Quando Ka abriu as pernas, um par de pés surgiu e veio na direção do rosto do Doppelgänger.
–Lâmina das Sombras Congelantes!– gritou Rehena e uma rajada de vento frio atingiu Ka, Lulua e o Doppelgänger.
O corpo dele estava endurecendo e não havia como desviar de Lulua. Com os pés juntos, ela atingiu em cheio sua cabeça. A força do chute deveria jogar o Doppelgänger para trás, mas Ka voltou a ficar de pé e fazia força para puxá-lo. Seus pés escorregavam para frente. Lulua caiu em pé mais adiante, as mãos de Ka estavam ficando dormentes com o frio. No momento que Ka soltou, um raio passou ao seu lado e atingiu o Doppelgänger no peito. Ele foi jogado contra Lulua, mas ela se jogou para o lado antes que pudesse ser atingida. Ele atingiu uma árvore, que acabou sendo derrubada. Ka, Lulua e Rehena olharam para trás e lá estava Kitsune, sorrindo, apoiada no ombro da garota de vermelho. Os três foram a seu encontro.
–Você está bem?– Rehena perguntou a Kitsune.
–Sim, mas ainda não o derrotamos.– ela respondeu.
–Parece impossível.– a garota disse. –Já usaram raio, gelo, força bruta e nada surtiu efeito.
–E se usássemos fogo?– Lulua perguntou
–Não adiantaria.– Rehena respondeu. –Ele é um espírito da água.
–Se o fogo for muito intenso a água irá evaporar.– Ka disse. –Kitsune, além de raios você consegue gerar fogo, não consegue?
–Sim, mas no meu estado, não conseguiria fazer um poderoso o bastante.
O Doppelgänger estava de volta. Seu dorso ainda estava congelado e parte dele estava rachado. Kitsune, então, começou a gemer, caiu no chão de joelhos e apertou a cabeça com as mãos. A nona cauda surgiu e a pele de Kitsune ficou dourada. Os quatro ficaram admirados com o que viam. Lulua e Rehena estavam cansadas da luta, Ka percebera, então não podiam participar mais.
–Kitsune.– ele disse. –Agora que tem suas nove caudas, possui sabedoria infinita. Deve saber o que quero fazer para derrota-lo.
–Tenho onisciência, não telepatia.– respondeu enquanto se levantava. –Mas posso te ajudar.
–Certo.
Acho que vai precisar do meu poder, garoto, disse uma voz na mente de Ka.
Seu poder? MEU poder!, ele pensou.
O Doppelgänger estava ficando mais forte, pois estava conseguindo copiar Kitsune. Agora ele tinha quatro caudas. Ka correu em sua direção e o Doppelgänger tentou chicoteá-lo com as quatro caudas, mas Ka escorregou por entre suas pernas e agarrou um dos pés. O Doppelgänger se desequilibrou, virando para Ka e foi atingido por uma rajada de fogo, nas costas, vinda de Kitsune. Antes que ele pudesse cair, Ka lhe acertou um soco no queixo vindo de baixo. As caudas impediram que o Doppelgänger caísse.
Acho que terá que usá-lo agora¸ novamente a voz dizia.
Kitsune já não tinha mais forças. Então, Ka teria que agir sozinho. Ele dava passos lentos em torno do Doppelgänger que, parado, só observava. Enquanto isso, Ka tentava estalar os dedos da mão direita, mas nada acontecia. Na sua cabeça vinha palavras de uma aula (uma das poucas que prestou atenção):
“Um dos passos para se tornarem nível estrela é dominar três regras:”
Ka ainda andava em torno do Doppelgänger tentando estalar os dedos. Sua respiração estava muito rápida. Com as nove caudas, Kitsune podia ver e ouvir qualquer coisa de qualquer parte do mundo. E agora, ela estava ouvindo a respiração dele.
Sua respiração está diferente, ela pensou.
“Primeira regra: Escondam-se na escuridão, prendam a respiração... vocês devem encontrar uma brecha no alvo.”
Finalmente Ka conseguiu estalar os dedos, mas aparentemente não aconteceu o que queria que acontecesse.
“Segunda regra: Entendam o alvo e saibam prever todas as suas ações e pensamentos.”
