al Chemist
3 Capítulo 2 - A Cachoeira do Mercenário
Na manhã seguinte, ao acordar e ver que Lulua não estava ali, Ka se levantou ainda com dificuldade e a chamou. Sua voz ecoou pela parede do penhasco e houve um silêncio. Então Lulua caiu em cima dele. Eles gemeram.
–Diga!
Ele a tirou de suas costas e se levantou de novo, com a boca coberta de terra.
–O que você estava fazendo lá em cima?– perguntou olhando para Lulua e apontando para cima, enquanto se limpava.
Ela se levantou.
–Eu estava tentando subir, oras.– bateu em sua capa para tirar a poeira e tentou subir de novo o penhasco.
Ka ficou assistindo Lulua escalar a grande parede de pedras, somente com as mãos nuas. Ela subia não mais que uns três metros e caia sentada.
–Eu preciso encontrar Deluge... e também tenho que fazer aquilo.– ele pensava.
E mais uma vez Lulua caiu lá de cima.
–É... não dá pra subir mesmo!– disse sentada no chão.
Ka a ajudou a se levantar. Ele viu que suas mãos doces já não estavam mais como antes. Suas unhas perfeitas estavam roídas e com terra dentro, misturadas ao sangue e as palmas, calejadas. Há quanto tempo ela estava tentando subir?, pensou.
–Agora que você foi perceber isso?
Ele ficou olhando para cima por algum tempo pensando em uma solução para sair dali.
–Lulua... suba nas minhas costas...– disse Ka ainda olhando fixamente para cima, tentando deduzir quantos metros havia. Trezentos? Quinhentos? Olhar lá para cima lhe dava vertigem. Ou era sua cabeça que ainda doía pela queda?
Lulua o olhou confusa, depois olhou pra cima e olhou para Ka de novo.
–O quê?! O que você pretender fazer?
–Sair daqui.– ele respondeu olhando para Lulua.
–Como? Estamos entre duas paredes enormes de uns quinhentos metros e esse rio pode se estender por quilômetros tanto para cima, quanto para baixo.
Ele olhou em seus olhos.
–Confie em mim.
Ela sentiu seu rosto esquentar e suas mãos suando. Envergonhada, subiu nas costas de Ka, abraçando seu pescoço.
–Olhe lá onde você coloca essas mãos, hein.– ela advertiu.
Ele entrelaçou seus braços nos joelhos de Lulua.
–Pronta? Está segura? Se você apertar mais o meu pescoço eu não vou respirar... Assim está melhor.
Ka se abaixou um pouco para pegar impulso para pular. Espere, pular? Ele fechou os olhos e se concentrou em alguma coisa. Lulua sentia o corpo de Ka um pouco mais quente, mas ao mesmo tempo mais gelado. Ela também sentia como se tivesse bilhões de formigas se movendo nas costas dele e os pelos de seus braços estavam eriçados. E foi como se as formigas passassem para o seu corpo. Fazia cócegas e dava um leve choque. Ela estava confusa. O que é isso? Eletricidade estática?,pensou e então o formigamento parou. Ka abriu os olhos e pulou. O chão, onde eles estavam, rachou e o centro afundou formando uma cratera maior do que quando ele havia caído noite passada. Lulua, com os olhos fechados com força, gritava de medo enquanto esboçava um leve sorriso. Quando eles chegaram à beira lá de cima, Ka deu um passo para frente e lá estavam eles de volta a estrada rumo a outra cidade.
–Já acabou?– perguntou ela ainda com os olhos fechados. Nem havia percebido que estava apertando Ka tão forte que ele podia sentir seu coração batendo rápido.
Ele olhou para ela e começou a correr o mais rápido que pode. As árvores se tornaram borrões sendo deixados para trás. Cada passo que ele dava, deixava o chão rachado e com a marca de seu sapato. O vento zunia nos ouvidos de Lulua e embora os óculos protegessem seus olhos do vento que vinha, ela ainda não conseguia mantê-los abertos o suficiente para enxergar as coisas de forma clara. Ela abriu um pouco os olhos para ver como era. Sentia-se voando a toda velocidade. Por um momento viu um raiozinho passando pelo pescoço de Ka e uma fina névoa azul, saia de seus poros. Ela olhou para trás e viu as marcas deixadas pelos sapatos dele.
Quem é esse garoto?, ela pensou.
–Abaixa!– ele gritou e instantaneamente Lulua baixou a cabeça, desviando de um galho. Ela podia sentir que ele estava ofegante e sua velocidade havia diminuído um pouco. Tirou a tensão dos braços e o abraçou sem que pudesse machucá-lo. Ele retomou a velocidade e ela repousou sua cabeça no ombro dele, fazendo com que seus rostos ficassem lado a lado.
Então, ele parou. –Ou tentou parar.– Seus pés escorregavam, deixando uma grande massa de poeira atrás, mas estava diminuindo a velocidade. Quando parou completamente a massa de poeira veio de trás bloqueando a visão de Lulua e só então, quando dissipou, ela pode ver o motivo da parada: as árvores à frente estavam... diferentes. Cobertas de flechas negras. Era como se aquilo fosse uma nova floresta, cheia de espinhos.
Sem tirar os olhos das árvores, Ka soltou as pernas de Lulua e ela desceu um pouco decepcionada pelo passeio ter terminado e por não poder ficar mais próxima dele.
–O-que-é-isso?– Ka perguntou, pausando as palavras.
–Eu não faço ideia.– ela respondeu, também espantada. –Mas espero que Rehena e Talazar estejam bem.
–É.– ele deu um passo a frente. –Venha!– e esticou sua mão esquerda para trás, pegando a direita de Lulua. –Cuidado onde pisa.
Eles davam passos cuidadosos e Lulua pisava onde Ka havia pisado afim de não arriscar se machucar. Ela segurava firme sua mão.
–Com medo?– ele perguntou.
–Por que pergunta?
–Suas mãos. Estão suadas e você está apertando.
–Desculpe.– e ela soltou a mão de Ka.
–Tudo bem.– ele segurou o dedo indicador dela com o seu.
