Zodíaco
8 Problemáticas
Notas iniciais
Queria, muito, de verdade, ter matado o garoto que atacou Diana. Porque em algum momento ele conseguiu envenená-la, e isso ela carregará por dias no corpo.
Entretanto, isso me deu uma ótima idéia. Uma idéia que deveria ter passado pela minha cabeça no momento em que fomos atacados. Apesar de não sofrermos ataques o tempo todo, treinamos para resisti-los. E um de nossos treinamentos envolvem instrumentos afiados.
A maioria dos magos luta usando magia, mas nem sempre é a melhor solução. Vitor levou anos até conseguir dominar o ar decentemente, a fim de usá-lo em batalha. Aprender a utilizar instrumentos afiados necessita quase a mesma dedicação, com a diferença que seu espírito não cansa tanto.
Assim quando olhei Diana uma última vez, corri para o sótão da Casa Sul. A escada tratava-se daquelas de puxar, e já estava puxada. Subi e encontrei uma garota revirando as coisas, provavelmente atrás de algum instrumento. Ela olhou assustada pra mim, mas não atacou ou algo do tipo. A Casa não havia sido invadida ainda. Sem enrolar muito, peguei uma faca e coloquei no bolso, voltando ao salão principal.
Desço as escadas até o primeiro andar. Poderia saltar da varanda, mas passei quase um ano sem fazer qualquer coisa do tipo. Escadas tornaram-se parte de meu cotidiano.
Passo pelo escudo que mantinha a Casa protegida sem maiores problemas. Logo encontro-me voando alto como uma águia. Estava me arriscando mesmo nos ares, onde a batalha também estava sendo intensa, com as dominações dos elementos, mas não havia outra opção viável. Precisava de uma visão boa. Minha visão espiritual estava muito afetada porque a floresta estava mais cheia do que nunca. Entretanto, avistei uma pessoa sozinha a um quilometro e meio, e é para lá que fui.
Voltei à forma humana alguns metros antes de chegar perto do ser. Andava devagar, como se estivesse ferido. Um erro de minha parte.
Eu aproximava-me devagar quando a aura sumiu, reaparecendo, atirando-se sobre mim. Meus reflexos foram o suficientemente rápidos para eu transformar novamente, tomando a forma de um felino qualquer, segundos antes de cair, enroscando-me no outro ser.
Também como um felino cinzento, talvez uma onça, ela me ataca. Revido o máximo possível, mas estava desacostumado com a forma felina maior. Suas garras enroscam minha pele com facilidade enquanto tento, com muita dificuldade, me afastar.
Quando finalmente o consigo, percebo algumas coisas. Trata-se de um felino híbrido, muito provavelmente resultado de uma transformação forçada, rápida e irregular. A maior prova disso também se deve ao fato de ele ter asas.
Ele ataca novamente, após alguns segundos recuperando-se. Uma de suas patas está machucada. Dessa vez estou muito mais alerta, conseguindo ficar na vantagem. Ele crava as garras em mim, mas já mordo seu pescoço, com força suficiente para sentir o sangue tocar minha boca. O felino solta os mais profundos e desesperados sons, sons que me incomodam a ponto de largá-lo.
Esse tipo de luta é o que mais nos modifica por dentro. São os gritos agonizantes de animais, sendo que somos humanos. Quando se está lutando como um animal, não nos sentimos um, nem ao menos humanos. O sentimento é puramente assassino.
O enorme animal cai. Cai, ensanguentado, derrotado. Seus olhos me fitam uma última vez. Tem ódio. Também há impotência, tristeza, bravura. Sinto seu choro, silencioso.
Tão pouco ela transforma-se, revelando sua forma humana. Estava morrendo. Quando morremos em formas zoomórficas, nosso espírito desaparece por completo do mundo. Não sabe-se para onde vai, portanto acreditamos que desaparece. Entretanto, uma morte humana, em nossa espécie, o espírito continua vivo, podendo ser visto no estado espiritual quando invocados. Com o tempo param de freqüentar o mundo espiritual e partem, quando esquecidos. Alguns poucos permanecem na clareira. Mesmo que não os conhecemos, eles aparecem, pois alguém se lembra deles.
Ela possui cabelos longos, os quais tampam seu rosto enquanto deitada. Suas roupas são escuras, mas simples. A perna esquerda está machucada, a calça rasgada.
Por mais que pareça uma decisão estúpida, sempre segui meus instintos. E eles diziam que não deveria sacrificá-la. Talvez fosse fraco demais para matar alguém. Já matara quando menor, mas não por vontade de matar, apesar de que conseguiria matar o ser que atacou Diana mais cedo. Apesar de estarmos em guerra, apesar de haver mortes, lutas e ferimentos, não queria matá-la. Algo me dizia para não matá-la.
Torno à forma humana, retiro a faca do bolso e salto, caindo ao lado da garota ao mesmo tempo em que a faca é cravada no solo e somos engolidos pela magia negra.
A cabana está empoeirada, inutilizada. Caio junto à garota, sentindo de imediato o impacto espiritual da travessia. Devo ter viajado uns sete quilômetros, pois a cabana em questão ficava perto da Casa Norte, e o território em que estávamos lutando era muito próximo à Casa Sul. Não havia tentado viajar nem com Diana uma distancia tão grande assim.