Ka estava concentrado e agora podia ouvir o coração de Doppelgänger batendo. Sua respiração ainda estava acelerada. Ele estalou os dedos e finalmente uma faísca saiu. Ele colocou sua mão para frente e estalou novamente, mas dessa vez a ponta de seus dedos ficaram em chamas.
Mais. Eu preciso de mais!,ele pensou e estalou novamente e com mais força. Agora era a palma de sua mão que estava em chamas. Kitsune podia ouvir a respiração de Ka ainda mais alto, até que chegou uma hora que...
A respiração parou, ela pensou.
Ele escondeu sua presença, Lulua e Rehena pensaram.
O fogo em sua mão se tornou uma bola flamejante. Ka a lançou com toda a força. O Doppelgänger usou uma das caudas para defender achando que não iria se ferir, mas estava enganado. Sua cauda estava queimada e borbulhando, o poder regenerativo de Doppelgänger não estava funcionando. Ele baixou sua calda e viu que Ka não estava mais lá. Era tarde demais.
“Terceira regra: Eliminem o inimigo antes mesmo de ele perceber que você se moveu.”
Ka veio correndo pelas costas e parou atrás dele com os braços numa posição jamais vista. Era como se Ka visse tudo em câmera lenta . Seu cotovelo direito estava na região lombar do Doppelgänger, sua cabeça estava mais acima e seu punho esquerdo, um pouco abaixo da altura dos ombros. Com o impacto o Doppelgänger subiu um palmo do chão.
Uma espécie de explosão de ar saiu de onde Ka havia acertado e um círculo mágico surgiu no chão. Um raio saía de cada símbolo no círculo e acertava o Doppelgänger no peito. Ka abriu os braços como se estivesse expulsando algo, os raios e o círculo se desfizeram em partículas brilhantes e o Doppelgänger foi jogado à toda força contra árvores, atravessando e derrubando-as.
A visão de Ka ficou turva e escura. Rehena correu para ajudá-lo e não deixar que desmaiasse. Lulua estava terminando de curar o ferimento de Kitsune. Os cinco foram até onde Doppelgänger estava. Lá estava o corpo dele, de volta à sua forma gelatinosa num grande círculo de grama aparada e sem árvores. Seu coração batia acelerado, até que em um momento parou. Todo o seu corpo evaporou por completo e sumiu no ar.
–Derrotamos ele?– Lulua perguntou.
–Não.– Ka respondeu ofegante.
–Mas o corpo dele foi destruído. Ele evaporou.
–Nada pode ser destruído.– disse Kitsune. –Apenas modificado.
–O Doppelgänger um dia retornará.– Ka disse e então desmaiou.
Lulua tentou curá-lo, mas ele só tinha arranhões. Ela, então, resolveu curar Rehena e acabou desmaiando também. Kitsune continuou em forma humana e fez suas caudas desaparecerem, mas sua pele ainda estava dourada.
–Agora esperamos os dois acordarem?– Rehena perguntou.
–Não temos outra escolha, mas não é com isso que deve se importar agora.– ela respondeu.
–Então com o quê?
–Com ele.– Kitsune apontou para a lua.
Um pássaro grande voava sob a luz da lua e descia cada vez mais. Quando chegou há uma certa altura, não parecia mais um pássaro.
–O que é aquilo?– Rehena perguntou.
–É Athos.– a garota de vermelho respondeu, morrendo de medo.
–Athos? Ele tinha asas? Espere, lobisomens não tem asas.
Athos descia em alta velocidade. Ele abriu suas enormes asas para pousar e uma rajada de vento soprava contra elas. Ao tocar o chão, elas perceberam que ele estava completamente diferente da ultima vez. Estava maior, com asas negras, sua calda era longa como um chicote, sua língua era bifurcada como as de cobra, suas patas dianteiras eram garras de ave e sua testa possuía pequenos espinhos.
–Como vamos matá-lo?– Rehena perguntou.
–Ele ainda é um licantropo.– Kitsune respondeu. –Só que agora pode voar.
–Mas...
–Sua espada. Ela é de prata. Licantropos só podem ser feridos por armas de prata.
–Então era por isso que os outros queriam que eu fosse embora?
–Sim.
Rehena empunhou sua espada.
–Não.– Kitsune disse. –Esta batalha é dela.– apontou para a garota.
–Ora, ora, ora.– Athos disse. –Nos encontramos de novo, garotinha.– sua língua sibilava como se ele estivesse lambendo os lábios.
