Capítulo 1: Clockwork

A chuva não dava trégua há 3 dias em Hogwarts, e Rosalinda Fox estava começando a achar que se tornaria parte das paredes de pedra do castelo em breve. Não conseguia ter a paz de ir de uma estufa de herbologia à outra sem molhar todo seu cabelo.

Era o último ano de estudos e em breve entraria para a turma de treinamentos de cura, uma especialidade que tinha conquistado após estudar exaustivamente por três anos, até durante as férias, para o NIEMs. Ao pensar nas noites em que ficou acordada respondendo longos questionários e procurando livros particularmente agressivos na sessão restrita, sentiu arrepios na espinha. Mal podia esperar e só de imaginar as coisas que aprenderia e todas as roupas bonitinhas que poderia combinar com uma bata de curandeira deixavam Rosa sem fôlego.

Alguém bateu na porta de seu quarto, que dividia com Flora. Ela achava uma coincidência enorme ambas terem um nome que remete a flores, poético. Costumava achar que dividir o quarto era um destino perfeitamente traçado por Merlin.

— Pode entrar – disse, olhando por cima do ombro enquanto uma garota de cabelos cacheados volumosos e pretos adentrou seu quarto – Ah, Lucile, já estava a caminho! – Colocou o cachecol em volta dos ombros arredondados e levantou-se da poltrona, pronta para enfrentar o frio cortante dos corredores.

Rosalinda não era do tipo calado, muito pelo contrário, adorava falar. E Lucile já estava acostumada com aquilo, presumia. Nunca tinha reclamado da enchente de palavras que, eufórica, Rosa costumava despejar em seu ouvido.

— Programei passeios divertidos pra gente… Até Hogsmeade, vamos com a Flora – disse, olhando Luci com o canto dos olhos. Um sorriso animado no canto da boca denunciava a empolgação – Também quero assistir a todos os jogos de quadribol possíveis – completou, apertando as mãozinhas. As unhas grandes e pintadas num tom de rosa perolado apertadas contra a palma das mãos – E vamos tirar muitas fotos em todos os cantos da escola… Preciso de recordações. Depois só vamos nos encontrar pelos corredores do Ministério, não tem graça! – articulou, dando os ombros ao final. Encarou Lucile, esperando uma resposta.

— Por mim tudo bem – disse, dando um sorriso leve sem mostrar os dentes. Lucile não era do tipo falante, sempre resumia suas respostas a acenos com a cabeça, expressões de apoio e atenção a cada palavra que alguém dizia. Não gostava de sair, mas contanto que estivesse antes das dez em sua cama, com os cabelos penteados e a pele fresca, sempre estaria lá.

E com esse sentimento de bons amigos, Rosalinda suspirou profundamente, sentindo o ar gelado adentrando seus pulmões, enchendo seu dia de vida. Seriam ótimos dois meses finais de Hogwarts, tinha certeza que nada poderia tirá-los do eixo… Enquanto se perdia em seus pensamentos positivos sobre os próximos momentos de sua vida e os milhares de planos que seu cérebro não conseguia parar de tecer, que Rosa sentiu seu corpo chocar-se contra algo alto, magro e que exalava um odor fresco de manhãs de inverno. O impacto fez com que a garota fosse levemente jogada para trás, batendo suas costas contra a parede de pedra fria. Antes que sua cabeça pudesse bater, alguém a puxou pelo braço de sopetão e, com um tranco, voltou a firmar-se com seus próprios pés. Sentiu-se atordoada. Draco Malfoy a encarava com desdém, o mesmo olhar de sempre, nenhum tipo de empatia dentro deles.

— Vocês deveriam parar de encarar os sapatos e prestar atenção por onde andam… – disse, como num sussurro odioso – Mas acho que olhar para os pés é o que os medíocres devem continuar fazendo, então não está tão errado – Ele riu com desdém, olhando para os amigos que caminhavam atrás dele – Escória mestiça – ralhou, olhando para Lucile de cima.

Quando Rosalinda ouviu as palavras de Draco, seu coração bateu mais forte e, como num reflexo, desferiu um tapa rápido com as costas da mão, que atingiu a nuca do rapaz que acabara de largar seu braço e caminhava para longe dela pelo corredor frio. O estalido do impacto rompeu alguma barreira invisível, fazendo com que todas as conversas cotidianas no corredor cessassem. Malfoy virou-se com as orelhas vermelhas e a testa enrugada, os olhos em chamas encarando Rosalinda.

