Zodíaco

16 Amigo alcool


Notas iniciais
Hayle/Diana narrando. C:

Elisa ironicamente tratava-se de amiga de Julius há bastante tempo.

Admito, aprender a língua dos sinais levaria um bom tempo, mas as coisas básicas eu acabei pegando por repetição. Nas vezes em que Julius decidia falar algo mesmo, Elisa traduzia com uma facilidade indiscutivelmente bela.

Elisa tinha quatorze anos, Julius dezesseis. Ela tinha um irmão mais novo surdo-mudo, logo seus pais ensinaram-na desde cedo a linguagem.

Ambos iriam à festa, assim como grande parte do acampamento. Às seis horas Lisa nos encontrou na Casa Sul. Ela parecia nervosa de alguma forma, mas acabou insistindo em nos teleportar para a Casa Leste, onde poderíamos nos arrumar juntos.

Saindo no corredor da casa azul, esbarrei com Claire, a qual já trajava um lindo vestido verde claro, que combinava de certa forma com seu físico. Ela fechou os olhos, respirando fundo, mas até aí já havia a ignorando e passando longe.

Havia deixado meu vestido no quarto da libra, como chamavam. Era um quarto maior que os demais, tendo alguns beliches e outras camas. Havia um closet também onde elas guardavam de tudo: desde roupas e maquiagens até livros e armas.

Alice vestia um delicado modelo azul claro longo. Acabei escolhendo um vestido rosa claro leve, acompanhado de sandálias. Não sabia bem se devia fazer algo com o cabelo ou não, e acabei não fazendo nada mesmo. Todas as garotas pareciam bem animadas para isso, exceto Lisa e Alice, de alguma forma, distantes. Alice de certa forma era assim, sempre sozinha, porém sua solidão era fechada, não vulnerável, do tipo que você não pergunta sobre mesmo se a conhecer há anos.

Lisa não conversava comigo desde o dia em que apareceu em meu quarto. Sua solidão era perceptível também, entretanto algumas horas ela demonstrava nervosismo, como se tentasse esconder sua tristeza desesperadamente.

O quarto do aquário estava cheio. Havia grupos nas camas, como Alec, Vitor e outras garotas e garotos. Eric também já estava por perto, sentado com Ana e Juan. Tanto Elisa quando Julius acabaram ficando na libra por encontrar algumas garotas da Casa Sul lá.

– Oi – digo, puxando a cadeira da mesa próxima à cama de Juan e sentando, evitando olhar muito as pessoas ao redor. Não gosto de me sentir o centro das atenções, de verdade, e toda pessoa que passava por aquela porta automaticamente se transformava no centro das atenções.

Não posso evitar avaliá-los no momento em que eles me avaliam.

Juan está magnífico. Mal parece que acabará a noite sem gravata e caindo por aí. Bom, talvez não acabe, por que não o conheço, mas por sua excitação e seus sorrisos gigantescos, acredito que algo do tipo acontecerá sim.

Ana alisara seu cabelo ruivo e o mantinha caindo em um ombro somente. Seu rosto tinha mais cor também, assim como seus lábios. Seu aroma chegava facilmente até mim, doce e nada melancólico.

Eric arrumara os cabelos. Era uma de suas características: sempre arrumava os cabelos para sair, mas normalmente pouco se importava. O fato de ele ter tomado banho e estar arrumado mudava sua aparência drasticamente. Não estava muito sofisticado, porém sorria, o que o tornava tão bonito quanto os demais.

– E ai – digo.

– Tá gata viu? – Juan diz. Reviro os olhos.

– Já está quase na hora – Ana diz, virando-se para o relógio na parede. Ela parece nervosa, olhando de certa forma. Seus olhos estão inquietos. – Vamos?

– Ah, tá cedo ainda – Juan diz, pegando um cubo mágico de cima da estante e começando a montar. – Lucas disse que poderíamos entrar só umas oito e meia para não parecer estranho.

Ana respira, fechando os olhos.

– Eu sei – ela diz – só queria caminhar um pouco.

– Eu quero também – digo, apressadamente.

– Certo, eu não vou ficar sozinho com Juan – Eric se manifesta, enquanto mexe no celular. Ele o guarda no bolso.