–O que houve com você?– ela perguntou.
–Eu não aguentava mais a vida de homem-lobo. Não fui transformado por vontade própria. Há cem anos, fui atacado por lobos na floresta e acabei sendo salvo por um caçador. Depois descobri que não eram lobos comuns, pois acabei me tornando um deles.
Athos estava sobre suas quatro patas. Ele caminhou até elas e ficou andando em círculos em torno delas.
–Depois de alguns anos, encontrei um cara.– ele continuou. –Ele tinha uma aura estranha, mas parecia legal. Ele me disse que era possível voltar a ser humano novamente. Eu só precisava matar mil pessoas mundanas, que ele me transformava de volta.
–Você é louco.
–Silêncio!!!– ele gritou tão alto que espantou as aves que estavam ali, escondidas nas árvores. –Eu não sou louco.– sua língua sibilou novamente. –Há algumas horas, ele me deu esses poderes para facilitar minha busca. Sabe o quanto é difícil encontrar mundanos hoje em dia?
–Não.
–Quando finalmente faltava dois, eu os encontrei de uma só vez, mas o último fugiu.
Os olhos da garota ardiam, lágrimas percorriam seu rosto.
–Você é a última, garota. E quando eu matar você, finalmente voltarei a ser humano.
–Você não tocará nela!– Rehena apontou sua espada para Athos.
Athos foi andando até ela e chegou bem perto. Rehena estava paralisada. Ele sibilou sua língua na bochecha dela, que virou o rosto.
–Acha que tenho medo disso?– ele disse e voltou a rodeá-las.
–Athos, depois de transformado, um licantropo jamais retorna.–Kitsune disse.
–É mentira!!!– ele gritou mais alto e abriu suas asas.
–Não, não é.– a garota disse, mas sua voz estava trêmula.
–O que você sabe? Acha que andando algumas horas com eles, já sabe de tudo?
–Já chega!– Rehena disse a elas. –Não gostei dele.
–Não.– Kitsune respondeu. –Somente sua espada pode matá-lo, mas não é você que o fará.
Rehena olhou para a garota, que estava confusa. Ela balançou a cabeça negativamente, mas mesmo assim Rehena entregou sua espada.
–Faça pela sua avó.– Rehena disse.
A garota olhou para a espada e a segurou. Quando Rehena a soltou, a garota quase caiu para frente, com o peso da espada. Athos riu.
–Mundana inútil. Não sabe nem segurar uma espada.– ele disse.
A garota finalmente conseguiu se acostumar com o peso e a ergueu, mas ainda era difícil manuseá-la. Ela andou para frente, se afastando de Rehena e Kitsune. Athos agora andava somente em torno dela. Ele abriu suas asas rapidamente, para dar um susto. Ela brandiu a espada no ar e quase caiu. Ele olhou para Rehena e Kitsune com um sorriso malicioso.
–Não se preocupe.– Kitsune disse alto à garota. –Você consegue.
Ela olhou de volta a Kitsune e acenou positivamente com a cabeça.
–Como se sente, sendo a última peça do meu tabuleiro?– Athos perguntou. Ele ainda andava em volta dela.
–Sinto nojo de você.– ela respondeu.
–Não sinta.– Athos deu uma risada contida.
Ela segurava a espada com força. A ponta mal chegava à altura dos joelhos. Os nós dos seus dedos estavam brancos. Athos tentou dar uma mordida no rosto dela, mas ela ergueu a espada e bloqueou. Athos somente empurrou a espada com as presas, o cabo bateu na testa dela, que a fez perder o equilíbrio e cair sentada no chão com a espada ao seu lado. Athos achou aquilo engraçado.
–Levante-se, mundana.– ele disse. –Quero me divertir com você primeiro.
Ela pegou a espada no chão e se levantou. Sua testa estava com um galo que sangrava. Era uma dor muito forte, que a deixava tonta. Athos continuou com sua caminhada em círculos.
–Lembra-se de como ela morreu?– ele disse. –Lembra-se de como abri o corpo dela com as unhas. Ainda estava viva quando comecei a comer suas entranhas.
