Zodíaco
5 As aparências do gato do mato enganam
O refeitório ocupa parte do primeiro andar da casa azul. Possui várias cadeiras. Algumas pessoas já acordaram, as quais estão de pijamas, assim como Juan. Seguimos para a mesa onde algumas senhoras colocavam frutas, pães e bolos sobre. Uma delas sorriu para mim.
Peguei dois pêssegos, mas Juan encheu um prato com um pouco de tudo. Sentamos em uma mesa de quatro lugares.
– Então – ele pergunta – as memórias estão voltando?
– Mais ou menos – minto. Não me lembro de nada, mas... – não me parece tão estranho, sabe?
– Ah, sim – ele parece meio desapontado – mas você tá reagindo bem até. Os calouros geralmente ficam muito perdidos. E assustados com tudo.
– Imagino – a cortesia mais simples que existe. Quero perguntar muitas coisas, mas me sinto incomodada de certa forma. Tento arriscar mesmo assim. – Você pode me explicar sobre... tudo, um pouco?
Juan parece ter se iluminado nesse momento.
– Claro! Acho que Eric vai me bater, mas tudo bem. Vamos lá. Tudo começou com clãs, famílias, sabe. Mas muitas pessoas saíram, e tiveram filhos com humanos normais, aí decidiram mandar eles para cá, e agora temos o acampamento. Nós nos mantemos, compramos bem pouca coisa, só o necessário, tipo o trigo, e plantamos todo o resto. Tem uma vila não muito longe daqui, aí vamos lá toda semana.
– Certo... E quanto ao... sobrenatural? – pergunto.
– Então. – Juan é bem expressivo e direto enquanto fala – nunca aprofundamos na área científica, mas é de muito tempo. Existem diversos tipos de magos, e aqui treinamos entre si, lendo livros e nos ajudando. Tem magos que desenvolvem habilidades de controle dos elementos, como água, terra, fogo e ar. Tem os que desenvolvem a magia negra e a da luz, como eu, Eric. A magia da luz é a da proteção, a negra era proibida, mas ela que nos dá os teletransportes, então ela tá liberada se não usar contra o amiguinho. – ele sorri. – mas a principal habilidade que nós, magos, tempos, é mental, psicológica. Ana!
Viro-me e vejo a ruiva Ana vindo em nossa direção. Ela sorri quando olha para mim.
– Desculpe por ontem, Diana. – ela diz.
Olho para Juan, perdida. “Diana” é algo muito estranho para mim, talvez não para eles.
– Sim, bastante gente te conhece. – ela completa.
Ana parece mais bonita hoje que ontem. Suas sardas não estão tão evidentes, mas ainda aparentes, com certa leveza. Apesar do desencontro na noite passada, não achava que Ana fosse uma daquelas garotas mimadas ou irritantes que nos deparamos na escola a vida inteira. Parecia de certa forma agradável, carismática, assim como Juan.
– Mas e aí – ela diz – como está se sentindo?
– Estranha, e um pouco perdida – admito – é meio estranho imaginar que tenho algum tipo de poder.
– Ah, mas você tem. – ela abre o iogurte, delicadamente – e aposto que já manifestou. Ela era o que antes, Juan?
– Da inteligência. Branca, Negra e Água, eu acho.
– Uou – Ana sorri – viu? É bastante coisa. Já estranhou a água alguma vez?
– Não que eu me lembre. – não que eu entenda também o que se trata “estranhar a água”. Perceber coisas estranhas nela, algo assim? De qualquer jeito a resposta era não.
– Ah – ela faz um sinal de indiferença – talvez não tenha manifestado algo físico, mas psíquico. Já teve algumas visões? Coincidências? Um sentimento como se soubesse o que vai acontecer em relação a alguém?
Meu rosto deve ter clareado como uma lâmpada, porque ambos riram. Isso era sério? As coincidências de minha vida eram manifestações psíquicas do meu poder? O velhinho, o enfarto?
– Olha aí a princesa – Juan aponta com o queixo. Eric está escolhendo algumas coisas da mesa, logo vem em nossa direção, sentando-se ao meu lado.
– E aí – ele diz – já passeou por ai? – ironiza.
– Claro – respondo sarcasticamente.
Parecia ter dormido pouco.
– Acordou cedo por que? – Ana pergunta, como se lesse minha mente.
– Por que a senhora ao meu lado estava extremamente entediada. – ele aponta para mim. Fico claramente surpresa.
– E como o senhor sabia disso? – pergunto, revidando a cortesia. Olho para Ana e Juan, e ambos estão rindo entre si. – é sério!
– Eu explico depois – Eric corta o assunto claramente. – Vamos dar uma volta? – ele olha para mim. Dou de ombros.
Despeço-me de Ana e Juan e sigo Eric para a rua. Paro praticamente diante do pátio. Vejo outras demonstrações de magia acontecendo. Um garoto conjurando a água de uma espécie de fonte para regar as plantas. Observo-o por algum tempo. Eric segue meu olhar também, sorrindo um pouco. Seus movimentos são calmos e precisos. Ele parece sonolento, perdendo a água algumas vezes.
– Você parece meio idiota, Hayle – Eric comenta. Reviro meus olhos. – Olha... Acho que sua mãe vai cancelar seu curso. Talvez você ache que isso vai atrapalhar na sua vida, mas... Nós somos ligados ao governo e... – ele para, encarando-me um tempo. – É muito estranho contar essas coisas pra você.
– Eu que o diga – andamos em um ritmo lento pelo pátio, onde observo um campo extenso, onde o reconheço por tratar-se da plantação.
