Zodíaco

6 Guerra Negra


Notas iniciais
A narrativa é feita por Eric nesse capítulo. Apesar de Hayle ter narrado os primeiros, Eric ganhará um capítulo algumas vezes, até para fazer o leitor pensar, e não ficar só naquela de dar explicação pra Diana. Tirem suas próprias conclusões. Enjoy.

Eric.

Eram aproximadamente oito horas quando voltei a casa. Fui a pé mesmo. Nenhuma vontade de ter que conversar com Alec. Não encontrara Vinícius em um raio de dois quilômetros, e pouco estava com vontade de procurar também, considerando que Vinicius realmente usa seu tempo com coisas mais úteis, coisa que Alec não faz.

Ele estava treinando no pátio mesmo, o que dificultou meu gasto de tempo para não encontrá-lo tão cedo.

– E aí – o cumprimento. Vítor está sentado no banco, acompanhando o treinamento de Alec.

– Então – Alec continua a soltar golpes de fogo contra o nada. – ela está bem?

– Sim – dou de ombros. – Está indo para a Casa do Norte, com a Alice.

– Vinicius nem está lá. Também acho que não seria uma boa. – nisso tanto eu quando Alec concordávamos, mas eu sabia que Vinicius não se encontrava lá.

– Então, o que você quer? – vou direto ao ponto.

Ele para de lançar golpes e me encara. O mesmo olhar irritante costumeiro, muito típico de Alec. Uma das coisas que nunca entenderei é como meu irmão conseguiu ter algum elo sequer com uma pessoa dessas.

– Vamos fazer uma fogueira hoje mais tarde. Na clareira do Oeste. Avise a quem puder. – Terminando de falar, volta aos golpes.

Rio um pouco, debochado.

– Aparentemente pelo fato de ter estado em missão não tenho mais voto nas decisões sociais da inteligência?

– Eu votei por você – Vitor intervém – não fique tão magoado. Hoje tem um eclipse. É perfeito.

Uma coisa totalmente irritante e desprezível acerca do fato de meu irmão andar com pessoas como Alec: Ele fica muito parecido com elas.

– Que horas? – pergunto, antes de sair.

– Nove. – Vitor responde. Alec já se esquecera de minha presença.

Dou uma ultima olhada significativa para meu irmão e saio.

[...]

Apesar de querer passar o dia com Diana, não foi bem assim que aconteceu. Percebi muitos problemas na plantação, e poucas pessoas estavam conseguindo lidar com eles. Minha presença foi necessária. De hora em hora tentava entrar no estado espiritual a fim de procurá-la, ou até procurar Alice, são cores que consigo identificar facilmente: Alice tem uma aura alaranjada com tons lilás, Diana tem uma aura verde com tons rosados. De dia torna-se mais difícil qualquer viagem espiritual. No ultimo semestre muitos outros chegaram ao acampamento, e só agora a maioria consegue lidar com os espíritos. Em resumo, encontro muitas auras alaranjadas ou verdes. Isso confunde. Mas sei que a partir do momento que conhecer os mais novos, conseguirei identificá-los.

Certa hora sobrevoei o perímetro do acampamento. Parei no telhado da casa norte, mas não vi Diana. Nem Alice. Queria me livrar dos problemas, mas a cada segundo apareciam novos. Alguém me reconheceu na forma de corvo e tive que voltar à forma humana para checar alguns vazamentos no banheiro feminino. A casa norte é a que abriga mais novatos, e nesse horário a maioria dos mais velhos estão trabalhando, construindo novas casas, novos barcos, abrindo poços. Não é todo mundo que consegue um instrutor, ou um amigo, apesar de que muitos que recrutam ficam com essa responsabilidade. Geralmente ficam aprendendo por si, lendo livros, até criarem amizades.

Eram aproximadamente sete da tarde quando fiquei livre. Carregara algumas madeiras da Casa Leste até a Sul, um caminho bem longo. Tentei teleportar algumas, mas parecia impossível passar com as madeiras sem se machucar. Ninguém conseguira transformar-se em um elefante, e não acho que valia a pena gastar tanta minhas energias como um dragão. Aproveitando a oportunidade de exercícios físicos, ajudei-os a carregar.