As flechas estavam cravas no chão até, pelo menos, a metade. O que significa que os tiros foram fortes. A grama meio amarelada sugere que elas possuíam veneno. As aves sequer estavam ali, de alguma forma. Não se ouvia nem o som do vento.
–Já ouvi algumas coisas sobre a Floresta do Desespero.– disse Ka.
–Essa não é a Floresta do Desespero. É só uma floresta grande o bastante para te fazer se perder e morrer de cansaço, fome ou sede.
–Então nem imagino de que forma a Floresta do Desespero possa matar uma pessoa.
–O que você ouviu sobre ela?
–Somente rumores.
–“A Floresta do Desespero é uma floresta negra e podre que há séculos esqueceu-se que havia morrido. Ela pode invadir sua mente, brincar com seus pesadelos mais sombrios e absorver sua alma. Com um único passo a frente, você pode se perder nela e vagar por dias esperando a morte. Em algum lugar da Floresta do Desespero há uma cidade chamada Sleepy Hollow que, em todas as noites à meia-noite, surge o Cavaleiro sem Cabeça cortando e decepando, com sua lâmina amaldiçoada, as cabeças de todos que vagam pelas ruas. Alguns dizem ter visto seis cavaleiros fantasmas, montados em dragões, empunhando foices e cantando músicas sobre seu passado”. Foi isso o que ouviu?
–Não. Na verdade, eu só havia escutado sobre o “se perder com um passo e brincar com pesadelos”. Não precisava contar a história toda.
Lulua esboçou um sorriso no rosto e segurou a mão de Ka novamente.
***
Não demorou muito para os dois chegarem ao portão da cidade, Ka correu grande parte em pouco tempo. Não era uma cidade grande, mas também não poderia ser considerada pequena. As ruas, de areia, eram cheias de pessoas distintas andando para lá e para cá parecendo um formigueiro. Havia muitas lojas vendendo todo o tipo de coisa a todo o tipo de preço.
–Vamos procurar os outros.– disse Ka.
Lulua observou a cidade dizendo:
–Essa cidade é grande e tem muitas pessoas. Vai demorar até encontrá-los.
–Então vamos começar logo!– disse Ka, já entrando no meio da multidão.
Acho que estou sozinha agora, ela pensou indo para a multidão.
Lulua e Ka se dividiram pela cidade a procura de Talazar e Rehena. Não era uma tarefa fácil já que ambos estavam cansados da viajem e havia muitos lugares para ir.
Estava escuro e uma brisa batia no corpo pesado. Então, Rehena abriu lentamente os olhos e sentiu seu corpo mole e sua cabeça girando. Então se sentou rapidamente na cama.
–Onde estou?– e tirou os lençóis de cima do corpo para descer da cama. –E onde está minha armadura?
Ela estava num quarto de hotel. Não era grande coisa. Tinha uma cama, um espelho e uma TV pequena em cima de uma cômoda de seis gavetas. Ela vestia uma roupa de neoprene, tipo aquelas de mergulhador, que cobria seu corpo até os tornozelos, pulsos e pescoço. Sua armadura estava arrumada no chão ao lado da cômoda. Depois de Talazar ter levado-a para a cidade, alugou um quarto e retirou a armadura pesada de Rehena para que ela pudesse descansar melhor.
–Onde está o Talazar?– ela disse sozinha enquanto jogava a armadura na cama e se olhava no espelho. –É bom que ele não tenha tocado em mim enquanto estive desacordada, porque senão...– ela fez uma careta parecendo uma carranca muito irritada.
Depois de se vestir, arrumou os cabelos bagunçados e saiu. O sol de vez em quando se escondia atrás de alguma nuvem. A quantidade de pessoas na rua era grande e Rehena algumas vezes esbarrava em alguém. Ela foi andando a procura de Talazar e talvez de Ka e Lulua. Com um pouco de dificuldade conseguiu chegar numa fonte de água, no centro da cidade. Um chafariz. Ela ficou ali tentando avistar alguém. Por um momento pensou ter visto Deluge parado no meio da multidão, olhando para ela. Mas sumiu, quando uma pessoa passou na sua frente. Às vezes abordava algumas pessoas perguntando se elas haviam visto um casal de adolescentes loiros, um casal de morenos ou um jovem de cabelos brancos.
Minutos depois, por volta de meio dia, encontrou uma mulher segurando uma sacola de pães doces e comprou um. Enquanto comia, Ka apareceu expressando um pouco de decepção.
–Rehena, conseguiu algo?– ele disse.
–Nada.– respondeu enquanto engolia.
Ela sentou na beira da fonte e ficou mexendo na água. –Será que encontraremos a protetora Kira?
Ka, de relance, avistou um bar do outro lado da rua.
–Você já foi naquele bar?
Rehena olhou para o bar também.
–Ainda não. Vai lá você.– ela disse.
–Tá bom, mas acho que o último lugar onde ela poderia estar é ali.
Ele foi em direção ao bar. A porta de entrada era igual à de filmes de faroeste (com dobradiças que permitiam a porta de abrir para dentro e para fora). Ka a empurrou lentamente fazendo-a ranger como uma porta velha e entrou. O falatório e a barulheira que dominavam o bar, rapidamente viraram silêncio e todas as pessoas que lá estavam, olharam para ele. Ka ficou meio receoso, mas seguiu até o balcão com lentos passos que faziam barulho no assoalho. Todo mundo voltou com o falatório e a barulheira de antes como se nada houvesse acontecido. Chegando ao balcão do bar, ele se sentou.
O dono do bar estava com um palito de dentes no canto da boca secando um copo com a ponta de um pano que estava pendurado em seu ombro. Ele perguntou o que Ka iria querer.
–Uma limonada.– respondeu. –Com gelo e sem açúcar.
–Não temos limão.
–Ah, então me dê um refrigerante... com limão.
O dono do bar fingiu que não o ouviu, pegou uma lata de refrigerante na geladeira atrás, encheu um copo que já estava com gelo e lhe deu. Ka bebeu tudo de uma vez só e colocou o copo no balcão com força. Os cubos de gelo tremeram fazendo um som no copo.
Refrescante, pensou.
Ka o pagou e o dono perguntou se ele queria mais alguma coisa. Ele se debruçou no balcão.
–Conhece... Deluge Nightmare?– o nome saiu com um sussurro.
