Zootropo
1 Capítulo Único
Naquela noite choveu, a natureza reteve aquilo para si desde o dia do túmulo do seu pai, não era atoa que surgiu feito um dilúvio. Aliás, foi um espetáculo, normalmente as ruas alagam e nubla os céus de Schenectady naquela época, você pode observar através das cortinas as pessoas nos sobrados espalhando baldes e bacias de todos os tamanhos pela sala de estar, cozinha, banheiro… Não havia parte que a água não invadisse. Mas todos eles tinham esse privilégio de morar nos andares superiores, a umidade não tocava o reboco das paredes e a pintura nessas enxurradas fortes.
Do mesmo jeito, Otto abriu seus livros e começou a escrever. Precisava estudar o dobro nesse semestre se não quisesse ficar pra trás, porque logo logo ele estaria a mando do seu próprio laboratório numa instituição da universidade. E estava tão quente quanto o dia que ele entrou para presenciar o primeiro experimento com isótopos radioativos na sua universidade.
Não… isso não está certo. Corpúsculos de Krause, o que é isso? Ah, sim, ele gosta de vestir suéteres bem quentinhos de gola alta, é claro que confundiram.
A chuva de Manhattan era mais ou menos uma fração daquilo, mas os prédios eram mais cheios de andares e os bueiros devidamente limpos.
Ele sentou a bunda na cadeira e começou a preencher a papelada, tinha que entregar tudo para a diretora do conselho, os únicos que lhe aceitaram, mas por Deus, ele não via a hora de começar a trabalhar! Minutos depois de esvaziar tudo do laboratório, ele sentiu como se ele tivesse tirado um peso enorme das costas.
Otto Octavius não jogava a toalha em vão, não, ele pesquisou por propriedades e encontrou um prédio, o dono estava prestes a entregar para um sindicato de aluguel interessado, mas Otto lutou por ele.
Depois de algumas conversas fiadas, o rapaz de voz aveludada entregou as chaves para ele e zarpou num táxi. Otto pensou, só pode ser o destino, aquele sujeito que pediu pra ele que procurasse uma mudança de hábito, levantar aquela carcaça da cama e seguir adiante — uma ideia estava lá, há muito tempo foi semeada desde que pôs os pés pra fora da Oscorp com o rabo entre as pernas e outro apartamento vazio à sua espera.
Bem que lhe aconselharam, e ele escutou? Ah, só se seus ouvidos fossem no lugar do seus braços e suas pernas ao invés da cabeça. E seguir com o que exatamente? Com a inocência? Isto é um chapéu, desde quando você vê uma cobra engolindo um elefante? Sim, ele iria criar uma coisa, algo impossível de evitar tropeçar nas semânticas.
Nem paracetamol estava ajudando. Precisava de distração, melhor do que tirar um cochilo naquele horário. Talvez se ele contasse sobre suas aventuras procurando sucata no lixão do seu bairro, e fazia carinho nos cachorros vira-latas que lambiam as patinhas para aliviar a coceira.
Ou aquela vez que teve um projeto didático na sua escola de ensino fundamental, uma espécie de balada sinfônica fazendo modismo a canções populares do filme The Sound Of Music, onde foi quase cegado pelas cores vibrantes dos uniformes da turma e do cenário, mas acabou que ele vomitou no palco enquanto sua turma tocava Do-Re-Mi para o público de pais e responsáveis. Ele lembra que dentre eles, sua mãe preenchia o único lugar reservado ao lado de um dos professores favoritos de Otto.
Mas sabe, a mente é uma coisinha engraçada. Ele se lembra vividamente de ter se apaixonado logo naquele instante pela música, apesar do momento infortúnio, até hoje ele guarda os discos de melhores sucessos dos teatros que ele frequentou durante a juventude. De fato, ele participou de um recital no ensino médio, onde tocou ao som de The Impossible Dream, de Man of La Mancha.
Um detrito muito popular para descrever como ele se via na época. Mas há tantas coisas específicas para se tratar a linha temporal da vida dele, e essa é a maior problemática que a humanidade enfrenta tanto quanto induz, é que não é possível pará-la.
