Zodíaco
12 Peixes
Notas iniciais
O primeiro livro que abri tratava-se de estados espirituais. Interessante. Antigo, meio mofado, espirrei algumas vezes, mas o considerei interessante o suficiente para não deixar de lado. Das coisas que entendi até o momento, o estado espiritual tratava-se de uma das mais interessantes. Entenderia finalmente Eric, de certa forma, e todas as vezes que ele ficara parado, fitando o nada. Entenderia o que ele vê.
A capa do livro possuía uma pedra vermelha incrustada. Já vira Eric com uma pedra dessas no bolso, muito semelhante. Ele dizia que trazia sorte, quando na verdade trata-se da fonte de Poder que tanto falam. Um mineral mágico. Os exercícios que o livro trazia algumas vezes não faziam sentido ou usavam um linguajar muito antigo. Segui os desenhos preferencialmente.
Com a mão na pedra da capa, consegui entrar no estado espiritual pela primeira vez, por breves segundos. Não há silêncio algum: consigo ouvir, até melhor que antes, mas não sinto nada além disso. Não há frio, calor, ou quaisquer formigamentos. Não há meu corpo sequer. Entretanto, sinto meu espírito ali.
Viro-me para meu corpo, e entendo finalmente o que se trata uma aura. Brilho levemente em alguns tons mistos, verdes e rosados. Meu corpo permanece fitando o vazio. Imaginei então sair do quarto, e acabei indo tão longe em tão pouco tempo que me assustei. Estava no pátio, voando, mas não havia ar. Meus pés tocaram o chão apenas em minha visão, porque não os sentia também, mas sabia que estavam ali.
Imaginei-me voltando ao corpo, e voia’là. Estou de volta, respirando normalmente.
Continuei lendo a respeito do estado espiritual. Haviam outros dois estados, tais quais a invisibilidade e o zoomórfico. Não queria arriscá-los, então apenas entrava no espiritual, aprimorando-o de uma maneira inexplicável. Apenas sabia como melhorá-lo, tornava-se automático por em prática. Arrisquei somente uma vez uma grande distância, indo até a Casa Norte em questão de segundos. E apesar de ir tão longe, sabia cada pessoa que estava no caminho como se as informações fossem anexadas em meu cérebro sem de fato tê-las visto nitidamente. Era incrível.
Então Eric entrou no quarto. Ele para diante a porta.
– Eu te vi – ele diz, sem expressão, apesar de me olhar nos olhos. – está indo bem.
Começo a organizar os livros.
– O que faremos? – pergunto. Ele fica pensativo por uns segundos, então olha para si mesmo, rapidamente. Está sem tomar banho há algum tempo.
– Vamos treinar mesmo – ele diz. Sei que a idéia de um banho foi cogitada, porque assim que ele saiu, eu mesma tomara um, e somente porque o banheiro estava vazio.
– Treinar...?
– Zoomorfia. – ele diz, subindo em uma das camas e pondo a mão em um dos armários. Revira umas coisas e então pega um pequeno objeto entre os dedos. Outra pedra, lilás. Ele me entrega. – Guarde no bolso.
– É minha agora? – pergunto. Ele ri.
– Sim. – é bom ver Eric rir novamente. Nos últimos dias ele parece ter aumentado a tensão consideravelmente.
– Eu acabei de aprender a entrar no espiritual – digo – tem certeza que é uma boa idéia eu virar um lobinho por ai?
Ele ri novamente, apesar de eu estar falando sério.
– Não tem problema, é bem fácil. – ele diz, revirando algumas coisas entre as camas. Encontra um par de luvas sem dedos e as coloca.
– E se eu virar um peixe? – pergunto novamente. Não estou brincando, juro. Meu cérebro tem esses acessos de pensamentos aleatórios. Algo do tipo realmente pode atrapalhar, eu acredito. Li a respeito, lembrando-me do gato prisioneiro de uma asa só.
– Acho difícil você virar um peixe – ele diz, arrumando as luvas.
– E se for algo muito pequeno? – Eric realmente está rindo de mim. Ele vai até a varanda, e o sigo.
– Não podemos nos transformar em algo muito pequeno, como um inseto, ou muito diferente de mamíferos. Dragões – ele aumenta o tom, ao pressentir minha pergunta – são raros. São difíceis. É outra coisa.
Eric sobe no parapeito da varanda, sentando-se.