O dono do bar se aproximou de Ka fazendo-o com que saísse de cima do balcão. Agora de perto, um forte odor de cigarro vinha do homem.
–Aqui é um bar. Só tem bebida, garoto!– disse, e Ka sentiu o cheiro de cigarro mais forte ainda invadindo suas narinas.
Não a bebida que eu queria.
Ele afastou seu rosto de perto do rosto do dono do bar.
–Certo, já que você não quer me ajudar, problema é seu. Mas não diga que eu não pedi com educação. E você esqueceu o meu limão.
Ele virou de costas para o dono, levantou do banquinho, andou até o centro do bar e respirou fundo.
–ATENÇÃO, IDIOTAS!!!– gritou.
Todos do bar se calaram novamente e fuzilaram Ka com os olhos, como se quisessem matá-lo. Ka por sua vez ficou andando em círculos e com as mãos para trás. Os passos no assoalho ainda se ouviam.
–Eu procuro por uma pessoa, um cara mais ou menos da minha idade e altura, arrogante, cabelo preto espetado e uma capa azul ou preta toda rasgada. Algum de vocês o viu?– ele disse fazendo gestos com a mão esquerda, quanto ao cabelo e a altura.
Nesse momento todos se levantaram e sacaram suas armas. Facas, facões, adagas, espadas, armas, espingardas, porretes, chakus, e todo o tipo de arma que se pode imaginar, mas somente um se aproximou de Ka. Ele era o mais alto, forte e mal-encarado do bar. Deveria ter uns dois metros de altura, tinha o rosto cheio de cicatrizes e os braços tatuados (inclusive uma das tatuagens era um ursinho que possuía um arco-íris na barriga). Se sua aparência não intimidasse, seu mau-hálito de bebida fazia isso juntamente com seus dentes amarelos cheios de comida incrustada. Ele segurava um taco de beisebol com vários pregos tortos e enferrujados na ponta.
–Que droga, Deluge! Você sempre arruma confusão pro meu lado.– resmungou Ka dando um passo à trás.
O homem aproximou seu rosto do de Ka.
–Disse alguma coisa, nanico?!
Disse, mas se eu fosse você não abriria minha boca nunca mais.
Ka deu mais uma passo para trás.
–Você viu meu amigo?– respondeu abanando seu nariz, pois o fedor era intenso. Seus olhos queimavam e estavam começando a lacrimejar.
–Ah, então ele é seu amigo?!– ele disse, afastando o rosto e se levantando.
–Foi o que eu disse. Eu estou...
Antes que Ka pudesse terminar o que ia dizer, o homem lhe deu um grande soco na barriga, jogando-o para fora do bar e quebrando a porta. Uma aba cravou no chão, no meio da rua, e a outra invadiu, pela janela, uma loja de roupas do outro lado. Todos que estava passando em frente ao bar, viram aquilo e se assustaram. Ka havia caído aos pés de Rehena, que o olhou espantada com o que acabara de ver acontecer. Ela estava de pé ao lado da aba da porta.
–O que houve, garoto?– ela perguntou.
–Acho que eles não estão lá dentro. E talvez eles não gostem do Deluge.– respondeu Ka se levantando.
–Vou matar você em nome de seu amigo!– disse o grandalhão, enquanto saía do bar.
Ka andou em direção ao homem, que veio em sua direção também.
–Espere! Diga-me o que Deluge fez.– disse Ka desviando de um golpe que o homem dera.
O golpe havia acertado o chão que por consequência formou-se uma grande nuvem de poeira. Todos que ali perto estavam, começaram a tossir e então se afastaram. Ka estava perdido e sem poder ver nada, levou um soco no rosto dado pelo homem furioso e foi jogado na fonte de água.
–Ah, cara, agora minhas roupas estão todas molhadas por culpa do Deluge.– reclamou enquanto se levantava e saia da fonte.
Depois de sair dela, ele fechou as mãos e estalou o pescoço.
–Agora eu fiquei nervoso!– e saiu correndo em direção à nuvem de poeira.
Alguns segundos depois as pessoas que estavam na rua observaram a clava do homem subir e cair no chão. A nuvem se dissipou e lá estava Ka imobilizando o homem, segurando suas mãos e com um dos pés levantado, no pescoço dele.
Q-que rápido, pensou o homem espantando.
–Agora me diga o que Deluge fez a você!– disse Ka com uma expressão de seriedade.
Todas as suas roupas pingavam e uma poça de lama se formava no chão. Seus cabelos loiros estavam colados no rosto.
–Eu...– respondeu o homem morrendo de medo.
–Anda, diga!– reclamou Ka com seu tom de voz mais alto.
O dono do bar saiu.
–Seu amigo o contratou para matá-los ou algo assim.
–Por que ele faria isso?– questionou Ka sem largar o grandalhão.
–Para onde ele foi?!!– interrompeu Rehena.
O dono do bar apontou para uma montanha e disse:
–Suba a montanha pelo caminho do lado leste da cidade, atrás da loja de poções. Lá em cima há uma cachoeira onde mercadores, mercenários e ladrões fazem negociações. Vocês devem encontrar seu amigo por lá.
–Obrigado.– disse Ka, largando o gigante e indo na direção apontada.
Lulua acabara de chegar na fonte. Ka ia em sua direção. Rehena o seguia.
–Ei, quem vai pagar pelos estragos no meu bar?
Ka apontou para o homem grande sem se virar ou parar de andar.
Os três procuraram Talazar na cidade inteira. Isso incluía a loja de donuts, a loja de roupas que teve a vitrine quebrada, a livraria, o jornaleiro, a lanchonete do Bob, a casa das empadas, a de artigos esportivos e até a de lingeries (Ka achou que Talazar poderia estar escolhendo algo para vestir). Como não o encontraram, Ka, Rehena e Lulua foram ao local que o dono do bar dissera. A subida íngreme era escorregadia e a névoa ficava mais densa quanto mais eles subiam.
–Estou começando a odiar esse seu amigo, Ka.– disse Lulua antes de escorregar e ser segurada pela cintura por Ka.
–Normal. Daqui um tempo você começa a me odiar também.– ele respondeu enquanto ajudava-a a se levantar.