Ele que nasceu no final do período pós-guerra, em meados da Revolução Técnico-Científico-Informacional, que já assistiu uma reprise da primeira missão da Apollo 11 no tubo retangular do seu tio que morava em Manhattan, e um documentário sobre história da Guerra do Vietnã que foi tirado da programação, o discurso de Martin King Jr. e o movimento pós-direitos civis…
Nisso ele lembra que mais pra trás no tempo, ele perambulava pelos cômodos com seu pequeno corpo quando viu sua mãe, sentada na velha poltrona da sala de estar deles, localizada lá, bem no centro perto de uma escrivaninha, e sobre um tapete bem felpudo que causava coceira no nariz dele toda vez que passava por perto.
Ela lia um exemplar que ela amava ler enquanto buscava inspiração para escrever palavras no seu datilógrafo, e Otto, tão assíduo em busca de respostas para a as suas curiosas perguntas, deu um puxão de leve na saia longa dela, que logo sorriu, colocou ele no colo dela e começou a ler em voz alta, e para um rapaz tão pouco treinado como ele, que mal sabia distinguir o lado direito para o esquerdo, era impossível de acompanhar as palavras, mas ele conseguia criar figuras em sua pequena mente através da narrativa doce e calma da mulher.
Além disso, o livro ainda estava dentro de sua gaveta, junto com as coisas casuais como cuecas, chaves, postcards e um cinzeiro de bolso. Otto pensou que tinha se aposentado do seu velho hábito também, mas logo mais na manhã seguinte, era o calor da nicotina em suas narinas que vinha afrouxando seus nervos, que restituiu sua postura.
No intervalo de alguns segundos para suas sinapses processarem a informação, voltando a realidade, ele sabia que nada tiraria os pensamentos em sua mente, nem mesmo um frasco de Jack Daniels curaria isso.
Ele encaminhou mais papéis, mas o garoto parou na primeira página, virou para ele e perguntou:
“Tudo bem?”
Os dedos dele tremiam, assim ficava difícil para digitar no tablet. Nem mesmo o peso do aparelho ele conseguia suportar por muito tempo sem quase derruba-lo com tudo no chão.
— Tá legal. – Disse, meio ofegante, né? E se sentou perto da bancada. Otto não queria responder nada e só ouvir os gritos no rádio e os barulhos do laboratório. Se bem que Peter não era muito escandaloso, deve ser a timidez dos primeiros meses em que começou a trabalhar com ele, talvez em respeito à posição de Otto, mesmo depois de tudo que eles passaram.
Parker não relutou em colocar os dedos na nuca do mais velho e perguntar se ele estava se sentindo bem.
— Hein, Doutor? Quantos dedos eu tenho aqui? – Perguntou, o dedo do meio bem a vista. Escárnio era a maneira do garoto de dizer que estava preocupado.
Otto não precisava de muita coisa na vida. Seu apartamento era um prédio perto do trabalho, um pequeno laboratório na vila Greenwich, então já cortava a viagem de ônibus ou metrô, que seja. Recentemente resolveu investir dinheiro numa pesquisa em colaboração com o comitê de auxílio a veteranos da guerra para construir próteses de membros. Tinha um parceiro/assistente muito competente, isto é, se ele chegasse no horário.
Então ele mergulhou de cabeça, tinha tempo livre, aposentadoria estava fora de questão. Mas no desenrolar das entrevistas para possíveis candidatos, uma parte especialmente cansativa por conta da burocracia dos seus devidos planos de saúde; um briefing muito extenso e mais papeladas na pilha para entregar à instituição de saúde responsável pelo comitê, Otto começou a perceber que estava convicto de que algum dia, tudo poderia desmoronar a qualquer momento.