– Então – ele procede – caso você queira entrar na faculdade, não terá muitos problemas. Depois disso. Sabe.
– Você trabalha aqui? – mudo o assunto, de maneira um tanto repentina. Pouco me importa a faculdade nesse momento.
– Sim – observamos a plantação. No lado mais extremo há uma espécie de cabana, onde há certa movimentação de pessoas, fazendo a colheita, carregando vários cestos grandes. – Juan te explicou várias coisas, não é?
– Aham – admito.
– Certo. Sabe, Hayle... Diana. Ah. – ele guia-me, passando pela plantação e chegando á um bosque, em direção norte, além das casas. – nos conhecemos há muitos anos, quando você entrou aqui. Entramos juntos, então fazíamos coisas juntos. Eu pensei que nunca te veria, mas aí me colocaram atrás de você outra vez.
– Isso é confuso.
– Muito. Principalmente no primeiro dia, lembra? Da chuva. Eu estava te procurando, mas você que me achou. E me chamou telepaticamente. – ele parece animado contando isso, como se tivesse esperado há muito tempo para contá-lo.
– Telepaticamente? – pergunto.
– É... – mexe rapidamente nos cabelos – de certa forma, algumas pessoas possuem elos. Fortes. Você não escolhe bem com quem tem, mas é uma questão dos genes mágicos... E também de convivência, interação.
– Juan falou algo sobre branca, negra e água pra mim. Não entendi quase nada, sabe. – admito.
– Ah... isso vamos trabalhar ainda. São poderes que se manifestam de um pra um. Existem os que todo mundo pode aprender, tipo hipnose, ou a troca espiritual. Quando você era pequena, manifestou esses três, que Juan citou. Venha aqui.
Eric entra na floresta, não muito densa a princípio. Árvores altas e afastadas. Andamos por um tempo até encontrar uma enorme árvore a qual suas raízes eram tão grossas que saíam da terra.
– A magia negra é aquela dos teleportes. Lembra? – assinto. – mas ela também controla matéria orgânica. Plantas, animais... humanos. Mas para os últimos é proibido. Considerado tortura. Com plantas usamos na agricultura. Olha.
Eric abaixa, tocando a terra entre seus sapatos. A terra salta, como se estivesse recebendo energia, em direção à árvore. Ao chegar às raízes, elas começam a se mover. Lentamente a princípio, arrancando pequenas raízes. Entretanto, não se movem tanto. Acredito que as raízes a fixam ali, e a menos que Eric quisesse demolir a árvore, ele não a forçaria. Moveu apenas o necessário para que eu entendesse seu poder.
– A magia branca – ele prossegue, limpando as mãos – tem maior incidência em quem controla o fogo. É a magia do calor. Ela não faz só isso, mas olhe.
Eric realiza um movimento rápido com os braços. Entre duas árvores surge uma espécie de plasma, algo próximo á água e um arco íris, só que de forma mais sólida e mais visível. Não é grande, mas Eric toca sua superfície. Um campo, um escudo.
– Barra qualquer coisa dependendo do Poder que você tem. – ele diz.
Largando a mão lentamente, passa a encarar alguns arbustos perto de nós. Logo um gato do mato sai de trás de um deles, gracioso e atento.
– Alice? – Eric pergunta.
O gato sai correndo, de volta ao arbusto. A movimentação ali continua. A princípio imaginei mesmo que fosse apenas um gato do mato, apesar de nunca ter visto nem ouvido sobre a existência deles nessa região. Entretanto uma garota saiu do arbusto, da segunda vez.
– Olá – a garota morena sorri para nós. É muito bela e graciosa, assim como o gato do mato. Possui longos cabelos negros e lisos, com uma franja engraçada, pequena. – Eric, ouvi falar que Alec e Vinicius querem falar com você. A notícia de Diana já está correndo por aí.
Eric não responde. Apenas fita o chão, pensativo.
– Você podia parar de fugir com esse espírito por ai. – ela fala novamente.
Ele responde com um olhar ríspido.
– Certo. Leve ela até a Casa Norte, então?
– Claro – Alice sorri para mim, um sorriso singular.
Eric parece aborrecido quando passa por mim, mas não comigo. Penso a princípio tratar-se da garota, então decido tratá-la com um pé atrás.
– Tudo bem Diana? – ela pergunta, quando começamos a andar. Sempre ao norte.
– Sim. Fora que até ontem eu me chamava Hayle.
– Acho que terá de se acostumar. – ela diz, de uma forma doce, porém são palavras bem diretas.
– Você é amiga de Eric? – pergunto.
– Sim. Há bastante tempo também – ela parece mais leve, de certa forma. – ele ficou aborrecido por causa de Alec.
– E Alec seria...?
– Um garoto bem chato. É da inteligência também. Você deve lembrar-se dele logo. Vocês eram amigos.
Fico surpresa. Um de meus supostos amigos era considerado chato, e Eric também não gostava dele. As coisas só melhoram.
– Inteligência...?
– Ah. Com o tempo você aprende, Diana. É muita informação. Você está no quarto da inteligência, o vinte e dois. – ela para, olhando em todas as direções aleatoriamente, com calma. — Vamos fazer uma mentirinha. Vamos andar pelo campo e conversar coisas normais. Não acho que seja a melhor hora para te levar para a Casa Norte.
– Eric não ficará irritado? – pergunto, sentindo-me uma criança vinculada à mãe.
– Não. Ele está lidando com outras coisas agora.
[...]
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