Da trilha em que eles estavam dava para ver a cidade lá em baixo e alguns outros lugares.
***
–Está serenando... e minhas roupas ainda estão molhadas... e eu estou com fome!– Ka reclamava. –Essa trilha faz muitas curvas e ainda não chegamos.
Outro escorregão de Lulua salvo por Ka.
–Já estamos chegando.– ela disse.
–Você está dizendo que já estamos chegando há duas horas e meia.
–É o tempo que você está reclamando.
–Silêncio os dois!– disse Rehena.– Estou morrendo de frio e vocês aí discutindo e reclamando.
–Você também está reclamando do frio há duas horas e meia.– Ka e Lulua disseram em uníssono.
–Esperem, olhem.– Rehena disse apontando.
Eles avistaram lá em cima um arco de madeira, mais parecendo uma entrada para algum lugar e correram. O arco dava início a uma escadaria que não se podia ver o fim de tão densa que a névoa estava.
–Será que não tem escada rolante por aqui?– perguntou Lulua com um fio de esperança.
–Escada é bom para as pernas.– disse Ka.
–É bom minhas pernas estarem saradas quando isso tudo terminar.– disse Rehena começando a subir os degraus.
–Odeio escadas.– disse Ka. –Principalmente as que sobem.
Ka conseguiu contar quatrocentos e cinquenta e dois degraus. Adiante, no fim da escadaria, havia a base de uma cachoeira que desabava fazendo boa parte da névoa. Lá, viram a sacerdotisa com as mãos amarradas para trás, boca amordaçada e de joelhos numa pedra próxima a base da cachoeira com Deluge ao seu lado esperando-os.
–Deluge, o que você está fazendo?– perguntou Ka.
–O trabalho dele, oras.– respondeu Talazar que subia a trilha atrás deles.
Talazar passou pelos três, andou até Deluge e lhe deu uma mala preta. Ele a abriu e viu que estava cheia de notas de dinheiro.
–Talazar, o que significa isso?– perguntou Rehena.
–Negócios! Contratei um mercenário para raptar a protetora.
–Deluge. Você...– disse Ka decepcionado.
–Pare de bobagens!– respondeu Deluge se retirando.
–Devolva a sacerdotisa!!– exigiu Rehena.
–Terá que me matar primeiro!!– disse Talazar seguido de uma risada.
Rehena sacou sua espada e Lulua, sua katana.
–Meu trabalho acabou por aqui.– disse Deluge se distanciando mais.
Ele subiu a cachoeira por uma trilhazinha ao lado e foi embora.
–Está pronto para lutar, Ka?– perguntou Lulua, mas ele não respondeu.
Quando ela se virou, ele não estava lá. Havia sumido como quando lhe dera um susto outro dia.
–Aquele garoto burro foi atrás do outro garoto burro.– disse Rehena.
–Calem a boca e lutem!!– reclamou Talazar enquanto saltava em direção a Rehena lhe dando um golpe. Ela o defendeu com sua espada.
Chegando ao topo da cachoeira, Deluge encontrou Ka, sentado em uma grande pedra, esperando-o. Lá era uma espécie de lago com pedras que formavam uma trilha para o outro lado.
–Achei que não viria.– disse Ka.
Deluge andou de pedra em pedra em sua direção, Ka não se moveu e observou Deluge vir. Ali, a água, mesmo com uma correnteza um tanto forte, não passava dos joelhos. Ao chegar à sua frente, Deluge permaneceu olhando à frente, para a pedra e Ka, a cabeça de Deluge. Deluge contornou a pedra grande e continuou andando para ir embora. Ka se levantou sem desviar os olhos de onde Deluge havia parado e disse:
–Vai embora assim de novo?!
Deluge continuou andando como se não ouvisse.
–Vai fugir a vida toda porque tem medo de me enfrentar?
Ele, então, parou entre um passo e outro. O pé que estava atrás, só tocava o chão pela parte dos dedos.
–Eu tenho meus motivos e você os seus. Esqueça de mim e se preocupe com suas coisas.– respondeu ainda imóvel, do jeito que havia parado.
Ka abaixou a cabeça rindo, ficou então olhando a palma de sua mão direita, pensando no passado.
–Tsc! Pro inferno essa aula extra.– disse Deluge no saguão principal do colégio, que nesse horário estava quase vazio devido às aulas estarem em curso. Só se via alguns alunos do último ano, sentados numas mesas conversando. –Como se eu precisasse disso. O que esse diretor de meia tigela acha que está pensando?
–Você vai às aulas extras depois do horário?
–Como se eu fosse ser expulso e ficar quieto...– ele não havia escutado Ka. –Nunca ouvi falar dessas suas aulas!– e deu uma risada malévola e frustrada ao mesmo tempo.
–Ei! O que você vai fazer agora?
–Vou pra casa comer e dormir. Amanhã faremos a aula.
Deluge pôs o peso do corpo sobre os dois pés e se virou para observar Ka em cima da pedra. Era como se ele soubesse que estava lembrando o passado.
No dia seguinte, antes do início das aulas, Ka estava com um envelope na mão. Deluge o pegou e abriu. Lá havia uma ficha de um aluno.
–O que é isso?– ele perguntou.
–É o aluno novo.– Ka respondeu. –Se você estivesse prestando atenção ao diretor, saberia. Ele mandou que tomássemos conta desse tal de...– ele pegou a ficha. –Gradius Schneider.
Eles estavam novamente no saguão principal do colégio.
–Então tá. Hoje! Há um cara que meu grande ego tem que assassinar.– Deluge disse alto ao vento. Todos no pátio olharam para ele. –Não posso perdoá-lo por me expulsarem do colégio.
–Sim, você é o cara.– disse Ka de braços cruzados, com a ficha em uma das mãos e o envelope noutra.
–Quando é que aquele retardado chegará aqui?– Deluge estava impaciente e com raiva. –Nós estamos esperando há uma hora!
Gradius Schneider, um garoto magro, cabelos ruivos e lisos na altura das orelhas, sardas no rosto, olhos castanho claros, usava um... terno? Subia as escadas que davam na entrada do colégio.
