Zia

1 O Balão vermelho


Se alguém olhar para a vida que eu levava à três anos atrás, provavelmente irá pensar "nossa, que vida chata" e talvez fosse mesmo. Não tenho como não dizer que vez ou outra eu me sentia sufocada pela realidade ao meu redor ou quesonhava com um outro tipo de vida, algo mais brilhante e não tão frio quanto o que eu experimentavaentretanto acho que no fim das contas todos se sentem de tal forma e compartilham os mesmos pensamentos de fuga.

Hoje quando penso na vida que levava no hospital apenas noto o quão perto da ignorânciaestava vivendo e em como eu mal conhecia o mundo em que habitava e as pessoas ao meu redor.

Costumava pensar que aquele tipo de vida confortável era o melhor que alguém como eu podia conseguir e que devia estar grata por ter conseguido tudo graças às pessoas que me amaram, me apoiaram e tanto esconderam de mim para o meu próprio bem durante toda a minha vida. Quando eu repenso sobre tais coisas hoje de certa forma, acho deveria ser grata mesmo pois foi bom enquanto durou.

O rumo que a minha vida tomou ao fim do meu último plantão como enfermeira me faz constantemente questionar se não seria melhor ter continuado na completa ignorância sobre o mundo ao meu redor. Tudo o que vivi até aquele dia se torna cada vez menos enraizado nos meus pensamentos, as piadas nos corredores se perdem e eu não sei mais o nome das pessoas que trabalhavam comigo, talvez mal as reconheça se cruzar com elas nas ruas — o que não vai acontecer.

Meu ultimo plantão não passou de nada mais que um dia normal daquela minha rotina confortável e ociosa. Como de costume acordei cedo e fui para o hospital. Eu era uma enfermeira muito boa, gostava bastante de cuidar das pessoas.

Recordo que o plantão inteiro correu tranquilamente, nenhum acidente bizarro ou nojento demais que ninguém tivesse estomago para atender aconteceu. Um plantão perfeito que chegou ao fim pela manhã do dia seguinte. Me lembro de sentir o alívio por poder voltar para casa, o alívio por poder encontrar a minha cama e dormir tudo que eu tinha ficado acordada naquela noite e poder me preparar para o trabalho só no dia seguinte, infelizmenteeu nunca voltei para a minha casa.

É engraçado como decisões mínimas mudam a sua vida completamente, eu estava pronta para ir embora já com roupas normais e me aproximando da saída do hospital, da primeira vez que ele me chamou mal pude ouvir sua voz (ou preferi fingir que não ouvi), na segunda consegui notar mais do que bem a voz de Tom gritando "ZIA ME ESPERA" como se mundo fosse acabar se eu saísse portaafora.

Ele corria de encontro à mim quando eu me virei para ele quase com raiva, me lembro de pensar "Isso não está acontecendo".

-Zia preciso falar com você — Disse ele enquanto segurava meu ombro e recuperava o folego após ter corrido uma distância ridícula para me alcançar.

-Agora? Me deixa ir pra casa.- Supliquei em vão.

-Vem tomar um café.

Tom me arrastou até a cafeteria que ficava do outro lado do hospital, se negava a responder quando por várias vezes eu o perguntava o que ele queria comigo em uma hora daquelas, me dizia que eram boas noticias mas que alguém podia ouvir. Durante todo o caminho ele vinha me provocando sobre como eu parecia um zumbi, as grandes olheiras, os cabelos desarrumados "como você vai arrumar um namorado desse jeito?" ele ria de mim.

Chegando na cafeteria ele finalmente pôde sentar, pediu um café para ele e um doce para mim, olhou bem para os dois lados como se quisesse ter completa certeza que só eu iria ouvir as preciosas boas noticias que ele tinha para contar, depois de respirar fundo abriu um sorriso enorme e começou a falar.

-Vou pedir ela em casamento hoje.- Disse ele em uma voz baixa, havia alegria estampada em cada parte do rosto dele, era algo feliz de se ver pela manhã. Os olhos verdes desapareciam na face sorridente dele, me fazia gargalhar.

-Parabéns, só resta saber se ela vai casar com um merdinha que nem você né.- Eu ri dele.

-Claro que vai, ela me ama.- Zombou ele enquanto tomava o seu café.

-É, com certeza, claro que vai, você é médico- Dei uma piscadela para ele que me devolveu puxão de orelha.

A ultima vez que eu o vi daquele jeito foi quando ganhou o primeiro skate, ele tinha 6 anos de idade e ficou completamente alucinado de felicidade correndo pra lá e pra cá no corredor do prédio me implorando pra ir com ele no parquinho pra gente usar o tal brinquedo.