Ana levanta-se, puxando-me pela mão. Tanto Juan quanto Eric nos seguem.

Descemos as escadas, encontrando alguns sorrisos ao longo delas. Ana está maior que eu porque usa um salto, não muito alto, mas ela não parece ter dificuldade para caminhar. Chegamos ao pátio.

– Corrida aérea até o evento – Juan diz para Eric. Ana vira-se imediatamente para ele, fitando-o. – Vocês conseguem ir lá sozinhas, não é?

Ela o encara secamente. Tanto Eric quanto Juan riem.

– Não sei quando eu aprendi a usar magia negra, Juan. Só nos seus sonhos. – Ana diz.

– Certo – Juan diz, correndo e transformando-se em um pássaro. Eric corre atrás dele, fazendo o mesmo.

– Idiotas – Ana diz. Ela começa a andar em direção à rampa, e apenas a sigo, porém não consigo manter o silencio por muito tempo.

– Está nervosa? – pergunto.

– Um pouco – ela diz. – não sei bem.

Ela me olha por um tempo, como se estivesse pensando a respeito.

– Sabe – ela diz, por fim. – acho que Lucas ainda gosta de mim. Só que eu sou muito nova, sabe. Tenho dezenove – ela diz, prevendo minha pergunta – e ele tem vinte e quatro. E por mais que eu goste dele, acho que tem muitos problemas em cima disso, tipo meu pai.

Ela me olha novamente. Devo ter feito a expressão mais perdida do mundo.

– Taurus. Ele é um ancião daqui. – ela explica. Ouvi falar que havia anciões aqui, mas nunca vi um. O homem que aparecera no pátio e que todos chamaram de Scorpio não parecia tão velho para ser considerado um ancião.

– Ele não gosta de Lucas? – pergunto, sem saber direito o que falar.

– Não sei. Acho que ele não gosta de ninguém, nem de mim, mas tenho medo de magoá-lo namorando outra vez. E também tem Lisa. Eu realmente me sinto dividida entre ela e Lucas, por isso fico sozinha. Você já namorou?

Ela me assusta com essa pergunta, porque até agora o foco da conversa era ela. Começo a cansar de subir a rampa, mas ela parece tranqüila, apesar de usar saltos.

– Sim – digo – duas vezes. Achei meio ruim, ter vida a dois.

– Você sabe que Eric gosta de você, não sabe? – ela diz, com a maior facilidade do mundo. Paro de andar. Ela me encara.

Claro que sei, não, espere. Não sei. Na verdade, houve uma época em que eu acreditava que ele gostava de mim e eu mesma me permiti gostar dele, mas ficou meio ruim não ter certeza, então passei os próximos meses não me importando com isso, até que uma hora deixou de fazer diferença.

– Não – digo, sem saber bem como controlar meu tom.

– Claro que gosta – ela sorri – e você sabe disso.

– Pode até ser – digo – mas acho que nenhum de nós fica pensando nisso o tempo todo. Acho que aprendemos a conviver, algo do tipo. – estou sendo bem honesta com Ana. Realmente acho que a partir do momento que deixamos esses assuntos de lado, eles não nos incomodaram mais.

– Aposto que você se sente incomodada de vê-lo sem camisa – ela diz, ainda sorrindo.

– Não! – digo, batendo em seu braço, não com força.

– Claro que se sente. E também sente quando ele faz algo muito íntimo em relação a você. O sentimento parece voltar, e você fica com vergonha. – Ela diz.

– Podemos voltar a falar de Lucas, de Lisa, e sobre você? – digo, apesar de certa forma achar que ela parece... certa.

– Isso é normal Diana – ela diz. – sério. Não é que o sentimento parece voltar, é porque ele nunca se foi.

– Olha, eu nunca namorei garotos, certo? – digo, por fim. Ela me olha, espantada e sorrindo ao mesmo tempo. – é sério.

– Não acho que isso se trata de sexualidade – ela diz, parando de andar. Permanecemos paradas, uma diante da outra. – Somos humanos, e somos sensíveis. Não é errado você sentir algo sobre ele só por que só namorou garotas.

