Zodíaco

10 Acessando muito a morte nos últimos tempos


Notas iniciais
Narrativa feita por Eric. Problemas, problemas...

Esse foi provavelmente o maior susto de minha vida. Nunca imaginei que isso iria de fato acontecer, até então.

Andei até o limite de nosso terreno, ao oeste, encostando-me nas ultimas árvores antes do muro erguer-se. À minha esquerda encontrava-se a rampa, a uns cem metros.

Permiti entrar então no estado espiritual, apesar de estar cansado, e foi aí que as coisas começaram a desandar. A morte na espécie humana não é algo totalmente compreensível, entretanto magos conseguem manter seus espíritos na terra por mais alguns anos, em geral. Muitas vezes são esquecidos e então seus espíritos somem indefinidamente. Algumas vezes vejo um espírito vagando pelo acampamento, possivelmente parente de algum ancião. Uma das garotas que morrera na última guerra também aparecia constantemente. Quase nunca falam, mas acredito que possam se comunicar. Apenas não querem.

Não há algo que diferencie os mortos dos vivos no espiritual. Acabamos apenas sabendo diferenciar por seu hábito. Seu silêncio, suas roupas, seu olhar. Coisas assim. Entretanto, já percebemos há certo tempo que as pessoas em luto, ou seja, mais vinculadas à morte, tendem a ver os mortos com mais freqüência.

Esse foi o primeiro passo para me assustar. Enquanto varria a área, encontrei um desses espíritos. Trajava um vestido rosa bem leve e um pouco rasgado e mexia em uma espécie de raposa que nunca havia visto aqui. Seus olhos brilhavam em tons vermelhos, mas ela não era assustadora. Seus cabelos estavam bagunçados em tons dourados.

– Você está bem? – ela pergunta. É a primeira vez que ouço a voz de um deles, e de fato ela é diferente, como se sofresse um eco muito fraco.

– Não sei – digo.

O segundo passo para meu susto, e então seguir para o desespero, foi a desaceleração de minha varredura. Quando entramos no espiritual, nosso corpo real brilha, chama a atenção, e a isso é dado o nome de aura. Nossos espíritos assumem nossas formas reais e vagam por ai. Entretanto, a velocidade com que conseguimos vagar por aí é muito alta, mas isso não dificulta o fato de conseguirmos entender o que vemos. Em melhores palavras, é como se estivéssemos vendo perfeitamente todas as imagens de uma janela de um carro em movimento. Há a possibilidade de diminuir essa velocidade, para interagir com outros espíritos ou o que for. O fato de eu entrar em desespero foi que no momento em que eu desacelerara e vira o espírito da menina, não conseguira voltar a acelerar e sumir dali. Estava preso, e muito longe de meu corpo. Minha aura provavelmente estava brilhando como um farol, apesar de eu conseguir controlá-la bem. O que estava acontecendo não era algo normal, e provavelmente desequilibrava todo o sistema.

Comecei a andar de volta para meu corpo, mas podia levar horas, e até lá já estaria desesperado pensando que de fato morri e não poderia voltar.

Até que Alice me puxou.

Acordei de sobressalto, com a cabeça automaticamente explodindo de dor.

– Eric? – Alice abaixa-se, ponto meu rosto entre suas mãos. – Acorda, ei!

– Oi – a encaro, suas pupilas minúsculas. – Por um minuto eu pensei que estivesse morto.

– Como assim? – ela me ergue do chão com facilidade. Está mais forte que antes.

– Não consegui voltar pro meu corpo por uns trinta minutos – explico. Ela não parece surpresa. No fundo, Alice nunca parece surpresa com nada. Esconde seus sentimentos e age em perfeito equilíbrio, independente deles. Não fico magoado. Alice não é desprovida de emoções, apenas não as demonstra.

Seguimos para a Casa Leste, onde muita bagunça nos espera. A plantação fora destruída, resumida às cinzas. As outras plantações provavelmente sofreram o mesmo destino. Era o lugar que mais gostava de ficar quando estava aqui. O lugar mais humano, por assim dizer.

Tento ao máximo passar rapidamente pelo pátio. Alice me acompanha. Só quero chegar ao refeitório, subir, ver os estragos, encontrar Vinícius e ver o que ele tem a dizer a respeito. É certo que o líder da inteligência de nossa casa é Alec, mas não quero receber ordens de Alec.

Como se ele não farejasse meu cheiro de longe.

Alec chegou gritando.

– ONDE VOCÊ ESTAVA? – ele me empurra, irritado. Controlo minhas emoções, não deixando nem sequer demonstrar surpresa alguma. Porque no fundo não estava surpreso mesmo. Já havia o identificado no pátio, era só uma questão de tempo até ele me perceber.

– Inconsciente. – respondo, calmo, dando de ombros – Em algum lugar perto da rampa.

– Perto da rampa? Eu varri cada centímetro desse acampamento atrás de você. – ele diz da forma mais rude possível, como se meu dever fosse permanecer aqui e seguir suas ordens sempre. Seus olhos me fitam raivosos como seu fogo.