– Não vem? – ele pergunta, simplesmente, abrindo o sorriso novamente. Claro que vou pular pela sacada do terceiro andar. Por que não?
– Acho que não é possível – digo.
– Diana, você sabe que não vai acontecer nada – ele diz – já viu muita gente saltando sete, oito metros. Aqui tem tipo isso.
Continuo parada, olhando tanto para ele quanto para o chão muito abaixo de nós.
– Você mora em um prédio de dez andares – ele diz.
– Nunca saltei de um – revido. – não tenho medo de altura.
– Terá que se acostumar. Seu corpo é feito pra isso – ele se prepara pra saltar. – quando chegar lá, dobre bem os joelhos e abaixe o corpo. Isso reduzirá a força porque a ação levará mais tempo.
– Impulso, sim, física e tal – ainda não estou certa de que terei que fazer isso. Ele salta, caindo sem maiores problemas, de forma prática até.
Subo no parapeito. Um medo toma conta de mim. Nunca fui muito atlética, nunca tive que testar minha força, não havia nada que provasse sua existência a não ser minha facilidade em abrir garrafas pet emperradas.
O que me faz saltar não é o medo, é Eric mesmo. Ele me observa, lá debaixo. Por algum motivo sinto que se não saltar ele fará algo pior para provar que possuo essa super força que os magos desenvolvem.
Então salto, quase perdendo o equilíbrio ao cair, segurando-me no chão. O impacto me machuca, mas não da maneira que deveria machucar, do tipo quebrar todos meus ossos. Ele apenas foi um impacto forte, mas bem fácil de superar. Entretanto estou muito nervosa mesmo, quase como se não acreditasse que fiz isso.
Caminhamos até o pátio, entrando na floresta a caminho do norte. Eric nada diz por alguns minutos, assim como eu, principalmente quando passamos por algumas pessoas que trabalham na plantação, nos encarando.
Eric para depois de uns quinze minutos de caminhada. Sinto-me um pouco cansada há algum tempo, mas nada comentei. Teria que deixar de ser sedentária para ficar nesse lugar.
– Você lembra o gato do mato? – ele pergunta, virando-se para mim. Assento com a cabeça. – é um bom animal pra começar. Você tem que entrar no espiritual, mas manter seu espírito preso. Então pensar em um animal.
Entro no estado espiritual sem dificuldades, mas meu espírito acaba escapando. Trancá-lo em meu corpo sem sair do estado espiritual torna-se uma tarefa difícil.
– Relaxe – Eric diz, se aproximando. Fecho os olhos e respiro bem fundo, até que consigo.
Gato do mato. Por favor, gato do mato. Nada de peixes.
Abro os olhos e estou minúscula. Por um segundo apenas não senti meu corpo, e então ele não era mais meu corpo, porque haviam aparecido pelos e cheiros e uma visão estranha das coisas.
Outro gato, um cheiro familiar, me encara. Ele possui olhos azuis e grandes orelhas. Levo uma patada. Revido a patada. Ele me ataca novamente, então rolamos pelo chão, e passo a correr e correr.
Sinto mil cheiros diferentes: da fina chuva que começara a cair, das matas, das flores, de Eric, um cheiro doce e quente do animal que corre ao meu lado. Ele me ultrapassa algumas vezes. Tranco-me em alguns arbustos e sinto dificuldade em mover, enroscando-me nos galhos, então Eric pula nos arbustos e consigo soltar-me, voltando a correr.
Vejo alguns pontos brilhando, auras. Muito fracas, tão fracas e pequenas que quase não parecem anormais no mundo da visão colorida do gato do mato. Volto a correr, mais rápido que antes, perdendo a noção de distância já percorrida. Encontro um riacho.
O salto sem muito parar, continuando a correr, quando começo a ouvir sons pesados, da mesma orelha em que identifico Eric correndo ao meu lado.
Os passos tornam-se mais pesados quando sou atacada por algo maior. Rolamos por alguns metros, batendo minhas costelas em várias raízes, parando em uma árvore. O cheiro é o mesmo: Eric transformara-se em uma pantera. Ela bufa, ao me encarar com seus enormes olhos azuis. Não entendo por que os olhos de Eric mudam para tal tonalidade quando ele está em alguma forma animal, mas não tenho tempo para pensar a respeito.
