Zombie Attack

1 I - Noticias Urgentes.


Notas iniciais
Quando os humanos tentam possuir os dons de Deus, as coisas nem sempre saem como o esperado.

Naquele exato momento encontrava-me deitado de forma relaxada sobre o sofá de minha sala, navegando preguiçosamente pelos canais televisivos com o braço levemente elevado. Apenas procrastinando em minha folga, naquele dia eu não consegui pensar em nada útil para fazer e tudo o que vinha em minha mente me era exaustivo, cansativo e remetia à minhas aulas na faculdade.

Comecei a zapear e fui passando por canais de esportes, que mostravam jogos de futebol, basquete, vôlei, corridas, streamers fazendo gameplays dos jogos mais atuais no momento e que estavam na boca e dia a dia da garotada.

Não acredito que gravar-se enquanto joga diversos jogos dá dinheiro... (Eu)

Desenhos animados com animais correndo atrás de outros, e princesas pedindo por ajuda. Documentários sobre guerras passadas e algumas pessoas explorando as mais densas florestas. Por fim a emissora jornalística mais comum e assistida nesse horário.

Por algum motivo eu me interessei um pouco e deixei no mesmo alguns minutos, comentários sobre o clima mundial, catástrofes em outros continentes e doenças que continuavam a acabar com populações inteiras, sem que ninguém pudesse fabricar vacinas para combatê-las mais rápido do que se espalhavam.

Da mesma forma que a vontade de ver o canal veio, ela passou, e eu meio entediado pressionei levemente o botão de trocar de canal. Mas continuou a mostrar a mesma matéria, ainda falava-se da nova doença descoberta recentemente, como se eu não tivesse alterado em nada em nada com o meu clique.

Forcei um pouco mais e notei que não havia resposta do controle remoto, franzi o cenho e me ajeitei no sofá, de forma que eu pudesse soltar minha outra mão, antes presa pela pressão de meu corpo sobre meu braço. Levei o controle próximo à palma de minha outra mão e realizei a ação de dar diversas palmadas no mesmo, com a intenção de fazê-lo funcionar. Afinal quem nunca bateu em seu controle remoto pra ver se o mesmo voltava a responder.

Então quando eu o levei em direção à tela plana de cinquenta polegadas de minha televisão, que se encontrava parafusada perfeitamente acima de meu rack na parede, um corte seco na matéria veio à tona. Uma interrupção que prometia ser a maior descoberta/invenção do século, e eu notei tudo isso nas faces dos dois apresentadores.

Um jornalista magro e um tanto mais alto que sua colega, sentado atrás de uma mesa branca que fora posta no centro de uma sala iluminada começou a falar, enquanto apareciam algumas imagens ao fundo e ao seu lado flutuando na tela da televisão com os dizeres de apresentação. O renomado cientista russo Albert Panchklovisk, um senhor por volta de seus 65 anos, cabelos grisalhos e trajando jaleco médico.

— Fora divulgada agora a informação de que as pesquisas do brilhante cientista Albert Panchklovisk obtiveram sucesso em seu mais novo tratamento experimental, até agora as células desenvolvidas por sua empresa C&LL – Por um breve momento a foto do cientista saiu de cena, dando lugar a um logo pouco conhecido, mas que se destacava por ter o nome da empresa citado. – Estão sendo testadas apenas em animais, mas foi comprovado que dentre os dez animais testados no processo, todos eles mantiveram seus organismos saudáveis e livres de qualquer infecção externa, ou tentativa proposital por parte dos cientistas. (Jornalista 1)

A câmera mudou por um instante e focou na moça ruiva, utilizando óculos de grau e com um rosto um tanto corado, que estava sentada ao lado do primeiro jornalista, então a mesma pôs-se a falar.

— E mais, as pesquisas indicam que até o final do ano vão estar sendo abertas as vagas para testes em humanos, inicialmente por aqueles com menos tempo, como presidiários já no corredor da morte, logo que se comprovar não haver perigos vão ser priorizados idosos e crianças. Até por fim estar disponível à todos e em todos os lugares. (Jornalista 2)

A câmera voltou a focar no rapaz magro que ajeitou levemente seu cabelo despenteado para trás e continuou a falar.

— Nós não conseguimos obter contato com Albert, mas pelo que disse, ele afirma que está indo tudo de acordo com o planejado, tendo mostrado grande sucesso a algumas semanas quando conhecidas empresas começaram a investir aos poucos seu dinheiro na pesquisa, visando o futuro em que todos possam obter essas células e estarem curados de qualquer tipo de doenças. (Jornalista 1)

A moça ruiva pareceu um pouco perdida até a câmera focar nela novamente, quando assumiu uma postura confiante e ajeitou-se na cadeira.

— Com as vagas próximas de estarem abertas o brilhante cientista diz em suas palavras que, abre aspas “Não é porque estamos quase no processo final que os investimentos não precisam ser feitos, todos que quiserem investir estão muito bem convidados a participar de nossa descoberta, não havendo uma única moeda desperdiçada, são todos bem vindos a se juntarem a nos para que possamos ter um futuro melhor, fazendo-o melhor.” Fecha aspas. (Jornalista 2)

Ela então deu um pequeno sorriso quando a câmera mudou novamente para o rapaz.