–Que escola maravilhosa.– ele disse sozinho, apreciando o enorme castelo enquanto chegava ao fim da escada.
–Você que é o Gradius?– perguntou Ka.
Gradius desceu seu olhar para Ka e Deluge.
–São vocês que irão me mostrar a escola?– ele perguntou.
Ka deu um sorriso travesso.
–Você é novato, já está atrasado e ainda quer que lhe mostremos o colégio?
–Não me interessa quem você é.– disse Deluge apontando para Gradius. –Não perdoarei ninguém que tente me expulsar daqui. Pode vir!– Deluge se afastou de Ka uns quinze metros. Agora os três formavam um triângulo.
Os olhos de Gradius liberaram uma espécie de raiva interna.
–Você me enoja.– ele disse. –Se você lutar contra mim, eu não poderei garantir a integridade do seu corpo.– Gradius andou a frente até ficar entre Ka e Deluge.
–Se é uma briga que você quer, é uma briga que você terá. Vamos nessa, Ka.– Deluge disse.
–Droga!– murmurou Ka. –Era você quem queria brigar, mas...– ele guardou a ficha e o envelope nos bolsos. –Se vamos fazer isso, não perderemos.
–Certo!
–Vamos lá!– Gradius disse afastando as pernas e cerrou os punhos.
Eles ficaram se encarando por um tempo. E então, finalmente, Gradius correu em direção a Deluge e pulou. No ar, deu um salto mortal para frente e tentou acertar um chute vindo de cima, com a parte de trás do pé esquerdo, na cabeça dele, mas Deluge defendeu usando os pulsos cruzados.
–Não pegue leve comigo!– Deluge disse entre dentes.
Nesse momento, Ka veio correndo e quando Gradius voltou os pés ao chão, Ka tentou um soco de esquerda. Gradius defendeu com o braço direito, afastando para fora e usou seu punho esquerdo para ferir um golpe no estômago de Ka. Este caiu de costas no chão a uma distância de uns dois metros longe de Gradius. Gradius ficou ereto.
–Ah, isso dói demais!– disse Ka segurando a barriga.
Droga, ele não está lutando sério, pensou Deluge.
Deluge pulou e deu um chute com a perna esquerda, na cabeça de Gradius, vindo de seu lado direito, mas ele se abaixou. Aproveitando o impulso e o giro, Deluge tentou um chute com a perna direita, mas Gradius pulou para trás. Antes que ele pudesse reagir, Ka já vinha por trás com um soco, mas Gradius foi mais rápido e lhe deu um também. Ká só teve tempo de defender com o braço e acabou sendo jogado para trás caindo de pé ao lado de Deluge.
–Vamos fazer aquilo, amigo.– disse Deluge.
–Aquilo, certo?– respondeu Ka.
“Aquilo”?, Gradius se perguntava.
–Ouça e fique perplexo, veja e trema!– disse Deluge.
–Você não quis dizer pra eu rir?– respondeu Gradius.
–Vamos mostrar o poder da nossa amizade.
–Isso mesmo.– interveio Ka. –Um poder infinito que você jamais viu!
Gradius permaneceu no seu lugar.
–Vamos lá.– disse Ka.
–Sim.– respondeu Deluge.
–Venham!– disse Gradius num tom desafiador. –Vou acabar com isso no próximo ataque.
Ka e Deluge correram em sua direção. Deluge correu mais rápido e parou de repente na frente de Gradius. Sua pisada rachou o chão e seu soco, emanava uma espécie de névoa azul saindo de seus poros, mas Gradius havia movido sua cabeça para a esquerda e o soco acertou o nada próximo à orelha direita dele.
Gradius deu uma rasteira em Deluge, e o empurrou com suas costas para cima e atrás. Ka pulou de ombros em Gradius, da mesma forma que se arromba uma porta, porém ele defendeu com os braços e o jogou de volta para trás. Deluge e Ka aterrissaram no chão e no mesmo instante correram para Gradius, cada um vindo de um lado. Ambos cerraram os punhos emanando a névoa e Gradius flexionou os joelhos e abriu as mãos a fim de segurar os socos.
Ka e Deluge deram seus golpes simultaneamente e Gradius os segurou, mas algo aconteceu. Com o impacto, uma pequena camada de poeira circulava o chão em volta deles e os três foram engolidos por uma bolha azul transparente que depois explodiu. Quando a fumaça baixou, lá estavam Ka e Deluge caídos na leve cratera do chão, atordoados, e Gradius apoiando as mãos enfumaçadas nos joelhos e ofegante.
Algum tempo mais tarde Ka acordou na enfermaria do colégio. Deluge havia acordado minutos antes e já havia ido embora. O diretor e o professor Corvus chegaram e o professor disse que mesmo com aquela “baderna” de cedo, eles eram bons alunos... “fanfarrões”, mas bons alunos. O diretor, então, retirou as aulas extras deles e os promoveu ao nível Linha. Quando Ka se recuperou das dores, retornou para casa.
À noite seus olhos pareciam que pesavam dezenas de quilos, Ka não conseguiu lutar contra a vontade de fechá-los e então tudo escureceu. Um barulho estranho se ouviu na janela do quarto, que o fez acordar assustado. Garras arranhando a janela. Ele viu que estavam abertas, deixando o vento entrar e fazer as cortinas dançarem ferozmente. Mas não havia nada lá. Seu coração batia tão forte que seus ouvidos doíam. De alguma forma ele percebeu que a coisa não estava mais na janela, e sim em baixo da cama.
Ele se sentou abraçando os joelhos e procurando no quarto todo. A coisa deu uma risada abafada e tudo ficou quieto. O vento, as cortinas, a respiração de Ka. Até a Lua havia se escondido. Então, na parte escura do quarto, onde nem a fraca iluminação que agora havia, chegava, um par de olhos vermelhos surgiu. Eles estavam olhando diretamente nos olhos de Ka e sequer piscavam. Sua garganta ficou seca e sua voz havia sumido.
Uma boca da “coisa” havia aberto, ele sentia. Não dava pra ver, mas estava aberta. E por um instante muito rápido, ele avançou em Ka e o engoliu. Ignorando a dor da sua garganta, ele gritou. Aquilo ecoou pela vizinhança inteira, mas aparentemente ninguém parecia ter ouvido. E sua visão escureceu. Havia desmaiado.