Ele deve ter lido uma passagem de um livro qualquer nos stands da rodoviária, ou até mesmo em um blog, sobre como as pessoas lidam com o estresse no ambiente de trabalho, o tal do fenômeno "síndrome de burnout". Mas do que adiantava ir consultar com um psicanalista, Otto não tinha tempo pra isso. Um eufemismo de não ter paciência para tal, na verdade. Como se uma viagem pela sua psique fosse desenterrar tudo que incomodava Otto em sua rotina diária, e ele não precisava de uma avaliação médica. Seu desempenho no serviço era ótimo, até Parker se admirava vez ou outra e insistia em falar. Ele não precisava de muita coisa. Apartamento, emprego fixo, um assistente (atrasado) e deus do céu, ele levantou pra desligar o rádio de vez.
Descansado a palma da mão sobre seus olhos, não era pro suspiro sair da sua boca, mas Otto ainda não descobriu uma maneira de controlar seu Sistema Nervoso Autônomo. Tsc, reações involuntárias? Vamos ver.
Logo a psicanálise, que dizem ser singular e intransferível. Mas o problema com as síndromes, elas são geralmente um tipo de palíndromo e sempre são ligadas a outro distúrbio generalizado. E quem foi que os catalogou? Uma grande corrente de espertalhões, fazendo perguntas e mais perguntas. A cadeira que você senta adjacente ao seu psiquiatra já estava ocupada quando você entrou, a mente do médico divagando sobre os problemas de outrem, filtrando as suas palavras até chegar na parte interessante, a que ele estudou na faculdade e leu tantos livros sobre.
Geralmente ele resolvia o problema enfiando meia garrafa de uísque goela abaixo, ou melhor, ler novas matérias do Clarim Diário cobrindo a gafe da semana do prefeito Osborn bem na época de reeleição. Não era o que ele chamaria de suprassumo do entretenimento, porque logo mais o galhudo do J Jonah Jameson chegava para tentar encontrar pêlo em ovo e assim gerar mais dor de cabeça para os nova iorquinos pela manhã. Mas pelo menos Otto não precisava repassar isso num debate público com etiqueta apropriada. Um boteco cheio de estranhos, gritando um com o outro dava no mesmo.
Infelizmente, Peter notou. Claro que Otto não deixaria o millennial passar a perna nele, murmurando uma desculpa ou outra sobre o ônibus quebrado ou que não ouviu o despertador tocar, mas era amistoso em aceitar as tentativas do rapaz. Uma pequena misericórdia que Otto não estava tão exausto assim de repetir dia após dia.
Não era pra ser assim, Otto estava quase tomando controle de tudo novamente, só mais algumas ligações e eles poderiam garantir que tudo estava bem para receber o primeiro candidato para fazer os testes com a prótese.
Viu Parker se aproximar do rosto dele por alguns segundos, Otto quase empurrou ele para trás como se espantasse uma mosca meio irritante. Eu tomei banho, obrigado, foi o comentário que veio em mente junto a esse pensamento.
— Você tá pálido, aqui – Falou, um de seus dedos pousando no lábio inferior – Sentiu alguma tontura?
O que poderia responder? Pensou em uma perspectiva médica. Sim, sim, a cabeça dele virava do avesso de vez em quando, seus olhos saltavam para fora das orbes enquanto várias formigas passeavam sobre sua massa cinzenta. Era melhor ouvir isso do que responder "enxaqueca", ou que estava precisando de um nutricionista para endireitar sua alimentação. Mas se for se colocar no lugar de Parker agora, bem:
— Já entendi a sua hipótese. Hipoglicemia? – Gesticulou com a mão livre deliberadamente, dando de ombros – Comi um sanduíche bem gorduroso faz algumas horas, sem falar nas barrinhas de cereal que estão espalhadas por todos os cantos.
Peter, sem saber o que fazer com seu corpo, começou a vasculhar as mesas com o olhar, Otto podia imaginar um scanner saindo das pupilas dele. Por fim, acenou em afirmação. Otto arregalou os olhos levemente e levantou as sobrancelhas para enfatizar seu ponto – E não, não tenho histórico de diabéticos na família.
Isso foi o suficiente para o menino desencadear aquela expressão dele, bico pra fora e olhos semicerrados, como se Otto estivesse sacaneando ele. Talvez fosse verdade, ele poderia ter dado essa desculpa. Ou usado seus poderes de velho: ah é artrite, artrose… eu ouvi muitos amigos meus reclamarem disso nessa idade. Estão pesquisando casos pro bono.
