Zodíaco

9 Meu amigo é um gato!


Notas iniciais
Capítulo narrado por Diana.

Admito ter visto cenas que não gostaria de rever.

Admito também ter visto cenas que não acreditava serem possíveis de acontecer. Cenas que infelizmente não irei descrever.

Em dado momento, o garoto ao meu lado, erguendo o escudo, caiu. Imediatamente o segurei, e por pouco ele não rolou pedra abaixo. O escudo morrera em uma parte. Havia outras pessoas o mantendo, mas o principal ponto de entrada estava solto.

Eu não sabia especificamente como restaurá-lo, mas assim que ajudei o garoto a sentar-se, tentei novamente acendê-lo. Uniu-se com as outras pontas do escudo e foi restaurado.

Não podia negar que estava cansada também. A batalha havia cessado na praia, mas acontecia ainda entre as florestas. Não sabia onde Eric estava, ou Juan, mas esperava que estivessem bem, e vivos.

Certa hora, um grupo de inimigos começou a escalar as pedras, próximo do local onde eu erguia meu escudo. Lançaram fogo, deram socos, bateram com suas armas, e quanto mais esforço faziam, mais eu me afastava o escudo, entretanto conseguia mantê-lo à distancia. Enfraquecia, mas tentava ignorar. Estava conseguindo, não iria falhar.

Outros uniram-se para proteger o escudo quando o grupo tornou-se maior. Algumas conjurações de água os afastaram, mas eram poderosos. Havia fogo, e ar. Nos afastamos do escudo cada vez mais, até vê-lo rachar, no exato momento em que, do outro lado da praia, um dragão rugiu.

Não, não qualquer dragão. Não era Eric, pois ele era consideravelmente menor. Tratava-se do dragão vermelho que algumas horas aparecia, outras sumia, no horizonte e nos morros do enorme terreno. Aparecera no momento exato, congelando muitos no momento de suas zoomorfias, a maioria como felinos, quimeras menores, bestas assustadoras, aberrações que pouco imaginava serem possíveis. Os animais nas pedras ergueram simultaneamente suas cabeças e assistiram o terror. O dragão sobrevoou a praia, chegando à Casa Sul quando parte das bestas perdiam suas zoomorfias, caindo, aterrorizadas. Um garoto atingiu uma das quimeras no rosto com um remo quando essa olhava o dragão.

Eu estava assustada, e há muito tempo havia me abrigado na Casa, no primeiro andar, onde a maioria havia recuado. Era o lugar onde mais haviam novatos. Muitos choravam.

Puxei o máximo de pessoas que estavam aterrorizadas e as coloquei para subir as escadas, entrando em quartos, escondendo-se. Elisa encontrava-se entre elas. Havia ajudado no escudo também. A garota correra para o mesmo quarto que eu, e permanecemos quietos, com medo de qualquer coisa que viesse a acontecer.

E foi assim que passamos o restante da noite.

Parecia outro lugar quando a batalha cessou. Simplesmente outro lugar. Silêncio.

Fui a primeira a olhar pela janela do quarto. Ainda estava escuro. O medo, o frio, marcara todos de uma forma tão forte que alguns quase choraram quando abri a janela.

A lua voltara a brilhar, o eclipse acabara há horas provavelmente. E clareava a pequena praia em nossa frente, considerando que a outra não ficava em meu raio de visão. Corpos na praia. Corpos.

Apenas corpos.

Saio do quarto em direção à grande sala. Há meia dúzia de pessoas pelos cantos, pelos sofá. O arraso é total: mesmo que vivos, não há vida em seus olhares. Ana está deitada no sofá, olhando para o alto, com os olhos inchados. Ela levanta-se quando me vê, limpando as lagrimas.

– Tudo bem? – ela pergunta. Nunca vou entender porque insistimos em perguntar coisas desse tipo nas piores horas. Concordo com a cabeça. Olho para o relógio da cozinha. Cinco e meia.

Não reconheço muitos rostos acabados ao meu redor. Alguns acho que estão mortos, mas apenas dormem.

Saio, sem nada dizer. Desço as escadas e ando o mais devagar possível até a praia, mas não posso ignorá-los.

Vou até a extremidade e começo a fazer um perímetro, até onde as pedras, que envolvem a casa, possibilita. Escuto alguns sons estranhos, e é quando identifico um garoto encostado em uma árvore. Ando lentamente até poder reconhecê-lo, o que não leva muito tempo. É o mesmo garoto que havia segurado o escudo comigo.

Ele sorriu fracamente quando me vê. Grande parte do braço e um pedaço da perna estão queimados e infeccionados.

– Meu deus – assusto-me – espere.

Volto correndo para a casa, onde já avistara um banheiro com uma pia. Entro e pego as toalhas disponíveis e limpas, molhando-as. Volto correndo para ele. Esse é provavelmente o socorro mais estúpido que já fiz, afinal já estava infeccionado.

Pressiono a toalha sob sua perna e ele faz uma careta, porém estica o braço queimado, já cheio de bolhas. A perna não está tão ruim, provavelmente ele pressionou o ferimento no momento em que sofrera a queimadura.

– Por que você está aqui? Por que não chamou por ajuda? – pergunto, encarando-o.

Ele apenas me encara, com olhos tristes. Usando o braço não queimado, toca o chão, onde uma pequena planta começa a crescer muito rápido, logo florescendo.