– Então acho que não procurou direito – respondo.

Alec vira-se para trás, controlando-se. Não entendo sua ira. Não sou o único motivo, não posso ser.

Então ele vira-se, investindo seu fogo vermelho púrpura contra mim. A principio não pensava que seria contra mim, porque ele atira no chão de certa forma, mas então o fogo toma forma muito rápido e lambe o escudo que conjuro nos últimos segundos. O escudo incompleto, fraco, que falhara, e devido a essa falha, o fogo atinge Alice nos seus últimos momentos de conjuração. Ela grita, virando-se e se afastando.

Alec investe contra mim antes mesmo de eu gritar por Alice. Vitor intervém, mas ele o afasta, empurrando-o com força. Vitor cai sem maiores problemas no chão a uns cinco metros, mas Alec continua investindo contra mim, seu fogo tomando uma coloração púrpura tão intensa e forte que cada escudo que conjuro parece ser o último.

Ele investe novamente e então sofro a primeira queimadura. Grito de dor e caio no chão. Seu próximo ataque parece ser o pior, mas consigo conjurar outro escudo novamente, cada vez mais fraco.

Alec é atirado para o lado por uma rajada forte de ar, batendo nas pedras e quebrando-as, quase caindo ladeira abaixo em direção ao mar. Se segura no ultimo instante, saltando e caindo novamente ao meu lado. Ele investe um soco, e apesar de não conseguir me erguer, ordeno a terra abaixo de mim subir entre nós, destruindo pedras, destruindo o chão, protegendo-me e machucando-me ao mesmo tempo. Cada conjuração que faço sinto-me mais cansado. Alec soca minha muralha, atravessando-a. Sou tomado pela terra. Consigo me levantar, mas então meu corpo cai quando meu espírito o abandona.

Entro no espiritual automaticamente. Forço meu espírito a voltar, entretanto permaneço imóvel. Ainda estou imóvel, vendo meu corpo parar. Alec me soca e sinto-me mais enfraquecido, automaticamente sendo tomado, de corpo e espírito, pela dor. Sinto cada vez menos que consigo voltar.

Então Alice aparece, saltando sobre Alec, empurrando-o com uma força e facilidade incrível. Alec rola pelo pátio até bater novamente nas pedras e permanecer assim.

Eu ainda não consigo voltar.

Meu irmão entra no espiritual e me encontra, os olhos desesperados. Ele olha para meu corpo. Estou imóvel.

Corro até meu corpo, mas sou repelido por um enorme escudo. Bato no escudo, tentando quebrá-lo. Meu irmão corre até meu corpo, assim como Alice, tentando me reanimar. Ao redor, todos estão petrificados. Alguns começam a se mover, cautelosos. Outros correm. Vejo Diana, Juan. Diana corre. Ela é a única que não pode me ver aqui. Lucas a para. Ela não chora, está com raiva. Alice chora. Ela olha pra mim, para meu espírito, e pela primeira vez, a vejo chorar.

Vejo Alice tirando seu Poder do bolso, colocando sob meu peito, tentando me curar.

– Volte para lá Eric Jones – uma voz diz. Viro-me e encontro um garoto. Alguém que sei que conheço, pelo olhar, mas não pelo ser. Seus olhos têm um tom púrpuro. Já vira esses olhos antes. Parece ser tão novo, talvez vinte anos. Não há ninguém com esses olhos entre nós. A não ser...

– Scorpio – digo. Ele sorri.

– Você tem alguns segundos para destruir a passagem. Não morra. – seu espírito desaparece.

Olho para o enorme escudo acima de mim.

Sinto-me mais forte que antes. Não estou mais cansado. Há um ponto de Poder em meu espírito. A pedra de Alice.

Soco o escudo. Soco, repetidas vezes, até vê-lo se rachar, tão pouco que quase sinto que vou desistir. O espírito de uma garota começa a bater comigo, o mesmo espírito que falara comigo hoje mais cedo. Mostra sua força, não parando um segundo de bater. Sinto-me cada vez mais vivo à medida que o escudo quebra.

E então respiro.

Alice está ao meu lado, assim como Vitor, assim como outros.

Levanto-me com dificuldade, desfazendo-me de mãos, de olhares. Não tenho raiva de Alec, nem sequer o olho. Diana está me encarando, assustada, mas não se aproxima de mim. Ninguém se aproxima quando me afasto de todos, cambaleando, para o meio do pátio. O foco nem sou eu, por um minuto. Estão todos olhando o homem, mais velho e bem vestido, que acabara de chegar ao pátio. Seu olhar brilha em tons púrpuros.

– Parece que temos um espião. – ele diz.

Tiro minha pequena pedra de Poder do bolso. A pedra que tanto acreditei me dar tanto poder, conceder-me a força que preciso para tudo. A pedra que nem sequer era real. A esmago entre os dedos. Ela se dissolve em milhares de cores.

– É o que dizem. – digo, saindo do pátio, sentindo que um peso enorme fora tirado de meu espírito.