-Eu não vou fazer o serviço sujo pra você, Smith.

-Ah, qual é, ambos sabemos que você precisa de grana.

-Mas não vou pegar essa "grana" me infiltrando na casa de ninguém. Muito menos na casa do Tom Parker.

-Olha, Cléo...

-Foda-se você e a sua gravadora de merda — Eu disse o interrompendo — Na hora do serviço sujo sou sua filha, não é? Não vou dar pra ninguém pra conseguir informações pra encher esse teu cu de dinheiro.

-Cléo, tu não ta pensando direito...

-Claro que não — o interrompi de novo — Maconha queima neurônios — disse irônica — Boa sorte depois dessa. Não se esqueça de pagar a conta.


-Quem era aquele cara? — Logan perguntou quando estávamos longe e paramos em busca de combustível.

-Não sei, alguém deve ter seguido a gente — Cachinhos disse — e não estava nem um pouco disposto a sentar e tomar um chá.

-Olha, vamos nos separar — Ryan disse — fazer três grupos. Um fica aqui, e os outros dois procuram combustível e outros suprimentos.

-Por mais que eu odeie isso, ele ta certo — eu disse, Ryan sorriu vitorioso. Babaca — Lucas, Ísis e Liz ficam aqui.

-Eu, Cléo e Logan vamos por ali — Cachinhos apontou para a esquerda — E vocês por ali

-Não — Josh disse — eu e Carrie não fazemos ideia de como se atira.

-Eu e James também não — Logan disse.

-Cara, isso não vai dar certo — Ísis disse.

-E a gente ainda ta perdendo tempo — Carrie completou.

-Melhor Cléo e Ryan saírem e o resto fica aqui — Lucas disse o encarei.

-Nem fodendo — eu disse.

[...]

-Não acredito que eu to sozinha com você de novo — eu disse enquanto eu andava, atrás dos passos apressados de Ryan, a procura de combustível. Mesmo com Ryan de costas para mim, eu tinha a nítida certeza de que ele soltou um sorriso sarcástico — Cara, da pra andar mais devagar ou isso vai fazer o cu cair da tua bunda? — ele riu sarcasticamente e reduziu o ritmo.

Ele virou para mim enquanto eu caminhava na direção dele.

-Jura que uma mulher do teu tamanho não consegue andar mais rápido? — revirei os olhos, e dei uma corrida para o alcançar — Teu "Cachinhos" deve andar se arrastando — ele disse fazendo aspas, o fuzilei com os olhos.

-Ao menos ele não aponta uma arma pra minha cabeça — eu disse quando avistei um posto de gasolina, ele parou e eu continuei andando.

-Jura que essa é a única coisa que tu tem contra mim? — ele perguntou levantando os braços.

-Não, mas isso é o principal — Virei para ele parado e vi que um zumbi estava quase o mordendo, levantei a bésta, mirando certo no zumbi.

-Vai ficar de vingançinha agora? — Ele disse e atirei sem dar chance para ele desviar para o lado da flecha. O zumbi caiu estatelado no chão, esfregando-se nas costas de Ryan.

Ryan arregalou os olhos quando viu que eu não mirava nele e se deu conta que eu matei um zumbi que com certeza o mataria. Virei novamente em direção ao posto e voltei a andar em sua direção enquanto Ryan analisava o corpo desfigurado e desnutrido do zumbi que tinha a arcada dentária a mostra.

-Obrigado — ele disse — Opa, espera. Você me salvou? Por quê? — ele perguntou correndo pra me alcançar.

-Porque sou idiota — eu disse chegando ao posto.

"Sem gasolina", dizia a placa do posto deplorável. Basicamente, aquele posto, sujo de sangue e com odores de sexo e decomposição, estava destruído. Não havia possibilidades de encontrar nada naquela loja de conveniência porque ela já havia sido saqueada. Além disso carros capotados e outros entulhados na entrada e na saída, davam o sinal do caos que se alastrou naquele posto quando acabou a gasolina. Eu podia visualizar o pavor dos frentistas no último dia de trabalho deles e os motoristas buzinando enfurecidos dentro dos carros, apavorados para sair da cidade.

Chutei a bomba de combustível com raiva.

-Vamos revistar esses carros, talvez algum deles ainda tenha gasolina — Ryan disse.

-Ou não — eu disse desanimada.

-Não seja a louca pessimista — ele disse pegando uma mangueira e um litro, com aquele sorriso sarcástico ridículo.

Ele começou a olhar o tanque dos carros e eu olhei dentro deles em procura de algum suprimento que pudesse nos satisfazer.

Abri a porta de um Meriva e uma vontade imensa de chorar tomou conta de mim.

A Meriva cheia de sangue no teto e fedendo a decomposição pertencia a uma família. Os bancos da frente, completamente desocupados, estavam rasgados e manchados de bile preta. No banco de trás, uma criança zumbi, de no máximo 2 anos, fazia aquele inconfundível barulho de zumbis loucos por comida, tentando escapar do bebê-conforto em meio aos brinquedos que os pais colocaram para, provavelmente, distraí-lo durante a longa viagem.

-Cléo...? Tudo bem aí? — Ryan perguntou, fiz que não com a cabeça sem olhar para ele enquanto lágrimas (não sei se por causa do fedor, de tristeza, desespero, raiva, ou tudo isso junto) escorriam na minha cara. Ryan se aproximou de mim — O que foi que acon... — Então ele viu o que eu vi e ficou lá, parado, sem reação, assim como eu estava.

Finalmente levantei a bésta em direção ao bebê e mirei em sua cabeça. Encarei os olhos brancos de zumbi da criança antes de atirar. Quando eu atirei, fazendo a cabeça da criança cair sobre o cinto, fechei a porta do carro com força e escorreguei até o chão. Cravei as unhas no chão, tentando canalizar a minha raiva.

-Cléo, eu... — Ryan começou a procurar palavras, mas ele estava tão mal quanto eu — Eu sei que...Sei lá, mano...Eu acho...

-Cala a boca Ryan — o interrompi — Vai procurar gasolina, quero sair logo dessa merda de lugar — disse limpando as lágrimas com as costas das mãos — E se você contar pra alguém que eu chorei, eu vou pessoalmente buscar um zumbi para você, entendeu? — eu disse, ele assentiu.

Continuei procurando coisas nos carros, mas o meu próprio cheiro estava me incomodando. Cara, eu daria um rim por um banho, sério. Pode parecer exagero, mas não é. Eu to fedendo a sovaco e xixi, e isso não é legal.

Conseguimos dois galões roubando os carros. Achei uma faca daora em um dos carros, alguns remédios, roupas e porcarias úteis. Tipo chocolate, lanterna e bebida alcoólica.

-Acharam algo? — Josh perguntou quando chegamos. Ryan começou a vomitar palavras. Larguei a sacola no chão e entrei no motor home.

Sentei no sofá e coloquei a cabeça para trás.

-Cheia do Ryan? — Cachinhos perguntou. Cara, nem vi que ele tava ali.

-Antes fosse — respondi e contei tudo a ele — Quanto tempo aquela criança tava lá? Faz um mês que a praga começou. UM mês. Porra, os próprios pais podem ter a mordido — eu disse irritada.

-Então você não é da teoria do Logan de que essas coisas tem memórias?

-Se tivessem, não morderiam crianças — bufei — Aquela criança — disse mais calma — ela nem sabia de nada. Era um ser inocente, assim como Liz ou Johanna — eu disse e meu estômago revirou — Pode ir caçar comigo?

-Eu não sei caçar — ele respondeu.

-Foda-se, só não quero ir caçar com o Ryan de novo.

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