Ela não queria lembrar daquilo. Dos gritos de dor, das paredes cheias de sangue. Seus olhos ardiam mais ainda. Seu coração pulsava forte e seu sangue fervia. Ela correu em direção ao lobo, porém quando brandiu sua espada para atacá-lo, ele pulou para o lado e chicoteou sua canela com a cauda, fazendo-a tropeçar e cair de joelhos.
Ele só está me fazendo de boba, ela pensava enquanto suas lágrimas caiam.
–Vou rasgar você.– Athos disse. –Vou matar você. Vou devorá-la na frente dos seus amiguinhos e depois minha missão estará terminada.
Ela secou as lágrimas com as costas das mãos, pegou a espada do chão e se levantou.
–Você é muito burro mesmo. Não consegue aceitar que nunca poderá voltar.
–Já chega!– ele gritou.–Vou te matar e vai ser agora.
Rehena quis ajudá-la, mas Kitsune segurou sua mão.
Athos abriu suas asas e correu em direção à garota. Ele agarrou seus braço esquerdo e perna direita com as garras dianteiras, mas ela brandiu a espada e lhe fez um corte no ombro direito. Ele a lançou para o lado contra o chão. Agora ela estava com o braço e perna cortados, era um ferimento feio e sangrava. O sangramento em seu corte da testa já havia parado. Athos urrou de raiva. Seu corte queimava e seu braço estava dormente e estava com dificuldade de se mover. Com muita dificuldade, ela tentou se levantar. Jamais havia sentido tamanha dor, sua perna tremia e mal conseguia mantê-la de pé. Por um momento, achou que estavam dando um nó em seu braço.
–Me deixe ajuda-la.– Rehena pediu a Kitsune.
–Ela não precisa de ajuda.– respondeu.
–Como não precisa de ajuda? Veja o estado dela.
–Você já deve ter ficado no mesmo estado alguma vez.
–Sim, mas ela...
–Ela é uma mundana? Não ter influência mágica não significa ser frágil. Acredite, os seres humanos podem fazer coisas inimagináveis quando estão sob pressão e perigo. Isso se chama “Instinto de Sobrevivência”
A garota, então, esboçou um meio sorriso em seu rosto. Sua cabeça estava baixa e o capuz cobria seus olhos. Ela segurava a espada com a mão direita e a apertava.
–Está com medo agora, Athos?– ela disse.
–Como é que é?
–Está com medo da espada de prata?
Os olhos de Athos se encheram de fúria. Ele, então, abriu suas asas e voou em sua direção. Ele vinha em alta velocidade, seu braço bom estava com as garras armadas e suas presas estavam prontas para morder e arrancar pedaços. Ela continuava com a cabeça baixa. Faltando pouco menos de um metro, ela se jogou de costas no chão e levantou a espada. Aqueles noventa centímetros de lâmina prateada, cortaram a base da asa esquerda. Athos caiu no chão e rolou por alguns metros. O local do corte borbulhava e sangrava. Athos se contorcia e gritava de dor.
–Ora, sua...– ele disse enquanto se levantava e ia mancando em sua direção.
Ela se levantou com a mesma dificuldade de antes, ainda com a espada na mão.
–Se acha muito valente para me matar, agora?– ele disse.
Ela estava muito cansada e tentava permanecer acordada. Seus ferimentos queimavam e sangravam bastante. Quando ele chegou à frente dela, lhe deu um golpe com a asa e a jogou para trás.
–Me responda!!!– ele gritou.
–Ele vai matá-la.– Rehena já não podia mais ver aquilo.
A garota sentia seu corpo todo dormente. Os músculos não obedeciam mais.
Não posso morrer agora, ela pensou.
Ela, então, tentou se levantar mais uma vez. Suas pernas estavam trêmulas. Ela poderia cair de volta ao chão a qualquer momento. Segurava a espada à frente de seu corpo, mas tanto o braço, quanto a espada tremiam.
–Não consegue, não é?– ele disse. –Está quase morrendo. Mal consegue ficar de pé.
Athos estava à sua frente. Ele deu um pulo e a empurrou pelos ombros. Antes que ela pudesse cair, antes que ele pudesse rasgar sua garganta, ela direcionou a ponta da espada para o coração dele. Ela sabia que não teria força suficiente para acertá-lo, então quando o cabo da espada tocou o chão, deixou que a gravidade fizesse seu trabalho. Quando eles caíram, Athos soltou um palavrão. A espada perfurou seu coração e a ponta saiu nas suas costas. Fumaça saia do ferimento e Athos estava imóvel em cima dela.