— Nunca mais diga isso, seu cretino obtusocéfalo – revidou o olhar com palavras, antes que elas pudessem sair da boca do garoto – Esse tipo de ideia imunda não tem espaço nessa escola – continuou, enquanto Draco Malfoy avançava para cima dela, levando-a a dar alguns passos de volta até a parede, mesmo que suas pernas firmes resistissem. Sentiu seu nariz e suas bochechas pinicando, o coração batendo rápido, inflamado de raiva. Agora, o rosto de Draco estava muito próximo ao seu, a expressão odiosa começando a tornar-se escárnio.

— Quem você pensa que é para falar assim comigo, Fox? – perguntou num tom baixo, mas agressivo – Quem você acha que é… – continuou, aumentando o tom de voz aos poucos – Para tocar em mim com essas suas mãos imundas?

Draco deu uma risada aspirada, com tom de deboche enquanto encarava Rosalinda diretamente nos olhos, como se estivesse fuzilando-a na alma.

— Se eu fosse você, Fox, eu me recolheria à insignificância de ser quem você é… E meu pai vai ficar sabendo disso. – Afastou-se rapidamente, com o queixo apontado para o alto, orgulhoso. Deu uma última olhada para a garota, que agora tinha o rosto todo vermelho e sentia que seu coração ia sair pela boca.

Enquanto ele ia embora com a dupla de amigos pelo corredor, a passos largos e apressados, Rosalinda sentiu-se acabada. Seu pai trabalhava para Lúcio Malfoy e era dali que vinha o dinheiro para pagar as contas, assim como a manteria em Londres enquanto fazia o curso de curandeira. Não era justo que seu destino fosse decidido agora por um espécime asqueroso como aquele por conta de um ato nobre de defender uma amiga de um insulto imperdoável. Mas, naquele momento, Rosa arrependeu-se de ter saído do quarto.

**

— Quase não pude entrar, a águia de bronze está começando a ficar enferrujada – comentou Flora, batendo a porta do quarto ao passar por ela. A garota não era do tipo cuidadosa – Demorou quase dois minutos pra me deixar entrar e eu precisava muito ir ao banheiro…

Flora parou de falar assim que seus olhos encontraram a figura de Rosalinda na poltrona azul que ficava no canto do quarto, com as pernas e os braços esticados, fitando o teto de pedra sem piscar.

— Tá tudo bem? – aproximou-se lentamente, olhando a garota de cima com uma das sobrancelhas arqueadas.

Rosalinda olhou para o rosto de Flora e bufou, sentando-se ereta na poltrona — Acontece que eu estapeei o Malfoy – começou, pronta para derramar as palavras sem parar – Ele chamou a Lucile de mestiça imunda, me deu uma raiva enorme disso e quando eu vi, ele já estava me colocando contra a parede e…

— Contra a parede? – Flora franziu a testa, sentando-se na cama em frente à poltrona, interessada. Rosalinda tinha o talento de sempre, sempre arrumar alguma confusão com membros de outras casas. A Corvinal tinha começado a ter uma fama terrível desde que a garota tinha entrado na puberdade, não conseguia segurar a língua. E aparentemente também não conseguia segurar os braços – Isso não é um pouco romântico?

— Ai, claro que não Flora! – reclamou Rosa, levantando-se e tirando o cachecol do pescoço. Desde a hora que havia voltado pro quarto, após duas aulas de Poções, não tinha tirado nem os sapatos.

Na aula de Poções, Lucile e Rosa costumavam sentar-se em uma das mesas mais próximas dos armários. Snape gostava de Lucile e estavam desenvolvendo alguns projetos juntos, então elas sempre sabiam onde encontrar certos ingredientes e, estar estrategicamente perto do estoque fazia toda a diferença na hora de selecionar os mais frescos. O problema era que Draco Malfoy também fazia essa aula com elas e, sabendo da preferência das duas pelas cadeiras do fundo, procurou sentar-se ali, sozinho, antes que elas chegassem. E isso fez o rosto de Rosalinda esquentar novamente. Dessa vez não de raiva, mas de constrangimento. Temia causar problemas ao pai. Por isso, naquele dia, sentaram-se mais perto da porta e, pelo menos por isso, ela poderia sair correndo mais cedo e evitar causar mais problemas.