Ele me puxa pelo colarinho. Reclamo um pouco, mexendo-me, grunhindo, mas ele aperta e continua carregando-me para longe. Debato-me novamente.
Vire algo menor, por favor. – ouço sua voz em minha cabeça, um eco baixo. Não sei ainda se isso é algo que imagino ou que realmente trata-se de telepatia, mas então ele me larga, e ponho a ordem em ação.
Penso em um gatinho qualquer, e logo estou bem menor que antes. Gatos do mato tem um porte médio, agora era praticamente um filhote perto da pantera negra.
Ele me pega novamente pelo colarinho, carregando-me. Sinto meu peso, mas não reclamo. Não está ao todo desconfortável... apenas chato. Quero andar, Eric.
Me largue! – tento dizer, protestando em sua mente.
Eric não me larga, entretanto passo a entrar em um estado de sono estranho, como se estivesse sendo anestesiada. Pouco lembro a partir daí.
[...]
Acordo no conforto frio da cama, a luz de fim da tarde iluminando o quarto sereno. Estou tampada por alguns cobertores macios, e por um momento penso que estou em casa, vasculhando debaixo do travesseiro por meu celular.
A lucidez volta devagar. Gatinho. Pantera. Certo, e o que mais?
Percebo imediatamente que não estou vestindo as mesmas roupas que antes. Checo minhas roupas íntimas. Certo, ainda são as mesmas. Não que isso deixe as coisas muito melhores.
Eric está sentado lendo um livro na cama ao lado.
– Você tocou em mim? – pergunto automaticamente. Sinto uma pontada de arrependimento por parecer tão repulsiva.
– Não – ele responde, sem tirar os olhos do livro – credo, Hayle.
‘Hayle’ não parece tão estranho, apesar de ter ouvido Eric me chamar por Diana nas ultimas vezes.
– Credo? – pergunto, levantando-me. Minhas roupas antigas estão sujas, ao lado da cama.
Eric me olha, dando de ombros, sem saída.
– Quer que eu diga o que? – ele diz. Reviro os olhos.
– Por que paramos àquela hora? – pergunto, pegando minhas roupas e dobrando-as.
– Você ia desmaiar, só não estava percebendo isso – ele responde.
– E você estava por que...?
– Aura – volta os olhos ao livro.
Certo. Levanto-me com o intuito de ir tomar outro banho, porque aparentemente já estava suja outra vez.
– Quem me trocou? E onde está Alice, ou Lisa, ou Juan? – pergunto apenas para irritá-lo mesmo, já que está dedicando ao máximo a ler seu interessantíssimo livro sobre cura.
– Alice, hmm, cuidando do gato prisioneiro em algum lugar por aí.
Apenas fico encarando-o. Ele sabe onde estão.
Ele então levanta-se da cama como se lembrasse de algo que devesse fazer. Para diante de mim.
– Tome postura, por favor.
Eric e eu somos da mesma altura. Apesar de ser uma pessoa curiosa, apenas faço o que ele pede, pelo fato de já conhecer seu jeito de “faça o que eu peço que você já vai entender, não adianta perguntar nada antes”.
Ele dá um passo para trás, para aumentar a distância entre nós. Passa a me analisar criticamente. Estou vestindo um short muito curto, apesar de a blusa ser um pouco grande demais. Deixo meu peso cair para uma perna só.
– E aí? – digo.
– Não está sentindo dor? – ele pergunta, aproximando-se. Ele leva a mão à minha cintura, apalpando em direção as minhas costas, devagar, por cima da blusa. Observo sua mão incrédula quando sinto um ponto de dor. Ele o aperta novamente.
– Aqui.
– Ai! – guincho, afastando-me dele.
– Vira – ele diz, tentando virar-me com a mão direita. O encaro, e ele fecha a expressão. – Anda, deixa eu ver.
Viro-me e ele levanta um pouco minha camiseta, largando-a alguns segundos depois. Ele permanece estático, encarando algum ponto no vazio, mas logo sai de seu topor.
– Muito feio? – pergunto.
– Tem outro aqui também – ignorando minha pergunta, ele dá um tapa com as costas da mão direita em minha perna esquerda, onde consigo visualizar o hematoma claramente. Bato em sua mão.
Apesar de nada dizer, ele direciona um olhar preocupado a mim, quase que momentâneo, e volta para a cama.
– Vou tomar um banho – digo então.
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