Zerstören

2 Capítulo 2 - Silêncio


Notas iniciais
Oi, queridos, tudo bem? Em primeiro lugar, quero agradecer a todos os que leram e comentaram o capítulo anterior: vocês são incríveis! Em segundo lugar, quero pedir para que sempre prestem atenção nas datas que aparecem no início de cada cena, certo? Assim, vocês não se perdem na narrativa. Só para deixar bem claro, a história se passa em outubro de 1982. Nessa fic, Voldemort foi derrubado no dia 31 de outubro de 1981 pela Ordem da Fênix. Mais detalhes sobre isso, eu vou contar mais para frente, ok? :) Boa leitura!

Capítulo 2 – Silêncio

[Terça-feira, 23 de setembro de 1980, 7h33]

A primeira coisa que James viu ao abrir os olhos foi Lily dormindo tranquilamente ao seu lado. A primeira coisa que quis fazer foi debruçar-se sobre ela e, com a finalidade de despertá-la, começar a beijar suavemente seu ombro e ir subindo até o pescoço, naquele momento exposto e vulnerável. Queria vê-la sorrir ao abrir os olhos, queria sentir os dedos dela contornando suas sobrancelhas, aquele jeito único que ela tinha de acariciá-lo. Queria fazer amor com ela, queria senti-la por inteiro mais uma vez; afinal Lily estava finalmente ali, amanhecendo ao seu lado, sã e salva, após ter ficado quase quatro dias incomunicável em uma missão da Ordem.

Mas manteve-se imóvel, limitando-se a assisti-la dormir.

Subitamente, sentiu-se o ser humano mais sortudo do universo. Aquele momento era a melhor definição de privilégio que James conseguira conceber até então. Pois mesmo tendo nascido e crescido em um lar amoroso, tido pais com uma situação financeira quase ilimitada, uma infância e adolescência muito felizes, uma saúde quase infalível e, principalmente, sempre ter podido contar com três grandes amigos para tudo; James concluiu que nenhum desses fatores chegava aos pés do conceito de privilégio que era acordar ao lado de uma mulher como Lily Evans.

Afinal, diante do cenário hostil no qual a sociedade bruxa se encontrava, ter alguém que compartilhava dos mesmos ideais, alguém com quem lutar lado a lado, era algo extremamente raro. Quantos antigos conhecidos de Hogwarts, muitos dos quais se diziam orgulhosamente grifinórios, não haviam declinado à possibilidade de lutar contra Voldemort? E, dentre eles, quantos não eram nascidos trouxas – não que James os culpasse por isso?

Lily Evans não era apenas a mulher por quem ele se apaixonara. Ela era também a pessoa mais corajosa que James conhecia. Apesar de pertencer à minoria perseguida por Voldemort e seus Comensais da Morte, não lutar nunca fora uma opção para ela.

— Bom dia – ele disse, enquanto fazia movimentos circulares com o dedo indicador sobre o ombro da namorada adormecida.

James sabia que nunca iria se cansar de observar aqueles olhos verdes. Mesmo desfocados e inchados pelas muitas horas de sono, eram os orbes mais marcantes que tinha visto.

— Bom dia – ela pronunciou com a voz rouca. Levou uma mão ao rosto e esfregou os olhos.

Assistiu-a despertar como se assistisse a seu filme favorito. Lily espreguiçou-se e sentou-se na cama, um pouco despenteada. Girou o tronco para olhar para ele, exalando uma sonolência involuntariamente charmosa.

— Amo você. Demais – James sussurrou, ainda deitado, sem poder tirar os olhos dela.

— Eu também amo você, Jay – Lily se inclinou sobre ele, apoiando-se em um braço. Ela ficava ainda mais bonita daquele ângulo, se é que aquilo era possível.

— Quero acordar assim para sempre.

James mais uma vez revisitou o sentimento angustiante que o havia dominado nos último dias, quando ficara sem qualquer notícia de Lily. Imaginou como seria se, algum dia, um deles tivesse de acordar em manhã como aquela, sem o outro para sempre.

