Zodíaco
18 O Décimo Terceiro Astro
Notas iniciais
Gostaria de dizer que dormi bem, porém não foi o que aconteceu. A partir do momento em que Eric saiu do quarto daquele jeito, passei a encarar a foto e pensar em tudo o que havia acontecido na noite anterior. Juan enviara-me a mensagem, e esperei o máximo de tempo que consegui por alguém que pudesse me dar explicações, mas acabei por cair no sono.
Acordo com o corpo dolorido. Não tanto quanto da última vez, apenas cansada pelo esforço feito na noite anterior, fora a leve ressaca.
Juan dormia por cima das cobertas, assim como todos os demais. O relógio marcava meio dia. A cama de Eric estava vazia. Cogitei procurá-lo espiritualmente, mas só de pensar nisso minha cabeça voltava a doer.
Levanto-me e saio do quarto. Os corredores estão vazios. Chegando ao refeitório encontro alguns rostos cansados. O café está sendo servido agora. Há bolinhos coloridos e rosquinhas recheadas, e as duas únicas pessoas que parecem bem são as mulheres na cozinha, a mais velha e a que aparenta ter quinze anos, ou até menos. Seu corpo é leve e seus movimentos são precisos.
Ela vem até mim, enchendo um copo de água e entregando-o com um comprimido.
– Vai ajudar – ela diz. Tomo o comprimido de imediato, assim como o copo de água, o qual ela volta a encher, deixando-me só.
Tomo o outro copo de água e apesar da sede permanecer, levanto-me, pegando uma das rosquinhas e saindo para o pátio. Está bem vazio, com exceção de uma garota que rega as plantas, não com magia, mas um pequeno regador mesmo.
Imagino que Eric não aparecerá por certo tempo, mas não sei dizer exatamente o quanto. Até pensar em algo para me dizer, até decidir que não falará nada e se eu insistir será pior. Eric agindo naturalmente.
A garota do regador lembra-me por um minuto de Juniper. Chego até a pensar que se trata de Juniper, porém minha visão é ruim e insisto em nunca usar óculos. Encaro-a, perdida em minhas lembranças da noite passada, até ela virar para mim e sorrir.
– Procurando alguém? – ela pergunta. Usa um vestido bem leve de flores azuis, na altura dos joelhos.
– Eric – digo, sem motivos para esconder isso – sabe?
– Sim – ela senta-se, pegando o vaso que contém vários cravos e o analisando – ele nunca para em um lugar. Devia esperar ele encontrá-la.
Ela encara-me por algum tempo.
– Preciso encontrá-lo agora, infelizmente. – enquanto cogito ou não a possibilidade de ela e Juniper terem algum laço parentesco, ela ainda me observa atentamente. — Bom, obrigada pela informação – digo, indo em direção ao bosque do zodíaco.
– Disponha Hayle – ouço ela dizer. Ela usar esse nome acaba chamando minha atenção. Viro-me.
– Eu conheço você, de alguma forma? – pergunto, por fim.
– Não – ela sorri, levantando-se. – Sou Gemini.
Ela vira seu corpo com leveza, entrando no refeitório, sem virar para trás.
Gemini trata-se de outro signo do horóscopo, assim como Scorpio. Não era possível que a garota que eu acabara de ver, aparentando vinte e poucos anos fosse uma anciã.
Certo, tudo cada vez fazendo menos sentido.
[...]
Não encontrei Eric, para variar, o dia inteiro, e cada minuto que passava sentia-me mais angustiada. Conversei com Juan, Vitor, Alice e até Alec, mas acabei não levantando uma palavra sequer a respeito da foto, porque de certa forma sentia que nenhum deles saberia explicar, e a confusão seria maior. Eric sabia explicar, seu último olhar deixara isso claro. Sentia mais raiva por Eric a cada vez que perguntavam de seu paradeiro e nada era conclusivo. Não estava sumido, claro, somente me evitando.
Revolveu aparecer às quatro da tarde. Parecia cansado e veio me encontrar no lugar mais provável de eu estar, sem sua tutela: no quarto, lendo.
– Precisamos conversar – ele diz.
Alec também se encontra no quarto lendo. Falara comigo algumas coisas aleatórias, mas logo percebera meu mal humor.
– Lá fora – Eric completa, indo em direção à sacada. Ele para antes para me olhar uma última vez, já que o encaro fulminantemente.
Levanto-me, deixando o livro de lado, e saio pela porta. Encontro Eric no corredor entre as duas casas. Ele permanece de braços cruzados, e então segue na frente até a grama surgir e sairmos na floresta.
Por algum tempo apenas o sigo, abrindo caminho entre a mata densa, até aproximar-nos do bosque em direção ao norte. Entramos em uma pequena trilha e depois de uns longos minutos saímos numa clareira, onde uma fina grama cresce. Eric senta-se no lugar onde ela menos crescera. Ele aponta para o chão próximo dele. Sento-me.
– Então, não tem maneira melhor de dizer isso – ele começa.
– O que é isso? – aponto para seu pescoço. Parecia muito roxo. Sinto certo arrependimento de ter perguntado. – Lisa outra vez?
Ele mantém a expressão inalterada.
– Capturamos uma pessoa idêntica a você – ele diz.
... O que?
– Sim, você tem uma irmã gêmea. Não me peça nenhum teste porque só de olhar já fica bem claro – ele continua.
– Gêmea. – repito, sem processar o que acabei de ouvir exatamente.
– O que importa – ele continua – é que ela diz que é a verdadeira Diana, do meu passado, da guerra, e que você pertence ao outro acampamento, o Serpentenário.
Fico encarando-o por alguns segundos, então encaro o chão, a fraca e fina grama, quase desejando começar a dissertar sobre ela em minha mente. Tudo, menos isso, que acabara de ouvir.
