Zoro e Nara
1 Pai e Filha
Notas iniciais
As folhas das árvores balançavam conforme a melodia que o sopro do vento compunha. Entretanto não era nisso que a concentração da pequena Roronoa estava. Todo o esforço mental que a moreninha fazia era empenhado em seu esforço físico, onde agora ela corria velozmente atrás do ser mais idiota e irritante de todo o Novo Mundo.
― Volte aqui, Seion! Eu vou acabar com você! ― era o que Nara gritava há quase meia hora, enquanto perseguia o primo de consideração. As ameaças, no entanto, não surtiam efeito algum, considerando que o ameaçado permanecia dando gargalhadas enquanto fugia da atitude assassina da amiga.
A intenção de Nara era continuar correndo até alcançar o garoto e assim se vingar de forma lenta e dolorosa do que ele havia aprontado pra cima dela. Contudo, fora impedida pelas mãos fortes e robustas que a agarraram por trás, pela gola de sua camiseta. Ela sentiu seus pés abandonando o chão e só então olhou para cima, já adivinhando quem seria o homem que a erguia.
― O que pensa que está fazendo? ― encarou a filha de modo exigente.
― Executando uma tentativa de assassinato. ― respondeu ela simplesmente, também o encarando, embora tivesse no rosto uma expressão angelical – e muito macabra, diga-se de passagem.
― Não diga isso de forma tão tranquila! ― gritou em uma expressão exagerada de exasperação. Colocou-a no chão novamente, retornando a sua seriedade. ― Eu pensei ter dito que era para continuarem treinando enquanto eu fosse em casa e voltasse. ― cruzou os braços.
― E continuamos, mas aí o Seion resolveu agir como um idiota e eu comecei a perseguir ele para matá-lo. ― embicou fofamente, tentando fazer charme para assim se livrar da bronca.
― Não me vem com essa, sua minipsicopata. Já disse para parar de perseguir esse idiota!
― Mas ele é um idiota! Está sempre me fazendo querer matá-lo. ― retrucou, emburrada, agora também cruzando os braços.
― Também já disse para não xingá-lo. ― repetiu, já perdendo a paciência – que, cá para nós, nunca foi muita.
― Mas você acabou de xingá-lo! ― retornou, igualmente irritada.
― Eu o xingo do que quiser! Eu posso. Você não! ― uma veia saltava em sua testa.
― Isso é injustiça! É contra os direitos humanos, velhote! ― respondeu, acompanhando os gritos do pai.
― Não fique querendo ser uma sabe-tudo igual sua mãe! Pirralha! ― ralhou, baixando o tronco em direção à pequena, apontando o dedo na cara dessa.
― E você pare de ser chato! ― brigou, tomando a mesma pose. A veia saltou mais alto no mais velho.
― Agora já chega disso, pirralha atrevida. ― pegou a garota pela orelha, arrastando-a em direção à trilha que levava até o distrito onde moravam.
― Ai! Isso dói, velhote! ― reclamou tentando se soltar, mas o esforço era em vão. Óbvio que Zoro era muito mais forte que ela.
― Seion! Venha aqui de uma vez! ― chamou sem o mísero resto de paciência que tinha minutos antes.
― Né, tio Zoro. Olha o que eu encontrei! ― o moreninho vinha correndo com um filhote de passarinho nas mãos, o qual parecia estar machucado.
― Onde você encontrou isso? ― questionou ríspido, sem se preocupar se estava sendo assustador ou não. Sua filha tinha o dom de tirá-lo do sério a qualquer instante que tentasse fazer isso. O passarinho se encolheu nos braços do garotinho, piando baixinho, assim que percebeu a áurea maligna que o espadachim exalava.
― Perto daquela árvore lá. ― apontou na direção de onde havia vindo. ― Acho que ele ‘tava tentando voar e caiu. Aí machucou a asinha. ― supôs triste, enquanto fazia carinho na cabeça do animal.
― Então o coloque lá de volta e vamos embora. Sua mãe me mandou levar os dois para o almoço. ― ordenou ainda no tom anterior. ― Aquela bruxa encarnada em demônio. ― resmungou enquanto se lembrava dos gritos da ruiva antes dele voltar ao bosque.
― Mas se deixarmos ele aqui ele pode morrer! ― apavorou-se o pequeno Monkey, que intencionava levar o filhote para casa, onde poderia cuidar dele.
― Não exagere! ― ralhou o outro. ― Ele só machucou a asa. Daqui a pouco a mãe dele o encontra e o leva para o ninho. Anda, vamos. ― gesticulou desdenhando.
― A não ser que um lobo gigante apareça e esteja com fome. Aí ele vai parar no estômago dele antes da mãe o encontrar. ― Nara constatou tranquilamente, enquanto se concentrava em tentar libertar sua orelha esquerda das mãos do pai. O que fez o mais velho engasgar levemente.