Na manhã seguinte, lá estava Ka, deitado em posição fetal, tremendo, com os olhos vermelhos e cheios de olheiras. Aquela imagem da noite anterior não saía de sua cabeça de jeito algum. Então, o despertador tocou –seis e meia: hora de levantar e ir para a escola.– e ele levou um susto tremendo que acabou caindo da cama.
O relógio ficou algum tempo tocando até que Ka resolveu se levantar e desligá-lo. Ele entrou no banheiro e tomou uma ducha fria para acalmar os nervos. Quando estava saindo, ouviu aquela risada novamente. Olhou para a janela, mas não havia nada. Abaixou para pegar os tênis em baixo da cama e também não havia nada lá. Ele se vestiu, pegou sua mochila e foi para a sala. Aparentemente a comida da noite anterior ainda não havia sido digerida, –ou talvez nunca fosse– mas mesmo assim decidiu tomar café.
Jogou sua mochila no sofá, pôs um copo de leite na mesa de centro e sentou se olhando para a TV desligada. Ele, então, bebeu seu leite e saiu para a rua. Embora o inverno estivesse chegando, Ka não se importava de ficar sem casaco. O céu estava nublado e as ruas estavam estranhas. Mal sabia ele que sua vida mudaria naquela manhã.
Ka desceu pelas escadas da frente e saiu pela porta. Estava tudo deserto. Ele seguiu o caminho de sempre, passou por uma praça onde criancinhas deveriam estar brincando, mas não havia ninguém. Passou por um conjunto de casas onde tinha uma loja de conveniência que vivia lotada. Ninguém! Ponte que atravessava o rio que rasgava a cidade ao meio? Nada! Ele chegou ao centro da cidade. Um som de motor vinha de longe, atrás. Dois, não, três. Três aparentes carros estavam vindo. Carros pesados, por sinal. Ka parou no meio da rua e esperou. À sua frente, na calçada havia um carro queimado.
Então, três carros blindados estilo tanque viraram a esquina e vinham em sua direção. Ele se virou para fugir, mas uma multidão enfurecida vinha, também em sua direção. Tanques à esquerda e pessoas à direita. Os tanques pararam e dezenas de soldados saíram. E à pé vinha mais. As pessoas jogavam bombas de fumaça, viravam carros, ateavam fogo às lixeiras. Os soldados, com escudos e cassetetes vinham marchando em sincronia. Rapazes sem camisa pulavam em cima dos carros. Diversas pessoas corriam assustadas.
Os soldados formaram uma parede humana da largura da rua, batendo com seus cassetetes nos escudos e do outro lado as pessoas fizeram o mesmo. Uma até jogou um estopim que fez uma poça de fogo no meio da rua. Então, as pessoas correram na direção de Ka. Ele não sabia o que fazer. Não havia como lutar com todas aquelas pessoas ao mesmo tempo. Os civis se aproximavam até que, passaram direto por ele. Algumas esbarrando em seu ombro, mas todas empurrando os soldados. Bombas de fumaça vinham do céu, assim como os rapazes que estavam em cima dos carros. Homens e mulheres brigavam contra os soldados com bastões.
Ka tentava sair do meio da multidão, mas elas o esbarravam e o empurravam e ele perdia o equilíbrio. Ele ouviu uma risada maléfica seguida de uma voz sombria, vinda do além, chamando seu nome.
–Assustado, Ka?– disse a voz sombria.
Ka, então, se viu no meio do espaço cheio de estrelas e planetas. Como as pessoas poderiam ter sumido assim?
–Quem está aí?– ele perguntou. –O que é isso tudo?
–Sou eu...– respondeu a voz.
–E quem é você?
–Eu sou...– respondeu a voz, mas quando disse seu nome, Ka a ouviu distorcida.
–O quê? Eu não consigo te entender.
–Você é patético. Como nunca me notou dentro de você todo esse tempo?
–Todo esse tempo? Quanto tempo?
–Muito tempo.– respondeu e deu mais risadas malévolas.
–Por que você resolveu aparecer somente agora?
–Eu venho aparecendo para você toda noite. Está na hora de você conhecer seu verdadeiro poder.– a voz começou a ficar distante. –E está na hora de começar...– até que sumiu completamente.
–Espere! Começar o quê?
Ka, então, estava de volta na guerra e olhou para os lados, mas todos estavam lá, como se ele não houvesse sumido por alguns minutos. Como se aquilo tivesse ocorrido em menos de um segundo. Eles não viram o que aconteceu? Não perceberam que eu havia sumido por alguns instantes? Eu realmente sumi?, ele se perguntava. Alguns prédios começaram a pegar fogo.
A voz do além voltou dizendo:
–O que foi, Ka? Não consegue impedir a matança desses humanos? Você irá morrer também se continuar assim.
–O que é tudo isso?
–O futuro. SEU futuro.– ele deu uma risada contida.
–O quê você disse? Foi você quem começou isso, não foi?
–Pegue meu poder emprestado para trazê-lo de volta. Seu amigo não pode fugir assim.
–Amigo?
Então muitas vozes soam da cabeça de Ka. A voz do além, as pessoas na rua gritando, vozes que ele nem sabia de onde vinham, mas estavam lá. Ele estava confuso com todas as vozes. Sua cabeça doía, parecia que ia explodir.
–Calem a boca! Não consigo ouvir meus pensamentos.
–Pegue meu poder emprestado, Ka...– insistia a voz.
As vozes continuavam deixando a cabeça de Ka mais dolorida. O que o fez se curvar para frente. Um zumbido agudo vinha da parte mais obscura de sua mente.
–Cale-se!– disse Ka entre dentes.
A voz começou a rir com o desespero de Ka e tudo começou a tremer. Ele sentiu vontade de gritar. Seus instintos o fizeram pensar que seu grito abafaria as vozes. Foi o que ele fez: ficou de pé e gritou para o céu. Todos que estavam perto foram jogados no chão devido ao poder que saía de seu corpo. As que estavam mais longe, tropeçaram e caíram sentadas. Os carros viraram e as pessoas estavam deitadas inertes. Era um círculo vazio de cinco metros de diâmetro, com Ka no meio. Os prédios tremiam, e pedaços da estrutura caíam. Linhas te fumaça saíam e postes tombavam.