— Ele me encarou a aula de Poções inteira, ele vai acabar com a minha vida – reclamou, prendendo os cabelos volumosos em um rabo de cavalo enquanto terminava de contar o ocorrido à colega de quarto – Inclusive, por que você não foi pra aula de Poções?

— Tive treino de quadribol – retrucou Flora de imediato, seguindo a colega de quarto pelo recinto. Agora ela andava de um lado para o outro – Estamos chegando perto das finais, sabe? Se a gente ganhar da Grifinória no próximo jogo, vamos contra a Sonserina e provavelmente ganharemos.

— Espero que vocês surrem a droga do Draco Malfoy – praguejou, vestindo a camiseta do pijama azul marinho – Espero que ele caia da vassoura e quebre todas as costelas.

— Eu também – Flora riu, piscando para a amiga – Preciso muito de um banho, bati em mil mariposas enquanto treinava, devo estar cheirando a asinhas torradas – a garota se levantou, indo em direção à porta com uma pequena trouxinha de roupa nas mãos. Antes de sair, encarou a amiga que agora esticava o cobertor para dormir – Não vai sonhar com garotos loiros te colocando contra a parede…

— Ai, cala boca, Flora! – reclamou Rosa, jogando-se para debaixo do cobertor – Ele disse um absurdo pra Lucile, isso é imperdoável e…

— Te fez superar o que você sente por ele? – questionou Flora, puxando a maçaneta e saindo do quarto antes que a outra pudesse argumentar.

**

Há cerca de 12 anos Rowan Fox havia começado a trabalhar para Lúcio Malfoy. O emprego no Ministério, como mediador de direitos dos seres mágicos, não pagava nada bem e sua filha tinha que ter condições melhores de vida… Iria estudar em Hogwarts, os uniformes eram caros, as corujas eram caras e as varinhas nem se fala!

Por isso, quando o jovem Lúcio entrou no seu cubículo mofado no setor jurídico, Rowan viu nele uma grande oportunidade. O homem queria expandir seu território na região de Cúmbria, onde tinha uma plantação humilde de Acônito próximo a um lago onde viviam sereianos. Lúcio contou que, recentemente, seus funcionários haviam sido atacados pelos seres que viviam no lago e alguns deles, fatalmente haviam morrido.

Rowan sabia que Lúcio mentia, já que era muito conveniente que a plantação de Acônito estivesse próximo a um lago com propriedades mágicas importantes… Era a oportunidade de mostrar que poderia ser útil, é claro.

— Claramente são sereianos hostis – concluiu Lúcio após contar seu grande problema, encarando o funcionário com certo desdém. Rowan conseguia sentir a superioridade que o outro exalava, mesmo quando não dizia nenhuma palavra – São bestas!

— Feras – corrigiu Rowan, puxando uma pena e uma pergaminho-formulário. Deu um breve tapinha na pena, que começou a escrever sozinha enquanto ele falava – Sereianos hostis, que matam bruxos inocentes que estão fazendo seu trabalho são classificados como “feras” no Ministério da Magia e devem perder o direito de propriedade sobre o lago imediatamente!

— Ora, nunca concordaria mais com algo como concordo com você, senhor… – olhava fixamente para Rowan, com os olhos apertados, tentando ler o pobre homem.

— Fox. Rowan Fox – respondeu, com um sorriso nervoso. Sentia que suava nas costas e sua camisa poderia estar muito molhada quando se levantasse. Por isso, iria manter-se sentado para continuar com a dignidade. Continuou a ditar para a pena – Sugiro deixar, por ora, a tutela das terras nas mãos de Lúcio Malfoy, que já conhece o lugar e tem funcionários competentes cuidando da região… Posteriormente realizaremos uma investigação, mas submeto essa parte como não urgente.

Com outro tapinha na pena, ela caiu sobre o pergaminho, inanimada. Suspirou, sorrindo nervoso novamente, encarando Lúcio – que se levantava com pressa, segurando um bastão de duelo na mão esquerda, esticando a outra por cima da mesa para saudar o funcionário do Ministério que acabara de ajudá-lo com tanto afinco.

— Muito competente, eu diria – comentou, enquanto Rowan apertava sua mão, um pouco suada – Seu excelente trabalho vai ser recompensado se tudo sair bem – o loiro soltou o aperto de mãos, secando discretamente a palma da sua contra a capa preta perfeitamente passada – Espero vê-lo novamente com boas notícias, senhor Fox.