– Não me lembro de ninguém no orfanato – digo, com a voz esganiçada, a primeira coisa que me vem à cabeça.
– Eu sei – ele diz – segundo a história dela, você foi criada por eles, e no dia em que ela foi no cofre do Serpentenário, você abriu pra ela, a trancou lá e fingiu ser ela.
Mais silêncio.
– Serpentenário? – pergunto, devagar.
– O signo excluído do horóscopo. Um nome bem hipócrita para traidores. – Eric dá de ombros.
– Ela está aqui. – digo, sem muito a duvidar. – tipo, aqui mesmo, há alguns quilômetros de mim.
– Sim. Ela vai ser julgada amanha. – Eric fita o chão.
– E se acreditarem na história dela? – pergunto, levantando-me. Eric me acompanha, mudando o tom também. Sinto um leve desespero, como se nada mais na minha vida fizesse sentido. Meu cérebro começa a processar tudo o que tenho certeza que faz parte de mim e chego à uma única conclusão: eu tenho um gato, e ele se chama Alex. É minha única certeza.
– Não vão – ele diz. – ela não tem nada pra provar.
– Nem eu – digo, afastando-me dele – eu sempre estive com minha mãe, eu me lembro disso.
A mentira é mais que evidente em minhas palavras, porque não tenho muitas lembranças de quando era pequena com meu único vínculo com a realidade: minha mãe. Isso me desespera ainda mais. Sempre pensei que fosse normal perdemos as lembranças de quando criança, mas isso era assustador.
– Ela diz que você clonou as lembranças na noite em que ela foi lá – ele explica.
Viro-me para olhar a clareira, procurando respostas que não encontrarei. Alguém dizia que se tratava de mim, mas não eu, Hayle, a garota normal, e sim Diana, a garota que salvara a todos e colocara um fim na última guerra. A garota corajosa, a garota das lembranças de Eric. Era eu, tinha que ser eu.
Sinto que todos meus ossos cairão no chão a qualquer momento, e então caio de joelhos, sentando-me sobre eles e observando o mais profundo pensamento, forçando-o aparecer. A mais longínqua lembrança, um doce borrão de minhas pequenas pernas e braços mexendo em uma boneca de pano, sentada no chão, ao lado do sofá onde a tutora de meu orfanato sempre se sentava. Essa era minha lembrança mais antiga, a única.
Que pode ser uma mentira. Não sei mais quem eu mesma sou.
Penso em gritar com Eric, perguntar por que ele não me contou antes, jogar o tudo e o nada e sair correndo, fugir e nunca mais aparecer.
Lembro-me do gato, outro que será julgado logo menos, e que me ajudara. Um inimigo. Lembro-me da garota na foto, junto com Juan, sorridente, tão diferente ao mesmo tempo em que é tão igual a mim.
Desculpe – sua voz ecoa em minha mente, fraca. Olho-o. Parece atento a cada movimento meu, com certo receio de falar mais alguma coisa. Devo estar parecendo que estou um passo de explodir.
– Você parece uma criança – digo, rude demais de certa forma. Por algum motivo que ainda não identifiquei insisto em pisar em Eric, como nunca havia pisado antes.
Ele endurece a expressão. Dá um passo, então outro, e quando percebo que ele não irá virar e sim ir embora, não consigo deixá-lo ir.
– Não te entendo, Eric Jones – falo baixo, porém ele acaba escutando, porque para.
– Você já percebeu o quanto tem sido ignorante comigo? – ele pergunta, sua expressão sendo tomada pela ira. Ele volta a se aproximar.
– Você já percebeu o quanto esconde tudo de mim? – revido, irritando-me ainda mais. Eric me jogara nesse lugar, me dera uma identidade nova, mas vivia sumindo, não contando as coisas. – As pessoas simplesmente aparecem e falam algo sobre você.
Eric permanece parado, encarando-me sem nenhum pudor.
– HAYLE LUNÉ – ele diz, aumentando o tom de forma teatral – diga-me então o que a senhorita deseja saber para finalmente me tratar que nem gente.
– Por que seu pescoço está assim? – a pergunta sai no automático. Ele abre um lento e desdenhoso sorriso. Por que eu me importo mais com seu pescoço do que com meus próprios problemas? Um dilema que eu gostaria de ter engolido e não deixado tão obvio como o deixei agora. – Só saia daqui, por favor.
Levo as mãos ao rosto e sinto tanta raiva, tanta amargura que preciso realmente segurar para não explodir e chorar. Muito ridículo, assim por dizer, porém inevitável quando trata-se de minha pessoa.
Abro os olhos, deixando a pior expressão visível: derrota. Eric entretanto está no máximo há um metro de mim agora, porém não me olha nos olhos. Ele fita o nada um pouco à minha direita, perdido, e de certa forma triste.
Entro no estado espiritual e encontro sua aura normal. Sinto seu espírito ao meu lado.
– Olha Hayle, eu gosto de você – ele continua falando, seus olhos procuram algo aleatório ao meu redor. – mas você é a pessoa mais difícil de todas. Eu prefiro morrer cinco vezes do que perder você, e olha que eu já morri duas essa semana, mas você dificulta...
Ele para, encarando novamente o nada, completamente imóvel. Seu rosto vira lentamente para a direita, onde vejo a fina vegetação crescer rapidamente, enrolando-se em algo impossível de identificar, algo invisível.
Fogo surge e as queima uma, duas vezes, mas as plantas continuam a crescer em uma velocidade fantástica, enrolando-se cada vez mais e trancando algo no chão.
Algo não, alguém. Tratava-se de um par de pernas, invisíveis.
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