Por várias eu me peguei pensando o que teria acontecido com a minha vida se Tom não tivesse me chamado para o café querendo falar do seu noivado com a Aanisa, por uns bons vinte minutos ele me contou tudo que havia planejado para surpreender ela na noite daquele dia, eu ria e concordava com tudo mesmo que muitas vezes não estivesse ouvindo o suficiente para saber se ele estava exagerando ou não.

Infelizmente, nossa conversa foi interrompida enquanto ele ainda contava sobre seus planos, ele recebeu uma chamada para atender na emergência e me liberou, contudo, mesmo quetivesse me atrapalhado eu me sentia feliz por ele.

Deixei o café e entãofiz todo o trajeto do qual Tom havia me desviado, cruzei o hospital novamente, cheguei novamente até a porta e sorri satisfeita porque finalmenteiria para a casa.

Na frente do hospital costumava haver uma grande praça que possuíachafariz no meio (hoje em dia não posso ter certeza se ainda estão lá), era algo de certa forma bonito e tranquilizador de se ver todos os dias. Eu gostava de me sentar nos pequenos bancos próximos ao chafariz e observar o curso da água calmamente enquanto tomava um copo de café, era um habito meu fazer isso no final dos expedientes entretanto como em tudo que já contei, naquele dia eu não fiz aquilo.

Ao invés de me sentar perto do chafariz, eu sai andandonormalmente. Pela rua principal rua que levava ao hospital passavam veículos de todos os lugares do pais, ela levava aos grandes monumentos turísticos da cidade portanto sempre estava cheia em horários de pico.

Claro, que em um mundo extremamente civilizado -em que eu acreditava viver- asinalização e os motoristas eram de conduta impecável, acidentes de transito eram a maior raridade naquela região. O que sinceramente não explica os eventos que se sucederam tão rápido e na minha memória parece que demoraram séculos, dois minutos que mudaram minha vida.

Lembro que esperei por alguns segundos o sinal fechar e comecei a atravessar a rua. Enquanto o sinal permanecia fechado, no meio da faixa de segurança para pedestres eu pude ver de longe um menininho. Primeiro ele me chamou a atenção por estar segurando um balão vermelho, parecia perdido olhando para os lados incansavelmente à procura de alguém até que então ele se virou para mim e sorriu, seus olhos eram azuis e seu sorriso não era comum, era como se ele tivesse encontrado quem procurava, "Zia venha aqui" gritou ele enquanto me chamava e deixava o balão escapar das mãos.

Tanto aconteceu em tão fracionado tempo, olho para esses momentos em câmera lenta e só assim posso discernir o que senti. Não tive tempo qualquer de atender o chamado do pequeno menino ou de sequer tentar responde-lo mesmo à distância, naquele exato momento, na ultima letra da frase que aquele garotinho pronunciava,um caminhão desgovernado avançou em mim.

De acordo com o senso comum, quando alguém é atropelado por um caminhão tão brutamente como eu fui naquele dia, esse alguém provavelmente morre ou se encontra gravemente ferido. No meu caso, nenhuma das alternativas se aplica. Eu saí ilesa. Nenhuma só gota de sangue tocando chão, nenhum arranhão,o máximo que me aconteceu foi ficar tonta por uns bons minutos.

O motorista desceu desesperado tentando encontrar sua vitima e só se deparou com uma garota caída no chão, ele não podia acreditar, nem eu podia. Ele me levou ao hospital, explicou que perdeu o controle do freio e fez questão de me levar para o hospital, foi então que o pesadelo começou.

Os médicos à principio não acreditaram nos relatos do motorista (que me vi obrigada à confirmar devido à preocupação do mesmo comigo), eles reagiram mal afirmando que tal coisa jamais aconteceria, pediram pelas câmeras de segurança para comprovar que o evento realmente aconteceu. Confirmando a verdade, mais e mais médicos chegavam, começaram a se reunir ao meu redor tentando entender o que me aconteceu ou melhor, o porque não aconteceu.

Durante algumas horas eles me fizeram das mais variadas perguntas à respeito da minha criação, da minha origem, da minha genética. Fui submetida à tantos exames que havia começado a ficar desesperada querendo fugir, eu os implorava para pararem mas era levada de laboratório em laboratório do hospital e continuava à deixar todos nervosos por não descobrir qual era o meu problema. Minha sorte virou quando Tom descobriu o que estava acontecendo e veio me buscar em sala de eletrocardiograma, ele chamou os médicos para fora da sala enquanto eu esperava pacientemente deitada.

Até hoje não faço ideia do que ele disse para eles, apenas sei que depois de muita conversa do lado de fora da sala de exame me colocaram em um quarto afirmando que eu deveria ficar sob observação pelo menos até que os resultados de todos os exames fossem avaliados.

Não sentia nada, nenhum tipo de dor, nenhum tipo de tontura ou enjoo, nada que fosse clinicamente perigoso. Estava desesperada por dentro, sem saber o que tinha acontecido comigo, o porquê de toda aquela precaução, o porquê de não me deixarem retornar a minha casa. A única coisa que me trazia certo alivio era que agora poderia ficar sozinha, sem toda aquela gente me olhando como aberração.