— James – ela pronunciou o seu nome com aquele tom arrastado, tipicamente matinal. James segurou o rosto dela entre suas mãos, como se quisesse memorizar cada detalhe dele. Lily cerrou os olhos e, mantendo-os fechados, continuou: – Eu também quero. Mas, no momento em que vivemos, independentemente do–

— Casa comigo?

Ela abriu os olhos no mesmo instante. Seu olhar imperscrutável não lhe ofereceu pistas sobre o que poderia estar pensando. James previu que, após abrir um sorriso devastador, ela gentilmente lhe responderia que a guerra não permitia que eles tivessem o luxo de se preocupar com uma coisa daquelas.

Mas as palavras dela foram:

— Sim.

E ela abriu aquele sorriso devastador. Ela dissera sim.

Contudo, mais tarde naquele dia, eles enfrentariam cinco Comensais da Morte em um atentado repentino no norte da cidade. E uma semana depois, James iria acordar no Hospital St. Mungus, sozinho. E quando tivesse a oportunidade de perguntar sobre Lily, iria ouvir a seguinte resposta, em tom de desculpas:

— Ela foi embora há quatro dias, James. E ninguém sabe para onde.

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[Segunda-feira, 25 de outubro de 1982, 7h33]

A primeira coisa que ele viu ao abrir os olhos foi Emmeline dormindo tranquilamente ao seu lado. A primeira coisa que quis fazer foi se desfazer das cobertas e se encaminhar para debaixo do chuveiro.

Quando voltou ao quarto, Emmeline ainda estava deitada na mesma posição, mas com os olhos abertos. James se vestiu rapidamente com a ajuda da varinha e se sentou de costas para a namorada para colocar as meias.

— Bom dia, querido – ela o abraçou por trás e beijou seu pescoço.

— Hey – James cumprimentou de volta, colocando a meia no outro pé.

— Vai mais cedo hoje?

— Sim.

Emmeline o soltou bruscamente e desabou na cama, transmitindo uma nítida mensagem de desaprovação. James não se virou para ela, afinal, tudo o que ele não precisava era de uma discussão matinal quando ele sabia que teria um dia longo pela frente.

— Por causa dela? – Emmeline perguntou ao perceber que James não iria reagir à sua atitude clara de desapontamento.

James se levantou e finalmente a encarou, mas evitou olhar nos seus olhos.

— Não, Emmeline. Não é por causa dela.

De todos os inúmeros defeitos que Emmeline conhecia na personalidade de James, curiosamente aquele que mais a incomodava não era seu descaso ou falta de empatia, mas seu silêncio. Ele nunca falava espontaneamente sobre o que sentia e tampouco permitia que algum assunto que o desagradasse fosse discutido por muito tempo. Com os traumas sofridos durante a guerra, James havia se tornado um homem fechado, introspectivo e, muitas vezes, amargo.

— James, eu sei que é por causa dela. E eu entendo que você esteja ansioso para vê-la, mas acha mesmo que ela tem uma boa explicação para tudo? Se tivesse, ela já teria–

— Não é por causa dela, Emme – James a interrompeu, num tom grave. Ele levantou os olhos esverdeados para mirar os seus. – Preciso acertar uns assuntos com Moody.

— Então eu vou com você. Me arrumo num minuto!

Ela fez menção de sair da cama, mas James a parou com um movimento de sua mão. Ele não precisou pedir para que ela não fosse com ele; Emmeline compreendera seu desejo apenas com aquele gesto.

De todas as inúmeras qualidades que James conhecia na personalidade de Emmeline, curiosamente aquela que mais o apetecia não era sua independência ou seu jeito carinhoso, mas sua capacidade de compreender seu silêncio. Ele raramente tinha de lhe dizer algo desagradável em voz alta, pois ela era brilhante na interpretação de seus gestos e olhares. Com o passar dos meses do relacionamento deles, Emmeline havia se tornado especialista em decifrá-lo, e aquela forma de comunicação muda era a chave para a cumplicidade dos dois como um casal.