Voltei voando. Livre, alto e rápido. Já começara a ficar preocupado com Diana há um tempo, mas não iria me desesperar. Algumas pessoas pararam e falaram que a viram por aí, que estavam sentindo minha falta, e isso e aquilo.

Não que eu não gostasse daqui, ou das pessoas. Mas estive aqui desde os 11 anos. O único ano em que quis sair foi quando era para cuidar de Diana, e foi um ano bom. Gostaria que tivesse durado mais, porém as tensões aumentaram. Tenho quase certeza que alguém estava nos vigiando nos últimos meses. Alguém não de nosso acampamento, mas de outro.

No dia em que decidi levar Diana, tentei conversar com sua mãe. Ela também ficara nervosa nos últimos meses, possui tanta magia quanto qualquer um de nós. Sabia o que iria acontecer, mas não aceitou facilmente.

Entrei pela varanda de um quarto qualquer. Algumas das garotas não pareceram felizes, mas logo pedi desculpas e saí. Corri para o banheiro mais próximo e tomei um banho. Não me sentia cansado, mas estava machucado. Meu corpo desenvolveu-se 90% desde que pisei aqui, há oito anos. A maioria desenvolve um pouco menos que isso, mas acredito que minha família tenha mais poder em sua linhagem. Vitor desenvolveu praticamente 115%.

Diana muito provavelmente sentiu que era mais forte que os outros, apesar de não praticar esportes. Ela desenvolvera 40% na época, mas já era o suficiente para saltar três metros sem se machucar. Provavelmente desenvolverá mais, pois não havíamos nos desenvolvidos como humanos na época, quanto mais acerca dos genes mágicos, bem imaturos.

Seguindo para o quarto vinte e dois, extremamente bagunçado, percebi que minha cama virara depósito de roupas alheias. Joguei grande parte no chão e organizei rapidamente. Corri para o armário e puxei qualquer roupa, até porque havia esquecido de passar no vestuário. Havia algumas roupas minhas ali ainda, a grande maioria limpa, indicando que algumas pessoas haviam usado. Pouco importava. Éramos como irmãos.

Havia certa movimentação, as noticias correm bem rápido neste lugar. Alguns de meus colegas de quarto entram pela porta, alguns desconhecidos também. Luís é o primeiro a me ver.

– Pô, e ai cara! – ele vem me abraçar. – falaram que você voltou, mas não te vi o dia inteiro.

Sou recebido por vários abraços verdadeiros. Luís, Augusto, Amanda. Todos parecem excitados com a fogueira.

– Estávamos na cozinha hoje, preparando as coisas para a fogueira. O que ficou fazendo? – Amanda crescera, mas continuara esguia, animada e de certa forma, feroz.

– Ah, carreguei várias madeiras para a Casa Sul. Precisamos transferir umas pessoas para lá.

– Sei. Ficou sabendo do raio? Bem perto da reserva. – concordo com a cabeça. Há alguns meses um raio atingira uma árvore e trancara a entrada da reserva de Poder. Tudo bem se fosse apenas uma árvore, mas tratava-se da maior árvore nos arredores da Casa Sul. Fora complicadíssimo movê-la, aparentemente. Alguns galhos destruíram parte da cabana dos caiaques, e desde então estavam reconstruindo-a, e aprimorando-a também.

– Eric, estamos levando as coisas pra lá. Quer ir na frente? – Luís pergunta. Dou de ombros, apesar de querer encontrar Diana, pra variar. Há muitas horas. Aproveito de passar na cozinha e comer algo, então. Alice deve ter passado o dia com ela, considerando seu bom coração.

É claro que nada foi tão fácil assim. Ir à fogueira, encontrar Diana, lutas livres, desafios. A partir do momento que sinto algo errado, nada que pareça certo consegue provar o contrário. Algo estava errado.

E começou na metade do caminho.

Fui carregando uma bolsa com copos e potes de plástico, na frente de todos, iluminando o caminho com uma tocha. Naturalmente poderia conjurar luz, mas o fogo era muito mais prático para um dominador do próprio, o que não era meu caso.