Peter resolveu se sentar na cadeira de frente para Otto, e ele se sentiu meio encurralado. Encarou o menino com a expressão aberta, escondendo qualquer resquício de irritação que pudesse vazar.
— Você precisa de uma pausa.
Mas um riso tinha que afrouxar seus músculos – Ta doido? Não posso parar agora, temos muito o que revisar. E eu não posso ficar parado por tanto tempo, você sabe.
— O conselho de diretores só vai vir na próxima, se não na outra semana. Vamos ter tempo à vontade para assinar papéis depois.
Otto pede para Peter ver se "ele tá lá na esquina" , o que foi recebido de maneira brincalhona pelo rapaz, e eles voltam a trabalhar.
Naquela hora eles estavam muito longe de resolver o problema dos ligamentos da prótese, e esse pequeno detalhe já era o bastante para revirar os nervos de Octavius, um homem que passou a vida tentando criar alguma coisa que funcionasse, para que finalmente ele pudesse se sobressair na sua área de atuação. E Peter não estava num bom humor também, os dois passaram a tarde inteira no laboratório remoendo a mesma falha inúmeras vezes.
Peter estava perto demais e Otto ouviu o estômago dele roncar. O garoto virou pra ele antes do homem abrir a boca, com uma cara de tacho:
— Doutor, você vai sentar, vai descansar e pedir alguma coisa pra comer comigo. E sim, é um ultimato.
Otto mostra que tem marmita que eles pediram ontem na geladeira, e manda Peter deixar lá que depois ele pega.
Ele come tudo muito depressa, Otto pensa, vendo o outro homem destruir a refeição.
Outro dia Otto reclama que realmente está sentindo muita dor. Peter pensa "te avisei" mas não fala.
— Seu pé está bem inchado.
— Não é à toa, não está vendo essas minhas varizes?
— Eu tenho um pouco de arnica que a May comprou pra mim, faz tempo… é que eu comecei a ir na academia e… enfim. Passei demais da conta, quase fiquei uma semana sem andar direito. Isso ajudou bastante.
Ajudou o homem a se deitar no sofá meio velhinho no escritório do Parker, tinha até uma almofada para quando ele quisesse dar uma cochilada.
Otto tirou seus sapatos sociais pontudos e meias, deixando os dois pés encostados no braço do assento. Peter tirou da sua mochila um pequeno frasco verde, e passou o conteúdo na palma da mão.
— Ela toma remédio da pressão, mas sempre preferiu tratamento homeopático, até briga com os médicos por isso. – Ofereceu a pequena quantia de líquido sobre o calcanhar de Otto, espalhando o gel frio ao redor da região até chegar na ponta dos dedos do homem, esfregando de leve nos locais que achava que estavam mais afetados.
Otto riu da anedota, lembrando de respeitar fundo para não pensar muito no gélido toque dos dedos de Peter – Sabe que minha mãe também adorava isso, e sempre dizia que caso eu me tornasse médico, nunca prescrever remédio tarja preta para os meus pacientes.
— É sério?
— Pois é, ela que tinha pavor mesmo. E ai de mim falar que era melhor escutar do que entupir meu pai e eu de suco orgânico. Ela logo mandou um 'santo de casa não faz milagre'.
Ele tirou os óculos um pouco, estava começando a ficar com os olhos pesados, tanto que não conseguia levantar eles para encarar o garoto, que continuava a puxar papo, mas suas palavras não causavam nenhuma reação nele, que sentia em seus pés o mundo se mover, enquanto ele permaneceria inerte naquele momento. Poderia dormir ali mesmo, isso se o micro choque da arnica agindo na sua pele não lhe despertasse toda vez. Peter acariciou o calcanhar de Otto acidentalmente algumas vezes, sem apertar. O homem sentiu o estômago revirar.
Outro dia, JJJ entrava em uma discussão sóbria, de alto e bom tom sobre o plano econômico de Osborn. Otto já não estava com saco pra isso, o artigo que o Clarim publicou sobre a resposta do milionário filantropo Martin Li botava aquele bigode pra correr, quando Peter mudou de estação no rádio de repente.