Rehena correu até ela e o empurrou para o lado.
–E agora? O que faremos?– Rehena disse desesperada. –Ela perdeu muito sangue.
Kitsune se ajoelhou ao lado da garota, pôs as mãos em sua testa e as pontas de suas caudas nos ferimentos. Depois, sussurrou algumas palavras e os ferimentos brilharam enquanto se fechavam. Rehena via aquilo impressionada pensando que Kitsune era incrível, apesar de estar com uma expressão de dor. Ao poucos, a garota recuperou suas forças e decidiu se levantar.
–Eu disse para não se preocupar.– Kitsune disse para Rehena, que abriu um largo sorriso.
A garota pôs o pé em Athos e puxou a espada de Rehena. O sangue que estava na espada evaporava.
–Sua espada.– ela disse enquanto entregava a Rehena. –Muito obrigada.
Rehena pegou a espada e a brandiu para retirar o resto do sangue. Depois a guardou.
–O que vai fazer agora?– elas ouviram a voz de Ka logo atrás.
Viraram-se e lá estava ele, tentando se manter de pé, com Lulua nas costas. Suas mãos escorregaram fazendo com que Lulua caísse no chão e acordasse assustada. Ela o olhou desconfiada e ele desviou seu olhar, fingindo que não sabia de nada. Ka olhou para a garota, esperando que ela respondesse sua pergunta.
–Eu... não sei.– ela finalmente respondeu. –Vou achar o meu caminho e ficar mais forte.
–Venha com a gente.– Lulua disse enquanto se levantava.
–Acho que ainda não é a hora.– a garota respondeu.
–Tudo bem, então.– Rehena disse.
–Então eu vou indo.
–Cuide-se.– todos disseram em uníssono.
E ela andou adentrando a floresta.
–Espere!– Ka disse alto. –Qual é o seu nome?– a garota olhou para trás, mas sem deixar de continuar andando.
Ela sorriu, se virou para frente e balançou a cabeça para os lados. Depois cobriu a cabeça com o capuz e sua forma vermelha sumiu em meio às árvores.
–Então eu também vou.– disse Kitsune.
–Vamos nos encontrar de novo?– Ka perguntou.
O Sol começava a sair de trás das montanhas.
–Talvez... ou não.– ela, então brilhou ofuscando os olhos dos três, deixando a visão toda branca e depois foi escurecendo.
Uma dor de cabeça latejante surgiu em Ka e sua visão foi tomando foco. Ele acordou no mesmo lugar onde tinham parado para descansar no fim da tarde. O Sol brilhava forte e uma brisa soprava. Lulua e Rehena acordaram com a mesma dor de cabeça.
–Tive um sonho estranho.– Rehena disse enquanto esfregava os olhos. –Tinha uma gosma que se transformava numa cópia da gente e depois tinha uma garota de capa vermelha. Tinha também um lobisomem muito estranho e uma garota que era meio raposa.
–Eu tive o mesmo sonho.– Lulua disse. –Mas não me lembro de nenhum lobisomem. E você Ka?
–Eu não sei.– ele respondeu. –Aquilo tudo parecia muito real para mim. A raposa se chama Kitsune e alguns de seus poderes são os de entrar nos sonhos e de criar ilusões tão complexas que são quase indistinguíveis da realidade.
–Quer dizer que aquilo tudo aconteceu mesmo na noite passada?– Rehena perguntou.
–Talvez. Só Kitsune sabe dizer.
Após alguns minutos, eles se levantaram e partiram ainda com aquela questão na cabeça. Após caminharem por quase uma hora, encontraram um pequeno lago. Ambos estavam lavando o rosto e bebendo água, quando Ka encontrou um floco de cinza flutuando na água. Ele levantou a cabeça e olhou para o outro lado do lago. Lá estava, o que um dia fora uma casa, agora era somente pilhas de madeira queimada e cinzas. Os três correram para lá achando que poderia haver alguém ferido, mas não havia ninguém. Para sua surpresa, havia uma fita vermelha amarrada a uma cruz feita com galhos, que estava fincada no chão. Eles se olharam e pensaram que aquele não foi um sonho normal.
Notas finais
---
Revisado por Magdalena Cunha
Fale com o autor