–Odeio gente.– ele murmurou. –Odeio barulho.
Nesse momento, os blocos de pedra das ruas começam a sair do chão e flutuarem perto de Ka. O ar próximo ao seu corpo estava tremendo, como se houvesse um fogo transparente saindo de Ka. Ele avistou Deluge ao longe, o olhando. As pessoas estavam no chão, paralisadas. Ka observou a destruição ao seu redor. Tudo pegando fogo, neblina e fumaça, flocos de fuligem no ar. Ka voltou a Deluge. Eles se olhavam nos olhos, a visão de Ka estava escurecendo. Deluge deu um sorriso malvado, balançou a cabeça negativamente. Ka deu um meio sorriso e viu Deluge se virar e partir. Com a pouca visão que lhe restava, ele se voltou para a palma de sua mão direita, que na época ainda não tinha a manopla, pensando em todo aquele poder. E tudo virou breu. As pedras, que estava flutuando, caíram no chão e tudo parou de tremer.
Ka estava novamente no presente, ainda observando sua mão. Ele apertou bem forte seu punho e olhou, atrás, para Deluge.
–Vamos lutar!!– disse ele.
–Não tenho por que lutar com você.
–Vamos resolver o que temos, aqui e agora!!
–Não temos nada. Você que colocou essa idéia na cabeça.
Ka pulou em direção de Deluge e lhe deu um soco com a mão direita. Deluge o agarrou com sua mão esquerda.
–Entendo.– disse Deluge olhando para a mão dele. –Você se culpa pelo que aconteceu com seu braço e tenta resolver a todo custo.
Ka puxou seu braço que se libertou de Deluge e lhe deu uma seqüência de socos e cotoveladas dos quais foram todos defendidos, sendo o último agarrado de novo.
–Eu fui embora da vila por vontade própria. Queria viver minha vida. –Deluge disse.
–É?! Como mercenário?– respondeu Ka. –Sequestrando garotas indefesas?!!
–Como eu disse: Eu tenho meus motivos e você os seus.
Ka apertou seu punho e o levantou que consequentemente fez o braço de Deluge também levantar. Ele lhe deu um chute no estômago fazendo Deluge dar uns três ou quatro passos desengonçados para trás.
–Olhe seu braço direito. Você o escolheu assim e tem seus motivos para isso.
Enquanto isso, lá em baixo, na base da cachoeira, Rehena e Lulua lutavam contra Talazar afim da liberdade da sacerdotisa/protetora. Talazar executava ataques fortes contra Rehena que defendia todos, mas seus braços já estavam cansados de tantos golpes. Lulua tentava chegar o mais próximo possível de Kira para libertá-la, porém Talazar a impedia. Este era um grande cavaleiro e sua bravura o fazia vencer inúmeras lutas mesmo à beira da morte. Rehena sempre fora sua pupila e o acompanhou desde pequena presenciando suas vitórias. Lulua passou a infância treinando magia branca e luta com espadas, então também não era uma oponente fácil para Talazar. Ele tentava atacar Lulua e Rehena, juntas, enquanto defendia os seus ataques.
–Talazar, porque está fazendo isso?– perguntou Rehena.
–Por dinheiro, é claro... e poder.– respondeu. –Você tem idéia do quanto estão pagando pela cabeça da sacerdotisa que protege as esferas sagradas? E do poder que vou conseguir depois de usá-las?
–Seu maldito!! Você pretendia traí-la esse tempo todo, então.
–É claro, eu nunca gostei dessa história de proteger uma garotinha num templo. A propósito, aquelas flechas de ontem foi pra dar um charme, tinha que parecer uma vítima também.
Rehena deu um ataque com a espada que foi defendido por Talazar, mas o jogou para trás. Lulua também foi jogada e se espantou com tamanha força. As mãos de Rehena estavam tremendo e ela deveria saber que os nós de seus dedos estavam brancos pela força que segurava a espada.
–Eu sempre respeitei você e sempre o admirei por nunca desistir. Diversas vezes cuidei de você à beira da morte. Agora descobri que meu mestre é um maníaco ordinário!!
Ela segurava sua espada com força. Seus olhos brilhavam de raiva e seu coração pulsava como nunca. Lulua jamais sentira um poder assim antes, nem Talazar. Rehena correu em direção a Talazar para dar-lhe um golpe e Talazar se preparava para acertá-la. Lulua, vendo que aquela poderia ser a morte de Rehena, entrou na frente dela e defendeu o ataque de Talazar. A espada de Rehena passou direto, pelo lado, errando os dois.
–Você não pode sair correndo e dar um ataque mostrando o que vai fazer!!– bronqueou Lulua com Rehena.
Rehena ficou paralisada pensando no que poderia ter acontecido.
–Não fique aí parada!! Ataque, eu estou o contendo!!!– bronqueou novamente.
Rehena voltou com seu olhar de raiva.
–A vida é curta...– ela começou a recitar algo. –Inundando sua existência, enterrando sua vida, sepultando seu corpo e ocultando sua alma. O gelo que lhe cobre é feito da mais pura água. Veja o que lhe aguarda após isso aqui!!
A névoa ficou mais densa e as gotas de sereno viraram flocos de neve.
–O quê?! O que é isso?– espantou-se Talazar. –De onde saiu toda essa energia espiritual?
–Eu sempre o admirei, mas também sempre quis te vencer em uma batalha. Então treinei escondida. Agora você verá o resultado.
A atmosfera em volta de Talazar ficou mais fria. Talazar olhou para suas mãos, e percebeu que seus dedos estavam congelando.
–Lâmina das Sombras Congelantes!– gritou Rehena lançando seu ataque.
Antes que Talazar congelasse por completo, Lulua o soltou para que não acontecesse o mesmo e então Rehena cortou o ar à sua frente e uma onda fria atingiu Talazar, transformando seu corpo em um monte de cacos de gelo. Lulua foi jogada para trás e caiu sentada no chão molhado. Rehena relaxou sua mão que segurava a espada e a baixou. A lâmina da espada bateu no chão e Rehena a soltou. Ela caiu de joelhos enquanto respirava ofegante. Lulua se levantou e foi até Rehena para ajudá-la. Enquanto ajudava-a a se sentar, ela se lembrou de Kira e a desamarrou, que a agradeceu imensamente.