E assim caiu nas músicas, e os primeiros acordes de "Figura" do Orlando Morais bagunçaram as letras nos papéis. Otto não conseguia se concentrar. Peter parecia se divertir, improvisando uma dança discreta enquanto focava em Otto, um sorriso no olhar e balbuciando conforme o ritmo, sua boca mexendo sem sair um único som.
Uma paleta de cores clareou a visão de Otto, mas o que chamou sua atenção foi a luz meio enferrujada do laboratório que reluzia sobre a mesa e aumentava sua enxaqueca, dor de dente, o que quer que fosse. Tateou o bolso do jaleco antes de mais nada, e deu uma ordem qualquer para Peter não ficar desocupado na sua ausência, e saiu porta a fora.
Soltando fumaça para a brisa sem rosto pelas suas narinas, Otto embarca nos sons da cidade e deixa eles levarem sua mente para um plano subconsciente, finalmente. Sempre preferiu isso, porque nunca saia do embate que era ficar frente a frente numa sala com outra pessoa, duas cadeiras e duas conversas diferentes. Pelo menos Peter não perguntou sobre sua infância, ou como ele se sentia sobre aquelas emoções asquerosas, pois Otto queria admitir que sentia medo naquelas horas. E toda vez que ele olhava pra trás e via seu eu do passado emergindo das sombras. Um jovem tolo, meio chapado e com cabelos grandes demais que chegavam a atrapalhar.
Otto tragou por um longo tempo, a mesma lenga lenga de soltar a fumaça oblíqua para se dissipar com graça no ar. Não quis delongar com seu hábito, pois um dos olhares cortantes de Parker deixou ele num estado de hesitação incomum.
Inconscientemente ele pegou um ritmo quase fantasmagórico em suas tragadas na mortalha, e o Peter na sua mente não queria dar furtividade para um possível argumento.
Enquanto isso, o Peter real voltou a trabalhar no tablet que tomava sua atenção antes de Otto sair com um maço de tabaco para a área de serviço do laboratório.
Aquele garoto, sempre um mistério que ele ansiava solucionar, só não levava isso pra frente porque tinha medo que estragaria a familiaridade que ele tinha com as diversas reações de Peter. Havia vezes que ele fitava Otto por um longo tempo com a sua expressão de cerrar os olhos, como se estivesse se concentrando mesmo em descobrir o que Otto estava pensando. Outras um pouco mais raras, ele mostrava uma brecha de suas pérolas depois de uma conversa muito mais profunda, aquelas que aconteciam quando Otto não tinha mais pra onde fugir e havia somente Peter no vacúolo da sua mente, puxando as raízes com cuidado para não machucar.
Sem contar nos vários sorrisos meigos que ele deixava para trás quando os dedos deles se tocaram na hora que a mão de cada um descansava em alguma mesa, as de Peter estavam sempre sujas de graxa e Otto já lhe chamou a atenção para utilizar luvas ou o pessoal da PE descontar do salário dele.
Por mais que Peter insistisse em dar desculpas para suplicar a clemência de Otto, não sabia o quão fácil era amarrar ele em seu dedinho. Otto nunca foi bom em trabalhar em equipe, então quando uma onda de irritação atiçava seu coração para dar bronca em Peter, o garoto mostrava seu semblante aberto e aquela curvatura rosa em saudação, lealdade, que pedia só um pouco de paciência com ele, e foi assim que Otto achou melhor aprender a bloquear aquela irritação, o que consequentemente deixou ele incapaz de negar alguma coisa à Peter.
Mas ele se admirava com Peter por se ater tanto àquele título de honra, porque para o resto do mundo ele fora delimitado apenas por Doutor Octavius, ele podia utilizar o título por merecer, mas o peso que Peter traz a ele quando usa no dia a dia faz o seu eixo girar feito uma máquina de lavar roupa. É diferente, de alguma forma, como usar o nome de um santo.