Sem mais delongas, Lúcio se foi e Rowan Fox jogou-se na cadeira, aliviado e muito nervoso. Ele nunca foi do tipo corrupto, tampouco fazia mais do que o necessário no trabalho… O salário não valia o esforço. Mas naquele momento, sabia que o homem que adentrou seu cubículo poderia muito bem mudar a situação em que sua família vivia.

E foi exatamente o que aconteceu, foi como ganhar na loteria. Duas semanas depois, quando Lúcio finalmente conseguiu o controle sobre o lago das “feras” sereianas, uma coruja chegou em sua casa.

“Convido-o para um chá em minha propriedade, para discutirmos negócios”, dizia o breve cartão. “Gostaria de conhecer a sua família”.

O acordo transformou a casa dos Fox. Nos anos que se seguiram, Rowan deixou de ser um funcionário de vestes puídas e se tornou uma das engrenagens ocultas de Lúcio Malfoy. Para Rosalinda, a mudança chegou na forma de pequenos luxos: suas roupas se tornaram melhores, mais coloridas, os livros da casa passaram a ser novos e não mais exemplares consertados comprados numa loja qualquer no Beco Diagonal. Quando iniciou sua vida em Hogwarts, pôde comprar um uniforme novo, sapatos de couro, um caldeirão novinho e uma varinha de cedro que a escolheu aos onze anos.

O dinheiro comprava o conforto, mas exigia o silêncio. Sua casa vivia sob uma atmosfera de tensão e seu pai, embora com os bolsos cheios, exibia feições cada vez mais pálidas e assombradas. "Nunca mencione os nossos negócios, Rosa", ele sussurrava, checando as trancas das portas com força excessiva. "E nunca, sob hipótese alguma, fale sobre os Malfoy. As paredes têm ouvidos. Eu trabalho somente para o Ministério da Magia!"

E foi nessa neblina de segredos, acompanhando o pai em esporádicas visitas à Mansão Malfoy, que Rosalinda observou Draco crescer. Muitas vezes instruída a esperar em silêncio no imenso saguão de piso frio, ela via o garoto deslizar pelas escadarias. Tinham a mesma idade, mas o abismo entre eles era medido em galeões e purismo de sangue. Lúcio jamais permitiria que o herdeiro convivesse com a filha de um burocrata qualquer, então eles existiam na periferia um do outro. Um olhar furtivo por trás de uma pilastra, um breve aceno de cabeça quando os adultos viravam as costas, ou raras palavras trocadas por puro tédio enquanto os pais manipulavam leis a portas fechadas.

Para uma Rosalinda inocente, confinada à solidão de sua casa e da obrigação de esconder o que realmente pagava a sua vida confortável, aquelas migalhas de interação foram o suficiente para acender um amor platônico. Ele era o garoto loiro, misterioso e inalcançável da mansão escura.

Em Hogwarts, no entanto, a imagem do amor perfeito se quebrou. Longe da vigilância controlada de sua casa, onde tinha que demonstrar uma imagem impávida para o exterior, o menino quieto se revelou alguém sádico e arrogante. Cada risada maldosa nos corredores, cada feitiço lançado pelas costas de alunos mais fracos, e cada palavra carregada de preconceito contra pessoas como Lucile, estilhaçaram a imagem que ela havia construído. A paixão ingênua foi desfalecendo, envenenada pela cruel realidade de quem Draco Malfoy escolhera ser.

E Rosalinda odiava, odiava que seu coração fosse um traidor. Mesmo tendo o estapeado de cabeça quente, cheia de ódio… Mesmo sentindo nojo genuíno pelas crenças puristas que Draco cuspia para todos, a maldita fisgada no estômago ainda acontecia. Seu rosto ainda esquentava quando os olhos cinzentos focavam nela na sala de Poções.

Era sufocante o segredo de Rosalinda Fox. Ela odiava a si mesma por, bem lá no fundo, guardar sentimentos pelo garoto mais desprezível e moralmente apodrecido que já cruzara seu caminho.

Notas finais
Esses dias têm sido muito complicados e por isso resolvi voltar a escrever fanfic (depois de uns 10 anos). Minha escrita pode não ter melhorado muito, mas tenho me divertido bastante. Espero que gostem, é só mais uma história clichê com algum toque de maturidade. Vou escrevendo nos intervalos de burnout da faculdade. Até a próxima e obrigada por ficar até aqui!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.