― Já disse para parar de dizer essas coisas com tanta tranquilidade! ― gritou irritado com o pessimismo sádico da filha. ― Vamos de uma vez! ― arrastou a garota e chamou o menino, que seguiu atrás dos dois, sorridente, levando o passarinho.
(...)
― Eu pensei que haviam se perdido e algum leão da montanha houvesse os comido. ― comentou calmamente a morena, enquanto punha os pratos sobre a mesa.
― Diabos! Vocês duas são iguais! ― largou a filha em cima do sofá, já que no meio do caminho havia colocado-a sobre as costas.
― Seu brutamontes! Seja mais delicado com sua própria filha! ― ralhou a ex-navegadora dos Chapéus de Palha, que entrava na sala de jantar com uma travessa de lasanha em mãos.
― Por que disse isso, Zoro? ― a morena perguntou ao marido, sorrindo divertida, após Nami voltar à cozinha com seu filho e o passarinho machucado.
― Porque as duas são absolutamente irritantes. E eu não suporto as duas. ― grunhiu, sentando-se em uma das cadeiras à mesa.
― O que ela aprontou dessa vez? ― questionou novamente, também se sentando ao lado do espadachim.
― O que ela apronta todos os dias. E ainda é malcriada, essa infeliz. ― reclamou já começando a fazer seu prato.
― Você que vive sendo rabugento! ― retrucou a moreninha, que se levantava do sofá e seguia para se juntar aos pais.
― Você que é impertinente, sua peste!
― Você que é!
E assim mais uma das infinitas discussões que aqueles dois tinham o tempo todo e todos os dias, iniciava-se. Discussão a qual Nami e Seion ouviam da cozinha sem dificuldade alguma, enquanto cuidavam do bichinho ferido que o pequeno havia encontrado.
― Mãe. Por que o tio Zoro e a Nara brigam tanto? ― perguntou inocentemente, observando a ruiva imobilizar a asinha quebrada do filhote de rouxinol, o que a fez suspirar pesadamente.
― Porque são igualmente insuportáveis e irritantes. ― respondeu, embora concentrada em sua tarefa de salvamento.
― Será que eu e o papai iríamos brigar assim também? ― mais uma vez questionou, imaginando como seria sua relação com o Rei dos Piratas.
Nami o olhou surpresa, ma logo sorriu ao observar a expressão longínqua do filho.
― Tenho certeza que não. ― sorriu terna.
― Mesmo? Por quê?
― Porque seu pai era um idiota, mas um idiota muito amável, assim como você. ― brincou, apertando levemente a ponta do nariz do filho. ― Ao contrário do seu tio que é um idiota também, mas um idiota insuportável. ― piscou, fazendo o menino rir, e logo mostrou o passarinho que agora já estava tratado.
Robin, por sua vez, apreciava o sabor da lasanha que sua amiga havia feito para o almoço, enquanto observava sua família se comportando como sempre se comportara. Já estava bem acostumada àquela cena, para dizer a verdade.
Era de conhecimento geral das pessoas que os conheciam, que no mesmo tanto em que Nara se parecia fisicamente com sua mãe, sua personalidade era idêntica a do pai. Por mais que Zoro dissesse que, na verdade, as duas eram iguais, isso não condizia com a realidade.
Nara e Zoro eram tão parecidos que às vezes era difícil distinguir quem era a criança e quem era o adulto ali. Poucos eram os traços que aproximavam mãe e filha quando se tratava do gênio de cada uma. E era exatamente por este fato que a cada cinco segundos pai e filha iniciavam uma discussão diferente, que no final das contas acabava sendo a mesma de sempre. A pequena não passava dos nove anos, mas já discutia a altura do mais velho de trinta e sete.
O mais curioso de tudo, porém, é que entre os pais, Zoro era de quem a garota não desgrudava um único instante.
(...)
A noite havia chegado e o frio do início de inverno já tomava conta do distrito, fazendo com que todo habitante desse decidisse ir se deitar cedo naquele dia. Robin voltava da casa de Nami e terminava de trancar a casa e apagar as luzes quando, voltando para o quarto, encontrou os outros dois moradores do lar na sala: Zoro estava deitado sobre o sofá com Nara em cima de si e ambos só não coincidiam com o silêncio absoluto do lugar porque ressonavam alto enquanto dormiam.
Um sorriso terno surgiu nos lábios da ex-arqueóloga dos Mugiwaras.
Aqueles que assistiam de fora nunca compreenderiam o porquê sempre estava tão feliz com sua família, sendo que as duas pessoas que mais amava brigavam o tempo todo. Contudo, isso realmente não importava. Roronoa Zoro e Roronoa Nara eram idênticos e era exatamente por esse motivo que Roronoa Robin podia se considerar a mulher mais feliz do mundo:
Ela tinha duas partes idênticas de seu coração encontradas no mesmo lugar.
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