Notas iniciais
Eric narrando.

O que posso dizer sobre esse dia que mal começou e já está sendo maravilhoso?

Para começar, acordei às quatro da manhã porque Alice quis.

O fenômeno dos sonhos só fora descoberto recentemente. Trata-se da capacidade de interferir no sonho dos outros. É bem fácil, porém muito sutil, o que explica o porquê de ninguém nunca ter percebido antes.

Funciona da seguinte forma: você entra no estado espiritual e viaja seu espírito até o corpo de quem estiver dormindo. Quando tocar essa pessoa, você conseguirá interferir em seu sonho, não saberá como ou por que, mas tudo que falará aparecerá no sonho da pessoa.

Estava tendo o sonho mais estúpido possível, é claro. Uma festa, onde várias coisas aconteciam ao mesmo tempo, pessoas muito aleatórias de minha vida faziam coisas mais aleatórias ainda, até que Alice, a própria, jogou um copo de bebida em minha roupa e disse “ACORDE SEU IDIOTA”.

E então acordei.

Quando levantei, tive outra surpresa. Ao olhar a cama do lado, Diana está dormindo pacificamente ao lado de dois gatos, sendo um Alex e o outro o prisioneiro, um mais tranquilo que o outro. Entro no estado espiritual levemente. Suas auras estão misturando-se levemente, brilhando em diversas direções de uma forma calma e serena, como se ele estivesse a curando-a.

Fiquei tão atordoado com essa cena que não consegui tirar os olhos dela por alguns segundos. O gato não dormia, apesar de estar confortavelmente enrolado em si. Ele me observou alguns segundos, depois voltou a fechar os olhos, como se eu não fosse preocupação alguma.

As coisas só tendem a complicar mesmo. Agora o gato inimigo está curando Diana, e a menos que ele queira com muita força apontá-la como sua aliada, ele está fazendo algo sem sentido algum.

Ele estava me dando claras evidências para desconfiar de Diana.

Respiro fundo e saio do quarto. Alice encontra-me quase que imediatamente no corredor.

– Perdi o gato – ela diz de imediato.

Rio, nervoso. Sarcástico.

– Já sei onde ele está – digo. Ela me encara. Está suando, provavelmente deve ter revirado o acampamento inteiro atrás, sem supor que o gato estaria ainda na casa. – está curando Diana de alguns hematomas.

– Está o que? – ela pergunta, aumentando o tom de voz. A puxo para o corredor, descendo as escadas.

– Eu não sei também ok – digo, parando no refeitório, no primeiro andar. – ele só apareceu lá e eu vi que estava curando-a.

– E você deixou? – Alice parece brigar comigo.

– Você estava vigiando-o – Digo, rebatendo seu tom acusador. – como ele passou pelo feitiço?

– Não sei – ela diz. – Diana deve ter aberto para ele.

Encaro-a, incrédulo.

– Hoje Diana correu tanto que quase esfarelou o próprio espírito. Acha que ela possa ter desfeito um feitiço da luz?

Alice revira os olhos.

– Se ela não for mesmo Diana, e sim Liana... sim. – ela diz. Rio, nervoso, indo para o pátio. Está frio, mas não me importo com isso.

– Não tem sentido ela deixar tão claro que tem um aliado assim – eu digo – ele fez isso por que quis.

– Por que ele iria querer isso? – ela pergunta, seguindo-me.

Não sei, assim como ela. Passo a mão pelos cabelos. Crescem cada dia mais, porém não tenho tempo de cortá-los.

– Tire-o de lá então. – digo, por fim.

– Eles marcaram o julgamento para amanhã, você sabe não é? – ela diz.

Viro-me para ela.

– Eu estava no conclave. – digo, lentamente. Não marcaram nada.

– Você saiu antes.

Respiro. Preciso ser cauteloso com o que digo, mas não tem como guardar mais dúvidas.

– E se julgarem ela errado, e ela morrer, sendo a verdadeira? – pergunto, subitamente. Olho Alice, já afastada de mim.

– Você acha que ela é? – ela pergunta. Nego com a cabeça.

– A história dela faz sentido também. – digo. – mas Hayle não é ruim. Ela não pode estar fingindo.

Olho para Alice, e então para o chão. As coisas não fazem mais sentido. Há oito anos conheci uma garota que se tornaria minha melhor amiga nesse lugar. Um ano depois estávamos em guerra entre os acampamentos, e ela decidiu salvar tudo recuperando o que os outros anciões haviam roubado. Eu não saberia dizer qual garota voltara naquela noite. Não lembrava as diferenças, não notara diferença alguma na verdade, porque nem cogitava que Diana tinha uma irmã gêmea. Minha memória falhava, mentia, isso é ser humano, é criar memórias falsas e acreditar nelas, querendo ou não.

Afinal, eu deveria prender-me às memórias? Não seria mais correto, no final de tudo, apenas julgar o que é certo e errado com base no que vi nos últimos tempos? Não. Não porque as memórias atrapalham até mesmo nisso. Se Hayle na verdade for Liana, ela pode ser muito mais poderosa que qualquer um de nós, e seu envolvimento com a magia novamente, ela pode lembrar de onde veio, seu propósito.