Quase uma hora depois de ser removida para um quarto, Tom veio ao meu encontro, ele parecia exausto e se sentou ao meu lado, ele carregava consigo uma mochila.

-Zia, você vai sair daqui, ok?

O olhei assustada.

-Como assim?

Ele esfregou as mãos no rosto calmamente em seu rosto, respirou fundo e se virou para mim seriamente, tão serio como eu jamais havia visto.

-Seu pai me ligou, tem um carro lá embaixo te esperando e você vai conseguir mais explicações. Você não pode ficar aqui, é perigoso demais para você.

-Entendo.- Disse eu calmamente, podia ver o quanto ele estava preocupado a respeito daquilo, havia algo na forma como ele me olhava, parecia tentar entender o que estava na frente dele.

Naquele momento eu entendi, aquilo que aconteceu comigo era impossível para qualquer forma de vida existente no nosso mundo, nenhum exame médico iria dar um resultado que não fosse inacreditável. Logo o caos que aquela manhã no hospital virou por minha causa se tornaria o caos da minha vida. Tom me dizendo que seria perigoso demais ficar ali, só significava uma coisa: Eles não encontraram nada com que conseguissem lidar.Agora era fugir ou virar um rato de laboratório.

Tom se levantou e fingiu ler o prontuário enquanto andava de um lado para o outro me dizendo:

-Se troque com o que há na mochila e saia pela porta dos fundos, eu providenciei esse quarto porque é perto. Nenhuma enfermeira que te conheça vai te parar porque elas sabem melhor do que nós o que está acontecendo, tem um carro preto te esperando do lado esquerdo da rua. — Uma lagrima escorreu pelo rosto dele.

-Tom você sabe o que está acontecendo ... comigo? — Perguntei o mais baixo que consegui.

Ele mexeu com a cabeça em negativa olhando para o chão, não conseguia mais me encarar.

-Tente falar comigo, quando puder. — Ele sorriu uma ultima vez e saiu pela porta. Nunca mais o vi.

Me troquei o mais rápido que pude e já com a mochila nas costas cruzei algumas áreas do hospital andando o mais calmamente o possível afim de não gerar suspeitas. Em certo ponto passei por uma enfermeira que me reconheceu, ela me olhou rapidamente e desviou o olhar para uma prancheta que carregava"Nenhuma enfermeira vai te parar" eu repeti para mim mesma como um mantra as palavras de Tom até conseguir chegar na saída dos fundos do hospital.

O carro preto estava lá, exatamente onde ele disse, nunca prestei tanta atenção ao atravessar uma rua como prestei para alcançar aquele carro. As portas estavam destrancadas, tentei abrir a da frente mas havia um homem de camisa vermelha e jeans. Ele devia ser alto, não havia como ter certeza, seus estavam cobertos por óculos escuros mas apesar disso ele possuía feições amigáveis, de certa forma me lembrava meu pai. Assim que ele me viu abrindo a porta do carona ele me olhou seriamente e disse baixinho "banco de trás".

Assim o fiz, me sentei nos bancos de trás e ele deu partida, por um tempo eu tentei pensar e tentei com que dentro da minha cabeça tudo que aconteceu fizesse sentido de alguma forma entretanto percebi que não estava fazendo nada além de me guiar à loucura enquanto me perguntava se já haviam descoberto que eu havia fugido do hospital em plena tarde, ou se eles haviam tido alguma desconfiança à respeito de Tom.

Devia haver algum rastro de desespero nas minhas feições, pois o motorista olhava o retrovisor ora ou outra para conferir como eu estava. Ele dirigiu para as estradas que levavam à saída da cidade, assim que passamos a ultima placa avisando que tinhamos deixado o lugar onde eu cresci foi que ele me disse:

-Me mandaram só falar com você nóssaíssemos da cidade, sinto muito.- Exatamente o tipo de coisa que o meu faria.

-Sem problemas. — Tentei parecer tranquila. — Para onde nós vamos?

-Vou te deixar no meio do caminho para ir para a casa do seu avô nas montanhas, você vai pegar um ônibus e eu te explico tudo lá.

-E os meus pais?- Eu olhei para os campos vazios do lado de fora do carro, todas as luzes da cidade foram deixadas para trás.

-Eles disseram que vão entrar em contato quando você chegar lá. — Me respondeu ele calmamente.

-Ah, eles tem muito pra explicar. — Nem eu reconhecia a raiva que apliquei na frase, mas de qualquer forma, como eu poderia estar tranquila? Se alguém sabia que algo estava errado comigo.

O motorista riu, embora eu estivesse sento totalmente séria. Meus pais me deviam algumas respostas.

Notas finais
review?