– Eu só não quero decepcionar ninguém, Ana – digo por fim, o que é verdade. Nunca liguei de gostar de garotos ou de garotas. O problema sempre foi gostar, se relacionar, acabar, morrer, e não tirar nenhum proveito disso depois porque o fim foi horrível.

Ana me abraça. Permaneço sem reação nos primeiros instantes, mas então a abraço de volta, profundamente.

– Não vai – ela sorri. – lá vêm eles.

Um dos pássaros mergulha na floresta, aparecendo caminhando entre as árvores. Eric. Juan transforma-se ao nosso lado, voando penas para todos os lados.

– Eu vi esse momento bonitinho – Juan diz. Está um pouco suado.

Eric toca a árvore a qual se encosta, e vejo-a sendo tomada pelo breu. Seguimos para o portal, onde mergulhamos e saímos em outro lugar em questões de segundos.

O lugar já estava bem movimentado mesmo. Havia outros locais para festas menores, entretanto o único que claramente brilhava era o maior. Cada segundo que passava surgia um grupo diferente de jovens ao redor dessas pequenas casas.

– Não dá para entrar ainda – Eric diz. Ana está mais próxima de mim, de maneira amigável. – sem gente suficiente.

– Nós somos a gente suficiente – Ana diz – vamos pelos banheiros.

Eric revira os olhos.

– Todo mundo vai entrar pelos banheiros, Aninha – ele diz ironicamente.

Outro grupo se aproxima do nosso, formado por Alec, Vitor, uma negra que desconheço o nome, Alice e Lisa e outras garotas morenas, loiras.

Passaram alguns minutos até entrarmos. Várias conversas foram colocadas em foco, tais quais elogios, roupas, assuntos aleatórios. A negra foi uma que tentou conversar comigo, muito agradável. Não acabei por perguntar seu nome, porém o descobri quando uma garota a chamou: Juníper.

A movimentação começou mesmo quando um portal foi criado às escondidas e todo mundo começou a sair no banheiro masculino na festa. As garotas corriam, os garotos riam, e o salão ia enchendo. Acabei me perdendo algumas vezes, mas logo encontramos uma das maiores mesas encostadas na parede, já tomada pela massa de magos. Várias bebidas foram abertas, encontrei Elisa e Julius, os fiz tomar algumas doses (mesmo Elisa com seus quatorze anos parecia adorar, apesar de ser um pouco errado).

Acabei me divertindo de certa forma nos primeiros minutos. Eric sentara do meu lado e isso lembrava-me o tempo que íamos em festas desse tipo, bebíamos até enjoar e acabávamos nas mesas, morrendo. Tudo tão normal, tão nostálgico.

Apesar disso, algumas coisas que Ana falara ainda rondavam minha mente. Tratava-se de outro ponto de vista. Eu conhecia Eric agora mais que antes? De certa forma sim, porque havia visto seus amigos, o lugar em que fora praticamente criado, seus segredos, nossos segredos. Aprendi a conviver com ele, porém não o conhecia por dentro, apenas o que ele me deixava conhecer.

Ele mudava quando bebia, claro. Ficava bem mais solto e menos sério. Era radiante vê-lo sorrir. Alice também sorria algumas vezes, mas parecia bem mais sóbria. A mesa ora esvaziava e ora enchia de pessoas. Não gosto muito de dançar, mas admito que levantei certa hora e me perdi na multidão. Lucas me abraçou, me deu um beijo na bochecha e saiu correndo, sorridente. Uma gravata já havia se enrolado por completo em seu pescoço, não a sua, porque ele estava de black tie. Juan pegou Ana no colo e a carregou, entre tapas e gritos até o meio da pista.

Tudo corria bem, até eu avistar algo estranho. Não sabia se confiava em minha visão ou não, considerando que havia bebido um pouco demais e perdia o equilíbrio, mesmo sentada. Eric permanecia alheio, mexendo no próprio copo, com os pensamentos tão distantes que quase não percebeu quando me levantei.

– Diana? – ele chamou. Virei rapidamente para ele, mas nada respondi, cega pelo desejo de seguir a garota que acabara ver passar.

Idêntica a mim.