Foi quando os primeiros gritos surgiram. Raízes se mexeram. Já havia percebido que várias raízes estavam desenterradas, mas imaginei que fosse um treinamento, pois estávamos no bosque, onde fica muito mais fácil de não se perder dos calouros. Pura ilusão. Enroscaram-se em todos os pés, inclusive o meu, porém a queimei com a tocha. A raiz, apodreceu rapidamente e recuara, porque quando mexemos com a magia negra, a sentimos também. O conjurador percebera minha reação com o fogo, mesmo se não a tivesse visto.

Ergui a mão e conjurei um feitiço de luz, iluminando tudo ao nosso redor. Entrei automaticamente no estado espiritual, quase transformando-me em qualquer ser e fugindo. Mas eles veriam, e caso eu morresse em alguma forma zoomórfica, morreria de espírito também.

Vi alguns rostos desconhecidos cegando-se, outros pouco afetados. Todos irritados, ferozes. Todos humanos.

Cessei a Luz e comecei a correr.

Um braço agarrou meu pé e quase o chutei, mas reconheci a aura de Amanda. Ela estava muito enrolada, e cada vez mais formas se aproximavam de nós.

Apaguei meu espírito. Não podia ser visto, apenas a olhos normais, e estava muito escuro. Mesmo que fosse um poder a menos. Eles não me veriam, eu não os veria.

Justo.

Abaixei-me e forcei as raízes a libertarem Amanda. Os sons pareciam ter sumido, mas era apenas minha cabeça. Meu terror. Amanda liberta, puxei-a e ela automaticamente transformou-se em um pássaro, voando.

Não havia tempo de pensar nas conseqüências que ela sofreria caso morresse. Eu tinha que chegar à clareira, caso essa não tivesse sido atacada ainda.

Corri. Corri muito, usando tanta força que não imaginava conseguir outra vez. Dei saltos tão largos e tive medo de bater nas árvores, mas saí do bosque. Nenhum sinal havia sido dado ainda. Eu não era dominador do fogo. Eles avisam essas coisas. Eu era apenas dominador da terra, e erguer pilares de terra à noite é o mesmo que nada, principalmente há quilômetros de distancia.

Mas algo eu podia fazer.

Corri e canalizei todo meu espírito, fundindo com meu corpo. Transformei todo o medo, o terror, e a adrenalina, no ser mais poderoso dos ares. Pouco tempo depois, estava planando, batendo asas tão gigantescas que não pareciam pertencer ao meu ser. Tão logo recebi um ataque de fogo. Não chegou a machucar. Sou um dragão. Nada irá me machucar. Mas fogo irá chamar a atenção. Mesmo assumindo essa forma, não possuo os atributos de um dominador de fogo, e não posso conjurá-lo à vontade. Mas posso chamar atenção, ser uma ameaça para os atacantes. E o fogo deles chamaria toda atenção do mundo, pois a clareira em que todos se reuniam ficava em um ponto mais alto da floresta.

Não me atacaram muito, Talvez só estivessem tentando visualizar melhor minha forma negra no céu. Então voei alto, e tão logo cheguei à clareia. Não viraria humano antes de chegar lá. Queria chamar atenção. No momento em que pisei no chão, senti o tremor tanto quanto eles. Era pesado. Era gigante. E era assustador. A grande maioria se afastou de mim, apesar de conhecer minha forma.

Ergui meu pescoço e lancei as chamas mais poderosas que conseguia conjurar. E foi o ápice. Minha forma desfigurou-se como poeira, e caí humano. A aglomeração se fez ao meu redor, mas estava bem fisicamente. Apenas cansado espiritualmente.

Vinicius abriu caminho com força.

– ISSO É SÉRIO? – ele grita, como se estivesse irritado. Mas sei que estava só assustado.

– Sim – tossi um pouco, a poeira ainda me envolvendo – atacaram-nos no bosque. Estão pela floresta.

Vinicius não esperou outra resposta. Ergueu os punhos e conjurou outras duas torres em chamas, confirmando o ataque no acampamento.

Levanto-me e olho para o céu. O eclipse começara.