E falando nisso, nunca em sua vida imaginou que o garoto traria tanta benevolência em seu caminho, mas ele estava certo de que ele traria sua ruína junto. Já ficou bem perdido, estimando o rapaz e aposta que Peter estava começando a se perguntar se Otto era louco, o que ele não queria responder.
Num estalo de dedos, ele notou que entrou muito imerso em sua onda de divagação sobre Peter que por um momento esqueceu que o garoto estava na sala. Mary Jane foi pegar as coisas de Peter.
— Gostaria de fazer aquele check up rápido, se você não se importa.
Na medida do possível, Otto tentou lembrar dos acontecimentos na ordem que ocorreram: a interface desconectada do imã na sua pele, as náuseas que ele sentiu alguns minutos depois, e o resultado delas manchando o chão do laboratório, o cheiro da bile misturado com o seu jantar estava fresco na sua memória.
— Você guardou o chip? – Otto perguntou, como se Peter tivesse sua alma escondida numa caixinha guardada a fundo.
— Fica tranquilo, ninguém vai mexer.
— E você? Não tem que ir pra casa?
Peter sorriu, daquele jeito que aparece covinhas em ambos os lados do seu rosto, e Otto sentiu mais uma onda de náuseas.
Piorou quando o menino adicionou, quase um sussurro indignado: – Não vou te deixar aqui.
— Que isso, Peter, assim você me ofende. Eu garanto que nada vai explodir se você não estiver aqui.
— Bem, teve aquela vez com o tubo de Bunsen…
— A questão é que você não vai ficar aqui até tarde pra me mimar.
— Talvez eu goste de te mimar.
Isso é coisa que se fale? Pois Otto insistia: – Você tem sua vida, garoto. Eu vou ficar bem.
Otto não queria parecer hostil, mas outro episódio de enxaqueca perambulava pelo lado esquerdo da sua cabeça.
Peter olhou pra ele e por um momento, quando Otto viu ele virar de costas, riu envergonhado da sensação melancólica que lhe embrulhou. Ele foi vencedor de vários prêmios condecorado pela comunidade científica, tem cinco bacharéis. Me poupe.
— Eu vou pegar minha mochila.
Otto viu Peter entrar e sair do laboratório tantas vezes, mas dessa vez ele sentiu que algo se rompeu ali, um choque final que ele precisava para finalmente acordar do sonho. A senhorita Watson acenou para o rapaz e o Doutor, decidida a ir pra casa antes de Peter, talvez.
Mas ele não ouviu a porta bater, Peter ainda estava lá.
O seu parceiro veio com uma manta que ele guardava para deus sei lá o que na sua mochila e parou em frente a Otto, encarando. Otto sentiu vontade de dar um peteleco na orelha dele, para ver se reagia. Até que:
— Chega pra lá, cara.
Ele parecia mais cansado que nunca, então Otto teve que obedecer. Levantou-se para o garoto se estirar no móvel ao seu lado. Otto lembrou um gato lânguido, Peter até soltou um bocejo preguiçoso de tão confortável que estava naquele sofá de móveis usados. Pois bem, Otto estava um tanto viciado em observar aquele garoto, a forma como os lábios e as covinhas se contraíram, o cabelo castanho com mechas pontudas no topete, como as de um porco espinho. Teve que piscar algumas vezes para umedecer os olhos e entrar em foco.
Peter cobriu os dois e fez menção de ficar com a cabeça bem perto do ombro de Otto e sentiu a respiração dele perto da sua orelha. O corpo de Otto ficou tenso no instante que Parker deitou, mas em contraste o garoto parecia seguro e quentinho ao seu lado.
— Aliás, queria saber se você tá usando calças.
Isso definitivamente pegou o homem no pulo, que logo tateou seu corpo e a ficha caiu. Seu rosto ficou levemente quente quando ele respondeu: –... Não.
— Porra. Sério, Doutor? Você tá com o suéter… Ai, esquece. Boa noite.
— Boa noite, Parker.
— Espero que ninguém do RH nos veja assim.
Otto riu, e riu mais um tantinho, tão genuíno e sem pudor. Assim, passou um dos seus braços na cintura de Peter, acariciando a região até pregar os olhos finalmente.
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