Mas se Hayle for Diana, um erro nesse julgamento levaria à destruição de todo o acampamento. Liana permaneceria aqui, vigiando-nos, por quanto tempo fosse preciso até os outros anciões decidirem nos atacar.

Alice me abandona, sem nada dizer. Sei que não estou sozinho também. Já havia percebido sua presença quando chegamos ao pátio, mas pouca diferença fazia. Logo menos ela saberia toda essa história.

– Lisa – digo.

Há algum tempo passei a encontrar Lisa em minhas viagens espirituais noturnas. A via deitada no mesmo banco do pátio, ouvindo musica, lendo livros. Alguns dos animais reais em nosso acampamento, aqueles que não ficavam confusos com nossas transformações, algumas vezes apareciam ali, para ficar perto dela.

A primeira noite em que apareci lá sem ser por espírito, perguntei o que ela fazia. Respondeu que apenas respirava um pouco. Sei que todos nós temos problemas, problemas muito grandes até, que a maioria nem se dá conta disso, olhando sempre e somente os próprios. Lisa não é uma exceção. Nunca perguntou muitas coisas sobre mim, mas isso não me incomodava também. Não gostava muito de falar sobre mim.

No ultimo ano pouco apareci, pois cuidava de Diana. Fomos nos distanciando então. Lisa e Ana já namoraram uma vez, mas Ana acabara desistindo, não soube o motivo. Sei que ambas sofreram, e que é complicado qualquer tipo de relacionamento aqui dentro. Sua mente é algo muito fácil de invadir quando você mantém algum relacionamento. A telepatia permite isso: troca de imagens, de sons, de lembranças de aromas. Uma telepatia avançada, no caso. A minha com Diana não chegara a esse ponto nunca.

Lucas gostava de Ana na época em que ela namorava Lisa. Quando elas se afastaram, Lucas e eu já éramos amigos. Ana ficara pior com ele com esse afastamento de Lisa. Em minha opinião, Ana ficara pior com todos. Foi aí que Lucas disse que seria o guardião de Diana por um tempo, atuando como professor de matemática em seu curso. Somos amigos desde meus quatorze anos aproximadamente. Apesar de não ser parte da inteligência, Lucas é um gênio. É um bom líder também, tanto que provavelmente seria acolhido pela inteligência no final desse ano. Talvez ainda seja. As pessoas seguem Lucas, independente de sua posição na Casa.

Da segunda vez que vi Lisa, fiquei apenas invisível ao seu lado até cansar. Talvez ela não quisesse companhia nessas horas, optando apenas por ficar no silencio de seu ser. Naquela época, acabei adotando o mesmo horário de sono dela. Ninguém aqui tem um horário muito saudável porque há alguns turnos noturnos, ou porque a noite seja mais tranqüila também. Percebi que ela parecia sozinha e triste quando eu aparecia invisível, e até chorava. Então parei de espioná-la.

Desde que Diana chegou não a tenho visto, tanto de dia. Esse se trata do primeiro dia que a encontro à noite.

Ela aparece, saindo da invisibilidade. Imagino que tenha cogitado permanecer em silêncio, mas eu vira algumas folhas se movendo, seus passos. É algo que só aprendi quando dominei a invisibilidade mesmo, porque há a necessidade de tomar cuidado para não ser notado.

– Teremos alguns problemas, não é? – ela diz. A raiz de seus cabelos, loira, já é visível. Veste um moletom grosso e encolhe-se. Estou começando a sofrer os efeitos da noite fria.

Assento com a cabeça.

– Eu segui Alice quando foram falar com Liana – ela diz. Encaro-a. Não estou irritado, só decepcionado comigo mesmo por não ter percebido.

– Tudo bem. – digo, indo em direção à Casa azul, devagar. Já está amanhecendo.

– Acho que você deveria proteger o que te faz bem Eric – ela diz, então paro diante da porta. – independente de quem seja Diana.

– Acontece que importa quem é de fato Diana – digo.

– Por que você era apaixonado por ela aos doze anos?

Isso acaba me atingindo com uma força devastadora, quase que atingindo minha alma, mas mantenho a mesma expressão.

Reviro os olhos.

– Tanto faz – digo, entrando pela porta do refeitório. Procuro algo para comer na geladeira, e encontro vários bolinhos recheados. Pego um e subo novamente para os quartos, sem ter dormido o suficiente, sem querer pensar sobre nada.

O gato não se encontra mais perto Diana, que está na mesma posição que antes, dormindo. Deito-me e afundo no sono observando seu rosto, na esperança de encontrar a resposta em seus traços, entretanto acabo lembrando-me de algo que queria há muito esquecer sobre Lisa.

Notas finais
Obrigada por ler :( poucas pessoas chegaram até aqui, eu suponho. Agradeço de verdade você por isso.