— Estou indo. Vejo você mais tarde – ele disse, antes de sair do quarto.

Emmeline só voltou a se mexer quando ouviu a porta da sala se fechar. Obrigou-se a respirar fundo e, de joelhos sobre a cama, andou até a extremidade na qual James dormia. Sentou-se ali e abriu a segunda gaveta de seu criado-mudo.

Lá, encontrou um maço de cigarros. Emmeline fumava muito raramente, mas sua convivência com James inevitavelmente intensificara a frequência do hábito. Sim, talvez agora aquilo já pudesse ser denominado hábito. Ela acendeu o cigarro com a ponta da varinha e guardou o maço de volta na gaveta. Mas não a fechou.

James sempre mantinha um maço ali para ter cigarros ao seu alcance quando estivesse deitado e a vontade de fumar surgisse. Contudo, Emmeline descobrira que tabaco não era a única coisa que James guardava naquele compartimento. Semanas antes, em busca de um cigarro, Emmeline abrira a gaveta, como já havia visto o namorado fazer inúmeras vezes, e descobriu que James também guardava ali o último item relacionado à Lily Evans que ainda restava naquele apartamento: uma foto.

Mesmo ciente de que o que estava prestes a fazer não tinha nenhum sentido, Emmeline não conseguiu se conter. Enfiou a mão no fundo da gaveta e pescou a foto novamente. Não fazia sentido, machucar-se com aquilo, não era nada racional, mas ela precisava ver de novo. E lá estava James, alguns anos mais novo, e lá também estava Lily. Os dois estavam no jardim de Hogwarts, abraçados e sorridentes. Jovens e felizes.

Após quase um minuto inteiro analisando os detalhes da imagem, Emmeline virou a foto, obrigando-se a parar com aquilo. Sentia-se péssima. Por que estava fazendo aquilo? O que tinha a ganhar?

E foi assim que ela descobriu que, no verso da fotografia, havia uma dedicatória. E aquela dedicatória conseguiu machucá-la mais do que a foto em si.

Querido James,

Obrigada pela paciência e pela conversa de ontem. Você tinha razão, minha irmã não merece que eu me importe. Hoje acordei muito mais tranquila, graças a você!

Com amor,

Lily Evans.

P.S.: Como é bom ter alguém com quem posso falar sobre tudo! Conte comigo sempre!

Março/1978

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[Segunda-feira, 25 de outubro de 1982, 8h16]

Alastor Moody colocou a pena de lado e levantou a cabeça. Observou a porta fechada de sua sala, mas seu olho mágico permitiu que ele pudesse enxergar o corredor que se seguia atrás dela. Viu o melhor estrategista de sua equipe surgir no final dele, com o habitual semblante sério, vindo em sua direção sem olhar para os lados. Os outros funcionários do andar o assistiram atravessar o corredor, fazendo comentários em voz baixa.

— Entre, Potter. – Alastor falou quando o outro erguera o braço para bater na porta.

Potter entrou, cerrou a porta atrás de si, andou até a mesa e se sentou na cadeira que ficava diante desta. Alastor esperou que ele prosseguisse, embora já soubesse exatamente o que o trazia ali.

— Bom dia, Moody. – Potter falou, ajeitando as vestes. – Eu gostaria de conversar com você sobre a sua decisão de recontratar aquela mulher.

Antes de responder, porém, Alastor coçou a barba.

— Está questionando minha decisão?

— Sim. – Potter respondeu, prontamente. – Existem aurores recém-formados aguardando uma vaga no Quartel. Não faz sentido não contratar um deles, mas recontratar alguém que nos deixou na mão dois anos atrás.

Alastor expeliu todo o ar de seus pulmões e se levantou de sua cadeira.