Voltando ao topo da cachoeira, Ka e Deluge estavam lutando e discutindo. Deluge tentando ir embora e Ka tentando fazê-lo ficar.
–Ka, as coisas mudam. As pessoas mudam.– disse Deluge. –Não posso voltar, eu mudei. Você também mudou.
–Não diga besteiras!! Seremos sempre amigos.– respondeu Ka.
–Acha mesmo que isso é verdade? Você quer provar que é melhor que eu, tanto quanto eu quero provar que sou melhor que você.
–Vamos resolver isso de uma vez por todas!!
–Isso é perda de tempo.
Ka não o ouviu e lhe deu um soco no rosto. Deluge cambaleou para trás e revidou com outro soco, e Ka também cambaleou para trás. Ele se pôs de pé, apertou seus punhos, correu em direção de Deluge e o levantou, pelo peito, com o antebraço esquerdo. Antes que Deluge pudesse se recuperar do golpe, Ka se preparou para dar mais um golpe. Deluge não tinha mais defesa, estava a dois palmos do chão. Antes de o soco ser dado, um flash saiu do punho de Ka e ao dar o soco, faíscas elétricas saíram dele. Ao levar o soco Deluge foi jogado bem longe e ao tocar o chão, percorreu um pequeno percurso rolando e capotando até parar. Ele se levantou meio tonto e tossindo tentando ficar de pé.
–Ah, então já que é assim, vamos lá!!– disse Deluge. –Depois de tanto tempo vou lhe mostrar meu divino comportamento quando estava em sala de aula.
Deluge correu veloz e ferozmente em direção de Ka que se espantou. Deluge se preparou para dar um golpe fulminante, mas quando estava quase acertando Ka, ele parou de correr e passou direto por Ka parando um pouco atrás dele. Deluge ficou de joelhos no chão com as mãos na cabeça. Ele estava ouvindo um zumbido muito agudo e ensurdecedor. Ka olhou para trás e se preocupou com o amigo.
–Ei, Deluge. Você está bem?
Deluge apertou suas mãos em sua cabeça e se acalmou. Depois ele se levantou e foi andando lentamente para onde seguia antes de Ka o parar. Então o zumbido ficou mais alto e forte fazendo Deluge se abaixar e gritar.
–Deluge, o que você tem?– perguntou Ka.
–Saia daqui!!– respondeu.
–O que está havendo?
Deluge olhou para Ka com um olhar assassino.
Mas... o que é isso? Que energia maligna é essa?!– pensou Ka.
Deluge ainda gemia de dor e quando Ka foi tocar sem ombro para ajudar, este se levantou e liberou uma grande quantidade de energia jogando Ka da cachoeira.
–Eu disse para sair daqui!!– disse Deluge com voz dupla. –Eu tenho minhas coisas a resolver e vou fazê-las sozinho!
A energia negra parou de fluir e Deluge voltou ao normal.
–O caminho que escolhi é um caminho sem volta e principalmente sem amigos.
Deluge continuou seu caminho. Cambaleando, ele foi lentamente. Ka não havia sido jogado cachoeira abaixo, ele se segurara numa pedra e ao subir de volta viu Deluge desaparecendo na névoa.
–Ka... a partir de hoje nós seremos rivais e quando nos encontrarmos de novo lutaremos e veremos quem é o melhor. Enquanto esse dia não chega seguiremos nossos caminhos e ficaremos mais fortes do nosso jeito.– a voz de Deluge parecia vir de todos os lugares.
–Até lá, então... meu amigo.– ele sussurrou.
Então, a pedra, onde ele estava agarrado, rachou e quebrou, fazendo-o cair na base, onde Lulua, Rehena e Kira estavam. O vento gelado batia em seu rosto e quando entrou na água, foi como se houvesse agulhas congeladas em cada centímetro de seu corpo. A água queimou seus olhos, pois se esquecera de fechá-los. Os poucos segundos naquela água congelante, foram suficientes para deixá-lo sem ar. Subiu para a margem e inspirou com toda a força. O ar gelado fez a garganta e os pulmões arderem, mas recobrou o ar. Era a segunda vez no dia em que havia caído e se molhado.
–Você está bem?– Kira perguntou, ajudando-o a se levantar.
–Sim.– respondeu tossindo.
–Onde está Deluge?– Rehena perguntou.
–Foi embora.
–Então vamos também.
***
Os quatro voltaram à cidade de Lulua para deixá-la e continuarem para o templo. Ka e Rehena haviam levado Kira em segurança de volta. Isso significa que ele teve que carregá-la nas costas, pois os tornozelos estavam machucados pelas amarras.
–Muito obrigada, Ka!– agradeceu Kira. –Você salvou a minha vida, tenho uma dívida eterna com você.
–Não, tudo bem. Você não me deve nada.– respondeu Ka com timidez. –Os créditos são de Rehena e Lulua. Elas fizeram tudo.
–Então tudo bem.
Kira ficou de frente com Ka e repentinamente lhe abraçou forte e beijou seu rosto.
–Acha que isso resolve?– ela disse.
Ka sem saber exatamente o que aconteceu, ficou parado e confuso.
–Hã... dãh.– foi o máximo que conseguiu sair de Ka.
Ele se virou para Rehena que estava em seu lado e a olhou. Ela o olhou também e a luz do sol que entrava pelo grande vitral que havia lá, iluminava tudo transformando o lugar num cenário muito bonito. Colorido. Quase como se um arco-íris estivesse lá dentro. Ka andou em direção à porta da saída e ao chegar lá, parou e olhou para trás.
–Rehena Braveheart. Espero te encontrar por aí de novo.– ele disse.
Rehena respondeu que sim com a cabeça e Ka foi embora.
–Esse Ka. Ele é diferente.– disse Kira a Rehena. –Tenho boas esperanças quanto a ele.
Também espero te encontrar novamente, Ka. pensou Rehena.
Notas finais
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Revisado por Magdalena Cunha
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