Então, usando o mesmo braço, ele aponta para a casa, ao nosso lado. Uma enorme trepadeira erguia-se até chegar à janela. Ele toca novamente o chão, e a trepadeira balança levemente, em suas pontas.

Uma dor penetra meu coração da forma mais inusitada possível. Ele pedira ajuda, mas ninguém o percebera.

Não conheço a língua dos sinais perfeitamente, mas reconheço alguns dos gestos. Ele indica um obrigado com a mão livre.

O ajudo a erguer-se, levando-o, sem muita dificuldade, até a casa. Subir a escada fora mais difícil. Quando chegamos ao topo, Ana corre para ajudar. Seu rosto ainda estava inchado. Ela chora ainda mais quando vê as queimaduras.

– LUNA – Ana grita, e uma garota acorda subitamente, antes deitada no chão. – Vem aqui.

A garota vem até nós, colocando seu óculos no lugar. Tem cabelos muito escuros e bagunçados. Faz uma careta.

– Vai dar trabalho. Venha, Julius – ela leva o garoto até o sofá.

– Ana, você tem notícia de Juan, ou Eric? – pergunto.

– Não os vejo faz algumas horas... – ela diz, limpando o rosto.

– Eu vou procurá-los então – digo, e sem muito enrolar, saio.

Desço rapidamente as escadas, mesmo que ninguém tenha levantado a voz para me parar. Passo pela prainha pouco olhando os corpos nela jogados, entretanto meu cérebro faz uma contagem. Quatro.

Subo as pedras com certa dificuldade, assim como as desço, saindo na praia maior. Há outros corpos, mas não muitos. Há algumas pessoas paradas, encostadas em pedras, conversando. Não vejo Juan ou Eric entre eles, e por mais que estejam no caminho, não paro para trocar palavras.

Não sei exatamente onde estou indo também. Lembro-me vagamente do mapa, que havia um bosque que ligava praia da Casa Sul com a Casa Leste, chamado de Zodíaco. Andei toda a extensão da praia até as grandes pedras em seu final, e encontrei além do que imaginava: um portão, na parte onde a terra já era acessível. O caminho do Zodíaco já era visível.

Passo o portão e sigo o caminho, devagar. Sinto-me perdida e impotente, quais as chances de encontrá-los? Havia a porção da floresta que cobria a praia, a qual eu nem cogitei entrar para não me perder. Ele podia estar muito atrás, e eu simplesmente passara. Alguns dos garotos que eu não tentei contato podiam ser amigos deles.

Tentei afastar esses pensamentos e continuei andando. Gostaria de poder entrar no estado espiritual e chamar toda a atenção do mundo mesmo. Queria ser encontrada. Andei aproximadamente quinze minutos quando avisei, de longe, um Black Power.

– Juan! – Gritei, correndo em sua direção. Ele virou-se, e desacelerei, quase não acreditando que o encontrara. – Não acredito. – abraço-o.

– Oi – ele sorri, mas parece afetado, até sério, de certa forma.

Sigo seu olhar e então entendo o que ele observa. Há alguns metros uma forma se destaca na terra, perto de alguns arbustos. Respira forte. Um gato, pequeno e alaranjado, listrado talvez. Tem manchas de sangue pelo seu pelo, espalhadas. Aproximo-me do animal e Juan segura meu braço.

– Não é dos nossos – ele diz, interrompendo-me.

– Quem é? – pergunto. Juan dá de ombros. – está morrendo.

– Eu sei – Juan diz.

– Não vai fazer nada? – O encaro, incrédula. Ele expressa impotência.

– Não sei. Ele nos atacou Diana. Poxa, você entende, não?

Aproximo-me do animal, tocando seu pelo. Há manchas de sangue em várias partes, mas apesar disso, consigo identificar uma espécie de asa, também alaranjada, na qual ele está deitado. Apenas uma, a outra aparentemente sequer teve indícios de que existiu. Minha mão parece grande perto de seu corpo.

– Não pode inibir a dor? – pergunto ao ver que o animal ainda respira com dificuldade. Seus olhos, volta e meia se abrem, revelando uma cor castanha amendoada.

– Claro que posso curá-lo Diana – ele ri um pouco, nervoso. Há um corte em seu rosto, superficial. – Olha, eu sou uma pessoa legal, ok? É que não o conhecemos. Ele pode levantar e fugir, teleportar, fazer o que bem quiser se eu curá-lo.

– Não acho que vá fazer isso – digo baixinho, mesmo sem total convicção de minhas palavras. Olho para Juan, e ele as escutara.

– Certo... lá vamos nós. – Juan abaixa-se ao meu lado, colocando sua mão sobre o gato. Um certo tom dourado toma a pelagem do animal por alguns segundos. Seus olhos abrem-se e ele nos olha, lentamente.

Juan tira a mão, parecendo tenso. Ele se afasta rapidamente.

– O que foi? – pergunto, preocupada com seu movimento repentino.

– Se ele fugir... – Juan diz. Não estava me ameaçando, apenas se prevenindo.

O gato ergue seu corpo, espreguiçando-se. Olha-nos sem expressão aparente, se é que consigo identificar as expressões de um gato.

– Diana... – Juan diz, mas então agarro o gato e posiciono em meu colo. Ele mia fraquinho.

– Vamos lá amiguinho – digo, colocando-me em uma caminhada lenta em direção à Casa Leste com Juan.