— Potter, seu questionamento é que não faz sentido. – O rapaz arregalou os olhos ao ouvir sua réplica, mas Alastor não permitiu que fosse interrompido: – Por que raios eu contrataria um moleque cujo maior desafio foi o duelo simulado dos exames finais do Curso de Formação de Aurores, em vez da mulher que fazia os Comensais da Morte borrarem as calças?

— A questão-

— Ora, Potter, engula esse seu orgulho. Evans era a melhor da equipe de 1980. Você só ocupa o cargo de Auror Capitão atualmente porque ela desistiu da carreira.

— Desistiu da carreira? Moody, ela desistiu da guerra.

Alastor fitou-o com seu olho tonto e aguardou um momento.

— A guerra acabou, Potter.

— Não graças a ela.

Foi então que Alastor percebeu que aquela conversa entrara num looping e, se ele insistisse em levá-la adiante, nunca chegariam a lugar algum. Nada do que dissesse mudaria a opinião do jovem auror sentado na cadeira defronte, afinal, ele tinha seus motivos para não querer Evans na equipe, mesmo que Alastor achasse que já estivesse na hora de Potter superá-los.

— Não mudarei minha decisão. – o mais velho declarou, após a curta pausa.

Potter se colocou de pé e estreitou os olhos em sua direção.

— Não confio nela, Moody. Ela abandonou a Ordem e ninguém sabe por onde ela andou nos últimos dois anos. A última vez em que foi vista, ela estava com Snape no Cabeça de Javali. – Potter respirou pesarosamente e Alastor percebeu que dizer aquelas palavras provavelmente era algo muito difícil para ele. – Ela não mais é de confiança. Talvez ela nunca tenha sido.

Alastor soube que precisava devolver-lhe um argumento consistente, contudo sua consistência não poderia, de modo algum, denunciar o quanto sabia a respeito do que acontecera à Lily Evans. Potter jamais poderia sonhar com o que Alastor viera a saber recentemente. Ele precisava ser muito cuidadoso.

— Potter, eu não contraria alguém em quem não confiasse. E eu não me importo se você aprova ou não minha decisão. – e indicando a porta com o braço, completou: – Tenha um bom dia.

Mas Potter não se mexeu.

— Moody, do que você está sabendo? O que te faz confiar nela?

— E o que te faz não confiar? Que provas você tem? As coisas ficaram feias para nascidos trouxas dois anos atrás, ou já se esqueceu? – Alastor definitivamente estava começando a se irritar com a insolência dele. – O Quartel não tem nada a ver com sua vida pessoal, Potter! Agora, por favor, me deixe trabalhar!

Alastor voltou a se sentar em sua cadeira e tomou a pena para voltar a escrever. Sem dizer mais nada, Potter saiu de sua sala e bateu a porta com força. Com seu olho-tonto, Alastor o assistiu voltar pelo longo corredor e entrar em sua própria sala. O local no qual ele havia pedido à Lily Evans para aguardar.

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[Segunda-feira, 25 de outubro de 1982, 8h29]

A primeira coisa que ele viu ao abrir a porta foi ela de costas. A primeira coisa que quis fazer foi dizer seu nome, numa tentativa de obrigar a si mesmo a aceitar seu retorno. Mas deteve-se.

Deteve-se porque, subitamente, descobriu que ainda não era capaz de dizê-lo em voz alta. Afinal, aquele nome o remetia a uma mulher cujo caráter era completamente diferente do da mulher que se encontrava em sua sala naquele momento. Aquele nome lhe despertava inúmeras lembranças e James preferia mantê-las esquecidas.

Ao ouvir seu passo, ela lentamente se virou para ele. James notou que ela estava mais magra do que ele se lembrava, mas não menos bonita. Pelo contrário. Os cabelos acaju estavam um pouco mais longos e as maçãs de seu rosto estavam mais marcadas. Ela possuía agora uma aparência inegavelmente adulta.

— James.

