Zorn
1 Único
Notas iniciais
ZORN
Zorn, em alemão, significa ira. Para mim, a Gestapo era a personificação da palavra, que me assombrou como um fantasma raivoso. Roubaram quase dois anos da minha liberdade em campos de concentração nazistas. Eu estava escondida na França e descobriram que eu era uma judia foragida após a invasão. Neguei, uma esperança tola de salvar minha vida. Mas que importava? Podiam prová-lo – e com certeza o fizeram – com uma fita métrica ao medir meu nariz, métodos muito científicos.
Tentei suborná-los, é claro. Havia corrupção e, com sorte, se acharia um dentre eles que era filho dela. Ilusão. No meu caso, encontrei apenas ladrões. Levaram meu dinheiro, levaram todas as minhas coisas, do real ao abstrato.
Por uma semana, oito dias, para ser exata, a Gestapo me interrogou. Eles perguntavam coisas que eu sabia: onde estão os outros imundos judeus, peste? E que não: o que você sabe sobre a resistência francesa? E seus métodos eram variados: da violência a uma falsa conversa psicológica, suave. Recorriam mais à primeira. Achavam que, por seu ser judia, eu não sentia dor ou que, pelo menos, eu a merecia em qualquer escala, visto que não passava de uma raça inferior.
Na sexta-feira, fiz dezoito anos naquele lugar, me deram uma estrela amarela como presente.
Por vezes, cuspiram no meu rosto e, nua, me espancaram, torturaram. Após as sessões, jogavam-me em um catre que fedia, junto com minhas antigas roupas – agora trapos – e minha bolsinha de contas, nada de valor dentro... sei que, lá, pela primeira vez, desejei morrer. Pensei em meus poucos familiares vivos, que a essa altura nunca mais veria. Tentei chorar, mas a dor em meu corpo era forte o suficiente para silenciar minhas lágrimas.
Em março de 1944 me levaram para o meu primeiro campo. Revistaram a mim e a outros no comboio. Tomaram-me a bolsinha de contas. Meus trapos foram substituídos por outros, um vestido cinza de tecido grosso, chinelos de pano mal costurados e uma nova estrela.
O nome do lugar era Ravensbruck, com seus prédios pintados de branco, impecáveis. Enquanto descíamos do trem, os soldados SS nos olharam com nojo, apenas um encarou os próprios pés. Fomos separados numa estranha triagem, os mais velhos, doentes e crianças eram levados para o controle de peste num galpão fechado; os saudáveis, divididos em grupos distintos. Eu recebi uma tatuagem no braço. 148.765. Eu era sortuda, disseram. Por ser jovem e com boa aparência física, seria mandada para o trabalho escravo.
Abrir estradas no gelo, coletar lenha para a cozinha, costurar uniformes... o que fosse preciso. Após intermináveis horas na chamada pela manhã – diziam o nome de todos os prisioneiros, onde durante não se podia sentar, ir ao banheiro ou sair da linha – me foi dada minha primeira delegação. Eu abriria estradas. Poucos duravam muito tempo. Perguntei-me se era isso que eles queriam dizer com a maldita sorte.
Fiz amigas, ao menos. Uma russa, duas judias, uma francesa... É óbvio, existia uma barreira linguística, mas nessas situações qualquer calor humano significavam grandes palavras.
Hazel, eu me lembro bem, uma das judias, estava com as mãos cheias de bolhas, ela não conseguia segurar a pá por muito tempo e, mesmo no nosso parco horário de almoço – no qual nos distribuíam uma sopa fria e não nos era permitido sentar – mal sustentava a colher. Rasgara um pedaço do vestido e enrolara-os nas mãos para tentar continuar o trabalho. O tecido enchera-se de sangue. A situação se tornou insustentável. Um dia, ela largou a ferramenta com um grito.
Ninguém podia ajudar, não podíamos olhar para o lado. Os soldados estavam apenas esperando uma pequena oportunidade, por menor que fosse, para soltarem sua ira sobre nós. Os cães bem treinados latiram, famintos.
O SS rugiu, aproximando-se com seu grosso casaco que o protegia de qualquer frio.
— Volte ao trabalho imediatamente.
Os olhos de Hazel se encheram de água.
— Senhor, piedade... eu não posso.
Ele não disse nada, sorriu de lado e pediu-a para segui-lo. Hazel o fez aos tropeços, mas todas nós sentimos a aura estranha no local. O SS ergueu a mão, o tapa acertou minha amiga com tanta força que ela caiu ao chão. Depois disso, horror. Libertaram os cães das correntes. Eles atacaram Hazel como feras.
Ainda hoje me lembro dos gritos, como pedi para que se silenciassem e que, quando meu desejo se realizou, senti-me culpada, hipócrita e impotente.
No caminho de volta, arrastamos o corpo desfigurado e sem vida de Hazel de volta ao campo, o peso significando nada perto do que carregávamos em nossos corações.
...
Em junho de 1944, fui transferida a Auschwitz. E lá conheci o inferno. Se antes eu achava que tinha perdido tudo, nem se compara a agora. Roupas, sapatos, cabelos, identidade, motivação: já não os tenho. Prometeram que era uma medida de segurança e organização.
Piores que animais, dormíamos amontoadas, sujas e sob o som de ordens, em catres apertados no block. Brigávamos por um pedaço do pano de chão que chamávamos de cobertor. Os soldados, frequentemente, nos davam tapas e socos ao pé da orelha, tentando nos derrubar para terem uma desculpa para continuarem com a violência. Havia, é claro, aqueles que não compactuavam com aquilo. Mas ser um omisso não faz de ninguém menos culpado.
Ao ser designada para a sessão de triagem dos objetos que chegavam a todo o momento, vindos de trens lotados de judeus, conheci a verdade por trás de tudo, como todos que ali trabalhavam.
Aquilo não era um campo de concentração, mas de extermínio.
A fumaça que sempre subia de uma chaminé era por uma causa hedionda. Havia câmaras de gás, locais para fuzilamentos. O cheiro de carne queimada nos alcançava. Os gritos. Víamos crianças entrarem inocentes em galpões e pais se separarem de filhos, prometendo que se encontrariam no campo logo que fosse possível.
As joias, roupas, dinheiro e objetos que encontrávamos eram mandados para a capital, Berlim, para vestir a população alemã desabrigada pela guerra e para fazer alguma fortuna para o exército. Os alimentos, nas escondidas, podíamos comer. Coitada da que fosse pega roubando.
Parecia simplesmente irônico. Não somos bons o suficiente para que nos aceitem, mas é aceitável que usem o que nos pertence.
Em 1945, soubemos por notícias dispersas que a guerra estava pendendo para os inimigos dos nazistas. A esperança no renovou silenciosamente. As matanças, contudo, não pararam, senão tornaram-se quase desesperadas. Um dia, um SS acariciou-me o rosto e me deu o que, para ele, era um sinal de misericórdia:
— Prometo usar muito gás para que seja rápido quando chegar a sua vez.
Eu tremi e segui para meu catre, após a chamada, com os olhos duros, o coração frio, a alma despedaçada, vandalizada e segregada por algo inerente ao meu poder de querer... Eu senti a ira que eles me ensinaram e, chorando, me revoltei.
Quando fôssemos libertados – com sorte, com vida – seria esse tipo de pessoas que nossos heróis devolveriam ao mundo, marcadas pela ira de alguns.
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