— Estaremos acompanhando de perto todas as noticias sobre o avanço dessas pesquisas e garantimos que voltaremos a trazer para vocês informações relevantes sobre o caso. Eu sou Jefferson Morales. (Jefferson)

Um foco rapidamente mudado para a garota a seu lado.

— E eu sou Jessica Parker, contamos com vocês amanhã no mesmo horário. (Jessica)

— Boa noite! (Jessica)

— Boa noite! (Jefferson)

A mesma musica de entrada tocou, uma melodia leve e suave representando o final do noticiário, enquanto alguns nomes e destaques eram mostrados subindo no meio da tela.

— Que interessante... Com essa descoberta ele vai revolucionar o mundo... Provavelmente até ganhar um Nobel... (Eu)

Alguns dias se passaram e tentei acompanhar um ou outro noticiário sobre o caso, mas quase nada foi mostrado, geralmente utilizavam como argumento que não haviam ainda conseguido manter uma comunicação com o cientista e que continuariam a tentar.

Estava eu chegando da faculdade, colocando a chave da moto sobre o rack e ligando a televisão quando o mesmo senhor vestindo seu terno branco dava uma entrevista para o canal de estudos humanos.

— Você então esta animado com isso? (Jornalista)

— Sim, nós conseguimos um excelente resultado, muito antes do esperado, não há motivo algum para aguardarmos até o final do ano! (Albert)

Com a câmera enquadrando ambos, que se encontravam em duas poltronas reclináveis, visualmente bastante confortáveis, eles se encaravam com ar de seriedade.

— O senhor então está dizendo que os testes em humanos vão começar a ser realizados? (Jornalista)

O cientista abriu um largo sorriso, ajeitou-se na cadeira e voltou a falar.

— Na verdade eles já estão começando, nós conseguimos um acordo para com o governo, eles nos autorizaram a utilizar como “cobaias”, ou melhor dizendo, “recursos científicos” alguns dos criminosos que se encontram já no corredor da morte. Eles já estão a serem escolhidos e a se dirigirem aos nossos laboratórios, com o simples acordo de caso os testes forem bem sucedidos as suas penas de morte serão reduzidas para uns trinta ou quarenta anos. (Albert)

Com um olhar um pouco surpresa a jornalista encarou ele por alguns instantes, enquanto eu mesmo me sentava no sofá, jogando minha mochila de lado.

— Já começaram a testar humanos? (Jornalista)

Quase como em uníssono eu também havia feito essa pergunta dentro de minha casa, mas mais pra mim mesmo, afinal ele não estaria me ouvindo de qualquer forma.

— Exatamente, terei melhores e maiores noticias para lhes dar até o fim da próxima semana, que será quando os testes realmente vão estar acontecendo e gerando resultados. (Albert)

— Não pode nem nos dar mais uma palavrinha sobre eles? (Jornalista)

Ele me parecia meio sem graça, levantou-se da cadeira e esticando a mão em direção à jornalista.

— Me desculpe, de momento eu realmente não posso lhes dizer mais do que o que já lhes ofereci. (Albert)

A jornalista sorriu de volta e se levantou, apertou a mão dele e fez um leve aceno com sua cabeça.

— Muito obrigada por estar aqui hoje, esse foi Albert Panchklovisk, em uma entrevista exclusiva... (Jornalista)

Ainda surpreso pela eficiência e rapidez com que os acontecimentos se desenrolavam eu desliguei a televisão, deixei o controle de lado no sofá e fui caminhando até o meu banheiro com a intenção tomar um longo banho, me despi e liguei o chuveiro, ali de baixo da agua corrente que caia sobre minha cabeça e escorria até o chão comecei a pensar sobre como a tecnologia estava avançando rapidamente.

Umas semanas depois eu me encontrava mexendo em frente a meu computador de mesa, vasculhando as noticias e vendo diversos relatos de sucessos absolutos sobre as pesquisas, os testes estavam curando as pessoas e impedindo-as de ficarem até mesmo resfriadas, dando esperanças para todos que enchiam a internet de boas noticias e animação quanto ao projeto.

Cheguei até a pesquisar sobre o que se tratava o projeto cientifico desse renomado cientista. Ele se baseava na criação de uma célula modificada que agiria no corpo humano como uma barreira protetora, por ter uma rápida divisão celular ela cobriria todo o corpo com essa "camada protetora", não deixando o ser humano exposto a nenhum tipo de bactérias ou vírus.

Todos, obviamente, com tantas noticias positivas começaram a investir ao máximo, as empresas que começaram com tudo aumentavam a quantia investida, enquanto novas empresas se sentiam obrigadas a contribuir para que o futuro pudesse ser melhor para todos.