James desviou os olhos para a parede a sua frente, atravessou a sala e deu a volta em sua mesa. Ela girou o corpo para acompanhá-lo com o olhar. Percebeu que a mulher trajava roupas trouxas. Ele se perguntou se aquilo queria dizer alguma coisa, se era alguma pista de como ela havia decidido viver nos últimos dois anos. Havia tantas coisas que ele gostaria de saber, de lhe perguntar. Tantas. James orquestrara aquele reencontro repetidamente dentro de sua cabeça ao longo dos últimos anos; em todas às vezes, ele se imaginava dizendo tudo o que sentira e exigindo que ela lhe explicasse o que havia acontecido.

Mas ali, naquele momento, quando estava diante da oportunidade de finalmente fazê-lo, tudo o que ele conseguiu proferir, sem tirar os olhos dos pergaminhos espalhados sobre a mesa, foi:

— Essa não é mais sua sala.

Certamente havia muitas outras coisas que ele preferiria de ter dito. Mas só então percebera que, mesmo depois de tanto ansiar por aquele reencontro, James não estava pronto para lidar com ele.

— Desculpe, eu não sabia onde deveria esperar. – ela se justificou, sem apresentar nenhuma alteração em sua postura. – As coisas mudaram muito por aqui.

— Sim, mudaram.

James pôde ouvi-la respirar fundo. Esperou que ela saísse da sala, mas ela não o fez.

— Bom. – ela falou. – Aonde devo ir, então?

— À segunda sala à esquerda. Em breve eu vou distribuir as tarefas do dia para os aurores.

— Certo.

Novamente, ele aguardou que ela se retirasse. Novamente, ela não o fez.

E o silêncio, o recurso favorito de James, nunca o havia incomodado até então. Pela primeira vez em muito tempo, ele queria conversar sobre o assunto que sempre evitara. Como era torturante que ela estivesse ali, diante dele, e sequer tivesse a iniciativa de lhe oferecer uma explicação. E James seguramente merecia uma justificativa, afinal, ele não arriscara a própria vida para dar a ela uma chance, uma chance que ela usou para fugir e abandonar a guerra em seu auge?

— Por que você voltou?

James ergueu a cabeça e encontrou seus olhos verdes observando-o. Seu olhar imperscrutável não lhe ofereceu pistas sobre o que poderia estar pensando.

— Eu não voltei por você, James.

Ele a assistiu dar meia volta e sair do aposento, deixando-o sozinho. Mais uma vez.

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[Segunda-feira, 25 de outubro de 1982, 18h07]

Marlene McKinnon se espremeu para conseguir sair do elevador e, com muito custo, conseguiu. Enquanto andava pelos corredores do segundo nível do Ministério da Magia, sentiu os efeitos da Poção Polissuco se esvaecerem e imediatamente sentiu-se mais leve ao voltar à sua forma verdadeira. Havia semanas que estava encarregada de investigar um dos sócios da Borgin & Burkes, suspeito de envolvimento no contrabando de chifres de unicórnios, e, para isso, Marlene precisava passar boa parte de seu dia sob o efeito daquela poção, mais precisamente sob o disfarce de um homem corpulento chamado Noah Nott, um dos clientes mais assíduos da loja.

O verdadeiro Noah Nott estava sob custódia do Ministério e sua prisão não havia sido divulgada justamente para que não desconfiassem da investigação. E James havia escolhido Marlene para conduzi-la, afinal, ele conhecia muito bem sua habilidade de improviso e de se adaptar em qualquer situação.

Marlene pôde sentir seus cabelos se esticarem até alcançarem o meio das costas e apreciou, com satisfação, sua barriga encolher-se até tornar-se devidamente lisa. Transfigurou as vestes largas de Nott nas suas. Era sempre gratificante poder se certificar de que o tecido adiposo excessivo de Nott desaparecia completamente após o efeito da poção. Afinal, havia meses que Marlene estava sem comer um sapo de chocolate sequer para manter-se perfeitamente dentro de seu peso, portanto, ter de passar o dia inteiro num corpo obeso era, no mínimo, bastante irônico.

