Zona Livre De Clichê

1 Lembrando do passado


Notas iniciais
Aproveitem. :)
Fiz com carinho. S2

Nós nos conhecemos ainda quando pirralhos. Eu não digo criança, porque nós éramos realmente umas pestes naquela época. Nunca íamos atrás um do outro, na verdade, sempre nos encontrávamos por acaso e toda vez fazíamos jus aos planos do destino. Éramos grandes amigos; aquela amizade pura da infância que faz falta quando a gente cresce.

Eu, com aqueles chinelos remendados que se desfaziam a cada topada e um sorriso metálico de dentes tortos, e ele, com os óculos fundo de garrafa e as roupas sempre recém-lavadas que voltavam imundas pra máquina de lavar da mãe.

Eu me lembro de quando voltava para casa toda vermelha de passar a tarde no sol. Minha mãe me perdoava porque ela sabia que eu não me importava de dormir toda dolorida se eu tivesse me divertido muito com ele. E a gente sempre se divertia muito. Riscávamos o chão com o giz roubado da bolsa do pai dele, que era professor. Nós rimos toda vez que ele conta que o pai reclama à noite que o número de giz que ele tem está diminuindo a cada dia.

Nós usávamos minhas bonecas para fazer peças de teatro improvisadas e o baralho dele para fingir que era dinheiro. Fazíamos aposta de qual pião rodava por mais tempo e sempre que um de nós perdia, dizíamos para deixar pra pagar quando fossemos adultos e tivéssemos dinheiro. Eu fiquei devendo um milhão a ele, por aí. Isso porque o pião dele era realmente muito bom em apostas.

Tocamos muitas campanhinhas e depois saímos correndo. Era sagrado minha chinela arrebentar e nos atrasar na corrida. No meu aniversário, ele me deu lindas sandálias rosa com borboletas que amarravam no calcanhar para não nos atrasar mais, o problema foi que minha mãe não deixava de jeito algum eu sair com elas pra brincar.

Acho que foi naquele tempo que eu descobri o amor, se é que crianças podiam amar como gente grande. Parecia possível quando eu o via vir em minha direção com um grande sorriso no rosto de sardas castanhas, quando eu gargalhava com ele até fazermos sons de porco e nos debatermos como epilépticos, quando corríamos de mãos dadas para fugir dos adultos que nos expulsavam de suas calçadas pelo barulho.

Quando ele tinha idade o suficiente para não sentir nojo de meninas, eu o beijei e fiquei muito feliz quando ele não saiu correndo. O tempo foi passando e nós começamos a nos apresentar pras pessoas não como amigos, mas como namorados. Ele me ensinou a tocar violão, ou tentou. Eu o ensinei a desenhar, mas ele continuava péssimo.

Eu adorava escrever histórias sobre o que ele gostava e ele ficava criando manobras de skate ridículas com o meu nome no meio. Ele me ajudava a estudar quando eu dormia nas aulas e eu, em troca, deixava ele me filmar enquanto dançava. Nós aprendemos os números em mandarim para gritar a contagem regressiva no ano novo, mesmo que pros outros parecêssemos que estávamos xingando o papa.

Ele dava pesca pra mim em código Morse batendo a unha na carteira quando eu passava o dia anterior fazendo maratona de série ao invés de estudar. Eu lia um dos meus livros da minha estante em voz alta para ele quando ele fugia de casa porque os pais estavam brigando mais uma vez. Nós dois fazíamos dueto nas festas de família e nos aniversários e em todos os lugares que podíamos então todo mundo sabia que éramos muito bons juntos.

Quando minha mãe engravidou nós apostamos qual o sexo da criança. Eu dizia ser menino e ele menina. Acabou que eu ganhei e ele teve que ir numa balada comigo para ser pisoteado, acotovelado e molhado com bebida entre um monte de gente que dançava e suava demais da conta. Depois disso, ele me deu uma bronca dizendo que namorados deveriam mostrar o céu um ao outro e não o inferno.

Eu me lembro da vez que eu torci o tornozelo enquanto ele me ensinava a andar de skate e tive que o confortar no caminho do hospital porque ele chorava mais que eu por achar que a culpa era dele. Ele nunca mais me deixou chegar perto de um skate de novo e eu não reclamei, só que para compensar ele me viciou em videogame.

Tinha as vezes que ele me chamava pra fazer academia com ele, mas eu sempre dava a desculpa que assistir filme de terror queimava muita caloria sem que eu precisasse me levantar e o expulsava da minha casa irritada perguntando se ele achava que eu estava gorda. Claro que ele sempre se desculpava e ia embora com um sorriso no rosto quando percebia que eu não estava com raiva de verdade.

Era divertido quando começávamos a desafiar um ao outro sem parar, fazendo loucuras como atravessar a rua de olhos fechados (nós sempre tomávamos cuidado de olhar se não vinha nenhum carro) e bizarrices com tentar beber leite pelo nariz e manter uma pimenta na língua por dez segundos. Levávamos o maior sermão dos nossos pais quando voltávamos pra casa com cortes e queimaduras leves, mas uma parte importante do dia-a-dia de um adolescente é voltar no tempo e fingir ser criança outra vez.

Quando ele comprou sua primeira lente de contato, porque seus pais o acharam responsável o suficiente para tê-la, uma delas escorregou pelo o ralo da pia e a outra para dentro do seu crânio, o que diminuiu a confiança dos pais nele. Mas, eu não liguei e ficava repetindo o tempo todo que adorava os óculos dele, que eram um charme, que foi o principal motivo de eu ter me apaixonado por ele. E no final, ele disse que não sabia qual parte de mim o fez me amar.

“Talvez porque eu nunca vi você em partes e sim, inteira.”

Por que será que eu estou pensando tanto no passado? Especificamente nesse passado?

Ah, verdade. Tenho que abrir os olhos e me levantar dessa cama para ir ao enterro dele.

Notas finais
Gostaram?
Pra que final feliz, né? kkk
Não me matem...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!