A garota continua na mesma posição, quase fetal, no chão, ao meu lado. Sei que está viva porque respira alto, como se, assim como eu, havia sofrido os impactos da magia.
Levanto-me com certa dificuldade e procuro alguns fósforos e velas. Em um dos armários encontro ambos, acendendo-os alguns. Fico de olho espiritualmente na garota enquanto faço o processo. Ela mal se move. Talvez morra, mas minha visão está turva, me encontro praticamente escorando as paredes para não cair. Também não sei curar, muito pouco, porque nunca de fato consegui dominar a água, apesar da cura não se tratar de algo especial para dominadores da água. Eles apenas têm maior facilidade, ou maior tendência a desenvolvê-la melhor.
Paro diante da garota. Ela me encara, parte do cabelo ainda no rosto.
Tenho a impressão que meu cérebro começa a falhar no momento em que identifico e reconheço seu rosto.
Ela fecha os olhos e deita a cabeça no chão, pressionando a mão no ombro. Ao contrário do que pensava, eu havia mordido seu ombro, não seu pescoço.
Aproximo-me dela, e sua reação é virar o rosto e me encarar. E assim ficamos por alguns segundos, nos encarando. Ela mostrando olhos ferozes, olhos raivosos. Um pouco incrédulos. Seu rosto estava sujo de tudo: terra, sangue, um pouco vermelho, um pouco molhado, assim como seus cabelos. Sinto seu medo, mas sinto seu poder. Ela pressiona o ombro, quebrando o momento, guinchando baixinho.
Levo minha mão ao seu ombro e tento curá-la, mas parece em vão. Ela então move-se subitamente, deitando o rosto novamente, olhando para o teto. Respira com força.
– Não sei se consigo te ajudar – falo, e no mesmo segundo parece muito patético. Eu a deixara assim. Sangrava muito, assim como começava a chorar.
Entro em um mini desespero e tento novamente curá-la, colocando ambas as mãos nos ferimentos. Ela respira com dificuldade, mas então consegue tocar meu braço, ensangüentando-o.
Ela respira e fecha os olhos. Sinto imediatamente meu braço enfraquecendo. Sua respiração torna-se regular a cada segundo que passa. Está curando-se, usando meu poder. Não o poder da pequena pedrinha lilás que carrego em meu bolso, mas o poder de verdade, como minha força vital.
– Obrigada – ela diz, a mesma voz, a mesma ternura. O mesmo olhar, gradualmente fechando.
Ela larga meu braço e vejo que não sangra mais. Está curada, a principio. Olho sua perna esquerda. Aparenta estar melhor também, apesar da sujeira e do sangue. Respira com calma e devagar.
Passo meus braços por baixo de seu corpo e ela se torna arisca, assustada.
– Calma – digo — Ela mantém os olhos atentos. A ergo com facilidade, deixando-a no sofá, com algumas toalhas que encontro no armário mais próximo. Checo todos os armários antes de sair também. Pego minha faca, ainda jogada no chão.
A cabana, apesar de abandonada, ainda é utilizada em conclaves. Uma nova cabana estava sendo construída, próxima à Casa sul, para a criação desses conclaves, entretanto a maior parte da batalha aconteceu lá. Talvez esteja destruída, ou até inacabada. Sento-me na única cadeira da mesa à minha frente, e encaro a refugiada deitada em meu sofá.
– Você deveria ter me deixado morrer – ela diz, com a voz fraca.
– Por que? – pergunto, sem emoção.
Ela apenas lança um olhar, tal como “não está obvio?”.
– Seus amigos estão morrendo. – ela diz.
Sim, a batalha ainda está acontecendo. E eu estou acabado. Tenho absoluta certeza que se perder a pedra em meu bolso, morro virando pó na próxima magia que conjurar. Fazendo um levante, dormi duas horas, trabalhei de dia, entrei na maior forma zoomórfica possivel, teleportei quinze milhões de vezes nos últimos dois dias distâncias máximas, fui eletrocutado quando um inimigo decidiu afogar Diana e me pegou totalmente desprevenido com uma descarga de energia que nunca havia visto alguém conjurar antes. Diana, que por sua vez, quase morreu afogada, asfixiada e também envenenada, assim como esfaqueada. Após isso apenas lutei com um felino alado duas vezes meu tamanho e o deixei tão machucado que tive pena, trazendo-o para a cabana onde possivelmente vamos nos reunir daqui a algum tempo quando, se isso acabar “bem”.
Apesar dos apesares, não havia perdido um braço, uma perna, pouco estava machucado fisicamente, entretanto o espírito estava esgotado e isso matava tanto quanto uma facada. Era questão de tempo até meu espírito não conseguir voltar ao corpo, e então cair por terra.
Levanto-me e sigo até a porta, selando a cabana com um feitiço interno. A garota tinha razão. Meus amigos estavam morrendo, e talvez eu devesse ajudá-los, até pelo menos o momento em que terei que contar que encontrei a cópia exata de Diana Luné.
E a salvei.
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