Ela seguiu pelo corredor até alcançar o Departamento de Aurores. Ainda sentindo seu corpo sofrer algumas alterações, Marlene entrou na sala do Quartel para escrever seu relatório do dia antes de voltar para casa. Mas assim que colocou os pés dentro da sala, ela soube que não conseguiria escrever relatório algum.

Lily Evans estava sentada em uma cadeira no fundo do aposento. Marlene ainda não a tinha revisto, uma vez que aparatara direto na Travessa do Tranco naquela manhã. Notou que a ex-melhor amiga levantou os olhos para fitá-la e provavelmente demorou para reconhecê-la, uma vez que seu rosto ainda ostentava o horrível nariz de Noah Nott. Mas ele gradualmente desapareceu e Lily pareceu surpresa.

Ela era a única pessoa presente no Quartel e, por conta disso, Marlene compreendeu que James não havia passado tarefa alguma para ela. Seguramente, Lily havia permanecido naquela mesma cadeira desde às nove horas da manhã. E, muito possivelmente, James pretendia fazer com que aquilo se repetisse diariamente até que ela se desse conta de que as coisas nunca voltariam a ser como eram antes.

Recuperando-se do choque, Marlene foi até o armário no qual se encontravam os rolos de pergaminho, tomou um para si e virou-se para sair, decidindo escrever seu relatório quando chegasse em casa. Ela naturalmente não conseguiria fazê-lo ali, sob a vista de Lily . A presença dela deixara Marlene um tanto abalada e, além do mais, ela havia decidido passar o mínimo de tempo possível no mesmo ambiente em que Lily estivesse.

— Oi, Marlene.

Marlene quase não acreditou quando ouvira aquela voz. Olhou-a por cima do ombro, sem omitir o assombro que aquele cumprimento cínico lhe causara. O que Lily estava esperando? Que Marlene fosse lhe dar um abraço saudoso e perguntar as novidades?

Após lançar-lhe um olhar cheio de mágoas, Marlene saiu para o corredor e apressou o passo para alcançar o elevador a tempo. Conseguiu.

Dentro dele estavam James e mais outros dois homens da Seção de Controle do Uso Indevido da Magia. James pareceu notar sua agitação, pois não tirou os olhos interrogativos de cima dela.

— James, você está livre para um café?

— Quando?

Agora.

James apenas confirmou com um aceno. E o silêncio se estabeleceu no interior do elevador.

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[Segunda-feira, 25 de outubro de 1982, 18h23]

Na área de fumantes do café bruxo situado em frente à cabine telefônica que oferecia acesso ao Ministério da Magia para visitantes, James e Marlene se acomodaram numa pequena mesa ao lado do vidro com vista para a rua.

Assim que se sentou na desconfortável cadeira, James acendeu um cigarro com a varinha. Marlene pediu dois cafés grandes para a garçonete e virou-se para ele, abanando a fumaça que flutuava entre os dois.

— Você tem novidades sobre a Borgin & Burkes? – James perguntou, olhando para a rua, um tanto sombrio.

Marlene não respondeu de imediato. Procurou os olhos dele com os seus, mas, como sempre, não os encontrou.

— Não, eu só... Queria conversar.

— Sobre?

Um pouco desapontada com sua apatia, Marlene murchou os ombros e sacudiu a cabeça.

— Sobre o que você acha, James?

Evidentemente, Marlene sabia que James nunca falava sobre o assunto. A propósito, ela também fazia o possível para não pensar nele. E James não estava disposto a abrir uma exceção para Marlene naquele momento. Portanto, preferiu oferecer-lhe seu respeitável silêncio em resposta.

— Eu achei que ela está mal. – Marlene começou, ignorando o aparente desinteresse do amigo em saber sua opinião. – Quero dizer, ela parece doente, está muito pálida e com olheiras profundas. Você percebeu?

James tragou o cigarro e continuou observando o movimento da rua. Marlene rolou os olhos diante da indelicadeza dele. Típico.

— Os cafés. – a garçonete retornara com duas xícaras grandes, serviu-os com agilidade e saiu.