As semanas se passaram e eu continuava a pesquisar fervorosamente sobre o assunto em meu tempo livre, acompanhando todas as noticias que saiam e relatos de todas as pessoas. Enfim o teste fora finalizado e um sucesso implacável havia sido diagnosticado em relação ao projeto. Com isso eles iniciaram as produções e venda das células, mas o preço era muito acima do meu orçamento financeiro.

Então após alguns meses de vendas o preço começou a subir um pouco e ficar, digamos, mais salgado. Era completamente impossível pra mim, um estudante medicina, morando sozinho em uma casa alugada e tendo que pagar todas as despesas comprar sequer um quarto dessa nova forma medicinal.

Alguns relatos aleatórios e espalhados comentavam sobre pessoas que haviam comprado as células e alguns efeitos colaterais os deixavam com tontura e/ou com muita fome. Algumas respostas, provavelmente automáticas, chegavam a essas pessoas, dizendo que de acordo com cada metabolismo as células vão estar agindo de uma forma que gaste um pouco mais ou um pouco menos de energia, fazendo-os ficar com mais fome do que o normal, e quanto à tontura deram a mesma explicação, dizendo que era apenas um efeito colateral da fome, nada para que se preocupar.

Mais relatos surgiam, algumas pessoas acabavam por ficarem internadas em condições graves e outras começaram a surtar com tudo isso, por algum motivo parecia que as células estavam ficando fora de controle, assumindo uma consciência própria e rejeitando os corpos dos indivíduos.

Encontrava-me deitado em meu sofá quando o primeiro anúncio sobre os acontecimentos pelos quais nós passávamos diariamente fora citado no mesmo jornal da tarde que iniciara dando a noticia sobre a descoberta.

— O renomado cientista Albert Panchklovisk veio à publico esclarecer algumas duvidas e perguntas que todos estão se fazendo ultimamente. As células podem ser perigosas? Os testes mostravam alguma falha ou comportamento indevido sobre as mesmas? (Jessica)

A moça ruiva encontrava-se sozinha por trás daquela mesa branca, mas não me parecia nem um pouco insegura. Levantei-me e ponto de me sentar no sofá e apoiar-me com as costas em seu encosto.

A câmera que antes focava Jessica agora fora completamente substituída pela visão do cientista atrás de um balcão repleto de microfones, discursando enquanto diversas pessoas estavam ao redor e falando atrás da câmera que o filmava.

— Venho declarar a todos que isso não passa de uma coincidência, não há risco algum em relação às células, fizemos todos os testes possíveis e não foram apresentadas falhas e muito menos problemas quanto às mesmas, são completamente seguras e todos nós da própria empresa fizemos a aplicação delas em nossos organismos cerca de uma semana atrás, então lhes garanto que não há com o que se preocuparem, os metabolismos e organismos de vocês apenas não estão acostumados, se derem um tempo, e me fizerem o favor de aguentar por mais alguns meses, vou mostrar o que lhes estou a dizer, todas essas noticias não vão passar de boatos e no final a verdade prevalecerá. (Albert)

— Essa foi a declaração de Albert e de sua empresa, a C&LL considera fechar a produção momentaneamente, para após confirmarem as “falsas noticias” possam ter seu nome restaurado e segundo elas, abre aspas “voltem a fazer o bem para a população”, fecha aspas. (Jessica)

Mas as noticias não pararam por ai, as pessoas começaram a mudar, não de uma forma boa, mas de uma inexplicável.

— Morre hoje o cantor Silvio Hanko, vitima de um ataque cardíaco. (Jornalista 1)

— O mais novo transplantado Kenny Falsto teve uma rejeição de órgãos e veio a falecer na tarde de hoje. (Jornalista 2)

— Mais uma morte confirmada, Sanna Empolsen fora encontrada em sua residência, encontrada pela família perto de frascos de remédio e de todos de nossa emissora desejamos nossas condolências. (Jornalista 3)

— Outro caso intriga a população, o menino Jason Towdd que foi atropelado recentemente encontra-se no hospital, sua família implora para que os médicos o salvem, mas o garoto encontra-se nervoso e se debatendo, relatos dizem que ele até mesmo tentou morder sua mãe quando ela se aproximou demais da cama. (Jornalista 4)

— Não sabemos o que está acontecendo, as pessoas estão se comportando estranhamente, diversos relatos de morte ou quase morte seguindo o mesmo padrão, com as vitimas voltando à vida, mas mudadas, sem ideia alguma de quem são, categorizados com amnesia e agindo como animais, como simples canibais. (Jornalista 5)

— Os civis estão sendo orientados a ficar em suas casas, sair apenas se necessário, a situação esta tentando ser controlada e a empresa C&LL esta sendo culpada por tudo o que anda acontecendo. (Jornalista 6)

— Repito, não obtenha contato com ninguém que tenha sido implantado as células, não importa se for parente, amigo, conhecido ou namorada. Mantenha-se seguro até que descubram uma forma de reverter o que quer que esteja acontecendo. (Jornalista 7)

— Estamos tentando entrar em contato, mas a empresa C&LL fechou sua sede e se mantem afastada do publico. (Jornalista 8)