— James. – Marlene o chamou, com uma voz firme. Um tanto relutante, ele direcionou seu olhar para ela. – Tem outra coisa sobre a qual quero falar.

James sentiu-se aliviado. Sabia que Marlene tinha a melhor das intenções, mas também sabia que ela lidaria bem com sua decisão de não querer conversar sobre aquele assunto delicado. Afinal, não era a primeira vez que declinara discuti-lo. Com um gesto com a mão, ele pediu para que ela prosseguisse. Marlene bebeu um longo gole do café antes de continuar.

— É sobre a Emme. – Marlene anunciou. James virou a cabeça para a rua novamente, assumindo uma expressão de desgosto. Por que ela insistia em falar sobre assuntos pessoais? – Ela está muito triste esses dias. Almocei com ela hoje e, bem, ela me contou que você não conversou com ela durante o fim de semana inteiro.

James respirou fundo. Ele preferia continuar com seu silêncio filosófico, mas precisava cortar o assunto indesejável indo direto ao ponto.

— Aonde quer chegar, Marlene?

— James, o que há com você? – Marlene bateu com a xícara no pires, espirrando um pouco de café e chamando a atenção de algumas pessoas das mesas mais próximas. – A cada dia que passa, você está mais distante de nós. Eu não sei por quanto tempo a Emmeline vai aguentar esse silêncio horrível no qual você se acomodou, sinceramente. Estamos aqui não faz nem dez minutos e eu já estou achando insuportável, se quer saber a verdade.

E, mais uma vez, não houve resposta. Porém, este silêncio era diferente dos outros: era um silêncio de reflexão. James abaixou o rosto, bebeu seu café, apagou seu cigarro e finalmente respondeu:

— Vou prestar mais atenção nisso. Obrigado.

— Ótimo. – ela sorriu. – Você pode usar a festa do Ministério, na próxima sexta-feira, como uma forma de surpreender a Emme, o que acha? – Marlene continuou, ainda muito satisfeita ter deixado de ser ignorada. – Chame-a para um encontro, sabe? Tire-a para dançar, não beba muito, seja gentil, romântico...

— Ok, ok, eu entendi. – James abriu um sorriso fraco.

Mas aquele sorriso fraco não lhe passou despercebido. Marlene tinha feito James sorrir! Precisava contar aquilo a Sirius assim que o visse. Mesmo tendo sido um sorriso abatido, que nem se comparava com o sorriso largo e audacioso que ele vivia direcionando para garotas nos tempos de Hogwarts, Marlene sabia que não deveria ignorá-lo. Era um bom sinal.

Contudo, James o desmanchou instantaneamente ao olhar mais uma vez para a rua através do vidro. Marlene sentiu-se compelida a seguir seu olhar e viu Lily Evans caminhando na calçada, do outro lado da rua. Ela olhou para os lados, como se se certificasse de que ninguém a observava, conjurou uma capa longa e preta e jogou-a sobre os ombros. Voltou a andar, enquanto cobria a cabeça com o capuz. Em seguida, virou à direita, adentrando num beco estreito, cheio de lixeiras abarrotadas, e finalmente desaparatou.

James sentiu suas entranhas se revirarem de raiva. E Marlene quase se comoveu com o desamparo estampado no rosto de James.

Nenhum dos dois falou sobre o que haviam visto. Apenas terminaram de beber o café. Em silêncio.

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Naquele momento, numa casa antiga na Rua da Fiação, na cidade de Cokeworth, Severus Snape abria o primeiro sorriso sincero em meses.

Notas finais
E aí, o que acharam? :) Será que vocês encontraram as pistas que deixei nas entrelinhas? :D Estou muito curiosa para saber o que estão achando, então me digam, ok? ♥ Beijos, Carol Lair (@carollairr) Ps. Escrevi uma oneshot Jily diferente para o grupo do facebook Madame Pince Ficlibrary, quem quiser dar uma conferida, ela chama-se "Motivos": http://fanfiction.com.br/historia/630450/Motivos/